Após várias décadas de declínio, a raiva tem vindo a ressurgir em vários países da Europa Central desde 2021. Na União Europeia, o número de casos em animais selvagens e domésticos aumentou na Polónia, na Roménia, na Hungria e na Eslováquia. Trabalhos de investigação coordenados pela ANSES revelaram que circulam atualmente na UE dois grupos do vírus da raiva, incluindo um que surgiu apenas recentemente. Na qualidade de Laboratório de Referência da União Europeia, a ANSES está a ajudar os países afetados a acompanhar a propagação desta doença.
O primeiro ressurgimento de casos de raiva na UE ocorreu na Polónia em 2021. Até então, tinham sido notificados menos de 10 animais infetados por ano, mas em 2021 o número subiu para 113, incluindo 103 em animais selvagens — principalmente raposas — e 10 em animais domésticos.
Um segundo aumento significativo no número de casos de raiva afetou a Roménia, a Hungria e a Eslováquia em 2022, embora a Hungria e a Eslováquia não tivessem detetado quaisquer casos durante vários anos. Desde então, o vírus tem continuado a circular, tendo sido registadas várias dezenas de casos em alguns anos e chegando a ser identificados 109 casos só na Roménia em 2025.
Rastreio das origens das estirpes do vírus da raiva
O Laboratório de Nancy para a Raiva e a Vida Selvagem (LRFSN) da ANSES é o Laboratório de Referência da União Europeia (EURL) para a raiva. Graças à partilha de sequências virais e amostras entre os países afetados, foram realizadas análises genéticas detalhadas em toda a União Europeia.
Para além das amostras provenientes dos quatro países da UE afetados, a Agência recebeu também amostras da Ucrânia e da Moldávia. Ao reunir estes dados, os cientistas conseguiram acompanhar a circulação das estirpes do vírus. Este trabalho conduziu à deteção da variante do vírus da raiva do grupo C na Polónia e na Roménia em 2024. Esta variante do vírus da raiva, que não era detetada na UE há cerca de uma década, é normalmente encontrada no sul da Rússia, perto do Cazaquistão, e no leste da Turquia.
A saúde animal afetada pelo contexto geopolítico
A maioria dos casos de raiva detetados na UE situou-se, em média, num raio de 50 quilómetros das fronteiras com a Ucrânia e a Moldávia. «O ressurgimento da raiva na Europa ilustra o impacto dos conflitos armados na saúde e na vida selvagem», afirma Emmanuelle Robardet, diretora do EURL. «O vírus já circulava na Ucrânia antes da guerra, mas sabemos que o número de casos aumentou desde então. É provável que os esforços para monitorizar e controlar a doença tenham sido gravemente perturbados.
É também possível que a fauna selvagem tenha sido afetada pelo conflito, através da destruição de habitats e fontes de alimento, o que pode obrigar os animais a deslocarem-se para novas áreas e a propagarem o vírus consigo.
A vacinação das raposas é o meio de prevenção mais eficaz
A propagação do vírus parece agora estar sob controlo na Polónia, na Hungria e na Eslováquia, graças à vacinação das raposas vermelhas.
A Roménia, no entanto, suspendeu o seu programa de vacinação. «O vírus da raiva transmite-se principalmente através de mordidas e circula sobretudo entre a fauna selvagem, mas pode infetar qualquer mamífero, incluindo os seres humanos», explica Evelyne Picard-Meyer, gestora de projetos na área da virologia molecular do LRFSN. «Sem programas de vacinação, é provável que o vírus da raiva continue a propagar-se entre as raposas-vermelhas, aumentando o risco de infeção nos seres humanos».
Qualquer pessoa exposta a um animal infetado deve vacinar-se o mais rapidamente possível, uma vez que, nos seres humanos, a morte é inevitável assim que surgem os primeiros sinais clínicos.
Em 2025, um homem morreu de raiva na Roménia após ter sido mordido por um cão vadio. Esta foi a primeira morte humana por raiva transmitida por um animal terrestre na UE desde 2012.
Fonte: ANSES