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Dietas: a qualidade dos hidratos como sinónimo de saúde cardíaca

  • Friday, 20 February 2026 15:59

Um novo estudo levado a cabo por uma equipa de investigadores da Universidade de Harvard sugere que reduzir o consumo de hidratos de carbono nem sempre é o melhor para a sua saúde. O mais importante é a qualidade dos hidratos.

Se estiver a tentar melhorar a sua saúde cardíaca, é provável que lhe tenham recomendado uma dieta com baixo teor de hidratos de carbono ou de gordura. Segundo um novo estudo publicado no Journal of American College of Cardiology, porém, limitar a quantidade de hidratos e de gordura pode não garantir uma diminuição do risco de desenvolver doença cardíaca.

Investigadores de Harvard analisaram dados sobre dietas e os seus resultados na saúde de cerca de 200.000 profissionais de saúde recolhidos ao longo de 30 anos e mediram o risco associado de doença cardíaca. Os investigadores compararam os profissionais de saúde que praticaram uma dieta com baixo teor de hidratos de carbono e descobriram que o risco de desenvolver doença cardíaca poderia aumentar até 14 por cento se a pessoa consumisse regularmente hidratos de carbono refinados ou prejudicais. No entanto, se a pessoa ingerisse hidratos saudáveis, como cereais integrais, o risco diminuía 15 por cento.

Este estudo sugere que a saúde “não se limita a reduzir hidratos de carbono ou gorduras”, diz Zhiyuan Wu, bolseiro de investigação de pós-doutoramento no Departamento de Nutrição da Universidade de Harvard e co-autor do estudo. “A nossa mensagem principal é que a qualidade da alimentação é mais importante.”

Uma vez que se trata de um estudo de observação, os investigadores não conseguem provar diretamente que determinadas dietas levaram os participantes do estudo a desenvolver doença cardíaca. No entanto, o facto de o estudo ter acompanhado um grande número de pessoas durante um longo período de tempo é “impressionante”, diz Camilla Dalby Hansen, investigadora na Universidade do Sul da Dinamarca, em Odense, que não participou no estudo.

Os investigadores deram um passo além e recolheram dados biológicos para ajudar a contrapor potenciais vieses de auto-relato dos questionários de saúde, diz Wu. Colheram ainda amostras de sangue de mais de 11.000 participantes e conseguiram medir o seu metaboloma, as pequenas moléculas das células e dos tecidos, corroborando as suas conclusões anteriores. “Eles foram bem-sucedidos recorrendo a uma metodologia muito complicada”, diz Hansen. “Aquilo que me faz muito feliz é o acrescento do metaboloma. É uma grande novidade e é muito excitante”.

Destaque para os super alimentos

O organismo precisa de macronutrientes – hidratos de carbono, proteínas e gorduras – que nos dão energia e promovem a nossa saúde em geral. E não faltam alimentos para obtê-los: carne, fruta, flocos de aveia, fast food, gelados e legumes, entre outros.

No entanto, os alimentos possuem qualidades diferentes. Neste estudo, por exemplo, os investigadores de Harvard fizeram uma distinção entre hidratos de carbono refinados de baixa qualidade e hidratos de carbono de alta qualidade, como cereais integrais.

A investigação também distinguiu a qualidade das fontes de gordura. Uma dieta não-saudável e de baixa qualidade, com gorduras transgénicas ou saturadas – presentes em alimentos como carnes vermelhas, natas e manteiga – não é facilmente metabolizada pelo organismo. As gorduras prejudiciais estão frequentemente associadas a riscos mais elevados de desenvolver doenças como diabetes tipo 2 e doença cardíaca.

Pelo contrário, as gorduras saudáveis e de alta qualidade, como as que existem nos abacates e nos frutos secos, são fáceis de decompor e transformar em energia – e também nos mantêm saciados. “As gorduras são os macronutrientes mais espantosos de todos”, diz Hansen. “Protegem a saúde do cérebro, o funcionamento das hormonas e a pele, além do sistema cardiovascular, ao limpar os resíduos das artérias.”

Os investigadores criaram diferentes categorias de dietas saudáveis e não-saudáveis enquanto conduziam o estudo. Uma dieta saudável incluía mais proteínas e gorduras vegetais ou proteínas e gorduras de alta qualidade, bem como hidratos de carbono de alta qualidade. Por outro lado, uma dieta não-saudável continha bastantes hidratos de carbono de baixa qualidade e proteínas e gorduras animais, que foram consideradas uma fonte de baixa qualidade neste estudo.

Os resultados mostram claramente que as diferenças na qualidade das gorduras e dos hidratos de carbono pode reduzir o risco de doença, mesmo que os participantes consumissem menos hidratos ou gorduras. Mais especificamente, os participantes que consumiam hidratos de carbono de qualidade e proteínas e gorduras vegetais corriam menor risco de desenvolver doença cardíaca do que os que consumiam hidratos de carbono mais refinados e gorduras e proteínas de origem animal.

Além disso, as proteínas e gorduras de fontes animais estão co-relacionadas com as gorduras saturadas e transgénicas, o que também pode aumentar o risco de doença cardiovascular.

Hansen considera que uma das limitações do estudo é a forma como simplifica as categorias de “saudável e prejudicial”, considerando as gorduras e proteínas de origem animal prejudiciais. “Na minha opinião, nem todas as proteínas animais e nem todas as gorduras animais são prejudiciais”, diz ela.

Wu concorda que algumas proteínas animais magras podem ser benéficas, como o iogurte. Outros especialistas dizem que este estudo sublinha as vantagens adicionais de consumir cereais integrais e proteína e gorduras de origem vegetal, em vez de outros tipos. “Não está a dizer para as pessoas não consumirem proteína animal, mas para se focarem em alimentos integrais e em proteínas e gorduras vegetais”, como leguminosas, diz Jennifer Sacheck, professora na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Brown. “Consumir mais alimentos de origem vegetal tem demonstrado benefícios para a saúde ao longo da história.”

Marcadores de sucesso no organismo dos participantes

As amostras de sangue colhidas ao longo do estudo também fornecem informação sobre a saúde dos participantes. Aqueles que praticam versões mais saudáveis de dietas com baixo teor de hidratos de carbono e de gordura têm níveis mais elevados de colesterol bom e níveis inferiores de triglicéridos, que são produzidos quando o nosso organismo atinge um limite calórico saudável. Os níveis mais altos de colesterol bom podem proteger o organismo de desenvolver doença cardíaca, eliminando o colesterol mau das nossas artérias.

Os investigadores também analisaram os metabolitos, ou seja, os resíduos moleculares que permanecem no organismo após a metabolização. “Quando dizemos que estamos a comer determinadas coisas, o nosso metaboloma confirma-o”, diz Sacheck.

Um dos metabolitos, o ácido hipúrico, estava mais associado aos participantes que praticavam as dietas com baixo teor de hidratos de carbono e de gordura mais saudáveis. O ácido hipúrico pode ser outro indicador de uma dieta rica em frutos e legumes. As conclusões validam a modelação do risco e sugerem que as dietas mais saudáveis conduzem a melhores resultados biológicos.

Wu diz que as pessoas que praticaram uma dieta saudável com baixo teor de hidratos de carbono e uma dieta saudável com baixo teor de gorduras evidenciaram sinais sobrepostos de boa saúde. Na sua opinião, isto reforça que temos muitas opções para escolher a dieta que queremos praticar – neste caso, com baixo teor de hidratos de carbono ou com baixo teor de gorduras – desde que nos foquemos no consumo de alimentos integrais e fontes de gorduras e hidratos de carbono de alta qualidade. “Acho que dá mais flexibilidade às nossas preferências, garantindo, na mesma, a proteção cardiovascular”, diz Wu.

Fonte: National Geographic