A necessidade de garantir segurança alimentar, de forma sustentável e economicamente viável, acelerou, recentemente, a investigação em novas fontes de proteína e processos de produção. Esta “transição proteica” não se limita à redução do consumo de carne mas implica a diversificação das fontes de proteína e um reposicionamento estratégico da indústria alimentar. A combinação da biotecnologia, engenharia de alimentos, economia circular e inovação empresarial virá a permitir soluções inovadoras para criar alimentos mais sustentáveis e nutritivos e responder a desafios ambientais, nutricionais e económicos.
Entre as alternativas à carne encontram-se produtos vegetais, biomassa obtida por fermentação em biorreatores, incluindo fermentação de precisão (que usa microrganismos modificados geneticamente para produzir proteínas idênticas às de origem animal), proteínas de insetos e carne cultivada. Estas abordagens apresentam diferentes níveis de maturidade tecnológica e potencial de aplicabilidade em grande escala. Os produtos vegetais e as micoproteínas (derivadas do micélio de fungos, produzido por fermentação) demonstram viabilidade industrial e crescente aceitação no mercado global. Embora promissoras, tecnologias mais disruptivas, como a carne cultivada e fermentação de precisão, apresentam custos elevados e dependência de capital intensivo. Estes desafios representam riscos mas também oportunidades de liderança tecnológica em mercados emergentes de alto valor.
A consolidação da transição proteica exige investigação científica para reduzir custos, aumentar rendimentos e garantir segurança alimentar. Uma atividade coordenada das universidades, centros de investigação, startups e grandes empresas permitirá criar ecossistemas robustos, que aliem conhecimento científico e capacidade industrial para acelerar a transferência tecnológica, do laboratório para o mercado.
A dimensão global e a competição internacional da transição proteica exige atenção às patentes, propriedade intelectual e alianças estratégicas. No plano nutricional, são necessários mais estudos sobre novas proteínas e ingredientes, dependendo o sucesso da transição proteica também de fatores socioculturais e regulatórios. É crucial a aceitação pelo consumidor, nunca subestimando a dimensão cultural da alimentação e a resistência social, sobretudo no sul da Europa, a perceção de segurança alimentar e comunicação transparente sobre o valor nutricional e impacto ambiental na redução de emissões de gases com efeito de estufa. Também uma rotulagem transparente, regulação harmonizada e uma transição que não prejudique agricultores e produtores pecuários, são essenciais. As políticas públicas e normas internacionais podem acelerar ou travar essa transição.
A transição proteica é um instrumento estratégico para a sustentabilidade, competitividade e autonomia da Europa que, tal como o resto do mundo, enfrenta um ponto de inflexão nos sistemas alimentares impulsionado por vários desafios. Estes vão desde os exigentes compromissos climáticos e a necessidade de segurança e autonomia alimentar, às pressões sobre recursos naturais, exigências éticas e sociais relativas ao bem-estar animal e à crescente procura de proteínas acessíveis, nutritivas e de baixo impacto ambiental. Neste contexto, o EASAC – European Academies´ Science Advisory Council, órgão científico consultivo das academias europeias, publicou, no final de 2025, o relatório Meat Alternatives – Considerations for Sustainable Protein Choices sobre o potencial, os riscos e as implicações das “alternativas à carne”. Com uma base científica sólida, este relatório exige uma leitura crítica pois as alternativas à carne são parte da solução, não uma fórmula milagrosa.
Pela relevância do tópico, e tendo na devida atenção o contexto nacional, este relatório será debatido na próxima quinta feira, dia 8 de janeiro, durante a tarde, na Academia das Ciências de Lisboa (ACL). A ACL é membro do EASAC e de outras redes internacionais de academias científicas que multiplicam a força coletiva da ciência, oferecendo respostas conjuntas a desafios globais, com legitimidade e autoridade técnica. Tal permite que o aconselhamento científico, independente e baseado em evidências, chegue a níveis políticos onde se tomam decisões com impacto nacional e mundial.
O programa da sessão, “Alternativas à carne: desafios científicos, empresariais e estratégicos para a Europa”, foi organizado em colaboração com o professor e investigador do Instituto Superior Técnico e do iBB-Instituto de Bioengenharia e Biociências, Frederico Ferreira, que foi um dos revisores do relatório por indicação da ACL e que coordena projetos sobre carne e peixe cultivados em laboratório. No debate participarão representantes de empresas do setor, como a PFX Biotech Lda e a Cell4Food, com atuação nas áreas da biotecnologia, fermentação e desenvolvimento de novos alimentos, a CellAgri Portugal, entidade dedicada à agricultura celular e às tecnologias associadas, a PortugalFoods – Associação do Setor Agroalimentar Português que representa a indústria agroalimentar nacional e os seus ecossistemas de inovação, e a DGAV – Direção-Geral da Alimentação e Veterinária, a autoridade pública com competências em segurança alimentar e enquadramento regulamentar.
Fonte: Semanário SOL