Portugal foi o único país europeu a registar crescimento no mercado cervejeiro em 2025. Os números do impacto económico do sector impressionam – 7,3 mil milhões de euros de efeito total na economia nacional –, mas a Associação Portuguesa de Cervejeiros (APCV) quer mais do que dados: quer que o Governo trate o sector com a seriedade que os números justificam.
Num panorama europeu marcado pela contração, Portugal destaca-se. O mercado cervejeiro nacional cresceu 0,8% em 2025, numa altura em que vários mercados maduros registam quedas expressivas. Em termos de consumo, 2025 foi o melhor ano de sempre: 6.354 mil hectolitros, o valor mais alto da série histórica. A produção acompanhou esta tendência e atingiu 8.098 mil hectolitros, o nível mais elevado desde 2012.
Outro fator que distingue Portugal de outros mercados é a estrutura do consumo: 70% da cerveja consumida no país é bebida fora de casa, em cafés, restaurantes, bares e espaços de lazer. Esta característica amplifica o efeito multiplicador do sector sobre a economia e é precisamente isso que um estudo recente da Nova School of Business and Economics, encomendado pela APCV, veio quantificar com precisão.
Os números do estudo são expressivos. Em 2024, as cervejeiras portuguesas faturaram 1.122,48 milhões de euros em vendas diretas (sem IVA), o que corresponde a 0,20% de todas as vendas em Portugal. O output total situou-se em 1.019,04 milhões de euros. O valor acrescentado bruto direto foi de 329,01 milhões de euros, os salários pagos ascenderam a 85,41 milhões de euros e o sector empregou diretamente 2.519 pessoas. Dentro da indústria de bebidas, o peso é ainda mais significativo: as cervejeiras respondem por 25,49% do volume de negócios, 28,52% do VAB e 13,69% do emprego de todo o sector.
João Duarte, investigador da Nova School of Economics e responsável pelo estudo, recorre a uma metáfora para explicar este efeito: “Estes cervejeiros são radiadores que aquecem toda a economia, desde que não haja muitas fugas no quarto”. Em Portugal, há poucas fugas: o fornecimento é maioritariamente nacional – Portugal importa apenas levedura –, e o consumo concentra-se no canal fora de casa, onde cada cerveja consumida arrasta consigo valor acrescentado de restaurantes, cafés e hotéis.
O efeito multiplicador é concreto e mensurável: cada milhão de euros de atividade económica direta gerada pelo sector cervejeiro contribui, em média, para 11,99 milhões de euros adicionais em output na economia, 5,93 milhões de euros em VAB, 2,26 milhões de euros em receita fiscal e 167 postos de trabalho em equivalente a tempo inteiro. Traduzindo este multiplicador para um rácio de emprego: um posto de trabalho direto na indústria cervejeira origina 68 empregos indiretos em sectores relacionados, da indústria vidreira à distribuição, passando pelo retalho e pela restauração.
A produtividade do sector também impressiona: o valor acrescentado bruto por trabalhador cresceu de 105 mil euros em 2021 para 130 mil euros em 2024, um aumento de 24% em três anos. Este valor é quase três vezes a média da economia portuguesa – que se ficou pelos 45 mil euros em 2023 – e quase o dobro da média do sector de bebidas no seu conjunto.
A contribuição do sector para a receita fiscal é igualmente relevante: 2,73% de todos os impostos diretos analisados (Segurança Social, IRS, IRC e IVA). “O sector tem estado a fazer bem, apesar do risco regulatório e fiscal. Mas isto é apesar desse risco, não por causa dele”, sublinha o investigador da Nova SBE.
Quando se contabilizam os efeitos diretos, indiretos e induzidos – incluindo o impacto sobre a restauração e a distribuição –, o efeito total no PIB ascende a 7.331,5 milhões de euros, representando 2,53% do Produto Interno Bruto nacional em 2024. O impacto total em output é de 12.216,6 milhões de euros, o VAB total gerado chega a 6.042,6 milhões de euros e a receita fiscal total mobilizada ascende a 2.300,5 milhões de euros. Em termos de emprego, o sector suporta, direta e indiretamente, 170.283 postos de trabalho em equivalente a tempo inteiro.
“Quando pensamos em mudanças neste sector – fiscais ou regulatórias–, há todos estes efeitos indiretos que têm de ser considerados, não só sobre a economia, mas também sobre o financiamento de eventos sociais e desportivos em todo o país”, reforça o investigador da Nova SBE.