Durante anos, o debate em torno das proteínas alternativas girou quase exclusivamente em torno da soja, da ervilha e do trigo. O feijão mungo – Vigna radiata, cultivado há milénios na Ásia, Índia e Médio Oriente – ficou à margem, apesar de reunir um conjunto de características que o tornam particularmente atrativo para a formulação de produtos inovadores.
A GlobalData, identificou o feijão mungo como uma oportunidade de inovação de primeira linha para os fabricantes que procuram diferenciar-se no saturado segmento das proteínas vegetais, destacando o seu perfil comparável à carne em termos funcionais como um elemento diferenciador chave.
O mercado global de proteína de feijão mungo foi avaliado em cerca de 890 milhões de dólares e deverá crescer para 1.700 milhões de dólares até 2032, a um ritmo anual composto de 8,5%. Um crescimento expressivo, impulsionado por um conjunto de fatores que se reforçam mutuamente: a transição para dietas mais ricas em proteínas vegetais, a procura de ingredientes com perfil clean label, a expansão do mercado de análogos de carne e a crescente insatisfação dos consumidores com produtos ultratransformados à base de soja.
Funcionalidade que rivaliza com a carne
O argumento técnico a favor do feijão mungo é sólido. A sua proteína apresenta capacidades de absorção de água e de gordura comparáveis às da proteína de soja, dois dos atributos mais críticos para replicar a suculência e a textura da carne em produtos plant-based. Estudos laboratoriais mostram que, em análogos de carne de alta humidade produzidos por extrusão, o isolado proteico de feijão mungo gera estruturas fibrosas semelhantes à carne quando a sua concentração atinge os 40 a 50% da formulação – um resultado que poucas proteínas vegetais conseguem igualar sem recurso a aditivos.
A proteína 8S globulina presente no feijão mungo apresenta uma estrutura molecular com 68% de identidade de sequência com a beta-conglicinina da soja, o que explica o seu comportamento funcional similar. Além disso, a sua capacidade de gelificação melhora com o aumento da temperatura, o que é relevante para processos industriais de alta intensidade. A estas vantagens junta-se uma propriedade sensorial interessante: através de hidrólise enzimática, a proteína de feijão mungo pode desenvolver aroma e sabor subtilmente umami – características tipicamente associadas à carne.
Para além das propriedades funcionais, o feijão mungo acumula vantagens competitivas noutras dimensões que os fabricantes valorizam cada vez mais. É naturalmente hipoalergénico – ao contrário da soja e do trigo, dois dos principais alergénios alimentares -, o que alarga o seu potencial de mercado a consumidores com restrições alimentares específicas. É também uma leguminosa com baixo impacto ambiental, fixadora de azoto no solo, que requer menos água e terra por quilo de proteína produzida do que a maioria das culturas proteicas de referência.
Do ponto de vista do consumidor, a simplicidade do ingrediente é uma vantagem: o feijão mungo é reconhecível, tem história culinária em múltiplas culturas e presta-se a formulações com listas de ingredientes curtas. Num contexto em que 64% dos consumidores globais afirmam preferir produtos plant-based com menos processamento, segundo a Innova Market Insights, este atributo é cada vez mais um critério de decisão de compra.
Europa como terreno fértil, mas ainda subexplorado
Na Europa, o crescimento do mercado de proteínas vegetais encontra suporte nas metas de diversificação proteica que vários retalhistas de peso já assumiram publicamente. A Ahold Delhaize comprometeu-se a que 50% das proteínas vendidas nas suas lojas europeias sejam de origem vegetal até 2030. A Carrefour superou em 2024 o seu objetivo de 500 milhões de euros em vendas plant-based – dois anos antes do previsto. A penetração do feijão mungo neste ecossistema, porém, mantém-se limitada: a maioria das formulações plant-based europeias continua a depender da ervilha e da soja importada.
A diversificação de fontes proteicas é apontada por analistas da GlobalData como uma prioridade estratégica para o sector. A dependência excessiva de poucas culturas cria vulnerabilidade na cadeia de abastecimento e fragiliza a resiliência das marcas em contextos de volatilidade de preços ou disrupção logística. O feijão mungo – cuja produção global atingiu 5,3 milhões de toneladas métricas em 2026, com destaque para a Índia, que registou um recorde de 3,8 milhões de toneladas – oferece uma alternativa com cadeia de abastecimento estruturada e preços relativamente estáveis.
Janela de oportunidade para os fabricantes
O momento é propício para os fabricantes que queiram posicionar-se neste segmento antes que a competição se intensifique. A proteína de feijão mungo é ainda um ingrediente de nicho nas prateleiras europeias, mas a janela está a abrir-se: a procura supera a oferta nos mercados retalhistas europeus e norte-americanos, os custos de extrusão e processamento estão a baixar com a escala, e a investigação sobre modificações tecnológicas da proteína – ultrassonificação, ajuste de pH, spray-drying – está a alargar as suas aplicações funcionais.
As categorias com maior potencial de incorporação incluem análogos de carne (hambúrgueres, salsichas, produtos fatiados), ovos vegetais – onde o feijão mungo já é o ingrediente central em marcas como a JUST Egg - snacks proteicos, bebidas funcionais e produtos de padaria enriquecidos. Em todos estes segmentos, a vantagem competitiva do feijão mungo sobre a ervilha e a soja reside numa combinação difícil de replicar: funcionalidade técnica elevada, perfil nutricional completo, menor alergenia, apelo clean label e uma narrativa de sustentabilidade credível. Para os fabricantes dispostos a investir em formulação e em cadeia de abastecimento, o feijão mungo pode ser o próximo grande salto proteico.
Fonte: Grande Consumo