E se a próxima embalagem fosse feita de pele de tomate?
E se os resíduos de embalagens de hoje fossem a matéria-prima das soluções de amanhã?
São estas as perguntas que abrem o oitavo episódio de “Embalagens e Inovação Sempre no Ponto”, a websérie com que a Sociedade Ponto Verde assinala os seus 30 anos.
Em “Novos Materiais, Novo Futuro”, a série acompanha o caminho que vai da investigação científica à inovação aplicada nas empresas, com dois projetos nascidos em laboratório e uma empresa que trocou o plástico pelo papel.
Uma embalagem a partir da casca do tomate
O iBET faz investigação em biotecnologia, na área farmacêutica e na alimentar, e é nesta última que tem dedicado boa parte do trabalho à sustentabilidade, explica Teresa Serra, coordenadora da área de Bioativos Naturais e Nutracêuticos. O projeto apresentado no episódio nasceu no âmbito da economia circular, com o objetivo de aproveitar resíduos agroindustriais e de lhes dar valor. O ponto de partida é a cutina, um biopolímero natural (um poliéster) presente na cutícula, a camada externa da casca do tomate.
No projeto participa também Vítor Alves, professor e investigador do Instituto Superior de Agronomia. A equipa está agora a formular e a misturar os materiais que poderão dar origem a uma embalagem. A ideia, que os investigadores descrevem como “disruptiva”, foi proposta à Sociedade Ponto Verde, que a aprovou e financiou e que está também a contribuir para a divulgação do projeto. A expectativa é que abra caminho a outros projetos nesta área, com aplicação nas embalagens e em ingredientes derivados de resíduos das indústrias agroalimentares.
Nanotubos de carbono feitos de resíduos de plástico
E se os resíduos de embalagens pudessem ser transformados em materiais muito mais valiosos do que aqueles que lhes deram origem? É a esta pergunta que responde o projeto do Instituto Politécnico de Bragança apresentado por Fernanda Roman, investigadora assistente: valorizar resíduos sólidos para produzir nanotubos de carbono, um material de elevado valor acrescentado para a indústria. O trabalho começou com um pedido da empresa que faz a gestão dos resíduos sólidos urbanos em Bragança. O contacto com a Sociedade Ponto Verde permitiu depois levá-lo mais longe, trabalhando com os resíduos plásticos tal como chegam ao contentor do lixo e estudando também a viabilidade económica da tecnologia.
Para explicar o que são, a investigadora pede que se imagine uma folha de carbono tão fina como um átomo, enrolada em forma de tubo. Incorporados num polímero, num plástico ou num metal, estes nanotubos aumentam muito a resistência do material sem lhe acrescentar peso, o que lhes dá grande relevância na indústria. Fernanda Roman acredita que as parcerias entre universidades, laboratórios e entidades como a Sociedade Ponto Verde “podem ser muito valiosas” para encontrar soluções rentáveis e sustentáveis e para transformar aquilo que hoje é visto como lixo em oportunidades para o futuro.
Papel no lugar do plástico
O futuro das embalagens também se constrói nas empresas, e a Bolseira é um desses exemplos. Nasceu de um projeto de três irmãos, dedicado à transformação de papel para fazer embalagens, conta Helena Tribuna, administradora. A substituição do plástico pelo papel não foi premeditada: aconteceu de forma natural, a pedido dos clientes. “O papel é melhor para embalar do que o plástico. O pão fica mais crocante”, resume.
Os desafios mais recentes passam por dar transparência ao produto e por baixar a gramagem do papel, usando menos material sem perder resistência no transporte e sem que a gordura passe para o outro lado. Foi para responder a estes pedidos dos clientes que a Bolseira recorreu à Sociedade Ponto Verde. Com os mesmos 30 anos de história, a empresa diz ter crescido com a Sociedade Ponto Verde e agradece o contributo que esta deu ao seu crescimento.
A inovação começa sempre com uma ideia e, quando a ciência, os parceiros e as empresas trabalham lado a lado, é possível repensar as embalagens do futuro, conclui o episódio. A reciclagem de embalagens é importante, mas, como lembra a série, a circularidade começa muito antes.
Fonte: GreenSavers