O movimento “Comida Não é App: Desinstalem a Ilusão” tem ganho expressão nacional ao denunciar a forma como as plataformas de entrega moldaram, de forma quase invisível, a relação dos consumidores com a alimentação e com o trabalho por detrás de cada refeição. Nascido de um manifesto que circulou inicialmente entre pequenos restaurantes e cozinheiros independentes, o movimento rapidamente se expandiu para as redes sociais, onde milhares de utilizadores passaram a partilhar testemunhos sobre comissões elevadas, margens de lucro reduzidas e condições precárias enfrentadas pelos estafetas. A campanha critica aquilo a que chama a “ilusão da conveniência”, argumentando que a facilidade de pedir comida com um toque no telemóvel esconde um sistema que fragiliza negócios locais, uniformiza a oferta gastronómica e desumaniza o ato de comer, transformado num produto digital embalado e entregue à pressa.
A mobilização ganhou força depois de um vídeo viral, publicado por um chef do Porto, mostrar a discrepância entre o valor pago pelo cliente e o montante efetivamente recebido pelo restaurante após as taxas das plataformas. O conteúdo desencadeou uma onda de indignação e deu origem à hashtag #DesinstalemAIlusão, que se tornou ponto de encontro para relatos de cozinheiros, estafetas e consumidores que questionam o modelo dominante. Em resposta, as empresas de entrega defendem que oferecem oportunidades de crescimento e flexibilidade laboral, mas associações de restauração e sindicatos insistem que o setor precisa de regulamentação mais rigorosa para garantir condições dignas e práticas comerciais equilibradas.
O movimento não propõe o fim das aplicações, mas sim uma mudança de hábitos e políticas: incentivar compras diretas aos restaurantes, limitar comissões, formalizar vínculos laborais e promover um consumo mais consciente e próximo dos produtores. Especialistas em comportamento do consumidor afirmam que a discussão revela uma tensão crescente entre conveniência e responsabilidade social, num momento em que a digitalização acelerada da restauração afastou emocionalmente quem cozinha de quem come. Ao afirmar que “comida não é app”, a campanha procura recuperar essa ligação, lembrando que cada prato envolve pessoas, trabalho e cultura — e que nenhuma interface deve apagar essa realidade.
Fonte: Qualfood