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Resíduos à Prova: Economia Circular em Portugal – Promessa ou Realidade?

  • Monday, 20 July 2026 12:34

A economia circular já entrou na agenda das empresas portuguesas, mas a transformação real ainda enfrenta obstáculos. Enquanto projetos-piloto e iniciativas de reciclagem crescem, a maioria das organizações mantém práticas lineares. Estaremos a repensar produtos e processos ou apenas a gerir melhor o fim da linha?

A economia circular consolidou-se como um dos conceitos estruturantes da política ambiental europeia e da agenda estratégica das empresas. Em Portugal, multiplicam-se os compromissos públicos, os relatórios de sustentabilidade e os projetos-piloto. Mas estaremos perante uma transformação estrutural dos modelos de produção e consumo ou tratar-se-á apenas de uma gestão mais eficiente do “fim da linha”?

Os vários interlocutores ouvidos pela Green Savers – associações empresariais, municípios, plataformas tecnológicas e empresas do setor alimentar – convergem num ponto: houve avanços claros, mas divergem quanto à profundidade da mudança.

Do consenso à transformação estrutural

Para Filipa Pantaleão, Secretária-Geral do BCSD Portugal, organização que representa grandes empresas líderes em sustentabilidade, o consenso no discurso “é um avanço importante, mas ainda estamos numa fase de transição”. Em Portugal, acrescenta, “há já empresas que estão a repensar produtos, materiais e cadeias de valor, mas a maioria continua num modelo híbrido: mantém uma lógica linear e introduz melhorias incrementais, sobretudo ao nível da eficiência e da gestão de resíduos. Isso não é irrelevante, mas não é ainda economia circular plena”. Segundo a responsável, a mudança estrutural “exige redução, redesenho de processos, colaboração ao longo da cadeia e novos modelos de negócio, servitização e isso ainda está longe de ser generalizado.”

Ou seja, muitas empresas já otimizam consumos, melhoram taxas de reciclagem ou reduzem desperdícios, mas continuam a operar num paradigma essencialmente linear. A circularidade plena implica questionar volumes, matérias-primas, durabilidade e até o próprio modelo de negócio.

Também no plano dos compromissos públicos, a dirigente reconhece progressos, mas alerta para o risco de superficialidade: “os compromissos públicos têm valor porque criam pressão interna e externa e colocam a empresa mais sujeita ao escrutínio. Mas só ganham credibilidade quando se traduzem em metas claras, indicadores mensuráveis e decisões concretas de investimento”. Filipa Pantaleão não tem dúvidas: “o risco do ‘green reporting’ existe, sobretudo quando a sustentabilidade fica confinada à comunicação”. Explica que o que têm vindo a defender no BCSD Portugal “é precisamente a integração destes compromissos na estratégia e na governação das empresas, com impactos reais nos modelos operacionais” e diz que a “boa notícia” é que veem “cada vez mais empresas a fazer esse caminho”. Ainda não são a maioria, alerta, “mas são um sinal de mudança.”

A integração da sustentabilidade na governação corporativa – e não apenas nos departamentos de comunicação – surge como um dos principais testes à maturidade do tecido empresarial.

Circularidade começa antes do resíduo

Uma das ideias mais reiteradas é que a economia circular não se esgota na reciclagem. Para Filipa Pantaleão, “não existe circularidade real sem mexer nos modelos de produção e de consumo. A circularidade começa muito antes da geração do resíduo: começa no design, na escolha de materiais, na durabilidade dos produtos, na forma como são utilizados. Em muitos casos, o que ainda vemos é uma melhoria na gestão do resíduo – que é importante – mas que não altera a lógica de fundo”. A “verdadeira economia circular”, continua, “questiona volumes, padrões de consumo e a própria proposta de valor das empresas”.

A hierarquia é clara: reduzir, reutilizar, reparar, redesenhar e, apenas no final, reciclar. Ainda assim, é este último passo que concentra a maior parte dos indicadores e das metas empresariais.

“Acho difícil uma empresa afirmar ser circular, pela enorme dimensão do critério. Na maior parte dos casos, ainda estamos a falar sobretudo de reciclagem. É o nível mais visível em termos de dados, mas nem por isso é mais fácil de implementar. A hierarquia da circularidade é clara: primeiro reduzir, depois reutilizar, reparar, redesenhar, e só no fim reciclar”, explica. Filipa Pantaleão considera que algumas empresas em Portugal “já estão a trabalhar seriamente na redução na origem e no ecodesign, mas ainda são exceções” e que o desafio agora “é fazer essa transição deixar de ser experimental e passar a ser mainstream”. O Passaporte digital do produto “vai ser revolucionário em determinadas indústrias”, afiança.

O futuro passaporte digital do produto, previsto na legislação europeia, poderá obrigar a uma maior transparência sobre composição, origem e ciclo de vida, tornando mais difícil manter modelos pouco sustentáveis.

Regulação: conformidade mínima ou vantagem competitiva?

A pressão regulatória europeia – do Plano de Ação para a Economia Circular ao Pacto Ecológico Europeu – tem sido determinante para colocar o tema no topo da agenda empresarial. “A regulação europeia ambiental é desde há muito tempo um dos principais motores da mudança. Sem ela, muitos destes temas não estariam sequer na agenda de topo das empresas”, explica. No entanto, passado tanto tempo, para a responsável, há dois tipos de resposta: a da conformidade mínima e a da antecipação estratégica. “Algumas empresas limitam-se a cumprir o essencial; outras usam a regulação como alavanca para inovar, diferenciar-se e ganhar competitividade. O papel do BCSD Portugal é precisamente ajudar as empresas a passarem da lógica defensiva para uma lógica de criação de valor e de maior competitividade”, afirma.

A transição implica riscos e investimento, num contexto económico exigente: “a transição circular implica investimento, incerteza e, muitas vezes, questionar modelos que foram bem-sucedidos durante décadas. Mudar o que ‘sempre foi assim’, exige liderança, visão de longo prazo e capacidade de assumir riscos. Mas também é verdade que muitas lideranças estão hoje sob enorme pressão regulatória, financeira, competitiva e nem sempre têm espaço para experimentar. O que tentamos mostrar é que a economia circular não é apenas um custo: é uma oportunidade de segurança no abastecimento de matérias-primas, inovação e criação de valor num contexto de escassez de recursos e instabilidade crescente. A coragem aumenta quando a visão estratégica é clara”, conclui.

Lisboa: integração empresarial em contexto urbano

Ao nível municipal, Lisboa tem procurado assumir-se como território de experimentação e escala. A vereadora Joana Batista sublinha o envolvimento progressivo das empresas: “Lisboa tem vindo a construir, de forma consistente, uma estratégia de gestão de resíduos alinhada com os princípios da economia circular, e essa estratégia não seria viável sem o envolvimento progressivo do tecido empresarial. Hoje, as empresas estão cada vez mais integradas, em particular nos setores da restauração, hotelaria e comércio, através de projetos específicos de recolha seletiva, acordos de adesão voluntária e programas de acompanhamento técnico de proximidade.”

No entanto, reconhece que o grau de integração “não é homogéneo”. Enquanto algumas empresas já incorporam a gestão de resíduos como parte integrante da sua estratégia de sustentabilidade, outras continuam a encará-la de forma mais reativa. A integração plena “dependerá, nos próximos anos, de um maior investimento em soluções de reutilização, bem como do reforço dos mecanismos de financiamento e de coordenação entre entidades públicas e privadas, fatores determinantes para consolidar este percurso até 2030”, sublinha.

Segundo a autarca, os projetos de recolha seletiva de biorresíduos junto do setor empresarial “têm registado uma adesão crescente, sobretudo nos estabelecimentos com maior produção, onde os benefícios operacionais e ambientais são mais evidentes”. Lisboa conta, aliás, com o maior projeto nacional de recolha de biorresíduos, iniciado em 2005, que atualmente abrange cerca de 3 000 estabelecimentos comerciais, unidades de hotelaria e restauração, mercados, bem como cantinas escolares e hospitalares em toda a cidade.

No caso dos têxteis, acrescenta, estão perante um fluxo relativamente recente, tanto do ponto de vista regulatório como operacional e isso implica desafios adicionais. “Persistem dificuldades ao nível da separação na origem e da perceção do valor do resíduo, acrescidas do facto de, à escala nacional e europeia, a infraestrutura e os mecanismos de responsabilidade alargada do produtor ainda necessitarem de aceleração para viabilizar uma recolha estruturada e sustentável. Os municípios encontram-se, por isso, em fase de ajustamento às metas definidas para 2030, num contexto marcado por restrições de financiamento”, revela.

Para Joana Batista, o papel do município é estrutural: “o município deve assumir um papel de facilitador, articulador e exemplo. Facilitador, criando infraestruturas, soluções logísticas e modelos de recolha adaptados à realidade urbana. Articulador, promovendo parcerias entre empresas, operadores, entidades do sistema e centros de conhecimento. E exemplo, integrando critérios de economia circular nas suas próprias práticas e contratação pública”.

Questionada sobre o que falta para que a gestão de resíduos empresariais em contexto urbano deixe de ser vista apenas como uma obrigação legal e passe a ser encarada como uma oportunidade de inovação, a autarca responde que “falta, sobretudo, uma mudança cultural apoiada por instrumentos económicos e regulatórios mais inteligentes”. A vereadora não tem dúvidas: “Quando a gestão de resíduos é vista apenas como custo, o potencial de inovação fica bloqueado. Quando passa a ser entendida como fonte de eficiência, de novos modelos de negócio e de diferenciação competitiva, o paradigma muda”.

“Cabe ao município, em articulação com o setor empresarial, criar esse ambiente favorável: com incentivos, projetos demonstradores, partilha de boas práticas e valorização pública das empresas que lideram pelo exemplo. A inovação surge quando existe visão, confiança e um ecossistema que a suporte”, remata.

Resíduos industriais: potencial por explorar

A Associação Smart Waste Portugal tem como missão potenciar a Economia Circular nas várias cadeias de valor, através da educação, inovação, colaboração e criação de novos negócios. No contacto direto com os mais de 155 associados que atualmente integram a esta rede, é visível uma crescente consciência e visão mais estratégica da gestão de resíduos enquanto recursos. Estas organizações demonstram uma preocupação crescente em reduzir a produção de resíduos através de processos produtivos mais eficientes e a identificação de novas oportunidades para a sua valorização, encarando-os como potenciais geradores de valor económico. “O trabalho que desenvolvemos procura precisamente reforçar esta abordagem, promovendo o contacto e o networking entre empresas e contribuindo para o desenvolvimento de novos modelos de negócio circulares”, diz Luísa Magalhães, Diretora Executiva da Associação Smart Waste Portugal à Green Savers.

No entanto, acrescenta, de forma mais ampla, “consideramos que ainda predomina na maioria das empresas portuguesas uma lógica tradicional de gestão de resíduos, fortemente centrada no cumprimento das obrigações legais e na minimização de custos”.

Para a responsável, a visão dos resíduos como recursos estratégicos “começa a emergir, e é esse o caminho que pretendemos, mas não é ainda transversal ao tecido empresarial, sendo mais evidente em empresas de maior dimensão ou integradas em cadeias de valor internacionais”. Muitas pequenas e médias empresas (PME) “continuam a adotar uma abordagem essencialmente reativa”, lamenta, sublinhando que esta realidade “reflete-se também na baixa taxa de circularidade de Portugal, que se encontra entre as mais reduzidas da União Europeia, com estimativas recentes para 2024 a apontarem para cerca de 3%, significativamente abaixo da média europeia, que ronda os 12%”.

Simbioses industriais crescem, mas ainda não são mudança estrutural

Luísa Magalhães explica que, em Portugal, as simbioses industriais “continuam a assumir, maioritariamente, um carácter pontual, não configurando ainda uma mudança estrutural consolidada na forma como as empresas se relacionam entre si. Apesar da existência de exemplos bem-sucedidos, estes estão frequentemente associados a projetos-piloto, clusters industriais específicos ou iniciativas apoiadas por fundos públicos, o que limita a sua replicabilidade e continuidade no tempo.”

Na prática, as parcerias identificadas envolvem geralmente um número reduzido de empresas e centram-se na troca direta de resíduos, subprodutos ou fluxos de água e energia. Embora revelem potencial, continuam longe de atingir escala nacional.

“Atualmente, a maioria das simbioses industriais identificadas ocorre entre um número reduzido de empresas, normalmente envolvendo a troca direta de resíduos ou subprodutos, bem como outros fluxos hídricos e energéticos. Embora estes casos demonstrem claramente o potencial da simbiose industrial enquanto ferramenta de promoção da economia circular, a sua escala permanece ainda limitada. Apesar de começar a aparecer uma cultura de partilha, muitas empresas ainda trabalham numa lógica autocentrada e fechada”, adianta.

A fragmentação do sistema é apontada como um dos principais obstáculos à consolidação de soluções circulares eficazes. A multiplicidade de operadores, interpretações regulamentares distintas e fraca articulação territorial criam incerteza e dificultam a criação de fluxos estáveis de materiais.

“A fragmentação do sistema constitui um dos principais entraves à implementação eficaz de soluções de economia circular. A coexistência de múltiplos operadores, interpretações regulatórias distintas e uma fraca articulação à escala territorial dificulta a criação de fluxos estáveis de materiais e o desenvolvimento de soluções integradas e escaláveis. Para muitas empresas, esta complexidade transforma a opção circular numa alternativa mais exigente, incerta e arriscada quando comparada com os modelos lineares tradicionais”, alerta.

A complexidade administrativa e a burocracia associada, nomeadamente aos processos de desclassificação de resíduos, também travam o avanço. “Acresce que a economia circular implica cadeias de valor mais complexas, envolvendo um maior número de atores e exigindo processos logísticos, administrativos e de coordenação mais sofisticados. A limitada colaboração entre os diferentes intervenientes, a dispersão legislativa e a burocracia associada, nomeadamente aos processos de desclassificação de resíduos, comprometem a adoção e a consolidação de práticas circulares”, afirma.

Entretanto, continuam a existir resíduos empresariais com elevado potencial de valorização que acabam em aterro, por falta de mercado, soluções economicamente viáveis ou articulação entre produtores e utilizadores: “Sim, existem resíduos das empresas com elevado potencial de valorização que continuam a ser encaminhados para aterro. As razões são variadas e incluem a falta de mercado a nível nacional ou de soluções economicamente viáveis, limitações logísticas, falta de conhecimento sobre oportunidades de valorização, ausência de articulação entre produtores e potenciais utilizadores, e, em alguns casos, falta de prioridade estratégica dentro das próprias empresas. Em muitos cenários, são falhas do sistema que impedem esta valorização”, explica Luísa Magalhães.

Apesar do reforço político e mediático do tema, a execução no terreno tem ficado aquém das ambições: “O discurso em torno da economia circular tem avançado mais rapidamente do que a sua capacidade real de implementação no terreno. (…) Existe, assim, uma diferença clara entre a ambição declarada e a capacidade efetiva de execução”, lamenta.

Em 2024, a taxa de utilização circular de materiais em Portugal situava-se em cerca de 3%, um dos valores mais baixos da União Europeia, sinal de que a transição permanece lenta. A associação considera, por isso, pouco realista esperar que a circularidade avance apenas por iniciativa privada: “é pouco realista esperar que a circularidade se imponha exclusivamente por iniciativa das empresas. Embora o setor privado tenha um papel central na transição para a economia circular, a sua atuação depende fortemente da existência de um enquadramento favorável, assente em políticas públicas claras, incentivos económicos adequados, estabilidade regulatória e mecanismos de apoio ao investimento.”

Neste contexto, a plataforma digital myWaste surge como ferramenta de ligação entre oferta e procura de materiais com potencial de valorização. “A plataforma myWaste funciona como um marketplace digital B2B onde as empresas podem disponibilizar resíduos, subprodutos e materiais com fim de estatuto de resíduo, tais como vidro, materiais cerâmicos, madeira, plástico, resíduos vegetais, subprodutos industriais e outros fluxos com potencial de valorização, provenientes de vários setores”, esclarece Luísa Magalhães.

Ainda assim, o seu impacto depende da vontade efetiva das empresas em mudar práticas: “a plataforma myWaste é uma ferramenta relevante para facilitar e acelerar o contacto entre empresas e identificar oportunidades de valorização de resíduos. No entanto, por si só, não é suficiente para garantir simbioses industriais”, remata.

Desperdício Alimentar nas empresas: da visibilidade à ação concreta

Apesar de o desperdício alimentar ter ganho visibilidade nos últimos anos, continua a ser um desafio em Portugal. Dados do INE indicam que foram desperdiçadas cerca de 1,93 milhões de toneladas de alimentos em 2023, com os setores do retalho e da restauração (HORECA) a representarem cerca de 23% desse total.

Tiago Figueiredo, Interim Country Director da Too Good To Go em Portugal, admite que “a visibilidade do desperdício alimentar é essencial, mas ainda há um longo caminho a percorrer”. Para o responsável, “a boa notícia é que cada vez mais empresas estão a agir de forma concreta, seja através de melhores práticas internas, seja integrando soluções como a Too Good To Go para salvar alimentos que, de outra forma, seriam desperdiçados”.

Atualmente, mais de 4.000 negócios portugueses já participam na app, vendendo Surprise Bags com excedentes. Segundo Tiago Figueiredo, “o objetivo, porém, é ir além da gestão aceitável e diminuir o desperdício desde a origem, com planeamento mais inteligente, previsões mais rigorosas, formação de equipas e integração de metas de sustentabilidade nos KPIs operacionais. Essa transição é o que transforma a visibilidade em impacto real, e é exatamente para isso que trabalhamos todos os dias.”

A utilização da Too Good To Go levanta dúvidas sobre se funciona apenas como válvula de escape. O responsável esclarece: “A Too Good To Go foi criada com a missão de inspirar e capacitar todos a agir contra o desperdício alimentar. Fazemo-lo através de campanhas de sensibilização que incentivam os consumidores a passar à ação e também através de soluções concretas, como a nossa app, que apoia os negócios alimentares na redução do desperdício no seu dia a dia.”

Tiago Figueiredo explica que a app “disponibiliza uma solução simples e fácil de integrar nas operações diárias dos estabelecimentos: os negócios colocam à venda Surprise Bags com excedentes alimentares a um preço reduzido, os consumidores compram através da app e recolhem os alimentos no horário definido. Desta forma, evitam-se desperdícios, gera-se valor a partir de excedentes e cria-se impacto real. Este modelo ajuda também as empresas a repensar os seus processos de planeamento e logística, promovendo uma gestão mais eficiente e sustentável”.

Além disso, a plataforma atua na educação dos consumidores, mostrando “como pequenas escolhas e comportamentos podem ter um impacto real, desde interpretar corretamente datas de validade até aprender práticas simples do dia-a-dia, como planear melhor as refeições, melhorar a conservação dos alimentos ou recorrer a receitas que ajudam a evitar o desperdício e a consumir de forma mais consciente.”

Questionado sobre se as empresas portuguesas estão dispostas a perder margem ou alterar processos, Tiago Figueiredo explica que “a verdade é que a maioria das empresas hoje já percebe que o desperdício alimentar tem um custo económico real, e essa perceção está cada vez mais clara”. Contam com mais 4000 estabelecimentos parceiros no país e empresas como o Auchan, Continente e Celeiro “compreendem que a redução do desperdício não é uma perda de margem, mas sim uma alavanca de eficiência operacional, contribuindo para a redução de custos, para uma melhor gestão de recursos e para o reforço da confiança junto de clientes e comunidades”, diz.

O responsável destaca ainda que práticas como previsões de procura mais rigorosas e gestão eficiente de stocks permitem muitas vezes proteger a margem, enquanto o combate ao desperdício responde também às expectativas dos consumidores: “Dados recentes mostram que 83% dos portugueses afirmam estar muito preocupados com o desperdício alimentar e que 8 em cada 10 estariam dispostos a mudar de supermercado para outro que oferecesse o mesmo, mas com um maior compromisso ambiental”, revela.

Do marketing à operação

Tiago Figueiredo reconhece que “pode existir quem utilize a redução do desperdício como uma ferramenta de reputação ou marketing, mas o que estamos a observar é uma transformação rápida e consistente. Cada vez mais empresas portuguesas estão a integrar a gestão do desperdício como uma prioridade operacional concreta, com equipas, processos e métricas dedicadas a medir e reduzir o desperdício desde a origem.”

E acrescenta que “ferramentas como a Too Good To Go mostram que salvar excedentes é uma ação tangível com impacto real, mas também ajudam a criar consciência interna nas empresas, levando-as a repensar planeamento, compras e logística, de forma a prevenir que o desperdício aconteça.”

Quanto à resistência das empresas a mudanças estruturais, explica que a integração da app Too Good To Go nas operações diárias “é extremamente simples, precisamente porque queremos que tudo seja fácil para os negócios, poupando tempo e evitando a necessidade de processos complicados”. Mesmo assim, continua, “a resistência que habitualmente encontramos surge sobretudo dos desafios operacionais: sistemas existentes pouco ágeis, falta de dados integrados, rotinas enraizadas e, por vezes, desconhecimento sobre práticas de prevenção efetiva.”

O Interim Country Director da Too Good To Go em Portugal reforça que “quando partilhamos casos concretos, dados de impacto, tais como o facto de Portugal desperdiçar quase 1,93 milhões de toneladas de alimentos por ano e também ferramentas práticas para medir e reduzir desperdício, o diálogo torna-se mais construtivo”. A chave, diz, está em criar, em conjunto, soluções que facilitem a tomada de decisões, internalizem responsabilidades e ofereçam ganhos visíveis a curto e longo prazo. “Mudanças estruturais pedem tempo e compromisso, mas vemos cada vez mais equipas prontas a experimentar, medir e aperfeiçoar, porque percebem que melhorar os seus processos significa melhor serviço, menores custos e maior sustentabilidade real”, sublinha.

Regulação e metas obrigatórias

Sobre a importância de metas e fiscalização, explica que “ter uma regulamentação contra o desperdício alimentar é fundamental, porque acelera o processo ao definir metas concretas e sistemas de reporte que alinham empresas, consumidores e políticas públicas. Metas obrigatórias e fiscalização ajudam a criar uma direção clara e mensurável, tornando mais fácil para todos os atores do ecossistema trabalhar de forma coordenada.”

Ainda assim, acrescenta, “mesmo sem metas obrigatórias explícitas, já se observam resultados significativos através de iniciativas voluntárias, como a integração de soluções como a Too Good To Go: milhões de Surprise Bags já foram salvas e milhares de estabelecimentos passaram a adotar práticas de prevenção e gestão de excedentes.”

Para o responsável, “o que realmente cria mudança é um ecossistema onde empresas, cidadãos e plataformas colaboram, partilham dados e benchmarks, e convergem para um objetivo comum: reduzir o desperdício alimentar de forma mensurável e duradoura. Isso requer liderança, objetivos claros, métricas consistentes e vontade de inovar para além do curto prazo. Cada ação conta: seja salvando uma refeição, repensando processos ou inspirando outros a agir.”

O diagnóstico é claro: há instrumentos, exemplos e enquadramento político. Falta agora transformar casos isolados numa prática sistemática, capaz de alterar estruturalmente a lógica produtiva e colaborativa do tecido empresarial português.

A economia circular já entrou na agenda estratégica das empresas portuguesas. O desafio agora é torná-la dominante – não como exceção inovadora, mas como regra operacional.

Fonte: Green Savers