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Surto de Cyclospora está a mudar a forma como as pessoas comem fruta e saladas

  • Monday, 27 July 2026 14:08

Com o aumento dos casos de diarreia intensa em vários estados norte-americanos, alguns restaurantes começaram a alterar procedimentos.

O Street Beet, um restaurante vegan em Detroit, passou a retirar a primeira camada das alfaces e a lavá-las duas vezes. Cerca de um quarto dos clientes pede agora os pratos sem alface, enquanto outros solicitam que sejam retirados ingredientes como pico de gallo (molho mexicano de tomate, cebola e coentros), coentros e outros vegetais de folha verde. O wrap Caesar de "frango" - preparado com tofu e molho de miso - é um dos pratos mais populares da casa, mas as encomendas diminuíram.

No total, as vendas caíram 3.000 dólares (2.625 euros) na última semana, em comparação com o mesmo período de anos anteriores.

"Estamos a atribuir isso à preocupação da comunidade em relação a comer fora e aos produtos agrícolas vendidos no comércio", diz Danae Florias, diretora de operações do restaurante. "A quebra foi notória e esperamos que continue a ser assim até que o surto diminua, seja controlado e a origem seja identificada", acrescenta.

Será este o fim da salada tal como a conhecemos? Até ao momento, nenhum alimento, produtor ou fornecedor foi identificado como a origem do surto de Cyclospora deste verão. O parasita microscópico foi associado a casos de diarreia intensa em vários estados, sobretudo no Michigan e Ohio. Ainda assim, as folhas para salada e os frutos vermelhos frescos, já associados a surtos anteriores, podem provocar vários dias de problemas digestivos.

Hannah Hargrove, dietista pediátrica em Detroit, diz que a família alterou os hábitos alimentares, sobretudo depois de alguns amigos terem contraído o parasita (todos recuperaram ao fim de poucos dias). Em vez de produtos frescos, passaram a optar por frutos vermelhos e legumes congelados, fruta com casca espessa e conservas de fruta. Continua a lavar os produtos frescos que compra apenas com água, mas garante que agora presta "muito mais atenção" à forma como os lava, em vez de lhes dar apenas uma passagem rápida por água.

Hargrove receia também que a confusão em torno do surto leve as pessoas a fazer escolhas menos saudáveis, lembrando que a maioria já não consome fibra suficiente.

"Como dietista, a última coisa que quero ver é as pessoas deixarem de comer fruta e legumes por causa do surto", aponta.

"É frustrante, porque é verão e é nesta altura que apetece comer coisas frescas e refrescantes", diz Denise, arquivista em Nova Iorque, que reduziu significativamente o consumo de produtos frescos à medida que os casos de Cyclospora aumentaram.

Como as autoridades de saúde recomendaram cozinhar os alimentos até atingirem uma temperatura interna de 70 °C para eliminar o parasita, Denise pondera escaldar a fruta para a continuar a consumir. Entretanto, prefere fruta que possa descascar, como abacates, bananas e limões.

Os wraps Caesar - normalmente um dos seus pratos preferidos - desapareceram, por agora, do menu. O mesmo aconteceu com as cerejas, que estão no pico da época, e com os gyros recheados com alface fresca.

É um pesadelo para quem gosta de fruta e legumes em todo o país. E os restaurantes de alimentação vegetal, que dependem de produtos frescos para grande parte das ementas, já estão a sentir as consequências.

Parasita? Qual parasita?

Nem toda a gente parece preocupada. Em Nova Iorque - onde centenas de pessoas adoeceram devido à Cyclospora - os restaurantes especializados em refeições à base de vegetais continuavam movimentados.

Funcionários do restaurante Sweetgreen, no bairro de Williamsburg, em Brooklyn, disseram que alguns clientes perguntaram pelos protocolos de limpeza da cozinha antes de fazerem o pedido. Ainda assim, o restaurante não registou qualquer quebra nas vendas durante a última semana. O mesmo aconteceu com os estabelecimentos próximos da Cava - uma cadeia de inspiração mediterrânica conhecida pelas taças de salada recheadas de legumes frescos - e da Dig Inn, uma cadeia especializada em refeições rápidas.

O Portia's Cafe, um restaurante vegan em Columbus, Ohio - estado que registou mais de 360 casos confirmados desde 1 de junho - admite que o dia foi mais calmo do que o habitual, mas diz não ter notado diferenças significativas nas vendas. Além de cumprir os protocolos definidos pelas autoridades de saúde, parte dos legumes utilizados é cultivada no próprio restaurante e os restantes são comprados a produtores locais.

Pelo menos nas redes sociais, porém, é impossível escapar ao tema. Até o dicionário Merriam-Webster publicou uma mensagem: "Por favor, evitem todas as saladas, incluindo a palavra." Uma publicação da Sweetgreen na rede social X, que promovia uma taça inspirada nos vencedores do programa "Love Island", foi rapidamente inundada por respostas com piadas sobre o parasita. A cadeia não respondeu ao pedido de comentário da CNN.

Um representante da Taco Bell afirma que a empresa "retirou voluntária e temporariamente alguns ingredientes de um número limitado de restaurantes por precaução", embora as autoridades de saúde não tenham confirmado qualquer ligação entre o surto e a cadeia, nem com qualquer "ingrediente, fornecedor, restaurante ou retalhista específico".

Laurie Schalow, diretora de Assuntos Corporativos e Segurança Alimentar da Chipotle, afirma que a empresa "está a acompanhar a investigação sobre a Cyclospora e, neste momento, não acredita que os ingredientes que utiliza estejam associados ao surto".

"Surtos como este, e possivelmente piores, vão voltar a acontecer"

Não é de estranhar que muitas pessoas receiem a Cyclospora. Depois de infetar uma pessoa, o parasita pode transformar a ida à casa de banho num verdadeiro pesadelo. A diarreia aquosa, as cólicas e o inchaço abdominal podem durar semanas, e algumas pessoas relatam terem passado dias praticamente sem sair da sanita.

"Os dias 1 a 5 foram os piores", escreveu um utilizador do Reddit do sudeste do Michigan, que já levava mais de duas semanas com problemas digestivos. "Sinto-me muito fraco, exausto, stressado, desconfortável e, sinceramente, cheio de dores.

"Nunca na vida tive uma diarreia daquelas", escreveu outro.

Embora a causa exata e a origem do surto continuem sob investigação, o parasita propaga-se quando as pessoas consomem alimentos ou água contaminados com fezes, segundo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC). A contaminação pode chegar às grandes explorações agrícolas de várias formas, incluindo más condições de trabalho, utilização de fertilizantes, escorrências provenientes de explorações pecuárias ou cursos de água poluídos.

Alguns políticos enquadraram o surto no contexto do desmantelamento da infraestrutura de saúde pública levado a cabo pela administração Trump. Em 2025, os CDC passaram a tornar facultativa a vigilância da Cyclospora e de outras doenças transmitidas por alimentos, mantendo obrigatória apenas a monitorização da Salmonella e da E. coli.

"Surtos como este, e possivelmente piores, vão voltar a acontecer vezes sem conta até mudarmos de rumo", afirma Rosa DeLauro, congressista democrata pelo estado do Connecticut.

Nem todos os produtos frescos estarão em risco. A Gotham Greens, empresa de agricultura em estufa com operações em vários estados norte-americanos, afirma no Instagram que os seus produtos são seguros, independentemente do surto, porque as folhas para salada e as ervas aromáticas são "cultivadas em estufas com ambiente controlado, protegidas de muitas das condições exteriores que podem afetar os produtos cultivados ao ar livre".

Influenciadores ligados à alimentação e ao bem-estar têm incentivado os consumidores a deixarem de comprar produtos frescos nos supermercados e a privilegiarem mercados de produtores locais e pequenas explorações agrícolas.

Jeff Stainthorp, proprietário de uma pequena exploração agrícola no estado de Washington, diz que já ouviu preocupações de clientes receosos por causa do parasita, apesar de não existir qualquer surto significativo naquele estado.

No seu caso, o reduzido número de etapas entre a colheita e o consumidor final - ele está presente em todas as fases do processo - dá-lhe confiança na segurança dos produtos, sobretudo porque Washington não emitiu quaisquer alertas ou recolhas de alimentos. Embora as pequenas explorações não estejam imunes a surtos de doenças, por exemplo se a origem for uma fonte de água contaminada, a sua dimensão facilita a monitorização das práticas de segurança.

Nas grandes explorações agrícolas comerciais, as "práticas laborais exploratórias" podem favorecer a contaminação, afirma. Segundo Stainthorp, muitos trabalhadores são pagos em função da quantidade colhida, o que desencoraja pausas para ir à casa de banho ou faltas ao trabalho quando estão doentes.

O agricultor acredita que o receio em torno da Cyclospora poderá ter um efeito positivo: ajudar mais pessoas a compreender as fragilidades do sistema alimentar norte-americano.

"Só espero que isto leve algumas pessoas a refletir sobre a forma como o nosso sistema alimentar está organizado", aponta. "Não é necessariamente bom para o planeta, não é bom para a nossa saúde e também não é bom para as pessoas que trabalham nele."

Fonte: CNN Portugal