A escassez de produtos fitofarmacêuticos registados para combater doenças na amendoeira está a transformar-se num dos temas mais inquietantes para os produtores nacionais, que descrevem o momento como “uma corrida contra o tempo” para salvar pomares inteiros. À medida que fungos e bactérias ganham terreno, impulsionados por invernos mais curtos e primaveras mais húmidas, os agricultores veem-se obrigados a enfrentar ameaças cada vez mais agressivas… com cada vez menos ferramentas autorizadas para as travar.
Um setor em alerta crescente
Nos principais vales produtores, do Douro Superior ao Alentejo, multiplicam-se relatos de pomares debilitados por doenças que antes eram facilmente controláveis. Hoje, a lista de substâncias permitidas é curta, e muitos dos produtos que os agricultores consideravam essenciais foram retirados do mercado ou aguardam processos de reavaliação que se arrastam há anos.
Produtores descrevem um cenário paradoxal: a amêndoa portuguesa está em expansão, com novas plantações e forte procura internacional, mas a base sanitária que sustenta essa ambição está fragilizada. “Temos tecnologia, temos investimento, temos mercado. Falta-nos apenas aquilo que é básico: soluções eficazes para proteger as árvores”, lamenta um agricultor do Douro Superior.
Doenças mais agressivas, respostas mais lentas
As alterações climáticas estão a alterar o comportamento das doenças, tornando-as mais persistentes e imprevisíveis. Entre as mais preocupantes estão infeções fúngicas que atacam ramos jovens, flores e frutos, reduzindo drasticamente a produtividade. Sem produtos registados suficientes, muitos produtores recorrem a estratégias culturais e preventivas que, embora importantes, não conseguem travar surtos mais severos.
Associações agrícolas alertam que a lentidão nos processos de registo está a criar um desfasamento perigoso entre as necessidades do campo e as soluções disponíveis. “A ciência avança, mas a regulamentação não acompanha o ritmo. E quem paga o preço são os agricultores”, sublinha uma fonte do setor.
Riscos económicos e impacto na competitividade
A falta de alternativas eficazes não é apenas um problema agronómico — é também um risco económico. Perdas de produção, aumento de custos e menor qualidade do fruto podem comprometer a competitividade da amêndoa portuguesa num mercado global dominado por países com maior acesso a ferramentas fitossanitárias.
Para muitos produtores, a preocupação é clara: se nada mudar, a sustentabilidade do setor pode ficar em causa. E isso num momento em que Portugal se afirmava como um dos novos polos de produção de amêndoa na Europa.
O que o setor pede agora
As organizações representativas defendem três prioridades imediatas:
- Acelerar o registo de novos produtos, garantindo alternativas eficazes e seguras,
- Aprovar soluções já utilizadas noutros países europeus, onde o processo regulatório é mais ágil;
- Reforçar a investigação nacional, para desenvolver estratégias integradas de proteção da amendoeira.
A mensagem é clara: sem uma resposta rápida, o país arrisca perder terreno num setor onde investiu milhões e onde muitos agricultores depositaram o futuro das suas explorações.
Fonte: Qualfood