Imagine que, a cada minuto, 18 estádios de futebol desaparecem no mundo. Agora, repita o exercício visualizando cada um desses espaços repleto de árvores que morrem. Parece uma imagem saída de um filme catastrófico que antecipa o fim do planeta. Mas não. Esta é mesmo a realidade quando analisamos a perda de floresta tropical primária a nível global. E se a estes dados da “Global Forest Review”, relatório anual do World Resources Institute que analisa informação sobre o estado das florestas, juntarmos informação sobre todos os tipos de floresta, o cenário amplia a sua imagem devastadora.
Na véspera do Dia Internacional das Florestas, que se celebra este sábado, verifica-se que em Portugal, só em 2024, o país perdeu 30 mil hectares de floresta, grande parte da destruição provocada por incêndios florestais, mas também devido ao crescente abandono rural, à acumulação de biomassa combustível, às alterações climáticas, que aumentam a frequência de ondas de calor e de secas, e também por pragas e doenças, agravadas por stresse hídrico. A boa notícia é que a combinação de ferramentas tecnológicas, dados transparentes e políticas públicas de gestão e ordenamento do território eficazes permite trilhar um caminho de proteção e restauro destes ecossistemas essenciais. Mais do que é do conhecimento público, há muita investigação em torno do tema da floresta, que, apesar de ainda não ter saído do laboratório, representa soluções promissoras para garantir a sustentabilidade destes ecossistemas.
Bem perto de Aveiro, num pequeno e discreto edifício integrado na Quinta de S. Francisco, há um autêntico santuário de biodiversidade, onde coabitam mais de 400 espécies de flora e cerca de 70 de aves, num conjunto de laboratórios. Ali, lado a lado com os tubos de ensaio, estão equipamentos tecnológicos que guardam a investigação que se faz no Raiz — Instituto de Investigação da Floresta e Papel, organismo privado e sem fins lucrativos que nasceu há 40 anos de uma parceria entre a então Portucel, as Universidades de Aveiro e Coimbra e o Instituto Superior de Agronomia.
Naquele que é hoje reconhecido como o maior instituto privado na Europa e um dos maiores do mundo dedicado à I&D (investigação & desenvolvimento) da floresta de eucalipto e seus produtos, Catarina, Daniela e André são alguns dos cientistas por detrás da inovação que contribui para o registo das 53 famílias de patentes, facto que coloca o instituto entre os primeiros, de acordo com o “Barómetro Inventa 2024 — Patentes Made in Portugal”. Carlos Pascoal Neto, diretor-geral do Raiz, sublinha: “Somos a primeira entidade privada, não académica, neste ranking.”
“É um mundo fascinante, que poderá representar a próxima vantagem competitiva para Portugal”, diz Carlos Neto.
Regressemos aos bastidores da investigação no Raiz. No laboratório de pragas, Catarina Gonçalves trabalha no controlo biológico de insetos que atacam o eucalipto. Mostra o minúsculo parasitoide bom que revolucionou o combate ao gorgulho. “Chegam a parasitar mais de 90% dos ovos.” O processo é lento e rigoroso: cada novo organismo benéfico passa meses em quarentena e testes exaustivos para garantir que não afeta espécies nativas.
Noutra frente de combate, Daniela Ferreira lidera o programa de melhoramento genético do eucalipto, um trabalho de décadas que permitiu ganhos de “40% em produtividade e na qualidade da madeira”. O processo é longo — cada ciclo demora 15 a 20 anos —, mas essencial para criar plantas mais resistentes à seca e às pragas.
Numa vertente mais tecnológica, André Duarte, especialista em deteção remota, explica que hoje é possível antecipar fenómenos como pragas ou incêndios graças à leitura de padrões de dados em imagens de satélite e drones. “Às vezes parece que a informação não nos diz nada, mas quando juntamos tudo conseguimos explicar o fenómeno”, afirma. Todos os anos a sua equipa produz cartografia de perigosidade, essencial para ações de prevenção. Do Raiz já saiu investigação que se transformou em produto. Por exemplo, a embalagem sustentável, desenvolvida a partir de um material moldado 100% de fibra de eucalipto, pensada para substituir plásticos de uso único, que já está em produção industrial.
No pipeline de inovação há muito mais. Biocompósitos que reduzem em 40% a 50% o uso de plástico fóssil. Couro sintético à base de celulose. Nanocelulose para cosmética e saúde. Prebióticos extraídos da pasta branca. Óleos essenciais retirados das árvores. Celulose bacteriana com aplicações que vão da medicina regenerativa à proteção balística. “É um mundo fascinante”, resume Carlos Pascoal Neto. E ao percorrermos os corredores do Raiz percebemos que não é exagero, mas sim uma antevisão do que “poderá ser a próxima grande vantagem competitiva de Portugal”.
Fonte: Jornal Expresso