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As estratégias integradas que combinam tratamentos avançados de sementes, inovação em fertilizantes e práticas de gestão da saúde do solo estão a ganhar peso na resposta aos desafios de produtividade e sustentabilidade no setor mundial agrícola.

A conclusão consta do relatório Transforming Agricultural Productivity Through Integrated Seed, Fertiliser and Soil Health Strategies, da Frost & Sullivan, que analisa a evolução do mercado global de tratamentos de sementes e fertilizantes.

Segundo o relatório, este mercado deverá crescer de 7,98 mil milhões de dólares em 2025 para 11,52 mil milhões de dólares em 2032, num contexto em que os agricultores enfrentam maior pressão para melhorar a produtividade, responder aos impactos climáticos, lidar com a degradação dos solos e produzir com recursos mais limitados.

A Frost & Sullivan aponta que, perante a perda de fertilidade dos solos, padrões meteorológicos mais imprevisíveis e a necessidade de produzir mais alimentos com menos recursos, os métodos tradicionais baseados no aumento da utilização de fatores de produção estão a tornar-se menos eficazes.

Neste contexto, os agricultores estão a adotar estratégias orientadas para reforçar a resiliência do solo, melhorar a eficiência no uso de nutrientes e promover o vigor das culturas desde as fases iniciais de desenvolvimento.

Esta mudança está a impulsionar o investimento em revestimentos avançados de sementes, tratamentos biológicos, fertilizantes de libertação controlada, tecnologias de estabilização de nutrientes e práticas regenerativas de gestão do solo.

“A agricultura enfrenta atualmente enormes desafios”, afirmou Brian Balmer, responsável pela área de Chemicals, Materials & Nutrition da Frost & Sullivan. E continua: “mas existem soluções que podem ajudar a aliviar esses desafios e, ao mesmo tempo, apontar para um futuro mais sustentável para a agricultura”.

O relatório identifica também diferenças regionais nas estratégias de utilização de fatores de produção agrícolas. A América do Norte, a América do Sul e a Europa lideram atualmente a adoção de tecnologias avançadas de agricultura de precisão e gestão de fatores de produção. 

Já os principais mercados agrícolas da Ásia apresentam, segundo a análise, oportunidades de crescimento para soluções centradas na eficiência e na saúde do solo.

Fonte: Vida Rural

O Governo determinou que os viticultores passam a estar obrigados a apresentar uma declaração de colheitas até 31 de outubro de cada ano, cerca de um mês antes do que estava anteriormente estipulado, foi anunciado.

A declaração “deve ser apresentada até 31 de outubro de cada ano”, lê-se numa portaria assinada pelo ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, publicada em Diário da República.

No diploma, o Governo indicou que o prazo de entrega, inicialmente, terminava em 15 de novembro de cada ano, tendo sido, posteriormente, alterado para o dia 30 do mesmo mês por conveniência administrativa.

Contudo, justificou um novo ajustamento com a “atual situação do setor vitivinícola”, de modo a assegurar a conformidade dos registos obrigatórios, prevenir eventuais manipulações e reforçar a competitividade.

Ainda assim, ressalvou, que em casos excecionais poderá haver uma prorrogação.

Os viticultores associados a uma ou mais adegas ou agrupamentos e que lhe tenham entregado a totalidade da sua produção de uvas ou de mosto, “tendo reservado o direito de obter por vinificação uma quantidade inferior a 1.000 litros para consumo do agregado familiar”, ficam isentos de apresentar a declaração, “desde que a adega ou agrupamento em causa esteja obrigado a fazê-lo”.

A declaração deve ser submetida através do Sistema de Informação da Vinha e do Vinho (SIVV).

A portaria em causa entrou em vigor na quarta-feira.

Fonte: Agroportal

A integração de subprodutos pecuários como fertilizantes orgânicos na cultura do tomate para a indústria está a ganhar tração em Portugal e noutros países mediterrânicos, impulsionada pela necessidade de reduzir custos, melhorar a saúde do solo e cumprir metas de sustentabilidade exigidas pela indústria agroalimentar.

Uma solução circular para um setor pressionado

Com o aumento dos custos dos fertilizantes minerais e a crescente pressão para reduzir a pegada ambiental da produção agrícola, produtores e indústrias estão a olhar para efluentes pecuários tratados, compostos orgânicos, farinhas de ossos e digestatos de biogás como alternativas viáveis para nutrir os campos de tomate.

Estes subprodutos, quando devidamente estabilizados e aplicados de forma controlada, permitem:

  • Melhorar a fertilidade do solo — aumento da matéria orgânica, maior retenção de água e melhoria da estrutura;
  • Reduzir a dependência de fertilizantes sintéticos — especialmente azoto e fósforo;
  • Valorizar resíduos agropecuários — transformando um passivo ambiental num recurso produtivo;
  • Contribuir para metas ESG da indústria transformadora — reforçando a rastreabilidade e a circularidade da cadeia.

Resultados promissores em produtividade e qualidade

Ensaios conduzidos por centros de investigação e organizações de produtores mostram que a aplicação de fertilizantes orgânicos de origem pecuária:

  • mantém ou aumenta a produtividade por hectare;
  • melhora parâmetros de qualidade industrial, como teor de sólidos solúveis;
  • reduz perdas associadas à fadiga do solo em zonas de monocultura intensiva.

A indústria do tomate, fortemente dependente de contratos de fornecimento estáveis, vê nesta abordagem uma forma de reforçar a resiliência da produção e mitigar riscos associados a volatilidade de preços dos fertilizantes.

Um passo estratégico para a agricultura circular

A valorização de subprodutos pecuários encaixa diretamente nas prioridades europeias de economia circular, redução de emissões e melhoria da saúde dos solos. Para os produtores, representa uma oportunidade de:

  • reduzir custos operacionais;
  • diversificar fontes de nutrientes;
  • melhorar a imagem ambiental perante a indústria e consumidores.

Para o setor pecuário, abre‑se uma via de integração com a horticultura industrial, criando novos mercados para subprodutos que antes tinham destino limitado.

O que vem a seguir

O próximo desafio passa por normalizar critérios de qualidade, garantir segurança microbiológica e otimizar planos de fertilização que combinem nutrientes orgânicos e minerais de forma eficiente. A indústria do tomate já sinalizou interesse em apoiar projetos-piloto e sistemas de certificação que reforcem a confiança na utilização destes materiais.

Fonte: Qualfood

A inteligência artificial já está a influenciar a forma como os consumidores europeus descobrem, comparam e escolhem produtos, mesmo que a compra totalmente autónoma por agentes de IA ainda esteja numa fase inicial.

A conclusão é da McKinsey, no artigo “Europe’s agentic commerce moment: Decision influence is here; execution is coming”, desenvolvido pela QuantumBlack, a unidade de IA da consultora.

Segundo a análise, o chamado comércio agêntico não deve ser entendido apenas como o momento em que um bot compra automaticamente em nome do consumidor. No curto prazo, o impacto mais relevante está a acontecer antes da transação: na descoberta, na comparação, na recomendação e na formação do conjunto de opções que o consumidor considera.

IA entra no funil antes da compra

A McKinsey estima que, até 2030, o comércio agêntico possa orquestrar entre três e cinco biliões de dólares a nível global, à medida que os agentes de IA ganham influência na descoberta, decisão e transação em várias categorias.

Para marcas e retalhistas, a questão estratégica deixa de ser apenas como converter clientes humanos. Passa também a ser como permanecer visível, compreensível e recomendável quando o primeiro “cliente” no funil é um agente de inteligência artificial.

Quando a avaliação se desloca para interfaces mediadas por IA, fatores tradicionais como posicionamento, publicidade ou experiência de utilizador continuam relevantes, mas deixam de ser suficientes. As ofertas passam a ter de ser recuperáveis, comparáveis e defensáveis na lógica de um sistema de IA.

84% usa IA no dia a dia

O estudo da McKinsey baseia-se num inquérito a consumidores em França, Alemanha e Reino Unido. Segundo os dados, 84% dos consumidores europeus inquiridos diz utilizar ferramentas de IA no seu dia a dia. Os usos mais comuns passam pela pesquisa de temas gerais, referida por 57%, e pela escrita ou melhoria de conteúdos, indicada por 44%.

No contexto de compra, 38% afirma usar ferramentas de IA para pesquisar produtos e serviços ou decidir o que comprar.

A utilização da IA no percurso de compra surge sobretudo nas fases iniciais da jornada. Entre os consumidores europeus que usam IA no processo de compra, 63% recorre a estas ferramentas para comparar marcas, modelos, preços e avaliações. Outros 55% usa IA para aprender sobre uma categoria ou produto, enquanto 46% recorre a estas soluções para descobrir novos produtos ou obter inspiração.

Estes dados mostram que a IA está a ser adotada primeiro como uma camada de apoio à decisão, comprimindo processos de pesquisa e comparação que antes exigiam a consulta de múltiplos sites, plataformas e fontes de informação.

Influência cresce mais depressa do que execução

A McKinsey sublinha que a influência da IA na decisão está a crescer mais rapidamente do que a infraestrutura de execução ou a confiança dos consumidores na autonomia total. Ou seja, quando o consumidor chega ao site de uma marca ou de um retalhista, parte do trabalho de avaliação pode já ter sido feito dentro de uma interface de IA.

Esta mudança obriga as empresas a pensar a visibilidade de produto para além dos seus próprios canais. A descoberta pode começar no ChatGPT, no Gemini, em agentes integrados em retalhistas ou em assistentes de compra de terceiros.

A confiança dos consumidores europeus, por seu turno, varia consoante o papel atribuído à IA. Os consumidores mostram-se mais confortáveis quando a IA ajuda a resumir avaliações, comparar opções, destacar vantagens e desvantagens ou recomendar a melhor escolha. Nestes casos, a tecnologia apoia o julgamento, mas mantém a decisão final nas mãos da pessoa.

A confiança diminui quando a IA se aproxima da execução, como preencher carrinhos, concluir o checkout ou fazer encomendas recorrentes automaticamente. A conclusão da McKinsey é clara: os consumidores não rejeitam o julgamento da IA, mas resistem a uma autoridade sem limites.

Delegação terá de ser reversível e transparente

Para os consumidores europeus, a delegação de decisões a agentes de IA parece depender de três condições: reversibilidade, responsabilização e consentimento explícito. A reversibilidade implica que a ação possa ser desfeita. A responsabilização exige clareza sobre quem responde quando algo corre mal. E o consentimento explícito pressupõe limites bem definidos sobre o que o agente está autorizado a fazer.

Para as empresas, isto significa que a confiança deve ser tratada como uma funcionalidade do produto, e não apenas como um problema de comunicação.

Adoção varia pouco entre categorias

A utilização de IA para informar decisões de compra já é relativamente transversal. Segundo a McKinsey, a adoção concentra-se entre 30% e 36% em várias categorias, sugerindo que a IA está a funcionar como uma camada geral de avaliação e não apenas como ferramenta para compras altamente tecnológicas.

A utilização tende a ser ligeiramente superior em categorias mais intensivas em pesquisa, como vestuário e calçado, saúde e produtos médicos, eletrónica de consumo e viagens, onde os consumidores enfrentam maior complexidade, mais alternativas e maior necessidade de comparação.

Uma categoria destaca-se pela menor adoção: a ótica. Segundo o estudo, apenas 13% dos consumidores recorre à IA nesta categoria. A explicação apontada pela McKinsey está menos relacionada com falta de complexidade informativa e mais com a importância do ajuste físico, da avaliação presencial e da baixa frequência de compra.

Isto sugere que o comércio agêntico não avançará de forma uniforme. O seu desenvolvimento dependerá da categoria, do nível de risco percebido, da necessidade de validação física e do grau de confiança do consumidor.

Fidelidade às marcas será reconfigurada

A McKinsey considera que a mediação por agentes de IA não significa necessariamente o fim da fidelidade às marcas, mas antes a sua reconfiguração. A fidelidade poderá passar a ser expressa através de preferências explícitas dadas aos agentes, como marcas autorizadas, marcas excluídas ou critérios de escolha definidos pelo utilizador.

Ao mesmo tempo, agentes de IA poderão apresentar marcas desconhecidas que correspondam melhor às preferências, valores ou estética do consumidor, alargando os conjuntos de consideração.

Uma das principais implicações para marcas e retalhistas é a necessidade de competir por decisões mediadas por IA, e não apenas pela atenção humana. A McKinsey fala na importância da legibilidade para máquinas. Na prática, isto significa garantir dados de produto ricos, estruturados e consistentes, taxonomias claras, nomes coerentes, argumentos comprováveis e sinais de credibilidade reconhecíveis por sistemas automatizados.

A visibilidade deixa de depender apenas de publicidade, placement ou experiência visual. Passa também a depender da capacidade de uma marca ser compreendida, comparada e justificada por um agente de IA.

Agent engine optimization” ganha relevância

A análise aponta para a emergência de uma lógica próxima do que alguns já designam por agent engine optimization. Tal como o SEO obrigou marcas e retalhistas a otimizar conteúdos para motores de busca, o comércio agêntico poderá obrigar as empresas a otimizar produtos, claims, dados e reputação para agentes de IA.

Neste novo contexto, a prioridade passa por garantir que as ofertas são interpretáveis, recomendáveis e defensáveis dentro de ambientes automatizados de comparação.

A McKinsey identifica três prioridades para empresas que queiram manter relevância no comércio agêntico. A primeira é competir por decisões mediadas por IA, garantindo que produtos e marcas podem ser encontrados e compreendidos por agentes inteligentes.

A segunda é desenhar experiências de IA assentes em confiança, com explicações claras, confirmação humana e possibilidade de reversão.

A terceira é preparar a infraestrutura de execução, nomeadamente pagamentos, identidade, autorização e integração de dados, para um cenário em que a transação assistida por IA ganhará maior relevância.

Comércio conversacional pode escalar antes da autonomia total

A consultora considera ainda que o comércio conversacional poderá ganhar escala antes da delegação totalmente autónoma. À medida que alguns ambientes de IA começam a ligar recomendações a opções de compra integradas, a fronteira entre descoberta, comparação e transação torna-se mais fluida.

Contudo, a autonomia completa deverá crescer de forma seletiva, primeiro em casos mais limitados, reversíveis e de menor risco, antes de avançar para decisões recorrentes ou de maior envolvimento.

O estudo mostra que, de facto, a IA está a alterar a lógica da jornada de compra. O impacto imediato não está na substituição total do consumidor, mas na forma como as preferências são formadas e as opções são filtradas antes da visita ao site, à loja ou à aplicação de uma marca.

Para o retalho e para as marcas de grande consumo, isto cria um novo desafio competitivo: estar presente nos canais onde a decisão começa, mesmo quando esses canais não são humanos, visuais ou controlados pela própria marca.

Fonte: Grande Consumo

Pela primeira vez em quase trinta anos, a União Europeia autorizou um novo ingrediente alimentar à base de fungos. Aprovado ao abrigo do rigoroso regulamento de “Novos Alimentos”, o Fermotein promete reforçar o mercado de proteínas sustentáveis. O caso, que envolveu um processo de avaliação de seis anos, ilustra tanto o elevado padrão de segurança europeu como a oportunidade de otimizar os processos de inovação no bloco.

O que é o Fermotein?

Desenvolvido pela startup neerlandesa The Protein Brewery, o Fermotein é uma micoproteína produzida através da fermentação de biomassa. A inovação reside na utilização de uma espécie específica de fungo filamentoso (o R. pusillus). Embora este fungo já fosse aplicado na produção de enzimas para o fabrico de queijos, esta é a primeira vez que é utilizado como ingrediente principal num alimento.

O resultado é um produto de alto valor nutricional, rico em proteínas completas e fibra alimentar, além de conter diversas vitaminas e minerais. No contexto europeu, o ingrediente foi desenhado para enriquecer o perfil de laticínios vegetais, ser incorporado em farinhas para panificação e servir de base para a nutrição desportiva personalizada.

Além das vantagens nutricionais, o impacto ambiental do novo ingrediente é reduzido. Segundo um estudo realizado pela Universidade de Wageningen, a produção do Fermotein requer entre 5 a 30 vezes menos água e 5 a 20 vezes menos terra por quilo de proteína do que os laticínios convencionais.

Esta aprovação surge num momento em que a União Europeia procura fortalecer a economia do seu setor agroalimentar. Atualmente, a Europa importa 66% dos alimentos de alto teor proteico para animais. Face à instabilidade nas cadeias de abastecimento globais e às alterações climáticas, a diversificação de fonte surge como uma ferramenta estratégica. Projeções da consultora Systemiq indicam que, com o enquadramento adequado, as proteínas alternativas poderão injetar 111 mil milhões de euros por ano na economia da UE até 2040, apoiando mais de 414 mil postos de trabalho.

O desafio do tempo de resposta regulatório

Apesar do marco histórico, a transição para o mercado europeu continua a ser um processo de longo prazo. O percurso do Fermotein demorou seis anos desde a submissão inicial em 2020, um prazo superior ao de outros mercados como os Estados Unidos e Singapura, por exemplo.

O setor da biotecnologia alimentar aponta que, embora o rigor da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) seja uma garantia essencial de segurança para os consumidores, existe uma margem significativa para aumentar a eficiência. Prazos mais previsíveis são vistos como um fator fundamental para atrair investimentos a longo prazo.

Especialista e reguladores concordam que o objetivo é melhorar a agilidade dos processos sem comprometer as exigências científicas. Para esse equilíbrio, tem sido propostas as seguintes medidas de cooperação: guias de orientação atualizados, diálogo científico prévio e espaços de experimentação regulatória.

A chegada do Fermotein valida a capacidade de inovação da UE e demonstra o potencial de regulamento dos “Novos Alimentos”. O próximo passo reside em dotar o sistema das ferramentas necessárias para que as futuras soluções sustentáveis possam ser integradas no mercado ao ritmo exigido pelas metas ambientais e económicas do bloco.

Fonte: TecnoAlimentar

O Governo aprovou a Estratégia «Água Que Une» através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 133/2026, assumindo um compromisso nacional para transformar a forma como o país gere, protege e valoriza os seus recursos hídricos. A nova estratégia surge num momento crítico, marcado por secas prolongadas, pressões agrícolas, conflitos de uso e a necessidade urgente de garantir água para pessoas, ecossistemas e economia.

A iniciativa estabelece uma visão integrada que articula planeamento territorial, conservação ambiental, eficiência no consumo, inovação tecnológica e cooperação intermunicipal, reforçando a ideia de que a água é um bem comum e um fator de coesão nacional.

Principais eixos da Estratégia «Água Que Une»

  • Segurança hídrica — reforço de reservas, diversificação de origens e maior resiliência a secas extremas;
  • Eficiência no uso da água — redução de perdas, modernização de sistemas e incentivos à reutilização;
  • Proteção dos ecossistemas aquáticos — recuperação de linhas de água, melhoria da qualidade e gestão sustentável das bacias hidrográficas;
  • Cooperação territorial — articulação entre municípios, regiões e setores económicos;
  • Inovação e digitalização — monitorização inteligente, modelação de risco e tecnologias de tratamento e reutilização.

Porque esta estratégia é decisiva agora

Portugal enfrenta uma das décadas mais secas desde que há registos, com impactos severos na agricultura, abastecimento urbano e conservação da natureza. A Estratégia «Água Que Une» procura antecipar cenários críticos e evitar respostas reativas, apostando numa governação mais coordenada e numa visão de longo prazo.

O documento reforça ainda a necessidade de educação para o uso responsável, de transparência na gestão e de participação pública, reconhecendo que a água é um recurso estratégico para o futuro do país.

O que esperar nos próximos anos

A implementação da estratégia prevê planos regionais, investimentos em infraestruturas, novos instrumentos de monitorização e metas de eficiência para setores como agricultura, indústria e consumo urbano. O Governo sublinha que o sucesso dependerá da colaboração entre entidades públicas, empresas, comunidades locais e cidadãos.

Fonte: Qualfood

O setor agroalimentar europeu reagiu de forma entusiástica à adoção do Regulamento das Novas Técnicas Genómicas (NTG) pela União Europeia. Em comunicado, uma coligação que junta 30 organizações do setor classificou a medida como um “marco histórico” para a agricultura, inovação e a segurança alimentar no continente.

O novo quadro legal resulta de oito anos de debates complexos entre o Parlamento Europeu, o Conselho da UE e a Comissão Europeia. Segundo os representantes do setor, o documento final garante uma abordagem “equilibrada e baseada na ciência”, oferecendo segurança jurídica e transparência a toda a cadeia de valor.

Resposta à crise climática

O grande objetivo desta legislação é permitir que os agricultores europeus passem a ter acesso a ferramentas de melhoramento de culturas que já são utilizadas noutras partes do mundo. Com a abertura às Novas Técnicas Genómicas, abre-se a porta ao desenvolvimento de variedade de plantas mais resilientes, capazes de responder aos desafios mais urgentes do sector.

Entre os principais benefícios apontados estão a maior resistência das culturas à seca e a temperaturas extremas decorrentes das alterações climáticas, o reforço da proteção natural contra pragas, doenças e ervas daninhas, e a otimização do uso de recursos essenciais como a água e os fertilizantes, promovendo a sustentabilidade a longo prazo.

O foco do setor agora vira-se para o futuro, com as organizações a exigirem uma implementação “rápida e eficaz” das novas regras no terreno.

Fonte: TecnoAlimentar

Produtos alimentares à base de plantas alternativos a equivalentes de origem animal contêm o dobro dos aditivos, segundo um estudo divulgado que analisou mais de 70 itens.

De acordo com o estudo, realizado no Reino Unido por investigadores do Institute for Optimum Nutrition, publicada na revista científica “Food Additives & Contaminants: Part A”, no geral as alternativas à base de plantas continham mais aditivos, mais ingredientes e mais números “E” do que os equivalentes de origem animal.

O estudo analisou 71 produtos comparáveis e revelou que as alternativas vegetarianas continham mais 456 ingredientes do que os congéneres à base de carne.

Os investigadores analisaram os produtos combinando-os com base em vários fatores. O leite de amêndoa foi combinado com leite normal, ‘brownies’ vegan com ‘brownies’ à base de lacticínios, e carne vegetal com carne normal. Outros produtos incluíam também lasanha, pesto, maionese, iogurte e bolos.

Os resultados do estudo, mostraram que o número total de aditivos alimentares nos produtos à base de plantas foi de 199, em comparação com os 100 nos equivalentes de origem animal.

Nos produtos à base de plantas o total de ingredientes foi de 1.566 e nos de base animal 1.110. Nos produtos vegetarianos foram contabilizados 39 números “E” (aditivos alimentares) e 31 nos produtos de origem animal.

As diferenças quanto a ingredientes e aditivos foram maiores nos produtos lácteos, de carne e de peixe.

Joseph Whittaker, um dos autores da investigação, disse que haver mas aditivos nos produtos à base de plantas não significa necessariamente um aumento do risco para a saúde.

“Em primeiro lugar, analisámos apenas uma gama de produtos, pelo que não podemos generalizar para todos os produtos à base de plantas”, adiantou, considerando que não há informação sobre impactos da exposição aos aditivos alimentares, sendo que todos esses aditivos passam pelas regulamentações de segurança alimentar no Reino Unido.

Os autores do trabalho notam que o consumo de alimentos à base de plantas está em ascensão e dizem que no Reino Unido os dados indicam uma tendência decrescente do consumo de carne.

Os investigadores referem que as pessoas também estão preocupadas com a quantidade de aditivos nos alimentos e com os possíveis efeitos na saúde de alimentos ultra processados, e sugerem que investigações futuras procurem verificar se os resultados se replicam noutras linhas de produtos, incluindo diferentes marcas e produtos disponíveis noutros países.

Fonte: Agroportal

Com a chegada das temperaturas mais elevadas, a investigadora Paula Teixeira alerta para os principais erros cometidos pelos consumidores e explica como prevenir intoxicações alimentares durante o Verão.

O calor acelera a multiplicação de bactérias e bolores, tornando os meses de Verão particularmente críticos do ponto de vista da segurança alimentar. Desde a quebra da cadeia de frio durante o transporte das compras até à conservação inadequada de sobras ou à contaminação cruzada na cozinha, pequenos descuidos podem aumentar significativamente o risco de doenças transmitidas por alimentos.

Para Paula Teixeira, docente e investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, muitos destes problemas persistem não por falta de informação, mas devido a hábitos enraizados que continuam a ser repetidos nas casas dos portugueses.

Em entrevista à Green Savers, a especialista desmistifica algumas das crenças mais comuns sobre conservação alimentar, alerta para os riscos acrescidos associados às altas temperaturas e recorda que a prevenção começa com gestos simples. Manter o frigorífico à temperatura correta, evitar deixar alimentos demasiado tempo à temperatura ambiente e reforçar os cuidados de higiene são algumas das medidas que podem fazer a diferença. Afinal, como sublinha, a segurança alimentar depende sobretudo da capacidade de impedir que os microrganismos cheguem aos alimentos, se multipliquem ou sobrevivam ao processo de preparação.

A segurança alimentar é um tema que tende a ganhar destaque durante os meses mais quentes. Que tipos de riscos aumentam com a subida das temperaturas?

O tempo quente é o ambiente ideal para o desenvolvimento de bactérias e bolores. À medida que as temperaturas sobem, estes microrganismos multiplicam‑se muito mais rapidamente. Isto significa que pequenos abusos de temperatura, por exemplo, durante o transporte do supermercado para casa, na mala do carro ou no caso de refeições levadas em lancheiras sem acumuladores térmicos, podem transformar rapidamente alimentos seguros em alimentos potencialmente perigosos.

Além disso, no Verão multiplicam‑se as refeições ao ar livre, as viagens, os piqueniques e as celebrações, muitas vezes em condições que dificultam a manutenção adequada da higiene e da cadeia de frio. É também uma altura em que aumenta o consumo de alimentos particularmente sensíveis do ponto de vista microbiológico, nomeadamente carnes de churrasco, marisco e fruta já cortada. Em situações como campismo, festivais ou festas populares, onde nem sempre é possível garantir boas condições de conservação, a probabilidade de quebra da cadeia de frio e de contaminação cruzada, isto é, a passagem de microrganismos de superfícies, mãos ou alimentos crus para alimentos prontos a consumir, aumenta significativamente. A isto junta‑se muitas vezes o espaço limitado no frigorífico, em que nem sempre são priorizados os alimentos mais sensíveis do ponto de vista microbiológico, por exemplo, quando se privilegia ter bebidas frescas em detrimento de alimentos perecíveis, como fruta já cortada ou sobras de refeições, aumentando assim o risco de consumo de alimentos potencialmente contaminados.

Apesar da informação disponível, continuam a verificar-se muitos casos de doenças de origem alimentar. Quais são os erros mais frequentes que os consumidores portugueses cometem em casa?

Muitos erros não têm a ver com falta de informação ou de conhecimento, mas com hábitos enraizados, muitas vezes associados a ideias como “sempre fiz assim” ou “já a minha mãe fazia desta forma”, e com uma visão “simplista” da segurança dos alimentos. Um alimento só é considerado como tal se for seguro. No entanto, essa segurança não é estática e depende de ser mantida até ao momento do consumo. Na prática, alimentos que chegam ao consumidor em boas condições podem tornar‑se inseguros por práticas inadequadas ao nível doméstico, seja durante a conservação, manipulação ou preparação.

Acresce que nem sempre existe a perceção de que as doenças de origem alimentar podem ser graves. São frequentemente associadas apenas a episódios ligeiros de vómitos ou diarreia, o que contribui para a sua desvalorização. Existe até a ideia de que uma diarreia ocasional não tem consequências relevantes, podendo mesmo ser vista como uma forma de “desintoxicar” o organismo. No entanto, estas infeções podem ser sérias e, em alguns casos, até fatais, sobretudo em grupos mais vulneráveis.

No âmbito do projeto europeu SafeConsume, em que participámos, tivemos oportunidade de acompanhar várias famílias durante as compras e a preparação das refeições. E percebemos que muitos dos erros começam logo aí: por exemplo, quando os alimentos ficam demasiado tempo fora do frio, entre o supermercado e a chegada a casa, ou quando se transportam alimentos crus, como frango, no mesmo saco que alimentos que depois vão ser consumidos sem cozedura, como pão ou saladas.

Foram também observadas muitas práticas que podem resultar em contaminação cruzada, como usar a mesma faca ou a mesma tábua para cortar frango cru e, logo a seguir, preparar legumes para uma salada, sem lavar bem esses utensílios e superfícies.

A lavagem do frango cru é outra prática de risco que ainda se vê com muita frequência. Muitas pessoas fazem-no com a ideia de que estão a tornar o frango mais seguro, mas, na verdade, os salpicos de água podem espalhar microrganismos pela banca, pelos utensílios e até por outros alimentos que estejam por perto.

A higiene das mãos continua a ser outro ponto crítico. Passar as mãos rapidamente por água não chega, sobretudo depois de mexer em carne, peixe ou ovos crus e antes de preparar alimentos que vão ser consumidos sem cozedura, como saladas.

Também observámos outros erros relativamente comuns: não lavar bem os vegetais em água corrente; usar ovos caseiros em pratos pouco cozinhados, como mousse de chocolate ou bacalhau à Brás; não verificar se a carne ficou bem cozinhada; manter alimentos no frigorífico fora do prazo de validade; ou deixar sobras esquecidas durante demasiado tempo.

Outro erro muito frequente é confiar apenas nos sentidos (cheirar, provar ou sentir) para decidir se um alimento ainda está “bom” ou se o frigorifico está à temperatura certa.

O frigorífico é frequentemente apontado como uma das principais fontes de risco. Que práticas incorretas observa com maior frequência no armazenamento dos alimentos?

O frigorífico deveria ser um espaço (mais) seguro, mas nem sempre é assim. É muito comum encontrá-lo demasiado cheio, o que impede a circulação adequada do ar frio.

Também se observa frequentemente a falta de separação entre alimentos crus e cozinhados ou o armazenamento incorreto (por exemplo, peixe e carne crus nas prateleiras superiores – as zonas menos frias) ou os ovos guardados na porta do frigorífico (a zona menos fria e mais sujeita a flutuações de temperatura). E há ainda um detalhe importante, muitos consumidores não sabem a que temperatura está realmente o seu frigorífico.

Uma outra questão prende-se com a limpeza do frigorífico. Num estudo feito aqui no centro de investigação (CBQF) há alguns anos, verificámos que mais de 80% dos frigoríficos domésticos (total 86 frigoríficos) só era limpo uma vez por mês ou com menor frequência … e em alguns destes frigoríficos encontrámos uma bactéria (Listeria monocytogenes) que causa doenças muito graves, em algumas situações fatais. As bactérias que estão no frigorífico com muita facilidade passam para os alimentos.

Existe uma temperatura ideal para o frigorífico? Tem a perceção de que os consumidores estão atentos a este aspeto?

Sim, o frigorífico deve estar a 4 °C.

O problema é que muitas pessoas não sabem e\ou nunca verificam esta temperatura. Confiam no sistema de regulação e no mostrador de temperatura do frigorífico, mas nem sempre corresponde à temperatura real. Outras pessoas confiam nos seus sentidos… se a água está fresquinha, então o frigórico está à temperatura correta. A realidade é que uma a água a 10 °C continua fresquinha… mas a 4 ºC ou a 10 ºC a capacidade de crescimento das bactérias é muito diferente!

No estudo feito aqui no CBQF que já referi, observamos que mais de 70% dos frigoríficos domésticos estava a uma temperatura superior a 6,1 °C – temperatura medida em 86 frigoríficos.

Um termómetro no frigorífico pode fazer toda a diferença (existem muitas opções com custo inferior a 5 euros).

É comum guardar sobras de refeições durante vários dias. Qual é o limite a partir do qual esta prática pode representar um risco para a saúde?

Guardar sobras faz todo o sentido do ponto de vista económico e ambiental, mas deve ser feito com cuidado. Embora não exista um tempo único aplicável a todas as situações, pois depende do tipo de alimento e das condições a que foi exposto antes de ser guardado, regra geral, 2 a 3 dias no frigorífico é o período recomendado. Antes de serem consumidos, os alimentos devem, sempre que possível, ser fervidos ou, pelo menos, reaquecidos a temperaturas elevadas (cerca de 70 °C). Quando os alimentos são reaquecidos no micro-ondas, é importante que sejam mexidos durante o processo, para garantir uma distribuição uniforme do calor.

Alguns alimentos podem ser guardados por mais tempo. Por exemplo, uma sopa que tenha sido preparada e arrefecida rapidamente antes de ser refrigerada pode ser mantida durante um período mais longo, sendo recomendável que seja fervida antes do consumo.

Em todas as situações, é fundamental evitar que os alimentos permaneçam demasiado tempo à temperatura ambiente antes de serem guardados, uma vez que isso favorece o crescimento de microrganismos. A chamada “regra das duas horas” aplica-se: depois de cozinhados, os alimentos não devem permanecer mais de duas horas à temperatura ambiente.

Uma boa prática é identificar as sobras com a data de armazenamento, pois rapidamente se perde a noção do tempo decorrido.

Em caso de dúvida, mais vale não consumir.

A descongelação de alimentos continua a gerar muitas dúvidas. Quais são os métodos mais seguros e os erros que nunca devem ser cometidos?

A descongelação à temperatura ambiente continua a ser um dos erros mais comuns e também com grande risco.

O ideal é descongelar no frigorífico, lentamente, ou recorrer ao micro-ondas se for para consumo imediato. Também se pode usar água fria corrente, desde que o alimento esteja bem embalado, mas o desperdício de água é grande. O importante é evitar zonas de temperatura suficientemente alta para que as bactérias se multipliquem rapidamente. Quando descongelamos à temperatura ambiente, o interior do alimento pode ainda estar congelado mas o exterior já está a temperaturas “perigosas”.

Muitas pessoas acreditam que o cheiro ou o aspeto dos alimentos são suficientes para avaliar se estão seguros para consumo. Até que ponto esta ideia corresponde à realidade?

É uma ideia muito comum, mas não é fiável.

O cheiro, a cor e outras caraterísticas sensoriais podem ser bons indicadores da qualidade e do estado de conservação de alguns alimentos, como frutos, vinho, café ou azeite. No entanto, o cheiro não é fiável para avaliar a segurança dos alimentos.

Muitos microrganismos que podem causar doença, como SalmonellaListeria monocytogenes e Escherichia coli, não provocam alterações nas caraterísticas sensoriais dos alimentos. Assim, um alimento pode parecer e cheirar bem e, ainda assim, representar um risco para a saúde.

Os maus cheiros e outras alterações visíveis são geralmente causados por microrganismos de deterioração, responsáveis pela perda de qualidade dos alimentos, e não pelos microrganismos que habitualmente causam doenças de origem alimentar.

Em caso de dúvida, a regra é nunca provar. Alguns microrganismos podem produzir toxinas capazes de causar doença em doses muito baixas.

A contaminação cruzada continua a ser um problema nas cozinhas domésticas? Que cuidados simples podem fazer a diferença no dia-a-dia?

Sem dúvida. A contaminação cruzada é um problema recorrente nas cozinhas domésticas. Muitas vezes, não resulta de falta de cuidado, mas de pequenas distrações enquanto se cozinha: o telemóvel toca, o bebé chora, é necessário abrir uma gaveta ou um armário… ou usar a mesma tábua ou a mesma faca para alimentos crus e alimentos prontos a comer, sem lavar bem as mãos ou os utensílios e as superfícies.

Como prevenir? Sempre que se passa de um alimento cru para outro alimento, ou de uma tarefa “suja” para uma tarefa “limpa”, é preciso parar e lavar as mãos, os utensílios ou as superfícies antes de continuar.

Salmonella, Listeria monocytogenes e norovírus estão entre os agentes patogénicos mais monitorizados. Qual é atualmente o panorama destes riscos em Portugal?

Em Portugal, o panorama destes riscos segue a tendência europeia: Salmonella continua (e tem mesmo aumentado) a ser um dos principais agentes responsáveis por casos e surtos de infeções alimentares. Listeria monocytogenes, embora muito menos frequente, é talvez a mais preocupante pela gravidade das infeções e impacto nos grupos mais vulneráveis, particularmente idosos. A nível europeu, continua a ser o agente que causa o maior número de hospitalizações e mortes. Pela sua elevada transmissibilidade, norovírus é frequentemente identificado como uma das principais causas de gastroenterite viral.

Que grupos da população são mais vulneráveis às doenças transmitidas por alimentos e exigem cuidados acrescidos?

Existem grupos mais vulneráveis, como idosos, grávidas, crianças e pessoas com o sistema imunitário comprometido por medicação ou doença (pessoas com doenças crónicas, doentes oncológicos em tratamento, transplantados ou indivíduos a tomar medicação imunossupressora). Em comum, apresentam uma menor capacidade de resposta às infeções, o que os torna mais suscetíveis a consequências graves. Nestes casos, uma infeção que poderia ser ligeira pode evoluir de forma mais severa, pelo que as medidas de prevenção assumem uma importância acrescida.

Os alimentos prontos a consumir têm ganho peso nos hábitos alimentares dos portugueses. Este tipo de produtos exige cuidados específicos de conservação?

Sim. Como são consumidos tal como estão, sem qualquer tratamento térmico, é fundamental garantir que não ocorra crescimento de microrganismos até níveis que possam representar um risco. Isso exige condições adequadas de armazenamento, nomeadamente o controlo da temperatura (4 ºC), e uma manipulação em condições de higiene. É também importante respeitar e os prazos de validade, sobretudo após abertura.

No caso dos lacticínios, da carne, do peixe e das refeições preparadas, quais são os principais riscos microbiológicos que preocupam actualmente os especialistas?

Lacticínios: Listeria monocytogenes (em particular em produtos prontos a consumir, como queijos de pasta mole e leite cru).

Carne: Salmonella spp., Campylobacter spp. (sobretudo em carne de aves) e Escherichia coli produtoras de toxina Shiga (STEC).

Peixe e marisco – Listeria monocytogenes (especialmente em peixe fumado), norovírus (sobretudo em moluscos bivalves crus); em produtos embalados sob vácuo ou atmosfera modificada pode ainda existir risco de Clostridium botulinum.

Refeições preparadas – Listeria monocytogenesClostridium perfringens e Bacillus cereus, frequentemente associados a abusos de temperatura e conservação inadequada.

Há alimentos que, pela sua natureza, deveriam merecer maior atenção dos consumidores durante o Verão?

Sim, sobretudo saladas prontas a consumir, frutos cortados, marisco e moluscos bivalves, produtos à base de ovos crus ou insuficientemente cozinhados, carnes e outros alimentos cozinhados, bem como refeições prontas refrigeradas. São alimentos que, pela sua natureza, permitem o crescimento de microrganismos e que, quando não são mantidos à temperatura adequada, situação mais frequente durante o Verão, podem rapidamente atingir níveis perigosos para a saúde, uma vez que esse crescimento é tanto mais rápido quanto mais elevada for a temperatura.

Nos últimos anos, verificou-se uma maior consciencialização dos portugueses para as questões da segurança alimentar ou persistem comportamentos de risco?

Não tenho dúvidas de que os portugueses estão hoje mais sensibilizados para as questões da segurança dos alimentos. Ainda assim, persistem vários comportamentos de risco, sobretudo ao nível doméstico, bem como alguns mitos que importa continuar a esclarecer.

Embora a informação esteja atualmente mais disponível, essa maior disponibilidade nem sempre se traduz em alterações efetivas dos hábitos quotidianos. Continua, por isso, a ser necessário investir numa comunicação mais eficaz. Não basta dizer às pessoas o que devem ou não devem fazer; é preciso explicar o porquê… Por exemplo, dizer a uma grávida que não deve consumir sushi poderá ter algum impacto. Mas explicar que o sushi pode conter uma bactéria que pode causar infeções graves durante a gravidez, com consequências muito graves para o feto ou para o bebé recém-nascido, será provavelmente uma forma bastante mais eficaz de comunicar a uma grávida que não deve comer sushi.

Importa ainda reconhecer que uma parte significativa da informação é disponibilizada através de meios digitais, o que pode dificultar o acesso a alguns grupos da população, nomeadamente pessoas mais idosas ou com menores níveis de literacia. Por isso, é essencial adaptar as estratégias de comunicação aos diferentes públicos, utilizando linguagem clara e canais diversificados.

Neste contexto, a educação em segurança alimentar das crianças e dos jovens assume particular importância. A integração destes temas nos currículos escolares poderia contribuir para a adoção de práticas mais seguras a longo prazo e, simultaneamente, promover a partilha de conhecimentos com as famílias, ajudando a criar uma verdadeira cultura de segurança alimentar em ambiente doméstico.

Que mitos relacionados com a conservação de alimentos gostaria de ver definitivamente esclarecidos? Por exemplo, congelar alimentos elimina bactérias?

Congelar não mata as bactérias, apenas impede o seu crescimento. Quando o alimento descongela e a temperatura aumenta, os microrganismos retomam a atividade e podem multiplicar-se rapidamente. Só o cozimento adequado elimina a maioria dos microrganismos perigosos.

Uma exceção importante: a maioria dos parasitas é destruída pela congelação. Por este motivo, recomenda-se congelar o peixe utilizado em sushi.

Reaquecer uma refeição torna-a automaticamente segura?

Não. Reaquecer uma refeição a temperaturas elevadas (mais 70 °C) pode destruir muitos microrganismos, mas a segurança do alimento não pode ser dada como garantida. Por exemplo, se o arroz for mantido durante longos períodos à temperatura ambiente, pode ocorrer o crescimento de bactérias que produzem toxinas (Bacillus cereus). Quando o arroz é reaquecido, as bactérias podem ser destruídas, mas as toxinas são termorresistentes e permanecem ativas. Ou seja, a segurança depende não só da temperatura de reaquecimento, mas também da forma como os alimentos foram armazenados e manuseados previamente.

Que outras ideias feitas continuam a circular sem fundamento científico?

No âmbito do projeto SafeConsume fizemos uma “recolha de mitos”. Os resultados foram surpreendentes! Partilho os referidos com maior frequência, excluindo aqueles que não estão diretamente relacionados com questões sobre a segurança dos alimentos:

- Os vegetarianos não sofrem toxinfeções alimentares;

- O frango deve ser lavado antes da preparação;

- Estar demasiado limpo é a causa das alergias;

- Os alimentos quentes estragam-se e são menos seguros para comer se forem guardados quentes;

- Limpar a cozinha com demasiada frequência cria um ambiente estéril que é mau para a formação de um bom sistema imunitário;

- Algumas gotas de vinagre ou de sumo de limão desinfetam as saladas;

- Os ovos guardados no frigorífico são menos seguros do que os ovos guardados à temperatura ambiente;

- Os ovos que não flutuam em água são seguros;

- As bactérias não sobrevivem em tábuas de madeira;

- O sal mata tudo o que é perigoso;

- Não há problema em comer um pedaço de pão que tenha caído no chão, desde que lhe dês um beijo depois de o apanhares;

- Qualquer alimento que tenha caído no chão, e não tenha ficado lá mais de 5 s, pode ser comido;

- Se a comida cheira e sabe bem, é segura para comer.

As aplicações de entrega ao domicílio e o aumento do consumo de refeições fora de casa introduzem novos desafios em matéria de segurança alimentar?

No caso das aplicações de entrega ao domicílio os maiores desafios são ao nível do tempo de transporte e do controlo da temperatura. Quanto mais longo for o percurso entre a confeção e o consumo, maior o risco, especialmente no Verão. Com uma temperatura ambiente de, por exemplo, 30 ºC, qual será a temperatura a que são expostos os alimentos desde o ponto de recolha até ao local de entrega?

Fora de casa, quando alguma coisa corre mal (abusos de temperatura, contaminações cruzadas, higiene dos manipuladores, …), e pode correr porque o risco zero não existe, vai afetar um maior número de pessoas.

Que recomendações considera essenciais para reduzir o risco de intoxicações alimentares durante os meses de Verão?

Se o principal problema é o aumento da temperatura, a solução passa por evitar que os alimentos sejam expostos a condições de risco. A regra é simples: “das compras ao prato”, manter os alimentos frios quando devem estar frios e quentes quando devem estar quentes, minimizando o tempo à temperatura ambiente. Em termos práticos, os alimentos refrigerados devem ser mantidos a cerca de 4 °C e os alimentos quentes acima dos 60 °C. Isto é particularmente importante quando se leva comida para a praia, para piqueniques ou em viagem; os alimentos perecíveis devem ser transportados em lancheiras ou sacos térmicos com acumuladores de frio, mantidos à sombra e consumidos o mais cedo possível.

Nos churrascos, é essencial garantir que as carnes ficam bem cozinhadas, sobretudo hambúrgueres, salsichas e espetadas, e evitar a contaminação cruzada, usando utensílios, pratos e tábuas diferentes para alimentos crus e alimentos já cozinhados. Deve também reforçar-se a higiene das mãos, superfícies e utensílios.

Cuidado com alimentos como marisco, saladas, molhos, sobremesas com creme ou fruta já cortada, sobretudo quando vendidos na praia, em feiras ou em mercados informais. Em viagem, dependendo do destino, convém ter cuidado com alimentos crus, água para beber e gelo nas bebidas.

Se tivesse de destacar três regras básicas de segurança alimentar que todos os portugueses deveriam adotar em casa, quais seriam?

Evitar que os microrganismos cheguem aos alimentos, através de boas práticas de higiene, como a lavagem das mãos e a prevenção da contaminação cruzada entre alimentos crus e prontos a consumir.

Como não é possível garantir a ausência total de microrganismos nos alimentos, a segunda regra é impedir que se multipliquem, assegurando uma conservação adequada, em particular através da refrigeração dos alimentos mais perecíveis.

Por fim, importa destruir os microrganismos que possam estar presentes, uma vez que alguns agentes patogénicos podem causar doença mesmo em baixos níveis. Para isso, é cozinhar adequadamente os alimentos que necessitam de confeção. No fundo, estas três regras alinham-se com três das cinco chaves da OMS para a segurança dos alimentos: manter a limpeza, manter os alimentos a temperaturas seguras e cozinhar bem os alimentos.

Fonte: GreenSavers

A notificação RASFF 2026.5425 reporta a presença de Salmonella spp. em hambúrgueres de frango panados ultracongelados, com origem tanto em Espanha como em Portugal, elevando o nível de atenção das autoridades de segurança alimentar.

O que foi detetado

Os controlos oficiais identificaram contaminação por Salmonella spp., um agente patogénico responsável por infeções gastrointestinais que podem causar febre, vómitos, diarreia e dores abdominais. O risco é particularmente relevante em produtos de aves, que exigem cozedura completa para eliminação do microrganismo.

Origem e distribuição

A notificação indica dupla origem:

  • Espanha — país onde foram detetadas inicialmente as inconformidades;

  • Portugal — identificado como co‑originador do produto ou como parte da cadeia de produção/distribuição.

Esta ligação entre ambos os países sugere cadeias de fornecimento partilhadas, comuns no setor de produtos ultracongelados de aves.

Produto envolvido

O alerta refere-se a:

  • Hambúrgueres de frango panados ultracongelados;

  • Destinados ao consumidor final;

  • Com distribuição no mercado ibérico.

Os detalhes de lote, marca e validade não foram ainda divulgados publicamente, mas o padrão segue notificações anteriores envolvendo produtos de frango processado.

Medidas recomendadas

  • Evitar o consumo de hambúrgueres de frango panados adquiridos recentemente, sobretudo se de origem espanhola ou portuguesa;

  • Verificar a rotulagem e a origem do produto no congelador doméstico;

  • Devolver ao ponto de venda caso exista correspondência com a descrição do alerta;

  • Procurar apoio médico se surgirem sintomas após consumo.

Importância do alerta

O caso reforça a relevância do RASFF como mecanismo de resposta rápida, permitindo que Estados‑Membros atuem de forma coordenada para prevenir riscos alimentares. A identificação de Portugal como país de origem adicional aumenta a necessidade de rastreabilidade rigorosa e verificação de fornecedores.

Fonte: Qualfood