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Tecnologia e Digitalização como forma de dinamizar a Agricultura Sustentável

  • Friday, 04 September 2026 10:26

A tecnologia poderá desempenhar um papel determinante na construção de uma agricultura mais sustentável, eficiente e competitiva, mas o verdadeiro potencial da digitalização não reside apenas na introdução de novos equipamentos ou sistemas.

A economia mundial encontra-se cada vez mais digitalizada e conectada, resultado do avanço tecnológico observado nas últimas décadas. A transformação digital tem vindo a ser incorporada nas agendas políticas e económicas de diferentes organizações governamentais e não governamentais, assumindo-se como um importante fator de desenvolvimento económico e social. Neste contexto, a agricultura não poderá ficar afastada desta transformação, sobretudo perante os desafios relacionados com as alterações climáticas, a degradação dos solos, a escassez de recursos, a perda de biodiversidade e a necessidade de garantir a segurança alimentar.

A articulação entre tecnologia e sustentabilidade poderá, assim, contribuir para uma agricultura mais eficiente, competitiva e resiliente. Mais do que aumentar a capacidade produtiva, a inovação tecnológica permite melhorar a utilização dos recursos disponíveis, reduzir desperdícios e apoiar processos de decisão mais informados. A tecnologia assume, desta forma, um papel relevante não apenas na produção e distribuição de produtos agrícolas, mas também na produção e disseminação de conhecimento.

A inovação constitui um dos principais mecanismos de criação de valor acrescentado. Segundo Schumpeter (1934), a inovação está associada à introdução comercial de um novo produto ou de uma nova combinação de elementos existentes, resultante de processos de transformação baseados no conhecimento e na tecnologia. Aplicado à agricultura, este conceito permite compreender que inovar não significa necessariamente substituir os modelos tradicionais de produção, mas encontrar novas formas de combinar conhecimento, recursos e tecnologia para aumentar a eficiência económica e ambiental das explorações.

As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), nas quais se integra o processo de digitalização, têm vindo a alterar os modelos de gestão agrícola. O acesso a dados em tempo real permite monitorizar equipamentos, acompanhar condições de produção e controlar determinados sistemas à distância através de dispositivos móveis, como o smartphone. A possibilidade de recolher e analisar informação poderá melhorar a gestão dos recursos e tornar as explorações mais produtivas e flexíveis.

Esta transformação assume particular importância num setor caracterizado, em muitos territórios, por uma população agrícola envelhecida, por diferentes níveis de qualificação e por limitações ao nível da disponibilidade de mão de obra. A digitalização poderá contribuir para simplificar determinados processos de gestão, apoiar a tomada de decisão e reduzir algumas tarefas repetitivas, criando simultaneamente oportunidades para a entrada de conhecimento e competências digitais no setor.

Portugal e a transformação digital da agricultura

No caso português, a digitalização constitui simultaneamente um desafio e uma oportunidade. De acordo com a Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE, 2022), tendo como referência o Digital Transformation Scoreboard, persistia a necessidade de os países do Sul da Europa acelerarem os seus processos de digitalização face aos países do Norte e Centro da Europa. Ainda assim, Portugal tem apresentado uma evolução positiva em áreas como a transformação digital, o empreendedorismo, o desenvolvimento das infraestruturas digitais e das competências necessárias à adaptação a novos modelos de negócio.

No setor agrícola, esta transformação poderá assumir uma importância ainda maior, tendo em consideração a necessidade de aumentar a produtividade e, simultaneamente, reduzir a utilização de recursos naturais. O investimento tecnológico encontra enquadramento nas políticas agrícolas europeias e nacionais para o período 2023-2027, que procuram promover uma agricultura mais competitiva, sustentável e preparada para os desafios ambientais e económicos.

A sustentabilidade deverá, contudo, ser entendida numa perspetiva integrada. Uma exploração agrícola só poderá ser considerada sustentável no longo prazo se conseguir articular a dimensão ambiental com a viabilidade económica e social. Reduzir o consumo de água ou energia constitui uma vantagem ambiental, mas também poderá representar uma redução dos custos de produção e, consequentemente, uma melhoria da competitividade. Do mesmo modo, aumentar a produtividade através da tecnologia poderá contribuir para a sustentabilidade económica das explorações, desde que não implique uma utilização excessiva dos recursos naturais. Neste sentido, a digitalização poderá funcionar como uma ponte entre sustentabilidade e competitividade. A capacidade de recolher informação, analisar dados e antecipar necessidades permite passar de uma gestão predominantemente reativa para uma gestão mais preventiva e baseada em conhecimento.

Principais áreas de aplicação tecnológica

Entre as tecnologias com potencial para contribuir para a transformação sustentável da agricultura destacam-se a robótica e os drones, os sistemas de gestão digital, as soluções energéticas descentralizadas e os sistemas de irrigação inteligente.

  1. Robótica e drones
    A utilização de drones e equipamentos robotizados permite acompanhar o estado das culturas, identificar possíveis pragas, monitorizar as explorações e, em determinadas situações, realizar intervenções localizadas. A principal vantagem consiste na possibilidade de tornar determinadas operações mais precisas, reduzindo custos e evitando a utilização desnecessária de recursos. A agricultura de precisão poderá, assim, contribuir para substituir intervenções generalizadas por intervenções direcionadas para as áreas que efetivamente apresentam necessidades. Esta abordagem poderá traduzir-se numa utilização mais eficiente de água, fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos, com benefícios simultaneamente económicos e ambientais.
  2. Software de gestão e sistemas cloud
    As plataformas digitais permitem centralizar informação e acompanhar remotamente diferentes indicadores da exploração agrícola. Através de aplicações móveis, o produtor poderá monitorizar consumos, equipamentos, necessidades de rega e outros recursos. A vantagem económica desta tecnologia resulta sobretudo da melhoria da qualidade da informação disponível para a tomada de decisão. Uma melhor informação poderá permitir identificar desperdícios, antecipar necessidades e otimizar recursos, contribuindo para uma gestão mais eficiente da exploração.
  3. Sistemas de energia descentralizados
    A energia representa um dos custos relevantes de muitas atividades agrícolas, nomeadamente quando existe necessidade de bombagem de água, refrigeração ou utilização de equipamentos. A adoção de sistemas de produção energética descentralizada, nomeadamente através de fontes renováveis, poderá reduzir a dependência externa e aumentar a autonomia das explorações. Para além da dimensão ambiental, esta solução poderá assumir uma importância estratégica na gestão do risco. A volatilidade dos preços da energia observada nos últimos anos e neste enquadramento de 2026 demonstrou a vulnerabilidade de empresas e explorações excessivamente dependentes de fatores externos. O investimento em autonomia energética poderá, assim, ser encarado simultaneamente como uma medida de sustentabilidade e de proteção económica.
  4. Irrigação inteligente
    A gestão da água constitui uma das áreas onde a relação entre tecnologia, economia e sustentabilidade é mais evidente. A utilização de sensores capazes de monitorizar a humidade dos solos e as necessidades das culturas permite ajustar a irrigação às necessidades efetivas da produção. Esta tecnologia poderá contribuir para reduzir o desperdício de água e, simultaneamente, diminuir os custos associados ao consumo e à energia necessária para a sua distribuição. Num contexto de crescente pressão sobre os recursos hídricos, a eficiência da utilização da água assume uma importância estratégica para a sustentabilidade futura da atividade agrícola.

Uma visão integrada para a agricultura do futuro

No seu conjunto, estas tecnologias demonstram que a digitalização agrícola não deverá ser entendida apenas como uma questão tecnológica. O seu impacto deverá ser analisado através da relação entre economia, ambiente, conhecimento e sociedade. A agricultura do futuro poderá depender cada vez mais da capacidade de transformar dados em informação e informação em decisões. O acesso a dados meteorológicos, informação sobre solos, necessidades das culturas, consumos energéticos ou disponibilidade de água poderá permitir ao produtor tomar decisões mais eficientes e reduzir a exposição a determinados riscos.  

Esta transformação poderá igualmente gerar efeitos positivos ao longo de toda a cadeia de valor agroalimentar. A digitalização poderá melhorar a rastreabilidade dos produtos, facilitar a ligação entre produtores e mercados, otimizar processos logísticos e criar novos canais de comercialização. Desta forma, o impacto económico da tecnologia não ficará necessariamente limitado à exploração agrícola, podendo estender-se a toda a cadeia de produção e distribuição.

Contudo, a adoção tecnológica também apresenta desafios. O investimento inicial, a necessidade de formação, o acesso a infraestruturas digitais e a capacidade dos agricultores para utilizar estas ferramentas poderão condicionar o ritmo de transformação. Existe, por isso, o risco de a digitalização beneficiar sobretudo as explorações com maior capacidade financeira e técnica, aumentando desigualdades já existentes no setor. A transformação digital deverá, por isso, ser acompanhada por políticas públicas capazes de facilitar o acesso à tecnologia, ao financiamento, à formação e ao conhecimento. A inovação deverá ser colocada ao serviço do agricultor e não constituir um objetivo isolado. Neste contexto, e segundo Neiva (2021), relativo ao alinhamento entre diferentes abordagens teóricas para um modelo sustentável, permite compreender a amplitude da transformação em curso e a necessidade de articular diferentes dimensões da inovação, da economia circular, da bioeconomia e da Agroindústria 4.0. 

Em conclusão, a tecnologia poderá desempenhar um papel determinante na construção de uma agricultura mais sustentável, eficiente e competitiva. Contudo, o verdadeiro potencial da digitalização não reside apenas na introdução de novos equipamentos ou sistemas, mas na capacidade de integrar tecnologia, conhecimento e gestão económica. A agricultura sustentável deverá, assim, ser entendida como um equilíbrio entre viabilidade económica, proteção dos recursos naturais e desenvolvimento social. Nesta perspetiva, a tecnologia não constitui um fim em si mesma, mas uma ferramenta capaz de ajudar o setor agrícola a produzir mais valor utilizando os recursos de forma mais eficiente.

Para Portugal, este processo representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade. A modernização tecnológica poderá contribuir para aumentar a competitividade das explorações, responder às alterações climáticas, reduzir desperdícios e tornar o setor mais atrativo para novas gerações. O sucesso desta transformação dependerá, contudo, não apenas da tecnologia disponível, mas sobretudo da capacidade de a integrar nas realidades económicas e sociais concretas das explorações agrícolas e de apoios económicos via mecanismos europeus e nacionais para garantir um setor estratégico independente e resiliente.

Fonte: sapo.pt