A análise da composição química das conchas da amêijoa-japonesa é uma ferramenta eficaz para identificar a sua origem geográfica e, com isso, combater a rotulagem fraudulenta e a pesca ilegal de centenas de toneladas todos os anos.
A Universidade de Aveiro, onde a técnica foi desenvolvida, relembra que só no dia de Natal de 2025, as autoridades nacionais apreenderam quase cinco toneladas de amêijoa japonesa viva em vários pontos do território nacional destinadas ao consumo humano.
Esta amêijoa é capturada ao longo de todo o ano de forma ilegal na ria de Aveiro, no Estuário do Sado e, sobretudo, no Estuário do Tejo, onde apresenta níveis elevados de metais, estando a sua comercialização viva interdita.
Segundo o biólogo Ricardo Calado, um dos autores do estudo, “este nível de contaminação é tão elevado e persistente que fica ‘impresso’ nas conchas destas amêijoas quando crescem nestes locais, funcionando como códigos de barras naturais”.
Mesmo que a documentação seja falsificada, indicando que as amêijoas provêm do Estuário do Sado ou da Ria de Aveiro, “as assinaturas elementares das conchas expõem essa prática fraudulenta de forma inequívoca”, explica o investigador em comunicado.
O investigador acrescenta que estes códigos naturais não podem ser falsificados e que a equipa da UA está já a validar, em articulação com as autoridades nacionais, soluções portáteis de despistagem em tempo real de amêijoas-japonesas vivas capturadas no Estuário do Tejo, para que possam ser retiradas do mercado e, assim, salvaguardar a saúde pública, incluindo de consumidores estrangeiros, dado que parte deste produto é exportado para outros países europeus.
O estudo revelou ainda que é possível identificar a época de colheita das amêijoas em cerca de dois terços dos casos analisados, uma informação particularmente útil para produtos congelados comercializados com concha.
Potencial para o retalho
Os investigadores garantem que esta abordagem tem um grande potencial para reforçar a rastreabilidade dos produtos do mar, mas sublinham que é essencial manter uma base de dados de referência atualizada, com novas amostras recolhidas a cada seis a doze meses, para garantir a fiabilidade dos modelos.
A equipa está também a validar um pacote tecnológico para transferência desta solução para uma grande empresa nacional do retalho alimentar, que pretende confirmar de forma rápida e precisa que a amêijoa japonesa que comercializa não foi capturada ilegalmente no Estuário do Tejo.
Em paralelo, decorrem colaborações com autoridades nacionais e internacionais, incluindo a Europol, para desenvolver soluções de combate à pesca ilegal, não declarada e não regulamentada e a outras práticas fraudulentas que ameaçam a saúde pública e os ecossistemas marinhos.
Para além de Ricardo Calado, o estudo é assinado por Andreia Santos, Fernando Ricardo, Renato Mamede e Seila Díaz, todos do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, do Departamento de Biologia e do ECOMARE, e por Carla Patinha, do Departamento de Geociências da UA.
Ao longo dos últimos 10 anos, a equipa da UA validou esta abordagem para várias espécies de moluscos bivalves, como o berbigão, a amêijoa boa e a amêijoa japonesa, mas também para polvo, percebes, sardinha e até casulo, um isco vivo usado na pesca desportiva. Foram analisadas partes mineralizadas dos organismos, como conchas e escamas, bem como tecidos moles.
Atualmente, os investigadores estão a iniciar a análise de alimentos processados e de outros produtos alimentares, como carnes, legumes e frutas, na sequência de pedidos de grossistas e autoridades reguladoras do setor alimentar.
Estão igualmente a validar outras soluções técnicas, incluindo assinaturas bioquímicas e tecnologia de raios X para uma determinação elementar mais rápida, suportadas por modelos de machine learning que permitem aumentar a precisão e automatizar a identificação da origem dos produtos.
Fonte: TecnoAlimentar