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Especialistas alertam para um ciclo da água cada vez mais imprevisível

  • Friday, 18 September 2026 16:29

A água não está apenas a tornar-se mais escassa em várias regiões do mundo. Está também a tornar-se mais variável e imprevisível, com períodos de seca e cheias a sucederem-se em diferentes partes do planeta. É uma das principais preocupações destacadas por especialistas na sequência do mais recente relatório da Organização Meteorológica Mundial (WMO) sobre o estado dos recursos hídricos globais.

“O relatório mostra que a variabilidade da água, e não apenas a sua escassez, está a tornar-se um desafio determinante à escala global”, considera Jennifer McKay, professora de Direito Empresarial na Adelaide University, numa reação divulgada pelo Science Media Centre.

A especialista chama a atenção para o facto de várias regiões estarem a enfrentar mudanças mais frequentes entre secas e cheias, ao mesmo tempo que se mantêm as tendências de redução do armazenamento de água doce e da massa dos glaciares.

O relatório da WMO mostra que 2025 foi um dos anos com menores caudais dos rios em mais de três décadas. Os caudais estiveram abaixo do normal em 36% da área das bacias hidrográficas globais e, pelo sétimo ano consecutivo, as bacias com condições consideradas “normais” foram uma minoria.

Entre 1991 e 2020, em média, 46% das bacias apresentavam condições normais. Nos últimos sete anos, essa proporção variou entre 34% e 38%.

“Um mundo mais frágil”

Para Mattia Saccò, investigador da Curtin University, a situação é particularmente preocupante porque a redução não se limita aos rios.

“O relatório destaca tendências alarmantes de declínio em todos os principais componentes do ciclo global da água”, afirma o investigador, referindo-se sobretudo à perda de reservas como os glaciares e as águas subterrâneas.

Estas reservas são particularmente importantes porque funcionam como fontes de água durante períodos em que a precipitação é insuficiente. A sua degradação pode ter consequências que ultrapassam a disponibilidade imediata de água, afetando a biodiversidade e a estabilidade dos ecossistemas.

Saccò alerta ainda para possíveis efeitos em cadeia, incluindo a degradação de florestas e zonas húmidas dependentes das águas subterrâneas e a salinização dos solos, com consequências para os ecossistemas e para a agricultura.

Na sua avaliação, a combinação destas tendências está a tornar o mundo “mais frágil”.

Secas, cheias e pouco tempo para recuperar

A sucessão de fenómenos extremos é outro dos aspetos destacados pelos especialistas. Segundo a WMO, nos últimos cinco anos os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais relataram cheias e secas recorde em diferentes regiões do mundo.

Em alguns locais, praticamente não houve tempo de recuperação entre um fenómeno extremo e o seguinte.

Entre 2021 e 2025, as bacias do La Plata e da Amazónia, o Médio Oriente e o Corno de África registaram situações persistentes de seca com duração de vários anos. Em sentido contrário, cheias severas atingiram repetidamente regiões da África Ocidental e Central e do Sudeste Asiático.

A Ásia e África foram as regiões mais afetadas por fenómenos hidrometeorológicos extremos em 2025. Em conjunto, representaram pelo menos metade dos fenómenos extremos relacionados com a água registados nos últimos cinco anos e mais de 80% das mortes associadas.

Para Jennifer McKay, estes dados mostram a necessidade de alterar a forma como se planeia a gestão da água.

A especialista defende que as decisões de longo prazo devem ter em conta uma maior variabilidade climática, em vez de dependerem exclusivamente dos padrões históricos de precipitação e disponibilidade de água.

Glaciares e águas subterrâneas sob pressão

A instabilidade do ciclo da água surge acompanhada por uma tendência mais lenta, mas igualmente significativa: a redução das reservas de água.

O armazenamento de água em terra apresenta uma tendência negativa persistente desde 2014-2016. Este indicador inclui águas subterrâneas, lagos e rios, humidade dos solos, vegetação, neve e gelo.

Os glaciares perderam 408 gigatoneladas de massa durante o ano hidrológico de 2025, com todas as principais regiões glaciadas a registarem perdas pelo quarto ano consecutivo.

Também as águas subterrâneas apresentam sinais de pressão. Entre 2022 e 2025 foram observados défices persistentes em várias regiões, incluindo partes da Europa, das Américas, do Médio Oriente, da Índia, de África Austral e da Austrália.

Mattia Saccò considera que esta evolução deve ser acompanhada de perto, devido à importância das águas subterrâneas para os ecossistemas e para a disponibilidade de água.

Mais dados para antecipar os extremos

Os especialistas destacam ainda a importância de melhorar a monitorização. Embora a quantidade de informação disponível tenha aumentado, África e Ásia continuam entre as regiões com menos observações hidrológicas, apesar de estarem entre as mais afetadas pelos fenómenos extremos.

Para McKay, informação hidrológica fiável é essencial para gerir riscos para as comunidades, agricultura, ecossistemas e infraestruturas.

A própria WMO defende uma maior partilha de dados e sistemas comuns de alerta precoce. A razão é simples: os sistemas de água não respeitam fronteiras políticas. Uma alteração numa bacia hidrográfica ou no regime de degelo pode afetar populações situadas a centenas de quilómetros de distância.

O relatório da WMO, que reúne dados de serviços meteorológicos e hidrológicos, investigadores e outras instituições, acompanha 15 variáveis hidrológicas, desde os caudais dos rios às águas subterrâneas, neve e gelo.

O cenário traçado não é apenas o de um planeta com menos água disponível em algumas regiões. É também o de um ciclo hidrológico mais difícil de prever e, segundo os especialistas, isso obriga a repensar a forma como as sociedades se preparam para a água que têm e para aquela que deixam de ter.

Fonte: GreenSavers

  • Last modified on Friday, 18 September 2026 16:36