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Aquacultura: uma visão global para um consumo local

  • Tuesday, 31 March 2026 11:01

Num mundo em que o bem-estar é uma prioridade crescente, a alimentação assume um papel central, embora nem sempre devidamente valorizado. A gastronomia portuguesa foi oficialmente reconhecida como património cultural imaterial de Portugal a 26 de julho de 2000 (Resolução do Conselho de Ministros n.º 96/2000), destacando a cozinha como um pilar da identidade nacional. Neste contexto, o peixe assume particular relevância, uma vez que Portugal se encontra entre os maiores consumidores de pescado a nível mundial.

O peixe é frequentemente considerado um superalimento, sendo uma fonte relevante de proteínas de elevado valor biológico, vitaminas (A, D e B12) e minerais essenciais (ferro, zinco, selénio e iodo), além de constituir a principal fonte alimentar de ácidos gordos polinsaturados de cadeia longa ómega-3. Estes nutrientes estão associados a múltiplos benefícios para a saúde humana, contribuindo para a prevenção de doenças cardiovasculares e retardando doenças cognitivas e neurodegenerativas. Assim, o pescado é — e deve continuar a ser — um elemento estruturante da nossa alimentação.

Contudo, num contexto marcado por alterações climáticas evidentes e pela limitação dos recursos naturais, a pesca extrativa já não consegue responder, de forma sustentável, às necessidades globais de consumo. A aquacultura emerge, por isso, como uma solução estratégica para garantir o acesso contínuo ao pescado (peixe e marisco), assegurando simultaneamente qualidade, segurança e sustentabilidade. Desde 2022 que o pescado proveniente da aquacultura ultrapassou o de origem selvagem como principal fonte para consumo humano, tendência que se tem vindo a acentuar e que deverá manter-se nas próximas décadas.

A ciência e a inovação tecnológica têm sido determinantes para o desenvolvimento do setor aquícola, permitindo produzir mais e melhor, com maior eficiência no uso dos recursos e mitigando os diferentes impactes ambientais associados. No entanto, este progresso exige um diálogo contínuo entre todos os intervenientes da cadeia de valor, dos produtores aos consumidores finais, assente na transparência, responsabilidade e literacia alimentar, promovendo escolhas informadas.

A instabilidade económica e geopolítica atual reforça a necessidade de refletir sobre a segurança alimentar, tanto em termos de volume de produção como de riscos associados ao consumo. Na Europa, apesar de um enquadramento regulamentar exigente, a produção interna é insuficiente para responder à procura, resultando numa elevada dependência de importações de países terceiros, muitas vezes com normas de produção distintas. Reduzir esta dependência e reforçar sistemas produtivos sustentáveis constitui um desafio coletivo, essencial para garantir alimentos seguros, de elevado valor nutricional e alinhados com os princípios da economia circular. A produção e o consumo de produtos locais devem, por isso, ser encarados simultaneamente como uma tendência e uma responsabilidade individual.

É neste contexto que a TecnoAlimentar dedica este número à aquacultura, abordando de forma integrada a produção, o processamento do pescado, a economia circular, o valor nutricional, a segurança alimentar e os impactes ambientais, contribuindo para uma reflexão informada sobre o papel deste setor no futuro dos sistemas alimentares. 

Fonte: TecnoAlimentar

  • Last modified on Tuesday, 31 March 2026 11:09