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O sistema Valorfito recolheu 737,034 toneladas de resíduos de embalagens agrícolas em 2025, um aumento de 26,9% face ao ano anterior, no primeiro ano de implementação da nova licença que alargou o âmbito de atuação do sistema.

De acordo com o comunicado de imprensa, no mesmo período, foram declaradas 3.236,273 toneladas de embalagens, refletindo a integração de novos fluxos de resíduos. A taxa global de retoma fixou-se nos 22,8%, abaixo do valor registado em 2024, num contexto marcado por alterações estruturais no funcionamento do sistema.

 Desde o início de 2025, o Valorfito passou a abranger novas tipologias de embalagens, incluindo embalagens secundárias de fluxos já existentes, bem como embalagens primárias e secundárias de fertilizantes, rações e batata de semente. Este alargamento traduziu-se num aumento do universo de resíduos abrangidos e numa fase de adaptação por parte dos diferentes intervenientes.

“2025 foi um ano de transformação para o Valorfito. O alargamento do sistema a novos fluxos representa um passo decisivo para uma gestão mais abrangente e responsável dos resíduos gerados na atividade agrícola. Como é natural num primeiro ano de implementação, todo o setor está ainda numa fase de adaptação — desde os agricultores aos Pontos de Retoma — mas os resultados já demonstram o espaço de crescimento do sistema”, afirmou António Lopes Dias, director-geral do Valorfito.

 Segundo o responsável, a prioridade passa agora por consolidar o novo modelo e reforçar a proximidade com os profissionais no terreno, com vista ao aumento progressivo das taxas de retoma.

O sistema encontra-se numa fase de arranque e consolidação, com agricultores, distribuidores e Pontos de Retoma a ajustarem-se às novas tipologias de resíduos e procedimentos de recolha. Neste contexto, o Valorfito tem vindo a reforçar a rede operacional, a sensibilizar os utilizadores e a divulgar as novas regras, com o objetivo de melhorar o encaminhamento dos resíduos.

 A entidade gestora antecipa que, com a consolidação do sistema e a familiarização do setor com os novos fluxos, será possível aumentar as quantidades recolhidas e melhorar as taxas de retoma nos próximos anos.

Fonte: Vida Rural

Homenagear o património olivícola e sensibilizar para a adoção de boas práticas que contribuam para a sua preservação e para o desenvolvimento do olivoturismo são os principais objetivos do livro ‘Monumentos Vivos, Óleo Sagrado: Um Património Biocultural do Mediterrâneo e da Humanidade’, coordenado por investigadores do CiTUR – Leiria (Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo), sediado na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESTM), em Peniche, do Instituto Politécnico de Leiria (IPL).

A obra foi recentemente lançada e encontra-se já disponível para todos os interessados em conhecer as origens da oliveira, o processo de produção do azeite e os seus benefícios para a saúde humana, bem como o papel do olivoturismo no desenvolvimento dos territórios. O livro conta ainda com uma versão digital de acesso gratuito.

“A oliveira é a árvore simbólica do Mediterrâneo e, há mais de 40 séculos, molda as suas paisagens e culturas. Atualmente, continua a ser uma das culturas mais difundidas na região, com quase 10 milhões de hectares cultivados, cerca de quatro vezes mais do que a área dedicada à vinha”, refere Francisco Dias, um dos coordenadores da publicação.

Segundo o investigador, “em torno da olivicultura desenvolve-se um vasto conjunto de saberes e práticas que integram o património olivícola, abrangendo dimensões tão diversas como o trabalho agrícola, os rituais e a gastronomia”. O docente acrescenta ainda que “nenhuma outra espécie arbórea é tão rica em significados culturais e capaz de despertar tanto entusiasmo”, defendendo que a oliveira constitui um património “natural e cultural, material e imaterial”.

Estruturado em cinco partes, o livro aborda, numa primeira secção, ‘A oliveira e o azeite na antiguidade’, explorando a mitologia associada à árvore e os usos ancestrais do azeite, numa viagem histórica que inclui o período do Império Romano. Segue-se ‘A oliveira: a árvore da vida’, dedicada ao cultivo, à longevidade da espécie, à salvaguarda do olival tradicional e à crescente procura por oliveiras ornamentais.

A terceira parte centra-se na produção de azeite, analisando aspetos essenciais da sua produção e comercialização em Portugal, enquanto a quarta aborda o consumo deste produto, com enfoque na gastronomia, na saúde, na cosmética e nos rituais coletivos.

A quinta e última secção, dedicada ao olivoturismo, reúne estudos recentes sobre atividades, experiências e motivações associadas a este segmento, incluindo os eventos do Dia Mundial da Oliveira em Portugal e uma análise aos principais desafios à sua consolidação no país.

“Considerando a diversidade de práticas culturais e a sua origem multimilenar, a integração do património olivícola na cadeia de valor do turismo representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade para as comunidades locais”, sublinha Francisco Dias, estabelecendo um paralelismo entre olivoturismo e enoturismo, áreas que partilham bases comuns como a natureza, o saber-fazer, a gastronomia e a saúde.

A obra resulta de conteúdos desenvolvidos no projeto europeu Olive4All (2021-2025) e foi estruturada e publicada com o apoio do projeto Ferramentas de Apoio à Sustentabilidade do Turismo (FAST), liderado por investigadores do polo do CiTUR do Politécnico de Leiria.

O livro reúne um coletivo de autores coordenado pelos docentes da ESTM Francisco Dias e Fernanda Oliveira, integrando investigadores de várias instituições de ensino superior portuguesas, incluindo os politécnicos de Leiria, Porto, Bragança, Tomar e Beja, e as universidades de Coimbra e da Madeira.

Aceda à versão digital gratuita AQUI.

Fonte: iAlimentar

O reforço do compromisso dos Estados-Membros na cooperação internacional para a implementação de estratégias e partilha de boas práticas eficazes para proteger as crianças da exposição ao marketing alimentar, estiveram em destaque na 19.ª reunião anual da WHO European Action Network on Reducing Marketing Pressure on Children, realizada em Oslo, Noruega, em março, com a participação da DGS

Coordenada por Portugal desde 2016, esta rede de Ação Conjunta da Organização Mundial da Saúde (OMS) Europa, contou, nesta reunião, com a participação presencial de representantes de 15 Estados-Membros da Região Europeia da OMS — Bélgica, Croácia, Dinamarca, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, Islândia, Irlanda, Lituânia, Noruega, Países Baixos, Polónia, Portugal e Reino Unido — para além de participantes remotos de outros países.

Durante o encontro, informou a DGS em comunicado, foram abordados os determinantes comerciais da saúde e os principais desafios associados à regulação do marketing alimentar dirigido a crianças e jovens, em particular no ambiente digital.

Foi igualmente debatida a necessidade de implementar metodologias eficazes para monitorizar esta exposição, tendo sido feito um balanço das medidas em curso nos países da rede.

A reunião anual desta network da OMS Europa foi organizada em colaboração com a EU Joint Action PreventNCD, iniciativa em que o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) representa Portugal.

Fonte: TecnoAlimentar

Investigadores da Ruhr University Bochum, na Alemanha, descobriram que a bactéria Rhodococcus opacus 1CP possui múltiplos caminhos metabólicos que lhe permitem decompor compostos aromáticos tóxicos, oferecendo novas soluções para a biotecnologia ambiental.

Muitos compostos aromáticos, como fenóis, cresóis e estirenos, são prejudiciais para os organismos e para o ambiente, acumulando-se frequentemente devido a processos industriais. A equipa liderada pelo Professor Dirk Tischler, do Microbial Biotechnology Research Group, analisou o genoma da bactéria e identificou diversas vias metabólicas potenciais, que permitem à Rhodococcus opacus 1CP atuar como um verdadeiro “especialista em limpeza” sob diferentes condições ambientais. Os resultados foram publicados no dia 27 de março de 2026 na revista Applied and Environmental Microbiology.

Segundo Dirk Tischler, a bactéria se distingue por um genoma particularmente grande, que codifica numerosas enzimas, muitas das quais redundantes. Estas enzimas transformam os substratos de forma sequencial, formando vias metabólicas que permitem, por exemplo, converter estireno em CO₂. “Neste processo, a bactéria obtém energia e ao mesmo tempo limpa o ambiente: um elemento central da biotecnologia ambiental”, explica o investigador.

A redundância enzimática revela-se uma vantagem: diferentes enzimas da mesma classe podem ser produzidas conforme as condições ambientais, como a concentração de oxigénio, temperatura ou disponibilidade de nutrientes. Esta capacidade de adaptação rápida é crucial, sobretudo num contexto de alterações climáticas.

Os investigadores descobriram ainda que a desativação de uma enzima pode ativar novas vias metabólicas. Por exemplo, na degradação de fenóis e cresóis, três enzimas normalmente ativam estes compostos e formam catecóis; se forem bloqueadas, outras enzimas assumem a função, permitindo a decomposição por rotas alternativas. “Ainda há muito por descobrir”, conclui Dirk Tischler, sublinhando o potencial destas bactérias para apoiar os ecossistemas na remoção de poluentes de forma natural.

Leia o Comunicado, em inglês, no site da Ruhr University Bochum.

Fonte: Centro de informação de biotecnologia

O projeto CERTRA, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), tem vindo a afirmar-se como uma iniciativa relevante na valorização dos cereais tradicionais em Portugal, promovendo a inovação, o conhecimento científico e a ligação entre produtores e consumidores.

No âmbito da Linha de Ação 1.1 – Consumo, o projeto envolveu mais de 25 entidades ao longo da cadeia de valor, desde produtores a transformadores e instituições de investigação. Este esforço conjunto resultou no desenvolvimento de mais de 12 novos produtos alimentares, como pão, cerveja, broas, biscoitos e cuscos, evidenciando o potencial destes cereais no contexto da Dieta Mediterrânica. A criação da marca CERTRA contribuiu ainda para reforçar a identidade e a visibilidade destes produtos no mercado.

Paralelamente, na Linha de Ação 1.2 – Produtos, foi aprofundado o conhecimento científico sobre cereais tradicionais portugueses. Foram estudadas mais de 64 populações de trigo, centeio e milho, com recurso a análises genéticas, agronómicas e tecnológicas. Estes estudos incluíram também a comparação com mais de 60 farinhas comerciais, permitindo validar a autenticidade e o valor diferenciador dos produtos tradicionais.

A valorização cultural e alimentar destes cereais foi igualmente abordada na Linha de Ação 1.3 – Dieta Mediterrânica. O projeto promoveu experiências gastronómicas com farinhas integrais tradicionais e encontra-se a desenvolver um livro de receitas que reúne saberes e práticas associadas a estes produtos. Está também em curso a compilação de técnicas culturais, contribuindo para a preservação do património agrícola e alimentar nacional.

Na vertente de comunicação e sensibilização (Linha de Ação 1.4), foram realizadas diversas ações de formação, visitas técnicas e campanhas de divulgação dirigidas a diferentes públicos, incluindo produtores, técnicos, estudantes e consumidores. Destaca-se ainda a cooperação internacional, com iniciativas de intercâmbio de conhecimento, reforçando redes científicas e técnicas.

Globalmente, o projeto CERTRA demonstra como a articulação entre ciência, inovação e tradição pode contribuir para a valorização dos recursos endógenos, promovendo sistemas alimentares mais sustentáveis e reforçando a ligação entre agricultura, cultura e território.

Fonte: Rede Rural Nacional

O Governo aprovou o plano “Polinizadores em Ação”, um instrumento estratégico para a conservação dos polinizadores em Portugal, com financiamento de 2 milhões de euros previsto para 2026 e 2027.

De acordo com o comunicado de imprensa, em Portugal, estão identificadas 746 espécies de abelhas, 148 de borboletas diurnas, mais de 2.600 de borboletas noturnas e 221 espécies de sirfídeos, entre outros grupos.

 A comunicação sublinha que, apesar desta diversidade, estas populações enfrentam um declínio, associado a fatores como alterações no uso do solo, perda e fragmentação de habitats, intensificação de atividades socioeconómicas, alterações climáticas, espécies invasoras e poluição.

O plano está estruturado em quatro eixos: reforço do conhecimento científico e monitorização, promoção de práticas sustentáveis de gestão do território, mobilização da sociedade através da educação e comunicação e integração da conservação dos polinizadores nas políticas públicas.

 Desenvolvido no âmbito do projeto PolinizAÇÃO, em articulação com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), o plano envolveu especialistas, entidades públicas e privadas, membros da rede polli.NET e cidadãos, num processo participativo que incluiu consulta pública.

Para apoiar a implementação das medidas, o Fundo Ambiental vai disponibilizar 2 milhões de euros, destinados a ações como monitorização das populações, restauro de habitats, capacitação científica e promoção de boas práticas.

 O plano contribui ainda para o Plano Nacional de Restauro da Natureza e está alinhado com o Regulamento Europeu do Restauro da Natureza, que estabelece como meta reverter o declínio dos polinizadores até 2030.

Segundo a Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, “os polinizadores são essenciais para a biodiversidade e para o equilíbrio dos nossos ecossistemas. Com este plano, reforçamos o conhecimento científico, mobilizamos a sociedade e criamos condições para proteger estas espécies e garantir paisagens mais resilientes para o futuro”.

Fonte: Vida Rural

A incorporação de ingredientes “upcycled” – matérias-primas reaproveitadas a partir de subprodutos alimentares e agrícolas – está a redefinir o sector da cosmética, à medida que cresce a procura por soluções sustentáveis e alinhadas com os princípios da economia circular. A conclusão é de um estudo recente da GlobalData, que aponta para uma mudança estrutural na forma como produtos de beleza são desenvolvidos e comunicados.

De acordo com um inquérito global realizado no último trimestre de 2025, 47% dos consumidores afirmam que critérios éticos, ambientais ou sociais influenciam frequentemente as suas decisões de compra de produtos de beleza. Esta tendência está a pressionar as marcas a apresentarem provas mais concretas sobre a origem dos ingredientes e o impacto ambiental das suas formulações.

Neste contexto, ingredientes “upcycled” – como óleos, ativos, esfoliantes e pós funcionais – ganham protagonismo. Estes materiais, recuperados de resíduos como cascas de fruta, sementes, borras de café ou subprodutos de cereais, estão a ser transformados em componentes de valor acrescentado para produtos de skincare, haircare e maquilhagem.

Os consumidores estão cada vez mais céticos em relação a alegações genéricas de sustentabilidade e procuram evidência clara sobre origem e impacto”, explica Greeshma Kasturi Katamaneni. “Os ingredientes upcycled destacam-se porque permitem narrativas mais rastreáveis e mensuráveis, desde que sustentadas por verificação robusta e desempenho consistente”, acrescenta.

Valorização dos subprodutos

Historicamente descartados ou utilizados em aplicações de baixo valor, muitos subprodutos da indústria alimentar – como sementes, polpas ou cascas – contêm compostos relevantes para a cosmética, incluindo ácidos gordos, vitaminas e antioxidantes. A sua valorização permite não só reduzir desperdício, mas também aumentar a eficiência das cadeias de produção.

A indústria já começa a traduzir esta tendência em produtos concretos. Borras de café são usadas como agentes esfoliantes, sementes de frutas como melancia ou framboesa são transformadas em óleos nutritivos, enquanto cascas de uva ou citrinos dão origem a extratos antioxidantes. Também subprodutos de aveia ou arroz têm vindo a ser incorporados em fórmulas para peles sensíveis.

Apesar do potencial, a escalabilidade continua a ser um desafio. A conversão destes resíduos em ingredientes com qualidade cosmética exige cadeias de abastecimento eficientes e uma forte articulação entre fornecedores e laboratórios. Variáveis como colheita, processamento e armazenamento podem influenciar características como cor, odor ou concentração de ativos, tornando essenciais os processos de controlo de qualidade e padronização.

Para as marcas, a aposta em ingredientes “upcycled” representa não apenas um contributo para a sustentabilidade, mas também uma oportunidade de diferenciação num mercado cada vez mais competitivo. A capacidade de demonstrar impacto real, com métricas claras e comunicação transparente, será determinante para transformar esta tendência numa vantagem duradoura.

Fonte: Grande Consumo

A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) realizou, nas últimas semanas, a nível nacional, uma operação de prevenção e repressão criminal, inserida na “Operação Páscoa”, no âmbito do combate aos ilícitos criminais contra a saúde pública, com especial enfoque no abate clandestino e comercialização de géneros alimentícios anormais ou avariados.

As ações incidiram sobre estabelecimentos de comércio de carnes, restauração e outros locais ilegais onde se verificava a prática de abate clandestino, tendo as ações sido precedidas de diligências de vigilância, seguimento e investigação.

Como resultado, foram instaurados 10 processos-crime pela prática de ilícitos contra a saúde pública, nomeadamente por abate clandestino, e 1 processo-crime por posse de arma de fogo sem licença. Foram apreendidas 2.200kg de carcaças de animais, maioritariamente ovinos e caprinos, destacando-se ainda 2 carcaças de equídeos.

No âmbito das diligências, foram ainda desmantelados 2 matadouros clandestinos, com ligações a estabelecimentos de restauração e comércio de carnes.

A ASAE alerta que a compra e o consumo de produtos cárneos provenientes de circuitos não controlados representam um sério risco para a saúde pública, uma vez que os produtos não são submetidos às necessárias inspeções sanitárias e avaliação por médicos veterinários, não existindo quaisquer garantias quanto à sua segurança ou à ausência de doenças zoonóticas transmissíveis ao ser humano.

Acresce ainda que os locais de abate e transformação clandestinos funcionam, regra geral, sem condições adequadas de higiene, segurança alimentar e controlo sanitário, aumentando significativamente o risco de contaminação e efeitos graves para a saúde dos consumidores.

Fonte: ASAE

A interrupção do corredor comercial do Estreito de Ormuz está a gerar impactos significativos nos mercados globais de energia, fertilizantes e sistemas agroalimentares, alertou o economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Máximo Torero, durante um briefing nas Nações Unidas.

Segundo o responsável, a escalada do conflito no Médio Oriente provocou uma redução superior a 90% no tráfego de navios petroleiros nesta rota estratégica, por onde transitam diariamente cerca de 20 milhões de barris de petróleo, representando aproximadamente 35% dos fluxos globais de crude, além de uma parte relevante do comércio mundial de gás natural liquefeito e fertilizantes.

Máximo Torero sublinhou que “não se trata apenas de um choque energético, mas de um choque sistémico que afeta os sistemas agroalimentares a nível global”. A região do Golfo é responsável por cerca de metade do comércio mundial de enxofre, essencial na produção de fertilizantes fosfatados, o que poderá comprometer cadeias de abastecimento críticas.

A crise está também a pressionar os custos logísticos e de seguros marítimos. Os prémios de risco de guerra aumentaram de 0,25% para valores até 10% do valor das embarcações, com revisões semanais das coberturas, dificultando a normalização do transporte internacional mesmo em cenários de desescalada.

No setor agrícola, os efeitos já se refletem no aumento dos custos de produção. Os preços dos fertilizantes registaram subidas significativas, com destaque para a ureia granular do Médio Oriente (+19%) e do Egito (+28%) na primeira semana de março. A FAO estima que os preços globais dos fertilizantes possam aumentar entre 15% e 20% no primeiro semestre de 2026, caso a crise persista.

Este cenário coloca os agricultores perante um duplo aumento de custos — fertilizantes e energia — com impacto direto nas decisões de produção. A redução da aplicação de fertilizantes ou a mudança para culturas menos intensivas poderá traduzir-se em quebras de produtividade, dada a resposta não linear das culturas a estes insumos.

A duração da disrupção será determinante para a evolução dos mercados. Um cenário de curto prazo, até um mês, poderá ser absorvido pelos stocks globais existentes, com estabilização em cerca de três meses. No entanto, uma interrupção prolongada, superior a três meses, poderá afetar decisões de sementeira para 2026, reduzir a produção de culturas como trigo, arroz e milho e intensificar a competição com a produção de biocombustíveis.

Os impactos variam por região, sendo mais vulneráveis países com elevada dependência de importações e calendários agrícolas críticos, como Sri Lanka, Bangladesh, Índia, Egito e Sudão. Na África Subsaariana, destacam-se Somália, Quénia, Tanzânia e Moçambique. Exportadores agrícolas relevantes, como o Brasil, poderão também enfrentar efeitos indiretos com repercussões nos mercados globais.

Entre os riscos adicionais, a FAO destaca a possível redução das remessas provenientes dos países do Golfo e a adoção de restrições às exportações, que poderão agravar a volatilidade dos preços

Perante este contexto, a organização defende medidas urgentes, incluindo a criação de corredores comerciais alternativos, apoio financeiro a países dependentes de importações e acesso facilitado a crédito para agricultores. A médio e longo prazo, recomenda a diversificação das fontes de fertilizantes, o reforço de reservas estratégicas e o investimento em soluções sustentáveis, como fertilizantes alternativos e agricultura mais eficiente em ingredientes.

Fonte: iAlimentar

Viver em zonas com forte exposição a pesticidas agrícolas está associado a maior risco de cancro, conclui novo estudo.

Pesticidas, amplamente presentes nos alimentos, na água e no ambiente, podem estar associados a um aumento do risco de cancro, sobretudo entre as populações socialmente mais vulneráveis, indica uma nova investigação.

O estudo, publicado na revista Nature Health (fonte em inglês), identificou uma forte associação entre a exposição a pesticidas agrícolas e o risco de desenvolver cancro, através da análise de dados ambientais, registos oncológicos e amostras biológicas no Peru.

“É a primeira vez que conseguimos relacionar, à escala nacional, a exposição a pesticidas com alterações biológicas que sugerem um aumento do risco de cancro”, explicou Stéphane Bertani, investigador em biologia molecular no Instituto Francês de Investigação para o Desenvolvimento (IRD).

Os autores salientaram que a carcinogenicidade real dos pesticidas continua a ser pouco compreendida, o que dificulta avaliações rigorosas do risco e atrasa intervenções eficazes de saúde pública.

Para colmatar esta lacuna, os investigadores identificaram zonas no Peru onde as pessoas têm maior probabilidade de estar expostas a pesticidas e de serem afetadas por determinados cancros, concluindo que o risco de desenvolver cancro nestas áreas era 150% superior.

O estudo resultou de uma colaboração entre o Instituto Francês de Investigação para o Desenvolvimento no Peru, o Instituto Pasteur, a Universidade de Toulouse e o Instituto Nacional de Doenças Neoplásicas do Peru.

A equipa modelou, ao longo de seis anos, entre 2014 e 2019, a dispersão dos pesticidas no ambiente, criando um mapa de alta resolução das zonas com maior risco de exposição, explicou Jorge Honles, epidemiologista na Universidade de Toulouse.

As zonas de risco moderado e elevado cobriam mais de um terço do território nacional, com contaminação fora das áreas de cultivo a estender-se entre 30 e 50 quilómetros, impulsionada pelo transporte a longa distância.

Os investigadores aplicaram o modelo a todo o país, incluindo os produtos químicos utilizados na agricultura – nenhum deles classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como carcinogénico humano conhecido – em combinação com modelos que seguem a sua dispersão no ambiente.

Cruzando o mapa de pesticidas com os registos oncológicos, o estudo recorreu a dados de mais de 150 000 doentes diagnosticados entre 2007 e 2020.

Os maiores riscos de exposição ambiental a pesticidas concentraram-se no altiplano e nas encostas andinas, sobretudo em zonas onde a escassa precipitação pode agravar a acumulação destes produtos.

As análises moleculares mostraram que os pesticidas perturbam processos que ajudam a manter o funcionamento e a identidade das células. Estas alterações podem surgir antes do desenvolvimento do cancro, sugerindo efeitos precoces, cumulativos e silenciosos que podem tornar os tecidos mais vulneráveis a outros fatores de risco, como infeções, inflamação ou stressores ambientais, assinala o estudo.

Pesticidas estão ligados a todos os tipos de cancro?

O estudo mostra que determinados tumores, embora atinjam órgãos diferentes, partilham vulnerabilidades biológicas comuns ligadas à sua origem celular, que a exposição a pesticidas pode fragilizar.

As zonas de maior risco estavam associadas a cancros epiteliais de origem endodérmica e ectodérmica, o tipo mais frequente em adultos, que afeta sobretudo o trato gastrointestinal, os pulmões e a pele.

No Peru, o carcinoma hepatocelular (CHC), a forma mais prevalente de cancro do fígado, atinge de forma desproporcionada pessoas jovens, sem cirrose e com ascendência indígena, em especial em regiões centrais como Junín, referem os investigadores.

O fígado é um órgão-chave no metabolismo de substâncias químicas e é considerado um órgão sentinela da exposição ambiental, lembram os autores.

Embora este padrão tenha sido anteriormente associado a infeção oculta pelo vírus da hepatite B, o estudo constatou que os agrupamentos de cancro do fígado coincidiam com áreas de elevada exposição a pesticidas e que o tecido hepático não tumoral apresentava uma assinatura molecular compatível com exposição precoce a carcinogénicos.

Os pesticidas estão amplamente disseminados nos alimentos, na água e nos ecossistemas, o que torna o mapeamento da exposição ambiental particularmente difícil, escreveram os autores.

Em regiões onde a agricultura intensiva, a gestão insustentável do solo e o acesso limitado a cuidados de saúde convergem, a dispersão de pesticidas pode reduzir a resiliência ecológica e aprofundar desigualdades de saúde persistentes.

Os investigadores afirmam que estas conclusões evidenciam a necessidade de integrar a equidade socioecológica nas políticas de regulação, “um passo essencial para reduzir os danos ecológicos e proteger as populações vulneráveis dos cancros de origem ambiental”.

Fonte: EuroNews