O mel, tradicionalmente visto como um produto natural, puro e seguro, está a entrar no radar das autoridades europeias devido à deteção crescente de contaminantes emergentes — substâncias que não eram monitorizadas de forma sistemática, mas que agora revelam presença relevante e potencial impacto na saúde pública.
Principais achados recentes
- Resíduos farmacêuticos — antibióticos usados no tratamento de doenças das abelhas, como a loque americana, têm sido identificados em lotes importados e, ocasionalmente, nacionais;
- Pesticidas sistémicos — moléculas como neonicotinóides e outros inseticidas de nova geração continuam a aparecer em concentrações baixas, mas detetáveis;
- Contaminantes industriais — PFAS, dioxinas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP) começam a surgir em análises de vigilância, sobretudo em regiões com pressão industrial;
- Microplásticos — estudos recentes identificaram partículas microscópicas em mel comercializado na UE, levantando questões sobre rotas de contaminação.
Porque estes contaminantes preocupam
A presença de contaminantes emergentes no mel não significa automaticamente risco elevado, mas abre novas questões regulatórias e científicas:
- Toxicidade crónica — muitos destes compostos acumulam‑se no organismo ao longo do tempo;
- Ausência de limites legais — a maioria não possui valores máximos definidos, dificultando ações de controlo;
- Impacto na confiança do consumidor — o mel é um produto associado à naturalidade; qualquer alerta tem repercussão imediata no mercado;
- Desafios para apicultores — práticas agrícolas intensivas e poluição ambiental tornam difícil garantir colmeias totalmente livres de exposição.
Situação na União Europeia
A EFSA e o sistema RASFF têm registado um aumento de notificações relacionadas com mel, sobretudo por resíduos de medicamentos veterinários e pesticidas. Embora a maioria dos casos envolva produtos importados, os Estados‑Membros estão a reforçar a vigilância interna, incluindo Portugal.
As autoridades portuguesas têm vindo a:
- Intensificar amostragem em mel nacional e importado;
- Promover formação técnica para apicultores sobre boas práticas;
- Investir em métodos analíticos capazes de detetar contaminantes emergentes em níveis muito baixos.
Reação do setor apícola
Associações de apicultores reconhecem o desafio, mas alertam que:
- A contaminação muitas vezes não resulta de práticas apícolas, mas sim do ambiente circundante;
- É necessário apoio técnico e financeiro para monitorização regular;
- A comunicação deve ser clara para evitar alarmismo injustificado.
O que esperar nos próximos meses
Especialistas antecipam:
- Novos limites legais para determinados contaminantes emergentes;
- Maior rastreabilidade na cadeia de produção;
- Pressão regulatória sobre países exportadores com histórico de não conformidades;
- Investimento em análises multirresíduos, capazes de detetar dezenas de compostos simultaneamente.
Fonte: Qualfood