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O futuro do café está a ser estudado em Lisboa

  • Thursday, 09 July 2026 10:51

O legado que mudou a cafeicultura mundial

Atualmente, mais de 90% das variedades de cafeeiro resistentes à ferrugem alaranjada cultivadas no mundo são derivadas do ‘Híbrido de Timor’ (HDT), uma população de cafeeiro descoberta pelo Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro (CIFC), no final dos anos 1950.

Este centro, integrado no ISA, em Lisboa, cruzou o ‘Híbrido de Timor’ com variedades comerciais com boas características agronómicas e elevada qualidade de bebida, embora suscetíveis à doença, e disponibilizou a todas as instituições que as solicitaram as variedades Catimor (Caturra × HDT CIFC 832/1) e Sarchimor (Villa Sarchi × HDT CIFC 832/2).

“Este foi sem dúvida um marco histórico, uma contribuição de valor incalculável para a sustentabilidade da cafeicultura mundial, com impacto direto na melhoria do rendimento dos agricultores”, afirma Maria do Céu Silva, coordenadora do CIFC, recentemente reconhecido como Unidade de Apoio Tecnológico do Instituto Superior de Agronomia (ISA).

A cafeicultura é o meio de subsistência de 25 milhões de agricultores, 80% dos quais são pequenos produtores, segundo dados da FAO.

 O CIFC, fundado em 1955 pelo reconhecido fitopatologista António Branquinho D’Oliveira, conquistou o estatuto de referência mundial no estudo das principais doenças do cafeeiro – a ferrugem alaranjada e a antracnose dos frutos verdes -, colaborando com centros de investigação de mais de 40 países produtores de café na América, África e Ásia, no desenvolvimento de cultivares com resistência duradoura a estas doenças.

O CIFC detém um valioso património de coleções de germoplasma de cafeeiro e de isolados dos fungos causadores da ferrugem alaranjada (Hemileia vastatrix) e da antracnose dos frutos verdes (Colletotrichum kahawae), provenientes de diversas regiões geográficas.

Na Colômbia, 88% das variedades de cafeeiro cultivadas são derivadas do Híbrido de Timor CIFC 1343, resultado direto da colaboração com o CIFC e com impacto em mais de 500 mil famílias produtoras.

“Quando a ferrugem alaranjada foi detetada na Colômbia, em 1983, o país já tinha a variedade Colômbia resistente no campo e não sofreu grandes danos, graças à colaboração com o nosso Centro, que se iniciou nos anos 70. Atualmente, estamos a colaborar no desenvolvimento de variedades resistentes à antracnose dos frutos verdes que afeta o cafeeiro Arábica, sobretudo a elevada altitude”, explica Maria do Céu Silva.

 Anualmente, o CIFC avalia a resistência de milhares de plântulas obtidas a partir de sementes enviadas pelo Cenicafé (Centro Nacional de Investigaciones de Café), na Colômbia, que visa antecipar-se a uma eventual introdução do patogénio causador da antracnose dos frutos verdes no país.

 Também na China, 13º produtor mundial e 6º consumidor de café, cerca de 90% do cafeeiro Arábica deriva de plantas do ‘Híbrido de Timor’ caracterizadas no CIFC.

Novos desafios para a cafeicultura mundial

Atualmente, o CIFC/ISA está a estudar o efeito das alterações climáticas na expressão da resistência do cafeeiro à ferrugem alaranjada e na virulência do fungo para apoiar a criação de variedades mais resilientes.

Na última década, sobretudo devido ao aumento da temperatura, a ferrugem alaranjada do cafeeiro expandiu-se para zonas de maior altitude na América Central, nas Caraíbas e em África, havendo registos de ocorrências acima dos 1600m na Colômbia, onde não era habitual. Este fungo é viável entre 15ºC e 30ºC, com um ótimo de desenvolvimento entre 21 °C e 25 °C.

Esta nova epidemia na América Central e nas Caraíbas, designada como ‘big rust’, tem causado perdas de várias centenas de milhões de dólares, com consequências sociais extremamente graves.

“Começámos a estudar o efeito de alguns factores associados às alterações climáticas numa variedade resistente à ferrugem cultivada no Brasil, e submetemos um projeto em colaboração com o Instituto Agronómico de Campinas para validação dos resultados em condições de campo”, refere a investigadora.

A própria área de cultivo do cafeeiro a nível mundial poderá reduzir-se e deslocar-se devido às alterações climáticas. Um estudo recente da organização científica ‘Climate Central’ estima que as alterações climáticas poderão reduzir a área global adequada para o cultivo do café em cerca de 50%, em todos os cenários de emissões, até 2050.

Clima altera o tipo de café que bebemos

As alterações climáticas também podem influenciar o tipo e a qualidade do café que bebemos. “O futuro do café poderá passar cada vez mais pelo uso de variedades derivadas de Robusta (Coffea canephora). Esta espécie é, em geral, mais resistente a doenças e mais resiliente às alterações climáticas, mas está associada a uma bebida de menor qualidade e a um maior teor de cafeína”, refere a investigadora.

Há cerca de 40 anos a produção mundial de café dividia-se em 75% Arábica e 25% Robusta, atualmente, o ratio já é 53% Arábica e 47% de Robusta. Entretanto, os cientistas estão a trabalhar no melhoramento da qualidade da bebida do café Robusta.

O futuro do café passa pela investigação

No contexto dos crescentes desafios à produção mundial de café, incluindo as alterações climáticas e a perda progressiva de resistência à ferrugem em algumas variedades derivadas do Híbrido de Timor, o legado científico e o conhecimento acumulado ao longo de sete décadas pelo CIFC/ISA continuam a constituir uma ferramenta essencial para apoiar o desenvolvimento de cultivares mais resilientes e a sustentabilidade da cafeicultura.

O CIFC desenvolve as suas atividades em estreita articulação com o centro de investigação LEAF-ISA, o que tem permitido reforçar a colaboração multidisciplinar, a captação de financiamento e o acesso a novas tecnologias, como a genómica. 

Fonte: ISA
  • Last modified on Thursday, 09 July 2026 11:01