Em tempos de perda de biodiversidade, considerada uma das maiores crises planetárias da contemporaneidade, desvendar os mistérios oceânicos é fundamental, pois, como já se sabe, não se pode proteger o que não se conhece.
Desses esforços fazem parte o estudo dos movimentos dos animais marinhos. Seguir no encalço das criaturas que habitam esses mundos permite saber as áreas que são mais importantes para a sua alimentação, para a sua reprodução, para as suas migrações sazonais. Conhecer essas áreas, saber as ameaças que enfrentam e protegê-las devidamente (não apenas no papel) são fatores determinantes para ajudar as espécies que as frequentem e que nelas vivem a prosperarem num planeta em franca transformação.
Ao passo que há algumas décadas esses estudos tinham, quando e onde possível, de ser feitos a olho, com humanos em embarcações em mar ou com lentes de grande alcance a partir de terra, ou através de métodos indiretos, como análises de dejetos e de fragmentos de pele encontrados à deriva, por exemplo, hoje os movimentos dos animais selvagens podem ser revelados em maior detalhe aliando a observação tradicional e mais analógica com tecnologia de ponta, como sensores e satélites.
Um cientista português estudou os movimentos de quatro espécies de animais marinhos que ocorrem nas águas dos Açores e ao longo da Península Ibérica, recorrendo a metodologias tecnologicamente avançadas para, “preencher lacunas críticas de conhecimento” e para contribuir para “estratégias de gestão mais eficazes para diferentes componentes da megafauna marinha vulnerável”.
A tecnologia ao serviço da ecologia do movimento
Quando em 2021 Miguel Gandra iniciou o seu doutoramento, partia de uma pergunta que poderá parecer simples, mas cuja resposta de simples nada tem: como é que algumas das espécies marinhas vivem e se movem?
O grande objetivo do investigador do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve era perceber como que é quatro espécies de animais marinhos se movimentam pelos mares: a corvina (Argyrosomus regius), o peixe-gata ou tubarão gata-lixa (Dalatias licha), o tubarão-albafar (Hexanchus griseus) e o maior peixe o mundo, o tubarão-baleia (Rhincodon typus).
Para deslindar o mistério, usou dados de biotelemetria que foram recolhidos ao longo de mais de uma década em projetos nos quais o cientista participou durante o desenvolvimento da sua tese. Esses dados permitem não só saber por onde anda o animal, mas também fornecer informações sobre a profundidade e a temperatura das águas pelas quais nada.
Aprofundar o conhecimento sobre como so animais vivem e se movimentam de um lado para o outro não revela só dimensões escondidas das suas vidas, mas tem implicações diretas para a sua conservação.
Diz-nos Miguel Gandra que, no caso da corvina, saber que esses peixes regressam aos locais onde nasceram para desovarem “evidencia a vulnerabilidade de certas populações se essas zonas não forem protegidas na época reprodutiva”.
Em alto mar, saber que o gata-lixa e o albafar todas as noites assomam das profundezas, que permanecem durante muito tempo num mesmo local e que machos e fêmeas podem não partilhar os mesmos espaços “melhora a nossa capacidade de prever a suscetibilidade à captura acidental”, afirma o investigador, e permite “ajustar a gestão das pescarias de fundo”.
Quanto ao maior peixe do oceano, saber como os tubarões-baleia se movimentam com o passar das estações do ano e quais as regiões marinhas onde estão mais ativos, bem como perceber as interações com outras espécies, torna possível definir onde e quando é precisa uma maior proteção.
“Estas descobertas mostram que a conservação eficaz não pode ser estática”, avisa Miguel Gandra. “Tem de refletir a forma como cada espécie utiliza o oceano no espaço e no tempo, garantindo que as medidas de proteção incidem precisamente onde – e quando – os animais estão mais expostos às pressões humanas.”
“Para uma conservação mais efetiva e abrangente, precisamos de adquirir mais conhecimento sobre espécies ainda pouco estudadas. Isto não significa apenas estudar mais espécies, mas também aumentar o alcance geográfico dos estudos, incluindo regiões menos exploradas ou com menos capacidade técnica e financeira para implementar investigação ou conservação.”
Fonte: Green Savers