Muitos alimentos ultraprocessados — produtos industrializados repletos de aditivos e aromatizantes, com pouca semelhança com qualquer coisa que um dia tenha crescido no campo — representam uma séria ameaça à nossa saúde. Sem dúvida: os alimentos ultraprocessados — como os refrigerantes açucarados e adoçados artificialmente — precisam ser regulamentados com mais rigor.
No entanto, enquanto esse debate se intensifica, uma das indústrias mais poderosas da Europa permanece discreta: a indústria da carne. Um estudo recente revelou que as salsichas com proteção ultrafina (UPF) são a segunda maior categoria de produtos UPF consumida por adultos europeus — e a maior em alguns países.
Apesar disso, a indústria da carne passou anos cultivando uma imagem de si mesma como a antítese de tudo o que as pessoas temem na alimentação moderna: natural, tradicional, enraizada na terra. É uma imagem que, em grande parte, é uma ficção.
O mito pastoral na prateleira do seu supermercado
Uma das organizações de lobby agrícola mais poderosas de Bruxelas, realizou campanhas descrevendo os produtos cárneos tradicionais como "profundamente enraizados em nossa herança cultural", enquanto retratava as alternativas à base de plantas como artificiais e corporativas.
A mesma estratégia dominou os debates sobre o conceito "Do Campo ao Prato", onde os alertas sobre as ameaças aos "alimentos tradicionais" se mostraram notavelmente eficazes: seis anos após o lançamento da estratégia "Do Campo ao Prato", seus compromissos de reduzir o consumo de carne não foram cumpridos na totalidade.
Mas como é, na prática, essa produção "tradicional"? Entre 2005 e 2020, o número de quintas na Europa diminuiu 37% — ou seja, 5,3 milhões de fazendas foram perdidas, na sua grande maioria pequenas propriedades familiares.
Noventa por cento dos frangos de corte são criados em sistemas intensivos de confinamento; 99% dos porcos criados para produção de alimentos nunca vêem o exterior. Mais de 80% do leite europeu provém de quintas leiteiras intensivas. Estas não são as quintas que a indústria publicitária anuncia.
Ração transgênica, aditivos ocultos e a falta de transparência
O europeu médio consome indiretamente cerca de 60 quilos de soja por ano através de produtos de origem animal. A UE produz apenas 5% da soja que necessita – o restante é importado, principalmente do Brasil, da Argentina e dos EUA, onde o cultivo é quase inteiramente de soja geneticamente modificada.
Os consumidores da UE querem, com razão, evitar produtos com o rótulo "OGM" e os produtores de alimentos cumprem essa exigência. No entanto, o mesmo consumidor pode desconhecer completamente que a carne que consome foi produzida com ração geneticamente modificada, uma vez que essa rotulagem não é obrigatória.
Existem mais de 1.400 aditivos para ração animal autorizados na UE — em comparação com pouco mais de 300 aprovados para consumo humano. Vitaminas, emulsificantes, conservantes, aromatizantes e melhoradores de digestibilidade são componentes comuns da dieta moderna do gado, nenhum dos quais consta nos rótulos dos alimentos.
Até mesmo carcaças bovinas podem ser tratadas com lavagens de ácido lático — uma medida introduzida a pedido do Departamento de Agricultura dos EUA — sem a obrigação de informar o consumidor.
O produto ultraprocessado escondido à vista de todos
A principal ironia do debate atual é que a indústria que ataca com mais veemência os alimentos à base de plantas, rotulando-os como "ultraprocessados", é ela própria uma grande produtora desses alimentos. Linguiças, bacon e presuntos curados são rotineiramente comercializados como tradicionais, mas muitos contêm justamente os aditivos que definem os alimentos ultraprocessados.
Nitratos e nitritos, usados para conservar e colorir carnes processadas, estão associados ao risco de cancro; a carne processada é classificada como carcinógeno do Grupo 1 pela IARC há mais de uma década.
Os termos que sugerem o contrário — "tradicional", "artesanal", "natural" — não têm definição legal na UE. Os produtores exibem-nos com destaque na frente da embalagem, enquanto escondem os aditivos em letras minúsculas no verso. Trata-se de uma prática de desinformação legalmente permitida.
Chegou a hora de o debate alimentar na Europa se alinhar aos factos
O consumo de carne na UE é atualmente entre duas e quatro vezes superior aos níveis recomendados. As evidências científicas sobre os custos ambientais e para a saúde da produção atual são inequívocas. No entanto, a mudança de políticas continua a ser extremamente difícil — não porque o público não se importe, mas porque a narrativa da indústria é muito poderosa, tem muitos recursos e está profundamente enraizada na cultura política da UE.
Oitenta por cento dos subsídios da Política Agrícola Comum são destinados a apenas 20% das explorações agrícolas — as maiores e mais intensivas —, situação que tem sido defendida consistentemente, mesmo sendo defensora das explorações agrícolas familiares.
O debate sobre a UPF (Unidade de Preferência Alimentar) é importante. Não podemos permitir que a indústria da carne o manipule, apresentando-se como a alternativa saudável e natural, enquanto as realidades da sua produção industrial e os impactos do consumo excessivo de carne na saúde permanecem ocultos.
Precisamos de uma reforma significativa na saúde pública, no bem-estar animal e no meio ambiente. Isso exige que os formuladores de políticas estejam dispostos a distinguir entre a imagem romântica da agricultura europeia e a realidade industrial.
Se a Comissão Europeia quiser reduzir os danos causados pelos alimentos ultraprocessados — e certamente deveria querer —, precisa começar por impor restrições reais à comercialização de alimentos não saudáveis para crianças, bem como uma rotulagem nutricional frontal obrigatória e harmonizada.
Leia o relatório aqui.
Fonte: Food Watch