Nos últimos dias, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e as autoridades de saúde alertaram para a presença de poeiras de África na atmosfera, fenómeno que tem sido recorrente em Portugal.
"De uma forma específica, como estamos a observar, estas areias provavelmente não vêm do Saara. Vêm de outra zona da África, mais longe, da zona do Chade. As poeiras são terra que, com ventos, neste caso tempestades, acaba por ir para a atmosfera e depois é transportada por milhares e milhares de quilómetros. Conseguem atravessar oceanos e viajar entre continentes", explica ao 24notícias Ricardo Dias, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e especialista na área da resiliência e segurança biológica.
No caso destes últimos dias, o mau tempo que se fez sentir em Portugal também acabou por influenciar. "Por causa das chuvadas que tivemos, tem sido registado um nível de humidade significativo e para além disso era expectável que chovesse novamente. Isso fez com que muitas destas poeiras começassem a co-precipitar com a chuva ou com a humidade. Começaram a não viajar tão longe e a cair sobre o nosso território. Esse é um fenómeno até interessante para nós, do ponto de vista científico, porque normalmente a maioria das poeiras que nós costumamos ter surgem altura da primavera ou verão".
Habitualmente, as poeiras chegam em "tempos completamente diferentes, muito mais secos, com ventos fortes, dominantes". Agora, pela chuva, "as rotas também são um bocadinho diferentes do usual": como se fosse "uma tempestade de areia que saiu da autoestrada para uma estrada secundária e fez uma rota que não é muito normal" — neste caso, as poeiras viraram a norte, passaram pelas Canárias, pela Madeira e entraram na quinta-feira no território continental.
Quando se olha para o céu, o tom denuncia as poeiras. Há vezes em que a cor é mais alaranjada, outras vezes mais acinzentada ou amarelada, o que apenas mostra que circulam pelo ar partículas de diferentes locais. "Quando é do deserto, normalmente é determinada cor, se é da África mais continental, a terra é mais vermelha", justifica Ricardo Dias.
Nestes dias, "segundo a informação que se tem neste momento, tudo aponta para que esta tempestade se tenha iniciado numa zona que era um antigo lago que secou. O leito desse lago foi atomizado e, portanto, o resultado é esta poeira".
Sobre a frequência destes eventos, "não tem havido uma tendência crescente significativa". Todavia, observa-se "uma alteração dos padrões e da intensidade deste fenómeno".
Poeiras: impactos positivos e riscos
Ao contrário do que se pensa, as areias africanas trazidas no ar também têm aspectos positivos. "Pode ser uma mais-valia, também, do ponto de vista da agricultura. Estas poeiras podem cair em terrenos não tão ricos em matéria orgânica e em matéria mineral, como no Alentejo. Muitas vezes, são positivas", começa por notar o professor da FCUL.
"No continente europeu e temos identificado, inclusive, que algumas das bactérias [presentes nas poeiras] até ajudam a fixar o azoto atmosférico das plantas e, portanto, aumenta a capacidade das plantas aproveitarem o azoto e crescerem", exemplifica.
Mas tudo isto depende "especificamente de onde vêm as poeiras, portanto não é algo que aconteça sempre. Têm de vir de uma zona que tenha muita matéria orgânica, em que haja uma antiga floresta, com muitas destas bactérias presentes".
Por outro lado, é preciso olhar sempre para os riscos. "Nós, inclusive, temos um programa de monitorização de riscos das poeiras. Tecnicamente, nós chamamos isto de aerossóis. Avaliamos sempre o risco para a saúde humana, a produção animal e a agricultura, mas também o potencial biótico".
"Tudo o que representa um desafio, ou seja, um risco, também representa uma oportunidade. Portanto, esta é a forma que nós temos de olhar também para esta área da ciência", evidencia.
Quanto aos riscos, o professor universitário lembra que "nunca é demais pecar por aviso. Ou seja, vale mais avisar e não acontecer nada, do que não avisar e acontecer".
Assim, "há um efeito que, se for químico, é inegável de qualquer tipo de poeira": são partículas "muito pequenas que, ao serem inaladas pelo ser humano, podem de facto ficar no sistema respiratório".
"Há pessoas que têm determinadas doenças e há grupos de risco. Crianças, idosos, pessoas imunosuprimidas, que têm doenças respiratórias crónicas. Efetivamente, representa um risco. Por isso é que as recomendações da Direção-Geral da Saúde têm sido no sentido de proteger essas populações", recorda o professor universitário.
Fora destes grupos, as poeiras também afetam quem faz desporto no exterior. "O que vai acontecer é que a pessoa vai respirar muito mais as partículas. Portanto, obviamente, pode criar, do ponto de vista fisico-químico, uma reação no próprio corpo. Mais vale prevenir".
Para Ricardo Dias, estes impactos são também medidos no trabalho desenvolvido na Faculdade de Ciências de Lisboa. "Temos um programa que está dedicado exatamente à resiliência e à segurança biológica e avaliamos que bactérias é que estão presentes nestas partículas, se podem transportar doenças e, se sim, se esse risco é um risco negligenciável ou um risco que obriga a que haja medidas de mitigação".
"Quando há estes eventos, fazemos testes para perceber que bactérias inclusas é que estão presentes nestas partículas e que risco é que realmente representam", remata.
Fonte: Sapo Notícias