A ideia nasceu de um problema cada vez mais evidente na indústria alimentar: a produção de cacau está sob pressão.
Pode um chocolate não ter cacau e, ainda assim, saber a chocolate? A pergunta parece quase uma provocação, mas é precisamente essa a promessa da ChoViva, uma alternativa desenvolvida pela start-up alemã Planet A Foods a partir de sementes de girassol fermentadas e torradas. A ‘Euronews’ mostra como esta empresa bávara quer responder à crise do cacau com uma solução regional, mais barata e com menor impacto ambiental.
A ideia nasceu de um problema cada vez mais evidente na indústria alimentar: a produção de cacau está sob pressão. As alterações climáticas, as pragas, a monocultura e a concentração da produção em poucos países tornam a matéria-prima mais vulnerável. Sara Marquart, cofundadora da Planet A Foods com o irmão, Maximilian, recorda que existe um cenário segundo o qual metade da oferta de cacau poderá desaparecer até 2050.
A dependência global é outro ponto crítico. Cerca de 80% do cacau consumido no mundo tem origem em apenas dois países, o Gana e a Costa do Marfim. Para produzir cacau, há zonas onde a floresta tropical é derrubada e substituída por plantações, em regiões particularmente frágeis e já afetadas por padrões climáticos cada vez mais instáveis.
Foi neste contexto que a Planet A Foods começou a desenvolver uma alternativa. A ChoViva não usa um único grão de cacau. Em vez disso, recorre sobretudo a sementes de girassol, submetidas a processos de fermentação, torrefação e transformação que procuram replicar os aromas do chocolate tradicional.
Sara Marquart explica que grande parte do sabor associado ao chocolate não vem diretamente do grão de cacau, mas do processamento. Segundo a investigadora, cerca de 80% dos aromas e compostos de sabor do cacau resultam de etapas como a fermentação, a torrefação e a conchagem, o processo lento em que os ingredientes são misturados até atingir textura e sabor característicos.
A lógica da ChoViva é aplicar esse conhecimento a outras matérias-primas. Se o sabor depende sobretudo do processamento, então as sementes de girassol podem servir de base para criar uma experiência semelhante à do chocolate, mas com cadeias de abastecimento mais curtas e ingredientes de origem europeia.
A ‘Euronews’ relata mesmo uma prova cega em que a repórter não conseguiu distinguir uma tablete de chocolate de leite tradicional de uma tablete de ChoViva. No laboratório da empresa, em Munique, o responsável pelo desenvolvimento de produto, Lukas Göldner, mostra como os ingredientes são moídos, laminados, liquefeitos e temperados até obterem brilho, textura crocante e capacidade de derreter na boca.
A start-up foi fundada em 2021 e reúne investigadores e profissionais da indústria alimentar de 18 países. A matéria-prima da ChoViva é produzida em Pilsen, na Chéquia, e depois fornecida a fabricantes de confeitaria em vários mercados europeus. A empresa afirma produzir atualmente 10.000 toneladas por ano.
A empresa estima ainda que, se todos os consumidores na Alemanha substituíssem o chocolate por ChoViva, tendo em conta um consumo médio anual de 9,2 quilos por pessoa, seria possível poupar até 72 quilos de CO2 por pessoa por ano. A redução total poderia chegar a cerca de 6,02 mil milhões de quilos de CO2 apenas no mercado alemão.
A crise do cacau acabou por acelerar o interesse da indústria. Sara Marquart recorda que, quando a empresa começou, muitos no setor ridicularizaram a ideia de fazer chocolate sem cacau. Mas a crise de 2023, 2024 e 2025 mudou o tom da conversa. Com o preço do cacau a duplicar, triplicar ou mesmo quadruplicar em alguns momentos, uma alternativa mais barata tornou-se muito mais difícil de ignorar.
O impacto já chegou a fabricantes tradicionais. Em França, a Abtey Chocolaterie, empresa familiar da Alsácia com cerca de 80 anos de história, foi a primeira do país a integrar parte da produção com ChoViva. A proprietária e diretora-geral, Anne-Catherine Wagner-Abtey, conta que a empresa trabalhou durante nove meses com a Planet A Foods para adaptar a fluidez do novo ingrediente às máquinas já existentes.
A decisão foi arriscada, mas acabou por abrir novos mercados. A chocolateria, que tradicionalmente concentrava a produção no Natal e na Páscoa, passou a trabalhar de forma mais contínua ao longo do ano. O volume de negócios anual subiu para 21 milhões de euros e a empresa exporta atualmente para 47 países.
Para a Planet A Foods, a ambição é tornar o chocolate “à prova de futuro”, usando ingredientes regionais e cadeias de produção mais próximas. Sara Marquart resume a visão da empresa de forma simples: garantir que as próximas gerações continuam a poder comer chocolate, mesmo num mundo em que o cacau pode tornar-se cada vez mais caro, escasso e vulnerável.
Fonte: Executive Digest