O Dia Mundial das Leguminosas, assinalado a 10 de fevereiro, chega este ano com um peso simbólico que ultrapassa largamente o calendário das efemérides alimentares. Num momento em que a crise climática, a pressão sobre os sistemas agrícolas e a escalada dos preços alimentares se cruzam de forma cada vez mais evidente, as leguminosas emergem como um daqueles raros casos em que a solução é simultaneamente simples, acessível e cientificamente sólida. Ainda assim, continuam subvalorizadas, quase sempre relegadas para o papel de “acompanhamento humilde”, quando na verdade representam uma das ferramentas mais poderosas para transformar a forma como produzimos e consumimos alimentos.
A Organização das Nações Unidas instituiu esta data para lembrar que feijões, lentilhas, grão‑de‑bico e ervilhas não são apenas ingredientes versáteis: são pilares de um futuro alimentar mais resiliente. A sua capacidade de fixar azoto no solo reduz a dependência de fertilizantes químicos, cuja produção é altamente poluente e economicamente volátil. Em termos nutricionais, oferecem proteínas de qualidade, fibras e micronutrientes essenciais, rivalizando com fontes proteicas muito mais caras e ambientalmente exigentes. E, no entanto, persistem preconceitos culturais que as associam a pobreza, monotonia ou “comida de antigamente”.
O que este dia mundial expõe, de forma quase desconfortável, é a distância entre aquilo que sabemos e aquilo que fazemos. Sabemos que dietas ricas em leguminosas reduzem o risco de doenças crónicas, mas continuamos a privilegiar alimentos ultraprocessados. Sabemos que a agricultura regenerativa depende de culturas como estas, mas insistimos em modelos produtivos que esgotam o solo. Sabemos que a transição alimentar exige escolhas mais sustentáveis, mas a indústria continua a investir mais em alternativas artificiais do que em soluções tradicionais, eficazes e comprovadas.
Ao redor do mundo, multiplicam‑se iniciativas para reabilitar a imagem das leguminosas: workshops culinários, campanhas educativas, programas escolares e até projetos gastronómicos que as colocam no centro do prato com criatividade e ambição. Mas a verdade é que a mudança estrutural depende menos de celebrações pontuais e mais de políticas públicas consistentes — desde incentivos à produção local até estratégias de educação alimentar que devolvam às leguminosas o protagonismo que merecem.
Este Dia Mundial das Leguminosas não é apenas uma celebração; é um lembrete de que a sustentabilidade não precisa de ser futurista, cara ou tecnologicamente complexa. Às vezes, está simplesmente guardada numa despensa, à espera de ser revalorizada. Talvez o maior desafio seja mesmo este: reconhecer que a transformação dos sistemas alimentares pode começar com algo tão modesto quanto um punhado de feijões.
Fonte: Qualfood