Portuguese English French German Italian Spanish

  Acesso à base de dados   |   em@il: qualfood@idq.pt

Especialistas e decisores apontam inovação e sustentabilidade como motores do futuro do setor lácteo

  • Wednesday, 03 June 2026 09:07

A Cimeira do Leite, organizada pelo Grupo Lactogal, o maior grupo lácteo da Península Ibérica, para assinalar o seu 30.º aniversário, encerrou com um apelo à transformação e à colaboração, de forma a delinear um futuro sustentável e inovador para o setor dos lácteos, foi divulgado em comunicado.

Segundo a mesma fonte, realizado no Super Bock Arena, no Porto, sob o tema “Cuidamos da Origem, Alimentamos o Futuro”, o evento concluiu que o setor está preparado para liderar através de avanços científicos que desafiam dogmas nutricionais, tecnologias que promovem uma verdadeira economia circular e uma abordagem à sustentabilidade que integra o bem-estar ambiental, económico e social.

Na abertura do evento, José Marques, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Lactogal, sublinhou a necessidade de uma reflexão estratégica.

“Quisemos que este fosse, acima de tudo, um momento de reflexão séria sobre o futuro. O setor atravessa uma transformação profunda e esta cimeira nasce da vontade de antecipar tendências e construir uma visão para o futuro, em conjunto”, referiu.

A importância estratégica do setor foi reforçada pela Ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, que presidiu à sessão de abertura.

“Podemos afirmar que o setor do leite é estruturante no país. E não apenas por representar um valor anual superior aos mil milhões de euros, mas porque tem um impacto direto na vitalidade dos territórios, na ocupação do território, na coesão social e na nossa soberania e segurança alimentar”, sublinhou.

Origem e Sustentabilidade: o potencial regenerativo da pecuária

O primeiro painel da Cimeira, dedicado ao tema Origem e Sustentabilidade e moderado por Fernando Cardoso, Diretor Executivo da Proleite, desconstruiu a visão simplista da pecuária como um problema e destacou o seu potencial regenerativo.

Humberto Delgado Rosa, ex-diretor para a Biodiversidade na Comissão Europeia, defendeu que “uma pecuária bem dirigida pode trazer grandes vantagens ecológicas”.

Aprofundando a dimensão do bem-estar animal, Antoni Dalmau, investigador sénior em bem-estar e comportamento animal do IRTA, posicionou esta temática como um pilar social fundamental da sustentabilidade, defendendo que o tratamento ético dos animais é uma “obrigação moral”.

A esta visão, George Stilwell, médico veterinário e Professor Associado da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, acrescentou o conceito de “Uma Só Saúde” (humana, animal e ambiental), defendendo que a redução do uso de antimicrobianos é alcançada através da melhoria do bem-estar animal e da prevenção.

Ciência reforça valor dos lácteos

O segundo painel, dedicado ao tema Nutrição e Saúde e moderado por Liliana Ferreira, Presidente da Direção da Associação Portuguesa de Nutrição, trouxe conclusões que desafiam algumas ideias estabelecidas.

Arne Astrup, consultor em Nutrição Médica no Hospital Universitário de Copenhaga e uma referência mundial na área, apresentou evidências que questionam alguns dogmas relacionados com a gordura láctea.

“A ciência hoje é clara: a gordura saturada proveniente dos laticínios não está associada a doenças cardiovasculares. O que importa é a matriz alimentar. Alimentos como o iogurte e o queijo estão, na verdade, associados a uma vida mais longa e a um menor risco de doenças cardíacas, AVC e cancro”, garantiu.

A relevância nutricional dos laticínios foi reforçada por Nuno Borges, nutricionista e Professor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto.

“Os laticínios contribuem com quase metade do cálcio e, nas crianças, quase 60% do iodo da dieta dos portugueses. Isto é crucial num país onde 60% das mulheres não atingem a dose recomendada de cálcio.”

Com o olhar no futuro da nutrição funcional, Richard Day, Vice-Presidente da ADM Health & Wellness, destacou a importância dos pós-bióticos, “microrganismos inativados que mantêm os seus benefícios para a saúde com a vantagem crucial da estabilidade”, como uma inovação que permite enriquecer produtos como o leite com novas funcionalidades para a saúde digestiva e imunitária.

Tecnologia e inovação expandem fronteiras

O último painel, dedicado à Tecnologia e Inovação e moderado por Manuela Pintado, Professora Catedrática e Diretora Associada da Escola de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, demonstrou como a ciência está a expandir as fronteiras do setor.

Miguel Cerqueira, investigador do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, revelou como a nanotecnologia, inspirada nas próprias estruturas do leite, permite criar ingredientes de maior valor acrescentado e desenvolver embalagens biodegradáveis.

Na mesma linha, Juan Lema, Professor Emérito de Engenharia Química da Universidade de Santiago de Compostela, apresentou soluções para transformar os efluentes da indústria numa fonte de valor.

“Temos de passar de um sistema que consome energia para tratar a água, para um sistema que recupera energia e recursos. As águas residuais são uma oportunidade”, explicou, detalhando processos capazes de gerar biogás e outros subprodutos com valor económico.

Já Laurence Rycken, Diretora-Geral da International Dairy Federation, trouxe uma perspetiva global e destacou a importância de “padrões globais harmonizados e baseados em ciência”, fundamentais para permitir ao setor responder de forma coerente aos desafios futuros.

Setor essencial para o futuro do país

Numa mensagem vídeo de encerramento, o Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, reforçou o papel vital do setor para Portugal.

“O vosso trabalho permite que Portugal tenha sido considerado, recentemente, como líder mundial no que diz respeito à resiliência alimentar. Nem sempre temos consciência da qualidade e acessibilidade dos nossos produtos. É fundamental continuar a apoiar o setor, pois a agricultura é competitividade, inovação e sustentabilidade”, sublinhou.

A Cimeira do Leite consolidou a imagem de um setor dinâmico, cientificamente avançado e essencial para o futuro alimentar, social e económico de Portugal, preparado para inovar e liderar na próxima década.

Fonte: GreenSavers