A agricultura regenerativa entrou definitivamente no discurso público. Surge nos programas políticos, nos relatórios empresariais, nas estratégias de sustentabilidade e no vocabulário da nova Política Agrícola Comum. Todos parecem falar dela. Poucos, porém, explicam com clareza o que é, o que não é e, sobretudo, porque existe.
Esta generalização do termo não é neutra. Quando um conceito poderoso se transforma num rótulo vago, perde densidade técnica, credibilidade junto do setor e capacidade de gerar mudança real no terreno. É por isso que importa recentrar o debate.
A agricultura portuguesa atravessa um momento particularmente exigente. Pressão crescente sobre os custos de produção, volatilidade dos mercados, escassez de mão de obra, incerteza climática cada vez mais frequente e uma exigência regulatória em constante evolução moldam hoje o quotidiano dos agricultores. A isto soma-se um fator estrutural menos visível, mas crítico: o desgaste acumulado dos recursos naturais, em especial dos solos e da água, que compromete a produtividade futura e aumenta a dependência de fatores externos.
É neste contexto – e não por moda – que a agricultura regenerativa ganha relevância.
A agricultura regenerativa não é um catálogo de práticas avulsas, nem um selo automático de boas intenções. É uma forma de desenhar sistemas agrícolas a partir de princípios claros – melhorar a saúde do solo, reforçar processos biológicos, aumentar a eficiência no uso da água e reduzir riscos económicos – recorrendo a práticas adaptadas a cada contexto e avaliando o resultado no sistema como um todo. Coberturas vegetais, menor mobilização do solo, diversificação de culturas ou uso criterioso de insumos são apenas ferramentas; o que distingue um sistema verdadeiramente regenerativo é a sua capacidade de demonstrar, ao longo do tempo, maior estabilidade produtiva, menor dependência de fatores externos e melhoria mensurável do capital natural que sustenta a produção.
É precisamente aqui que o debate começa a fragilizar-se. Nos últimos anos, o termo “agricultura regenerativa” tem sido apropriado de forma ligeira – e, por vezes, oportunista – por quem não apresenta evidência técnica, métricas ou resultados que sustentem essa designação. Reduzir uma mobilização do solo, instalar uma cobertura vegetal pontual ou alterar um insumo não transforma, por si só, um sistema agrícola. A regeneração exige objetivos claros, monitorização consistente e demonstração de impacto agronómico, ecológico e económico. Sem isso, fica ao nível da intenção. Esta banalização não só esvazia o conceito, como mina a confiança dos agricultores, dos investidores e da sociedade num modelo que exige, acima de tudo, rigor e seriedade.
A boa notícia é que a evidência existe, quando se mede. O estudo europeu “Farmer-led Research on Europe’s Full Productivity”, conduzido pela European Alliance for Regenerative Agriculture (EARA) e publicado em 2025, analisou dezenas de explorações agrícolas em 14 países europeus e demonstrou que sistemas agrícolas regenerativos, quando avaliados de forma holística, conseguem manter níveis de produção praticamente equivalentes aos sistemas convencionais, utilizando significativamente menos fertilizantes sintéticos e pesticidas, ao mesmo tempo que melhoram indicadores de saúde do solo, biodiversidade e margem económica. O estudo introduz o conceito de Regenerating Full Productivity, precisamente para medir o desempenho do sistema como um todo – agronómico, ecológico e económico – e não apenas a produtividade isolada de curto prazo.
Persistem, ainda assim, equívocos importantes. Um dos mais frequentes associa agricultura regenerativa a perda de produtividade ou a uma visão excessivamente idealizada da agricultura. Na realidade, trata-se sobretudo de uma estratégia de eficiência e de gestão de risco. Sistemas agrícolas fortemente dependentes de insumos externos – fertilizantes, energia, água ou fitofármacos – são estruturalmente mais vulneráveis à volatilidade de preços, às restrições regulatórias e aos extremos climáticos. A regeneração, quando bem desenhada, reduz essa exposição e aumenta a previsibilidade do sistema produtivo. Não se trata de produzir menos, mas de produzir melhor e com maior estabilidade ao longo do tempo.
A nova Política Agrícola Comum e o PEPAC português reconhecem, pela primeira vez de forma clara, a necessidade de alinhar produção agrícola com objetivos ambientais e climáticos. Os eco-regimes e as práticas favoráveis ao solo e à biodiversidade representam um passo importante. O risco está na execução. Existe uma diferença fundamental entre a adoção administrativa de práticas e a transformação estrutural dos sistemas produtivos. Cumprir um requisito não equivale a regenerar um sistema. Sem acompanhamento técnico, sem métricas claras e sem avaliação de resultados, a política pública corre o risco de financiar conformidade, em vez de mudança real.
A agricultura regenerativa não se implementa por regulamento. Exige conhecimento agronómico, adaptação local, monitorização contínua e tempo. Exige, também, maior exigência na forma como se define sucesso: menos foco em intenções declaradas e mais foco em resultados observáveis no terreno.
Portugal está particularmente exposto aos desafios que tornam esta discussão incontornável. Clima mediterrânico, escassez hídrica estrutural, solos frágeis em muitas regiões e uma forte presença de culturas permanentes colocam o país na linha da frente dos impactos das alterações climáticas. Mas colocam-no também numa posição estratégica para liderar soluções. A agricultura regenerativa pode ser uma ferramenta central de adaptação climática, de competitividade agrícola e de valorização do território rural, desde que seja tratada com rigor técnico e visão de longo prazo.
O maior risco que este conceito enfrenta hoje não é técnico, é semântico. Falar de agricultura regenerativa é fácil. Implementá-la bem é exigente. Exige agronomia sólida, desenho de sistemas, acompanhamento continuado, avaliação económica e humildade para ajustar percursos. Exige, sobretudo, distinguir claramente entre práticas isoladas e transformação real.
Num setor sob pressão crescente, regenerar não é um luxo nem um slogan. É, cada vez mais, uma condição para que a agricultura continue a produzir hoje e amanhã.
Fonte: Agroportal