A Comissão Europeia divulgou o seu mais recente relatório de síntese sobre a monitorização da Resistência aos Antimicrobianos (RAM) em bactérias zoonóticas e comensais presentes em animais de produção e géneros alimentícios. O documento, fundamentado em auditorias a nove Estados-Membros (incluindo Portugal) e num inquérito abrangendo todos os países da União Europeia, a Noruega e a Islândia, revela um compromisso reforçado com a segurança alimentar, embora identifique pontos críticos na cadeia de controlo.
A resistência a antibióticos é uma das maiores ameaças mundiais à saúde pública e à economia. Segundo dados da OCDE citados no relatório, os custos de saúde e a perda de produtividade associados à RAM ascendem a cerca de 11,7 mil milhões de euros por ano nos países da UE e do Espaço Económico Europeu.
Diagnóstico positivo, mas com desvios no calendário
De forma geral, o relatório assinala melhorias claras em relação ao período de monitorização anterior (2014-2020), destacando que a recolha e amostragem de dados em matadouros e pontos de venda a retalho têm seguido rigorosamente os requisitos europeus, o que garante a comparabilidade dos dados no espaço comunitário.
Apesar do balanço francamente positivo no trabalho dos Laboratórios Nacionais de Referência, o relatório aponta constrangimentos operacionais em vários países:
- Atrasos no arranque: Dezoito Estados-Membros reportaram atrasos no início dos programas de recolha de amostras em determinados anos. Motivos como a burocracia na aprovação de planos, atrasos em concursos públicos para compra de consumíveis e falta de pessoal levaram a que, em certos casos, as amostras só começassem a ser recolhidas em setembro ou outubro.
- Gargalos nos Postos de Controlo de Fronteira (PCF): O controlo da carne fresca importada de países terceiros revelou-se o desafio mais expressivo. Falhas de comunicação, complexidade logística e descuramento na amostragem de remessas provenientes de origens não habituais provocaram lacunas na vigilância da carne que entra no mercado comunitário.
- Cadeia de frio e amostragem de Salmonella: Registaram-se igualmente dificuldades na recolha de isolados de Salmonella spp. através dos planos nacionais de controlo, bem como falhas esporádicas no transporte de amostras sob controlo rigoroso de temperatura.
Inovações e vigilância reforçada
O relatório salienta o recurso crescente ao sequenciamento completo do genoma (WGS) como alternativa aos exames fenotípicos tradicionais, uma tecnologia adotada por 11 Estados-Membros para reportar dados à Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA). Além disso, 16 países relataram desenvolver atividades de monitorização voluntárias que vão além do mínimo exigido pela lei europeia, abrangendo espécies como patos e gansos ou rastreios adicionais de MRSA.
A Comissão Europeia confirma que as conclusões deste relatório servirão de base para a futura revisão da legislação comunitária sobre RAM, prevista para o final do ano, com o objetivo de flexibilizar processos e reforçar ainda mais a vigilância "Uma Só Saúde" (One Health) em todo o continente.
Fonte: TecnoAlimentar