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O consumo já não obedece a horários nem a canais

  • Friday, 31 July 2026 16:31

Depois de analisarmos como o envelhecimento da população, a redução da dimensão dos lares e a pressão sobre o rendimento estão a transformar o cabaz, a segunda parte desta série dedicada às tendências identificadas na Alimentaria acompanha o consumidor ao longo do dia. A conclusão é clara: o consumo já não se concentra apenas nas refeições principais, nem acontece exclusivamente dentro de casa, no supermercado ou na restauração. O dia fragmentou-se em novas ocasiões, os canais começaram a sobrepor-se e a conveniência deixou de ser apenas um formato comercial para passar a significar proximidade, rapidez e disponibilidade.

O dia fragmenta-se em novas ocasiões de consumo

Um em cada três consumidores já incorporou um novo momento de consumo na sua rotina. É precisamente nesta fragmentação do dia que surgem alguns dos principais espaços de crescimento para marcas, retalhistas e operadores da restauração.

Entre as ocasiões que ganham relevância encontra-se o pequeno-almoço a meio da manhã, sobretudo entre quem trabalha fora de casa, e o aperitivo, associado principalmente aos fins de semana, ao consumo fora do lar, à cerveja e aos petiscos.

Também o almoço no local de trabalho emerge como uma oportunidade transversal ao retalho e à restauração. A necessidade de conciliar rapidez, conveniência e controlo do orçamento abre espaço tanto para refeições prontas como para propostas preparadas especificamente para o consumo em ambiente profissional.

Outra tendência é o tardeo, conceito popularizado em Espanha que transfere parte do convívio tradicionalmente noturno para o final da tarde. A ocasião combina restauração, bebidas e socialização, respondendo a consumidores que procuram sair, mas preferem regressar a casa mais cedo.

O café de especialidade integra igualmente este mapa de novas ocasiões. Consumido sobretudo fora de casa, é valorizado não apenas pela qualidade do produto, mas também pelo espaço, pelo serviço e pelo ambiente. Mais do que uma bebida, torna-se uma experiência e um pretexto para permanecer.

Poupar tempo torna-se parte da proposta de valor

A multiplicação dos momentos de consumo é acompanhada pelo crescimento das soluções que reduzem o tempo dedicado à preparação das refeições. Os pratos ready to eat ganham especial relevância entre os consumidores da Geração Z, que procuram respostas imediatas e adaptadas a rotinas menos previsíveis. As soluções ready to cook ocupam um espaço intermédio, oferecendo conveniência sem eliminar totalmente a preparação doméstica.

Também os conjuntos de batch cooking começam a responder à procura de consumidores que concentram a preparação das refeições da semana numa única sessão de cozinha. Neste caso, o valor não está em eliminar o ato de cozinhar, mas em torná-lo mais eficiente.

Os retalhistas estão a responder através do reforço das secções de pronto a comer e da criação de espaços que aproximam o supermercado da restauração. Os chamados “mercaurantes” combinam compra, preparação e consumo, transformando a loja num local onde o cliente pode abastecer a despensa, comprar uma refeição ou comer no momento.

Esta evolução mostra que a conveniência não significa necessariamente ausência de envolvimento. Significa, antes, permitir ao consumidor escolher quanto tempo e esforço pretende dedicar a cada ocasião.

Na conveniência, a proximidade pesa mais do que o preço

Cerca de 43% dos consumidores já fizeram compras em estabelecimentos de conveniência, categoria que inclui pequenos supermercados, lojas de proximidade e postos de abastecimento. O principal motivo não é o preço, mas a possibilidade de resolver rapidamente uma necessidade, num espaço próximo e disponível quando o consumidor precisa.

Estas compras são geralmente realizadas por urgência ou reposição, têm uma duração média entre dez e 15 minutos e concentram-se num número reduzido de produtos. Gelo, snacks, cerveja, água, pastelaria e pão encontram-se entre as categorias mais procuradas.

A quarta-feira destaca-se como um dos dias mais relevantes para estas missões, possivelmente por representar um momento intermédio entre a compra principal e as necessidades associadas ao fim de semana.

As plataformas de entrega rápida, como a Glovo e o Uber Eats, estão também a consolidar-se como uma extensão natural do canal de conveniência. Não substituem necessariamente o supermercado ou a restauração, mas permitem resolver necessidades concretas sem deslocação.

Para o consumidor, conveniência já não corresponde a uma tipologia de estabelecimento. É uma combinação entre distância, rapidez, sortido adequado e horário. Sob esta perspetiva, até um supermercado convencional pode desempenhar uma missão de conveniência.

Sustentabilidade sim, mas dentro do orçamento

A sustentabilidade continua a influenciar as decisões, sobretudo quando se traduz em soluções facilmente compreensíveis, como a redução da embalagem, a venda a granel ou os sistemas de recarga.

A dimensão social das marcas também ganha importância, incluindo a forma como tratam os trabalhadores, se relacionam com os fornecedores e contribuem para as comunidades onde operam.

Contudo, existe um limite claro: a predisposição para escolher uma alternativa sustentável diminui quando implica um agravamento significativo do preço. A intenção ambiental mantém-se, mas é condicionada pela pressão sobre o rendimento disponível.

Para as empresas, o desafio consiste em integrar a sustentabilidade na proposta de valor sem a transformar num benefício reservado a quem pode pagar mais. O consumidor quer reduzir o impacto das suas escolhas, mas não aceita que toda a responsabilidade financeira da transição recaia sobre si.

Inteligência artificial entra no momento da escolha

Adigitalização da compra já não se limita ao comércio eletrónico ou ao pagamento. As ferramentas de inteligência artificial começam também a participar nas fases de pesquisa, comparação e decisão. Entre os consumidores que utilizam soluções como o ChatGPT, 27% já recorrem a estas ferramentas para pedir aconselhamento sobre marcas, produtos ou serviços antes de comprar. Embora a utilização geral ainda seja limitada, o desconhecimento sobre estas plataformas caiu para metade em apenas dois anos.

Esta evolução cria um novo desafio para as marcas. Já não basta monitorizar o que os consumidores, os meios de comunicação, os influenciadores ou os motores de pesquisa dizem sobre elas. Torna-se igualmente necessário compreender como são interpretadas e recomendadas pelos sistemas de inteligência artificial.

A qualidade da informação disponível online, a coerência das descrições dos produtos, a reputação digital e a presença em fontes consideradas credíveis poderão influenciar cada vez mais as respostas apresentadas ao consumidor.

O pagamento torna-se invisível

A transformação digital é também visível no momento de pagar. Cerca de 34% dos consumidores já utilizam o telemóvel ou o smartwatch para realizar pagamentos.

Nas compras online, soluções como PayPal e Bizum continuam a ganhar terreno, enquanto o reconhecimento facial e a impressão digital se tornam mais familiares. A biometria começa, assim, a aproximar-se de uma utilização quotidiana no pagamento, reduzindo etapas e tornando a transação progressivamente menos visível.

Esta evolução encerra a mesma promessa que atravessa as restantes tendências: eliminar fricção. Seja através de uma refeição pronta, de uma loja próxima, de uma entrega rápida, de uma recomendação produzida por inteligência artificial ou de um pagamento biométrico, o consumidor procura resolver necessidades com menos tempo e menor esforço.

O consumo deixou de obedecer a uma sequência previsível de horários, locais e canais. A oportunidade passa a estar onde e quando a necessidade surge.

Esta é a segunda de cinco análises sobre as transformações que estão a redefinir o grande consumo. Nos próximos dias, a Grande Consumo continuará a aprofundar as restantes tendências identificadas durante a Alimentaria.

Fonte: Grande Consumo