Farinhas brancas mais saudáveis, sem alteração do sabor, textura e preço? Sim, é possível. A tecnologia de edição genética CRISPR pode ajudar a melhorar a saúde alimentar através de pão e farinhas mais nutritivas, mantendo o sabor e o custo.
O Chile aprovou, pela primeira vez nas Américas, um trigo desenvolvido com recurso à tecnologia CRISPR — um método de edição genética de alta precisão. O cereal, criado, distingue-se por ter um teor de fibra até dez vezes superior ao trigo convencional. A decisão das autoridades chilenas abre caminho para ensaios em campo e validação comercial, tal como acontece com variedades tradicionais, marcando um marco internacional na biotecnologia agrícola.
Segundo a empresa responsável, o objetivo é simples: tornar o pão branco — um dos alimentos mais consumidos no Chile e na Argentina — mais saudável. Nestes países, a ingestão média de fibra é menos de metade do recomendado pelas diretrizes de saúde, o que aumenta riscos para o bem-estar da população.
Até agora, a indústria tentou enriquecer a farinha com fibras de milho, batata ou banana, mas estas soluções afetavam o sabor e a textura, além de encarecerem os produtos. Por outro lado, a farinha integral nunca conquistou a maioria dos consumidores, devido ao gosto, ao hábito e ao preço. Com o novo trigo, será possível produzir farinhas brancas mais ricas em fibra, sem comprometer a qualidade nem a acessibilidade.
O projeto é resultado de uma parceria entre a investigação e duas históricas empresas de sementes, uma chilena e uma argentina. A inovação contou ainda com apoios públicos de investigação e poderá ter impacto global, já que o mercado de fibras de trigo deverá mais do que duplicar até 2033.
A tecnologia CRISPR, muitas vezes descrita como uma “tesoura molecular”, permite editar com precisão o próprio genoma das plantas, sem recorrer a genes externos, o que significa que não se trata de um organismo transgénico. No caso do trigo, cuja informação genética é cinco vezes maior que a humana, esta abordagem permite acelerar processos que, com métodos tradicionais, demorariam até 15 anos.
Depois da decisão chilena, a empresa de investigação já submeteu pedidos de avaliação regulatória na Argentina e prepara-se para fazê-lo em mercados estratégicos como o Brasil e os Estados Unidos. Em paralelo, negocia com grandes indústrias alimentares da América Latina para testar, já em 2026, a utilização deste trigo em pães e bolachas.
Se bem-sucedida, esta inovação poderá transformar um alimento tão comum como o pão num aliado mais forte da saúde pública, colocando o Chile na linha da frente mundial da edição genética aplicada à alimentação.
Fonte:CiB