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Gosta de café? O stress térmico está a torná-lo pior, mais caro e mais vulnerável

  • Friday, 20 February 2026 14:30

As alterações climáticas já estão a reduzir colheitas de café e a pressionar preços globais, conclui nova análise da organização científica Climate Central. O trabalho conclui que o aumento do número de dias com calor extremo está a empurrar vastas áreas nas principais regiões produtoras para além do limiar térmico considerado prejudicial para as plantas de café: 30 ºC. A partir deste patamar de calor, a planta do café entra em stress térmico. 

“As alterações climáticas estão a transformar o café — um dos produtos agrícolas mais consumidos e comercializados do mundo, com uma estimativa de 2200 milhões de chávenas consumidas todos os dias — num cultivo cada vez mais vulnerável”, refere o comunicado de imprensa sobre a análise da Climate Central.

O estudo compara dados reais de temperatura entre 2021 e 2025 com um cenário hipotético sem emissões de carbono provenientes de combustíveis fósseis e conclui que o calor adicional induzido pelas alterações climáticas está a afectar a produção e preços do café.

Cinco países têm mais problemas, mas impacto é global

Os cinco maiores produtores — Brasil, Vietname, Colômbia, Etiópia e Indonésia — registaram, em média, 57 dias extras de calor prejudicial por ano devido às alterações climáticas, revela a análise. Estes países fornecem cerca de 75% do café mundial, “o que significa que qualquer perturbação local tem repercussões imediatas no mercado global”.

Numa análise mais detalhada, o estudo nota que estes cinco países enfrentam agora mais de 144 dias por ano com temperaturas acima do limiar prejudicial. “Sem a influência das alterações climáticas, haveria menos 57 dias por ano com este tipo de calor”, refere a análise.

No mapa dos principais produtores, os autores destacam o Brasil, que enfrentou uma média de 70 dias adicionais de temperaturas acima do limiar crítico. “Mas o fenómeno é transversal: todos os 25 países analisados, responsáveis por 97% da produção global, registaram aumentos semelhantes”, lê-se na análise.

Em média, acrescentam, cada um dos países produtores “acumulou 47 dias extras de calor prejudicial por ano”. Um aumento de temperatura que, segundo a Climate Central, não teria ocorrido sem a acumulação de carbono na atmosfera.

Menos, pior e mais caro

Quando as temperaturas ultrapassam os 30 ºC, as plantas de café entram em stress térmico, nota o relatório, que elenca três das principais consequências: redução do rendimento das colheitas, diminuição da qualidade dos grãos, maior vulnerabilidade a pragas e doenças.

“A conjugação destes factores ameaça não só a quantidade, mas também o perfil sensorial do café — um elemento central para mercados especializados e para a diferenciação de origem”, argumentam os peritos da Climate Central.

No entanto, esta “pressão climática” não é distribuída de forma equitativa. Como é comum em tantos outros indicadores, afecta sobretudo os mais pequenos produtores. “Cerca de 80% dos produtores de café no mundo são pequenos agricultores, responsáveis por aproximadamente 60% da oferta global.” Apesar do prejuízo, esta importante fatia de produtores recebeu apenas “0,36% do financiamento necessário para adaptação climática em 2021”.

A Climate Central estima que o custo médio da adaptação climática para uma exploração de um hectare seja de 2,19 dólares (1,86 euros) por dia — um valor inferior ao preço de uma única chávena de café em muitos países consumidores. Só que, “para agricultores com margens reduzidas, este investimento é frequentemente incomportável”, concluem.

O efeito consequente é fácil de imaginar: perante estes desafios que os produtores enfrentam, o preço do café aumenta. “Os preços globais do café têm sido particularmente voláteis, atingindo máximos históricos em Dezembro de 2024 e novamente em Fevereiro de 2025”, anota a análise.

No caso dos Estados Unidos, as tarifas sobre importações brasileiras impostas pela Administração de Donald Trump agravaram ainda mais os custos, mas a Climate Central insiste que, acima de tudo, foi “o clima extremo nas regiões produtoras que contribuiu de forma significativa para os recentes picos de preços”.

Chuvas, secas e pragas

Se o calor não bastasse, a produção de café enfrenta ainda outros desafios, entre os quais os investigadores destacam a chuva irregular, as secas e pragas. “A irregularidade da precipitação está a tornar o cultivo ainda mais difícil. A produção de café exige entre 1500 e 2000mm de chuva por ano, de forma consistente.” Em vez disso, o clima em mudança trouxe temporadas prolongadas de seca que, inevitavelmente, reduzem a produção e, por isso, fazem aumentar o preço.

Somam-se ainda pragas e doenças que “gostam” e prosperam em locais com temperaturas mais elevadas, como a ferrugem do café (uma doença devastadora causada por um fungo da ferrugem, Hemileia vastatrix) e a broca-do-café (causada por um besouro [Hypothenemus hampei] cuja larva se alimenta das sementes do café). São ameaças que também “afectam a qualidade e quantidade das colheitas e tornam a gestão agrícola mais dispendiosa”.

Arábica: a variedade mais ameaçada

Entre as variedades de café que existem, a arábica é uma das populares, já que representa entre 60% e 70% da produção mundial. O problema é que “é especialmente sensível ao calor”. Alguns estudos citados pela Climate Central mostram que temperaturas entre 25 ºC e 30 ºC já representam uma séria ameaça, e acima de 30 ºC tornam-se “extremamente prejudiciais”.

Fonte: Jornal Público