Portuguese English French German Italian Spanish

  Acesso à base de dados   |   em@il: qualfood@idq.pt

A última gota (da indústria do vinho)

  • Friday, 22 May 2026 14:14

A indústria do vinho está a esgotar o recurso sem o qual nenhum vinho existe. Um relatório global lançado pela Fundação Porto Protocol propõe uma mudança de paradigma urgente.

A vinha sempre viveu à beira do impossível. Cresce em solos pobres, em encostas íngremes, sob calores que serrariam qualquer outra cultura. É essa adversidade que lhe dá carácter. Mas o que durante séculos foi uma tensão produtiva tornou-se, nas últimas décadas, uma ameaça real: a água, essa presença silenciosa que sustenta cada cacho, está a escassear de formas que a viticultura nunca antes enfrentou com esta velocidade nem com esta consistência.

Em maio de 2026, a Fundação Porto Protocol lançou Saving Every Drop in Wine: Global Insights and Solutions from the Porto Protocol Community, um relatório com mais de 200 páginas que representa, até hoje, o levantamento mais abrangente sobre gestão da água na indústria do vinho. 

Da autoria de Jihanny Brecci, o documento reúne contributos de alguns dos mais respeitados especialistas internacionais em viticultura e climatologia – entre eles Cornelis van Leeuwen, da Universidade de Bordéus, Hervé Quénol, Linda Johnson-Bell, Lucrezia Lamastra, Mimi Casteel e Nicolas Quillé MW – e cruza investigação científica com estudos de caso práticos provenientes de produtores de cinco continentes. O resultado é um diagnóstico sobre o que está realmente em jogo, e uma proposta de como repensar, estruturalmente, a relação do setor com a água.

O que os números dizem

A agricultura é responsável por cerca de 70% do consumo global de água doce. A viticultura, dentro desse universo, ocupa uma posição particularmente vulnerável: depende de um equilíbrio climático fino, de sazonalidades previsíveis e de solos com capacidade de reter humidade suficiente para atravessar os meses mais quentes. Portugal, tal como Espanha, enfrentou nas últimas colheitas os dois extremos – secas severas seguidas de chuvas recorde, criando condições de crescimento imprevisíveis. A Espanha viveu em 2025 o terceiro ano consecutivo de seca, com eventos climáticos extremos que resultaram na segunda menor colheita dos últimos 30 anos.

Os dados não deixam margem para conforto. Investigação publicada em revistas científicas de referência aponta que, se o aquecimento global ultrapassar os 2°C acima da média pré-industrial, cerca de 29% das regiões vinícolas atuais poderão registar condições climáticas demasiado extremas para produzir uvas. Um adicional de 41% poderá também tornar-se inadequado para a viticultura caso os produtores não consigam adaptar os seus métodos. As zonas costeiras e de planície da Grécia, Itália, sul da Califórnia e Espanha estão entre as mais expostas. E a emergência de novas regiões vitivinícolas em latitudes mais elevadas – Inglaterra, Escandinávia, partes do Canadá – não compensa, em volume nem em identidade, o que se arrisca a perder no Mediterrâneo.

No Douro, essa realidade é sentida já na conta da adega. A seca severa de 2022 causou perdas de 20% das colheitas na Região Demarcada do Douro, obrigando produtores a rever práticas que consideravam consolidadas. Estudos sobre os efeitos das alterações climáticas na viticultura portuguesa sugerem um declínio nas áreas adequadas ao cultivo da vinha de cerca de 20% a 80% até 2041-2070, dependendo do cenário climático e da disponibilidade de água para rega – o que coloca uma pressão adicional sobre um dos recursos que também escasseia. O paradoxo é cruel: mais calor exige mais água; mas o calor está também a secar as fontes de onde essa água deveria vir.

Uma nova linguagem para a água

A proposta central do relatório Saving Every Drop in Wine não é técnica – ou não apenas. É, antes de tudo, conceptual. Durante demasiado tempo, a água foi tratada pela indústria como um input de produção: algo a gerir, a reduzir, a otimizar. O relatório desafia esse enquadramento, argumentando que essa abordagem é, ela própria, parte do problema. A água não é um recurso isolado. Faz parte de sistemas naturais complexos – ciclos de solo, coberturas vegetais, ecossistemas de bacia hidrográfica – que, quando degradados, deixam de funcionar como reguladores do ciclo hídrico. Uma vinha que esgota o seu solo e elimina a vegetação de suporte está, literalmente, a destruir a sua própria capacidade de reter água.

A viticultura regenerativa surge, neste contexto, como uma das abordagens mais promissoras: ao restaurar a saúde do solo, melhora a capacidade de retenção de humidade e reduz a necessidade de irrigação artificial. Tecnologias de viticultura inteligente, que utilizam sensores e sistemas de monitorização para controlar o uso da água e a saúde da vinha em tempo real, surgem como complemento indispensável, permitindo intervir com precisão em vez de irrigar por precaução ou por rotina.

O relatório, construído a partir do conhecimento coletivo da comunidade Porto Protocol, recusa a ideia de uma solução única. As realidades vitivinícolas são demasiado diversas – do Douro xistoso ao Alentejo argiloso, das encostas da Borgonha aos vales da Napa Valley – para admitir respostas universais. O que propõe é, antes, um princípio comum de orientação: trabalhar com os sistemas naturais, regenerando e fortalecendo os ecossistemas dos quais a produção depende, em vez de os forçar a compensar défices que foram criados pelas próprias práticas agrícolas.

Porto Protocol: a rede que veio do Douro

A origem do Porto Protocol é, por si só, reveladora do que está em causa. A iniciativa foi fundada por Adrian Bridge, CEO da Taylor’s Port, em 2018, com base na convicção de que os efeitos das alterações climáticas podem ser atenuados se todos desempenharem o seu papel. O primeiro evento de lançamento teve Barack Obama como orador principal; o segundo, em março de 2019, contou com Al Gore. Não se tratou de um exercício de relações públicas. O Porto Protocol reúne hoje 500 adegas em 20 países, representando 75.000 hectares de vinhas e 1,2 mil milhões de litros de vinho produzido anualmente.

O que une esta comunidade é uma ideia simples, enunciada por Adrian Bridge com a clareza de quem gere uma empresa com mais de três séculos de história: “Podemos competir em marcas. Não devemos competir em clima.” A lógica é impecável. A água, o solo e o ar são bens comuns. Melhorá-los – ou destruí-los – tem consequências que não ficam dentro das fronteiras de uma quinta nem de uma denominação de origem.

O relatório Saving Every Drop in Wine insere-se numa estratégia mais ampla da Fundação Porto Protocol, que já lançou documentos sobre embalagem e sustentabilidade do packaging, e que agora coloca a água no centro da sua agenda de investigação. O lançamento está a ser acompanhado por uma série de workshops dedicados à gestão hídrica e à adaptação climática no setor vitivinícola, abertos a produtores, técnicos e investigadores em todo o mundo.

A autora do relatório, Jihanny Brecci, definiu-o como “um documento vivo, construído a partir da inteligência coletiva da comunidade Porto Protocol”. A expressão não é retórica. Um documento vivo, por definição, não fica fechado numa gaveta depois do lançamento. Serve para orientar decisões, para alimentar debates, para mudar práticas no terreno. Esse é o teste real de qualquer relatório sobre sustentabilidade: não o reconhecimento que recebe, mas as escolhas que inspira.

O vinho é uma das mais antigas expressões culturais da humanidade. A sua relação com a água – com a chuva que cai no momento certo, com o lençol freático que alimenta as raízes em agosto, com o rio que tempera o microclima da encosta – é tão antiga quanto a própria vinha. O que mudou não é essa dependência. O que mudou é que essa água já não pode ser tratada como garantida. E reconhecer isso, com a seriedade que o momento exige, pode ser a diferença entre uma indústria que sobrevive às próximas décadas e uma que produz, cada vez mais, vinhos de despedida.

Consulte aqui o relatório.

Fonte: sapo.pt