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Em tempos de perda de biodiversidade, considerada uma das maiores crises planetárias da contemporaneidade, desvendar os mistérios oceânicos é fundamental, pois, como já se sabe, não se pode proteger o que não se conhece.

Desses esforços fazem parte o estudo dos movimentos dos animais marinhos. Seguir no encalço das criaturas que habitam esses mundos permite saber as áreas que são mais importantes para a sua alimentação, para a sua reprodução, para as suas migrações sazonais. Conhecer essas áreas, saber as ameaças que enfrentam e protegê-las devidamente (não apenas no papel) são fatores determinantes para ajudar as espécies que as frequentem e que nelas vivem a prosperarem num planeta em franca transformação.

Ao passo que há algumas décadas esses estudos tinham, quando e onde possível, de ser feitos a olho, com humanos em embarcações em mar ou com lentes de grande alcance a partir de terra, ou através de métodos indiretos, como análises de dejetos e de fragmentos de pele encontrados à deriva, por exemplo, hoje os movimentos dos animais selvagens podem ser revelados em maior detalhe aliando a observação tradicional e mais analógica com tecnologia de ponta, como sensores e satélites.

Um cientista português estudou os movimentos de quatro espécies de animais marinhos que ocorrem nas águas dos Açores e ao longo da Península Ibérica, recorrendo a metodologias tecnologicamente avançadas para, “preencher lacunas críticas de conhecimento” e para contribuir para “estratégias de gestão mais eficazes para diferentes componentes da megafauna marinha vulnerável”.

A tecnologia ao serviço da ecologia do movimento

Quando em 2021 Miguel Gandra iniciou o seu doutoramento, partia de uma pergunta que poderá parecer simples, mas cuja resposta de simples nada tem: como é que algumas das espécies marinhas vivem e se movem?

O grande objetivo do investigador do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve era perceber como que é quatro espécies de animais marinhos se movimentam pelos mares: a corvina (Argyrosomus regius), o peixe-gata ou tubarão gata-lixa (Dalatias licha), o tubarão-albafar (Hexanchus griseus) e o maior peixe o mundo, o tubarão-baleia (Rhincodon typus).

Para deslindar o mistério, usou dados de biotelemetria que foram recolhidos ao longo de mais de uma década em projetos nos quais o cientista participou durante o desenvolvimento da sua tese. Esses dados permitem não só saber por onde anda o animal, mas também fornecer informações sobre a profundidade e a temperatura das águas pelas quais nada.

Aprofundar o conhecimento sobre como so animais vivem e se movimentam de um lado para o outro não revela só dimensões escondidas das suas vidas, mas tem implicações diretas para a sua conservação.

Diz-nos Miguel Gandra que, no caso da corvina, saber que esses peixes regressam aos locais onde nasceram para desovarem “evidencia a vulnerabilidade de certas populações se essas zonas não forem protegidas na época reprodutiva”.

Em alto mar, saber que o gata-lixa e o albafar todas as noites assomam das profundezas, que permanecem durante muito tempo num mesmo local e que machos e fêmeas podem não partilhar os mesmos espaços “melhora a nossa capacidade de prever a suscetibilidade à captura acidental”, afirma o investigador, e permite “ajustar a gestão das pescarias de fundo”.

Quanto ao maior peixe do oceano, saber como os tubarões-baleia se movimentam com o passar das estações do ano e quais as regiões marinhas onde estão mais ativos, bem como perceber as interações com outras espécies, torna possível definir onde e quando é precisa uma maior proteção.

“Estas descobertas mostram que a conservação eficaz não pode ser estática”, avisa Miguel Gandra. “Tem de refletir a forma como cada espécie utiliza o oceano no espaço e no tempo, garantindo que as medidas de proteção incidem precisamente onde – e quando – os animais estão mais expostos às pressões humanas.”

“Para uma conservação mais efetiva e abrangente, precisamos de adquirir mais conhecimento sobre espécies ainda pouco estudadas. Isto não significa apenas estudar mais espécies, mas também aumentar o alcance geográfico dos estudos, incluindo regiões menos exploradas ou com menos capacidade técnica e financeira para implementar investigação ou conservação.”

Fonte: Green Savers

A partilha do mesmo óleo de fritura para diferentes produtos é comum na indústria alimentícia. No entanto, pouco se sabe sobre se e em que medida os alérgenos alimentares de um produto podem ser transferidos para produtos subsequentes.

Para preencher essa lacuna de conhecimento, um novo estudo quantificou a contaminação cruzada por alergénos que ocorre no óleo de fritura partilhado e avaliou a eficácia de diferentes filtros na remoção de resíduos de proteínas alergénicas do óleo. O estudo foi conduzido por investigadores da Universidade de Nebraska-Lincoln e publicado no Journal of Food Protection .

A partilha de óleo de fritura representa risco de contaminação cruzada por alergénos.

Primeiramente, os investigadores fritaram 15 porções de castanhas de caju, com 100g por porção, em um litro (L) de óleo de soja a 38 °C por 10 minutos e a 168 °C por 3 minutos. A análise por espectrometria de massa direcionada detectou de 70 a 130 partes por milhão (ppm) de proteína total de castanha de caju no óleo após a fritura. Em seguida, os pesquisadores fritaram amendoim e fatias de batata no mesmo óleo, que apresentaram concentrações de 23 ppm e 193,5 ppm de proteína total de castanha de caju, respectivamente, após a fritura.

Avaliações quantitativas de segurança mostraram que as concentrações de proteína de caju transferidas para os alimentos fritos a partir do óleo partilhado podem representar um risco à saúde de consumidores alérgicos, com estimativas de que até 12 a 17% dos indivíduos alérgicos a caju que consumirem batatas fritas e 5 a 9% daqueles que consumirem amendoim poderão apresentar uma reação.

A filtração reduz substancialmente o risco para consumidores alérgicos.

Os investigadores também compararam nove métodos de limpeza de óleo para determinar sua capacidade de remover a proteína da castanha de caju do óleo partilhado. Eles descobriram que filtros de 11 micrômetros (µm), filtros de 25 µm e terra diatomácea usada com filtros comerciais foram os tratamentos mais eficazes na remoção de resíduos de proteína da castanha de caju. Todos os três tratamentos reduziram com sucesso a concentração de proteína da castanha de caju de mais de 200 ppm para menos de 10 ppm. O único método de limpeza testado que não  foi eficaz foi um filtro de malha de 500 µm usado isoladamente.

A limpeza do óleo pode reduzir a necessidade de rotulagem preventiva de alergénos.

A métrica de “5% da população alérgica” é um limite de risco conhecido como ED05, recomendado por órgãos internacionais de padronização para a rotulagem preventiva de alérgenos (PAL). Órgãos reguladores como a FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA  ) e a FSA (Agência de Padrões Alimentares do Reino Unido) estão a estudar a adoção do ED05 para diretrizes nacionais de rotulagem de alergénos.

Em geral, os investigadores concluíram que, embora o risco para consumidores alérgicos representado pelo óleo de fritura partilhado e não higienizado seja substancial, o risco de alergia pode ser significativamente reduzido com o uso de filtração que retém partículas maiores que 25 µm. Se os métodos de higienização do óleo reduzirem o risco de contaminação cruzada abaixo de ED05, os gestores de risco poderão reavaliar a necessidade do uso de rotulagem de precaução (PAL).

Fonte: Food Safety

Investigadores do Volcani Center, em Israel, editaram geneticamente uma toranjeira para eliminar os compostos responsáveis pelo sabor amargo. A fruta ainda não foi provada, mas análises às folhas confirmam a ausência das substâncias que causam o amargor.

Uma equipa liderada pelo investigador Nir Carmi, do Volcani Center, em Rishon LeZion, Israel, desenvolveu uma variedade de toranja com potencial para ser menos amarga, recorrendo à tecnologia de edição genética CRISPR.

A toranja é conhecida pelo seu sabor ácido e amargo. Enquanto a acidez resulta naturalmente dos ácidos presentes no fruto, o amargor está associado a compostos específicos. No caso da toranja, o principal responsável é a naringina, bem como moléculas relacionadas, como a neohesperidina e a poncirina.

Para reduzir esse sabor intenso — frequentemente rejeitado por consumidores mais jovens — a equipa desativou um gene responsável pela produção da enzima que origina estes três compostos amargos. A intervenção foi realizada através da técnica de edição genética CRISPR, que permite modificar sequências específicas do ADN de forma precisa.

Devido ao ciclo de crescimento das toranjeiras, que pode demorar vários anos até produzir fruto, os investigadores ainda não puderam provar a nova toranja editada. No entanto, análises realizadas às folhas das árvores modificadas revelaram a ausência dos três compostos associados ao amargor, o que indica que os frutos deverão apresentar a mesma característica.

Segundo Nir Carmi, existem outras equipas de investigação a desenvolver projectos semelhantes, mas o grupo do Volcani Center encontra-se numa fase mais avançada.

A inovação poderá abrir caminho a variedades de citrinos mais apelativas para um público mais vasto, mantendo as características nutricionais da fruta, mas com um perfil sensorial mais suave.

Fonte: Centro de informação de Biotecnologia

O IGD lançou o relatório “Global Retail Trends 2026”, que identifica sete tendências estratégicas que irão definir o crescimento, a rentabilidade e a relevância do retalho alimentar. Além disso, aborda o grande consumo a nível mundial no próximo ano.

O estudo destaca a importância da inovação, da resiliência operacional e da adaptação às novas exigências dos consumidores, num contexto marcado por incerteza económica, evolução tecnológica e maior pressão regulatória.

O documento analisa os principais motores macroeconómicos e sociais que estão a transformar o sector. Entre eles, estão as alterações demográficas e a crescente procura por produtos ligados à saúde, bem-estar e sustentabilidade.

Sete tendências

Segundo o IGD, o sector alimentar global será influenciado, em 2026, por sete grandes vetores estratégicos. Nomeadamente, a cibersegurança como prioridade de topo, a IA como motor da revolução do retalho e a maturidade do retail media.Haverá também uma globalização dos sabores e dos sortidos, uma revolução na conveniência e um novo papel nas missões de saúde e combate ao desperdício.

O relatório sublinha que os operadores enfrentam um ambiente marcado por instabilidade geopolítica e pressão inflacionista residual. Além disso, deparam-se com exigências ambientais crescentes e mudanças rápidas no comportamento do consumidor. Neste contexto, a capacidade de equilibrar inovação com infraestruturas robustas é vista como decisiva para garantir a competitividade a médio prazo.

Tecnologia, saúde e sustentabilidade no centro da estratégia

O IGD destaca que a evolução tecnológica continuará a transformar a relação entre retalhistas e consumidores. Ao mesmo tempo, cresce a procura por soluções ligadas a bem-estar físico e mental e por produtos funcionais e preventivos. Estas dimensões passam a integrar o núcleo da proposta de valor das principais cadeias de distribuição.

Para Toby Pickard, retail futures senior partner do IGD, o relatório evidencia uma mudança estrutural no sector. “Os retalhistas enfrentam preferências de consumo em evolução, avanços tecnológicos e disrupções de mercado. As sete tendências mostram como as forças globais estão a remodelar a estratégia e porque a agilidade, a relevância e a execução vão definir os líderes de amanhã”.

Transformação estratégica do retalho alimentar

O estudo enquadra estas tendências num percurso de transformação que passa por quatro grandes fases: reforço das bases operacionais, capacitação para a inovação, monetização de novos modelos de crescimento e contributo para um sector mais responsável.

Segundo o IGD, apenas os operadores capazes de alinhar estas dimensões conseguirão assegurar crescimento sustentável num mercado cada vez mais competitivo.

Fonte: Grande Consumo

Fraude com ervas aromáticas

  • Tuesday, 24 February 2026 14:37

Os preparados à base de ervas são frequentemente comercializados como remédios suaves e naturais – mas, considerando que ervas e especiarias estão sempre entre os principais itens vulneráveis ​​a fraudes alimentares, o que está exatamente a comprar ao adquirir um remédio à base de ervas?

Um estudo recente realizado por investigadores portugueses sobre produtos à base de ervas verificou a autenticidade de 94 produtos utilizando métodos baseados no ADN, e os resultados foram preocupantes.

Taxas de fraude de 66%

 A equipa adquiriu produtos fitoterápicos rotulados como misturas de uma única espécie e de múltiplas espécies de diversos fornecedores online em Portugal. Esses produtos incluíam ervas comuns como erva-de-são-joão, camomila, melissa, alecrim, funcho, espinheiro-alvar, verbena, ginkgo, valeriana, angélica, ginseng, guaraná, erva-mate, moringa, centelha asiática, capim-limão, laranja-doce, papoila-da-califórnia e lavanda, entre outras.

Quase dois terços dos produtos estavam rotulados incorretamente (n = 94). Dois terços!

Para contextualizar, a maioria dos levantamentos sobre fraude alimentar em produtos específicos constata que cerca de 10% das amostras são afetadas por fraude. Vinte por cento é considerado um valor excepcionalmente alto. Sessenta e seis por cento é um valor altíssimo.

Entre os produtos rotulados como de espécie única (n = 88), a rotulagem incorreta afetou 64% das amostras quando avaliadas com a abordagem mais sensível. Ou seja, 56 das 88 amostras para as quais a amplificação de DNA foi possível apresentaram problemas em relação à sua composição.

Para as misturas de ervas com múltiplas espécies (n = 6), todos os produtos (100%) estavam rotulados incorretamente.

No contexto deste estudo, rotulagem incorreta significa que o produto foi adulterado ou diluído com material vegetal de outra espécie ou foi totalmente substituído por material vegetal de outra espécie.

Fonte: The Rotten Apple

A Comissão Europeia propôs hoje a suspensão de taxas sobre importações pela União Europeia (UE) de fertilizantes azotados e matérias-primas para a sua produção, à exceção dos originários da Rússia e Bielorrússia, devido à invasão da Ucrânia.

Num comunicado hoje divulgado, o executivo comunitário refere estar a cumprir, com esta proposta, um compromisso assumido em 07 de janeiro pelos Estados-membros para “reforçar o setor agroalimentar da UE, reduzindo os custos para os agricultores e para a indústria de fertilizantes, com uma poupança estimada de 60 milhões de euros em direitos de importação”.

A medida visa ainda a redução da dependência da UE face à Rússia e à Bielorrússia.

Os fertilizantes azotados são ricos em nitrogénio e as matérias-primas para a sua produção são a ureia e o amoníaco.

Bruxelas garantiu que a medida proposta é calibrada de acordo com as necessidades do mercado da UE, através de um sistema de quotas que prevê que as importações que excedam estes contingentes estarão sujeitas às tarifas normais.

A manutenção das taxas aduaneiras sobre adubos importados da Rússia e Bielorrússia insere-se na estratégia definida pela UE no âmbito da invasão da Ucrânia por tropas de Moscovo, com a colaboração de Minsk, há precisamente quatro anos.

Fonte: Agroportal

Risco climático, Agricultura e ESG

  • Tuesday, 24 February 2026 10:48

O recente fenómeno climático extremo que assolou Portugal, voltou a afetar a agricultura e expôs, mais uma vez, uma realidade que não pode ser ignorada: o risco climático é uma variável económica e financeira estrutural. Não se trata de choques recorrentes, mas de um contexto de risco em mutação, em que fenómenos ainda raros tendem a tornar-se mais frequentes, afetando rendimentos, ativos, investimento e estabilidade financeira. Foram estimados 775 milhões de euros de prejuízos no setor agrícola e florestal, que muito provavelmente estarão subavaliados.

O impacto das alterações climáticas tem sido sistematicamente abordado como um tema ambiental ou, no limite, social, muitas vezes politizado, quando é na sua essência uma questão de governance, estratégia e gestão de risco. Risco climático não é ideologia. É economia e bem-estar.

Essa abordagem é insuficiente, nomeadamente no setor agrícola dada a sua exposição e vulnerabilidade aos eventos climáticos. A crescente frequência e intensidade de fenómenos extremos traduz-se em maior volatilidade de rendimentos, degradação de ativos produtivos (incluindo o capital natural) e aumento significativo do risco, incluindo o de crédito. Para bancos e seguradoras, o clima deixou de ser um “fator de contexto” e passou a ser uma variável crítica. O mesmo tem de acontecer para agricultores, cooperativas, e demais agentes económicos.

É precisamente aqui que o enquadramento ESG (Environmental, Social, and Governance) ganha relevância, desde que aplicado com rigor e foco na materialidade. O pilar Ambiental (E) tem sido o mais visível, associado a questões como o stress hídrico, erosão do solo, e outros impactos nos ecossistemas que culminam em perda de produtividade e impacto direto nos rendimentos agrícolas. Mas, a verdadeira falha está na Governance (G). Promover modelos agrícolas sem incorporar cenários climáticos robustos é, do ponto de vista económico, uma desadequada gestão do risco. Continuar a financiá-los e a subsidiá-los, também.

O setor financeiro começou a reconhecer a nova realidade climática na determinação do risco, para todos os setores. Bancos centrais, supervisores, seguradoras, bancos, investidores estão a integrar riscos físicos e de transição nos seus modelos, recorrendo à ciência climática, a modelação de cenários e a testes de stress. O objetivo é claramente evitar a subavaliação do risco e a consequente acumulação de perdas nos balanços. Este movimento não é ideológico — é prudencial.

A agricultura é um setor particularmente exposto. Vinhas, pomares, olivais, estufas ou infraestruturas de regadio são ativos de longo prazo e investimentos pensados para décadas. Quando o clima se torna estruturalmente mais instável, esses ativos enfrentam risco de desvalorização antes do fim da sua vida útil. Isto afeta decisões de investimento, encarece o financiamento e reduz a atratividade do setor.

A dimensão Social (S) do ESG reforça este diagnóstico. A instabilidade crescente do rendimento agrícola pressiona mecanismos de apoio público, fragiliza economias regionais e territórios, e aumenta a necessidade de fundos de calamidade após cada evento extremo. O que começa como uma perda climática no campo, acaba por se traduzir num custo orçamental para o Estado. As perdas são compensadas por apoios públicos, não apenas por razões económicas, mas porque a agricultura desempenha a função social essencial de produção de alimentos. A esta dinâmica pode acrescer a instabilidade dos preços dos bens alimentares, com impactos diretos no bem-estar das famílias e na inflação.

É neste ponto que a política pública também precisa de se alinhar. Enquanto o setor financeiro avança na quantificação e integração do risco climático, pressionando, em cascata, as empresas para tal, muitas políticas (agrícola, ordenamento do território, etc) continuam a tratar eventos extremos como exceções e não como parte de uma nova normalidade.

É certo que uma parte de prejuízos não poderão ser evitados, mesmo com planeamento e adoção de medidas de adaptação, e os apoios de emergência serão sempre necessários e muitas vezes insuficientes. Mas, sem incorporar risco climático nos critérios de investimento público, nos sistemas de seguros, na gestão da água e no desenho dos incentivos, a política pública estará a reforçar a exposição futura, em vez de a mitigar. É importante canalizar capital público e privado para modelos de resiliência, assentes em práticas de agricultura climaticamente inteligente. As empresas agrícolas precisam de capital para essa transição.

Neste contexto, aplicar ESG na agricultura não é produzir mais relatórios, nem adotar uma linguagem vaga. É alinhar práticas com finanças responsáveis: usar ciência climática, incorporar cenários de risco, diferenciar incentivos, orientar capital (público e privado) para modelos produtivos resilientes. O foco tem sido colocado nas ações de mitigação orientadas para a descarbonização, e que são bastante importantes, mas importa reforçar as medidas de adaptação e a inovação tecnológica que as aceleram.

Ignorar a realidade não elimina o risco, apenas o transfere e amplifica. Num contexto de mudança do clima, tratar o risco climático como risco económico e financeiro não é uma opção, nem tão pouco ideologia. É uma condição mínima de boa governação nas empresas e na política pública.

Fonte: Agroportal

O setor da amêndoa continua a expandir-se em Portugal, impulsionado pela procura internacional e pelo aumento da área agrícola dedicada ao fruto seco. No entanto, apesar do dinamismo, especialistas e produtores alertam que a consolidação do mercado ainda está distante, travada por desafios estruturais que vão desde a fragmentação da produção até à volatilidade dos preços.

Nos últimos anos, o país assistiu a um crescimento expressivo das plantações, sobretudo no Alentejo e em Trás‑os‑Montes. A modernização dos pomares, a entrada de investidores estrangeiros e a aposta em sistemas de rega mais eficientes contribuíram para elevar a produtividade e colocar Portugal no radar dos principais compradores europeus.

Ainda assim, o setor enfrenta obstáculos significativos. A maioria dos produtores continua a operar de forma isolada, dificultando a criação de escala e o acesso a canais de comercialização mais competitivos. A falta de unidades de transformação e descasque em algumas regiões obriga muitos agricultores a exportar o produto em casca, perdendo valor acrescentado.

Outro ponto crítico é a oscilação dos preços internacionais, influenciados sobretudo pela produção da Califórnia, líder mundial. A dependência deste mercado torna os produtores portugueses vulneráveis a flutuações que escapam ao seu controlo.

Apesar das dificuldades, o potencial de crescimento permanece elevado. Organizações do setor defendem que a criação de cooperativas mais robustas, o investimento em transformação local e a aposta em certificações de qualidade podem acelerar a consolidação e reforçar a competitividade da amêndoa portuguesa.

Para já, o setor cresce — e a tendência deve manter-se — mas o caminho até um mercado verdadeiramente estruturado continua longo.

Fonte: Qualfood

As plantas já foram cultivadas no espaço. Culturas como a alface, o tomate, o rabanete e o pimento foram cultivadas - e consumidas - com sucesso pelos astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional.

Mas estas realizações apenas arranham a superfície do que é possível, afirmam os autores de um novo documento que delineia as prioridades científicas e tecnológicas que poderão transformar as “culturas espaciais” experimentais em sistemas bioregenerativos completos de apoio à vida.

As plantas como suplemento

As plantas cultivadas no espaço são atualmente vistas como um suplemento nutricional - algo que os astronautas comem para além dos alimentos altamente processados e pré-embalados que normalmente lhes são oferecidos. Mas o documento defende que as plantas devem ser vistas como uma infraestrutura essencial - produzindo oxigénio, purificando a água, reciclando resíduos e apoiando o bem-estar da tripulação como parte de sistemas de suporte de vida em circuito fechado.

“As plantas são um elemento fundamental para manter os astronautas vivos em missões de longa duração: podem ajudar a reciclar o ar, purificar a água e, claro, fornecer alimentos frescos”, explica o Dr. Giovanni Sena, Professor Associado do Departamento de Ciências da Vida do Imperial College de Londres.

O documento estabelece um roteiro global para a utilização da biologia vegetal no apoio a missões espaciais de longa duração, acelerando simultaneamente uma agricultura mais sustentável na Terra. O documento reúne "investigadores de todo o mundo para chegarem a acordo sobre as prioridades e as medidas práticas para o conseguir. E o mais interessante é que muito do que aprendemos para o espaço contribui diretamente para tornar a agricultura na Terra mais sustentável", acrescenta Sena.

Missão partilhada

A investigação partilha as lições aprendidas com o cultivo de plantas em órbita, incluindo melhorias na compreensão da forma como as plantas respondem aos principais fatores de stress relacionados com o espaço, como a microgravidade, a radiação, os ambientes magnéticos alterados, a disponibilidade limitada de água e o crescimento em solos lunares e marcianos semelhantes aos regolitos. Também assinala os obstáculos que subsistem à implantação de “estufas espaciais” fiáveis nos futuros habitats lunares e marcianos.

O resultado: o quadro do Nível de Prontidão do Sistema Biorregenerativo de Apoio à Vida (BRL), que avalia o grau de proximidade entre diferentes culturas e o seu funcionamento como componentes fiáveis e integrados de sistemas de apoio à vida fora do nosso planeta.

O documento apresenta 12 prioridades de investigação e desenvolvimento para acelerar o progresso, incluindo o desenvolvimento de sistemas análogos robustos baseados na Terra, modelação preditiva, abordagens de biologia sintética, melhores ferramentas de monitorização para experiências de voos espaciais e uma maior coordenação internacional e partilha de dados.

Estas tecnologias poderão também ter impacto na agricultura na Terra; a agricultura ultra-eficiente em ambiente controlado, a reciclagem de nutrientes em circuito fechado e as culturas que se desenvolvem em condições de stress extremo são cada vez mais importantes para a produção de alimentos nas cidades, nas regiões propensas à seca e em ambientes com recursos limitados.

O documento também aborda a investigação emergente sobre a forma como as raízes das plantas respondem a sinais ambientais para além da gravidade, como o eletrotropismo. Esta é uma área que Sena conhece bem, e o seu grupo tem investigado a forma como campos elétricos fracos podem orientar o crescimento das raízes. Esta técnica poderia ser utilizada para controlar e moldar sistemas radiculares complexos em ambientes agrícolas de microgravidade ou de baixa gravidade. Juntamente com o gravitropismo e o hidrotropismo, esta técnica poderia ajudar a conceber sistemas de crescimento de plantas resistentes para habitats espaciais.

Nenhum país ou agência espacial pode resolver os desafios sozinho, será necessário um esforço conjunto com infra-estruturas partilhadas, dados abertos e alinhamento entre os principais programas internacionais. E, em última análise, aprender e compreender como cultivar plantas de forma fiável no espaço irá promover a nossa exploração do espaço e transformar a forma como os alimentos são produzidos no nosso próprio planeta, conclui o documento.

Fonte: Tempo.pt

Portugal é um dos maiores produtores e exportadores de vinho do mundo, com vinhas que cobrem mais de 170 mil hectares e um setor que impacta direta e indiretamente mais de 168 mil empregos. Mas o vinho europeu está sob pressão e o Conselho da União Europeia decidiu agir com uma resposta de fundo.

“Embora a União continue a ser líder mundial na produção, consumo e valor exportado de vinho, as mudanças sociais e demográficas estão a ter impacto na quantidade, qualidade e tipos de vinho consumidos”, lê-se no documento oficial agora aprovado, notando ainda que “o consumo de vinho na União está no nível mais baixo das últimas três décadas”.

A isto acrescem mercados de exportação tradicionais adversamente afetados por uma combinação de tendências de consumo em queda e fatores geopolíticos, bem como uma produção cada vez mais imprevisível devido às alterações climáticas, fatores que, em conjunto, empurram os preços para baixo e esgotam as reservas financeiras dos viticultores.

Foi sob este ambiente que o Conselho da União Europeia aprovou esta segunda-feira um pacote legislativo abrangente que altera as regras de apoio ao setor vitivinícola, reconhecendo que a crise que os produtores enfrentam hoje é estrutural, e não passageira.

“Ao adotar hoje o regulamento relativo ao setor vitivinícola, menos de um ano após a sua proposta pela Comissão, o Conselho e os Estados-membros demonstram mais uma vez que estão atentos às preocupações dos agricultores e do setor agrícola, e que estão dispostos a tomar medidas eficazes para lhes dar resposta”, refere Maria Panayiotouministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Ambiente do Chipre, em comunicado, sublinhando inclusive que, desta forma, “isso garante que o setor já possa se beneficiar deles este ano.”

O regulamento agora aprovado, que foi negociado durante meses entre o Parlamento Europeu e os Estados-membros, é a resposta mais ampla das últimas décadas às dificuldades do setor. Recorde-se que o Parlamento Europeu tinha dado luz verde ao texto legislativo a 10 de fevereiro, com uma maioria esmagadora de 625 votos a favor, 15 contra e 11 abstenções, e cabia agora ao Conselho dar o passo final.

O acordo político tinha sido fechado a 4 de dezembro de 2025, na sequência de recomendações formuladas pelo Grupo de Alto Nível para a Política do Vinho, criado precisamente para identificar soluções para os desafios que o setor enfrenta.

O que muda para os produtores europeus

Para gerir melhor a oferta e evitar a sobreprodução crónica, o novo regulamento reforça o sistema de autorizações de plantação de vinhas e confere aos Estados-membros maior flexibilidade regional.

O texto reconhece que “a relação entre a oferta de produção, a procura dos consumidores e as exportações no mercado mundial é atualmente instável, resultando em graves perturbações do mercado”, e por isso permite agora que os países limitem as novas plantações em zonas com excesso de oferta, chegando mesmo a fixar limites regionais de 0% para novas autorizações.

Em situações de catástrofe natural, eventos meteorológicos extremos ou surtos de doenças, os viticultores passam ainda a ter mais um ano para plantar ou replantar vinhas afetadas, sem penalizações administrativas. O pacote prevê também um conjunto significativo de apoios financeiros:

  • No que respeita à adaptação às alterações climáticas, os Estados-membros podem agora beneficiar de um cofinanciamento europeu até 80% dos custos efetivos de reestruturação e reconversão das vinhas;
  • Para a promoção de vinhos europeus em mercados de países terceiros, como os EUA, o Canadá ou países asiáticos, o financiamento europeu pode chegar a 60% das despesas elegíveis, podendo os Estados-membros contribuir com mais 30% para pequenas e médias empresas e 20% para empresas de maior dimensão. As campanhas de promoção podem ainda ser financiadas durante três anos, renováveis por mais dois períodos de três anos, num total máximo de nove anos consecutivos.

Uma das áreas com maior impacto para os consumidores diz respeito à rotulagem dos vinhos sem álcool ou com teor alcoólico reduzido, um segmento em crescimento acelerado em toda a Europa.

O regulamento harmoniza as regras a nível europeu: vinhos com menos de 0,05% de álcool deverão ser rotulados como “alcohol-free 0,0%” (sem álcool 0,0%), enquanto vinhos com teor igual ou superior a 0,5% de álcool, mas pelo menos 30% abaixo do padrão da categoria devem ser designados como “alcohol reduced” (teor alcoólico reduzido).

O texto final reconhece que “a procura crescente por parte dos consumidores de produtos de videira com teor alcoólico reduzido, produzidos por desalcoolização, representa uma oportunidade para o setor”, clarificando que é agora possível produzir vinhos espumantes desalcoolizados a partir de vinhos tranquilos através de segunda fermentação ou adição de dióxido de carbono.

O enoturismo e as vendas diretas nas regiões produtoras surgem igualmente reforçados no novo quadro legislativo. O documento reconhece que “o enoturismo é uma atividade comercial cada vez mais importante para muitos operadores vitivinícolas”, pelo que passa a ser elegível o apoio a estruturas e instrumentos de marketing orientados para a venda direta a turistas nas regiões produtoras.

As organizações de produtores que gerem denominações de origem protegida e indicações geográficas protegidas passam também a poder aceder a apoios específicos de enoturismo, o que representa uma oportunidade direta para regiões portuguesas como o Douro, o Alentejo ou o Minho, cujos vinhos têm reconhecimento global.

Para Portugal, este pacote chega num momento em que o setor vitivinícola representa mais de 2,5% do PIB nacional e onde as exportações de vinho ultrapassaram os 965 milhões de euros em 2024, mas com o setor a mostrar grandes desafios no último ano, como espelhado pela perda de 50 mil hectares de vinhas na última década, segundo dados do Instituto da Vinha e do Vinho

Com a aprovação do Conselho concluída, o regulamento seguirá para publicação no Jornal Oficial da União Europeia, após o que entrará em vigor e começará a produzir efeitos concretos para os produtores.

Fonte: Eco