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Inovação e qualidade impulsionam procura crescente pelas conservas portuguesas

  • Tuesday, 01 September 2026 09:26

A indústria conserveira portuguesa vive um momento de renovado dinamismo, impulsionada pela crescente valorização das conservas de peixe enquanto alimento saudável, prático e de elevada qualidade. Entre a recuperação da sardinha, a forte procura pelo atum e o investimento em produtos premium e gourmet, o setor continua a afirmar-se como um dos mais relevantes da indústria alimentar nacional.

Em 2025, a produção nacional de conservas de peixe atingiu uma estimativa de 77 mil toneladas. O setor garante aproximadamente quatro mil postos de trabalho diretos, aos quais se somam milhares de empregos indiretos ligados à pesca, logística, embalagem e distribuição. “Trata-se de uma indústria com forte impacto regional, social e económico, assumindo um papel estruturante em várias comunidades costeiras”, destacou José Maria Freitas, presidente da Associação Nacional dos Industriais de Conservas (ANICP), numa entrevista concedida, em março deste ano, à revista Hipersuper Export.

Entre as empresas que contribuem para este crescimento está A Poveira, cuja produção assenta essencialmente em conservas de atum, sardinha e cavala, embora o portefólio inclua diversas espécies de pescado e de receitas.
Sofia Brandão, responsável de marketing e comunicação da empresa, afirma que o mercado tem vindo a reconhecer cada vez mais as vantagens nutricionais e a conveniência das conservas de peixe em geral. “A conjugação das características destes produtos – conservação, conveniência, qualidade nutricional e sabor – ajuda a explicar a razão por que as conservas continuam a ser muito procuradas”, explica.

A responsável destaca, em particular, a evolução da procura pela sardinha. “A cada vez maior procura por alimentos nutricionalmente ricos, naturais, convenientes e ao mesmo tempo acessíveis em preço leva o consumidor contemporâneo a descobrir as sardinhas. Numa única lata reúnem-se proteína de elevado valor biológico, ácidos gordos ómega-3, vitamina D, vitamina B12 e cálcio, se consumida a espinha. É uma combinação extraordinária, que faz desta conserva um alimento de alta densidade nutricional, com interesse reconhecido para a saúde cardiovascular, óssea e muscular”, enumera.

A aposta na diversificação da oferta tem marcado a estratégia da empresa. Este ano, a marca Minerva lançou as referências Polvo em azeite e Mexilhões à marinheira. “A Minerva não tinha até esta data oferta deste tipo de especialidades. Tal como acontece com as outras espécies, usámos matéria-prima de elevada qualidade e a reação de todos que provam é excelente”, sublinha Sofia Brandão.

Certificação e recuperação dos recursos

Fundada em 1853, e considerada a mais antiga conserveira em laboração contínua do mundo, a Ramirez é um dos exemplos da longevidade e da capacidade de adaptação da indústria nacional. Para Luís Avides Moreira, administrador adjunto da Ramirez, a longevidade da empresa assenta numa combinação de tradição e capacidade de evolução. “É esta consistência, aliada à capacidade de evoluir sem perder a identidade, que explica a confiança de milhões de consumidores em todo o mundo”, afirma.

Com um portefólio que ultrapassa as duas centenas de referências, a empresa produz conservas de atum, sardinha, cavala, salmão, bacalhau, polvo, lulas e outras especialidades. Apesar da diversidade da oferta, a sardinha continua a ser o produto mais relevante na atividade global da empresa, representando cerca de 48% do negócio. Já no mercado nacional, o atum lidera as preferências dos consumidores, sendo responsável por aproximadamente 65% das vendas.

A certificação da sardinha portuguesa e a recuperação dos recursos são encaradas pela empresa como fatores decisivos para sustentar este crescimento. “A sardinha é um dos grandes símbolos da indústria conserveira nacional e uma categoria estratégica para a Ramirez. Uma maior disponibilidade da matéria-prima, aliada a uma gestão sustentável do recurso, permite responder melhor à crescente procura dos mercados, reforçando naturalmente o potencial de crescimento da empresa”, sublinha Luís Avides Moreira.

Paralelamente, refere que a evolução dos hábitos de consumo está também a transformar o setor. Os consumidores procuram cada vez mais produtos saudáveis, sustentáveis, autênticos e com maior valor acrescentado. “O segmento premium continua a crescer, impulsionado por consumidores que valorizam a origem das matérias-primas, a qualidade dos ingredientes, os métodos de produção, a rastreabilidade e marcas com história e credibilidade”, explica Luís Avides Moreira.

Para responder a esta tendência, a Ramirez tem reforçado a aposta na valorização das receitas tradicionais, na seleção criteriosa das matérias-primas, na utilização de pescado proveniente de fontes certificadas sempre que possível, na inovação das embalagens e no desenvolvimento de soluções que conciliam conveniência, sabor, qualidade nutricional e sustentabilidade.Segundo o administrador adjunto, o objetivo é criar produtos diferenciadores e relevantes, capazes de responder às necessidades dos consumidores nos diferentes mercados onde estão presentes.

Produtos premium e gourmet

Na Conserveira do Sul, a aposta passa igualmente por um portefólio diversificado. A empresa produz conservas e patés de sardinha, atum, cavala, carapau e bacalhau, comercializados através de marcas como Manná e Good Boy, além de desenvolver produtos para marcas de distribuição e mercados internacionais. Mais recentemente, lançou também uma gama de patés de grão, dirigida ao segmento plant-based.

Ricardo Costa, head of sales da empresa defende que tanto o atum como a sardinha continuam a desempenhar um papel relevante no negócio, embora a estratégia vá além da aposta numa única espécie. “O atum continua a ser uma das categorias com maior procura a nível nacional e internacional e representa uma parte importante da nossa atividade. Por outro lado, a sardinha é das espécies que mais trabalhamos, quer em conserva, quer em paté, sendo o Paté de Sardinha Manná um dos nossos produtos icónicos, este ano a celebrar 40 anos desde o seu lançamento, em 1986”, apresenta.

Ricardo Costa também aponta a recuperação da certificação MSC da sardinha portuguesa como “uma excelente notícia para a indústria conserveira nacional” e defende que o segmento premium e gourmet continua igualmente a ganhar peso nas estratégias das conserveiras portuguesa. Na Conserveira do Sul, confirma esta tendência. “O consumidor procura cada vez mais produtos diferenciadores, seja pela qualidade dos ingredientes, pela origem da matéria-prima, pela inovação das receitas ou pela experiência de consumo. São categorias que têm vindo a crescer de forma consistente, tanto em Portugal como nos mercados de exportação”.

Para responder a esta procura, a empresa lançou uma gama conservas em azeite biológico, e uma de conservas de especialidades como Filetes de Cavala, Filetes de Carapau, Barriga de Atum e Ovas de Sardinha, além da gama Chunky Spread da Manná, que combina peixe e vegetais em formatos pensados para diferentes momentos de consumo. Nos próximos meses, a empresa prepara ainda novidades para a marca Manná. “Estamos a desenvolver uma evolução da marca, reforçando aquilo que sempre definiu a Manná – a tradição conserveira, a qualidade do pescado e a forte ligação ao mar. Será uma evolução que honra mais de 70 anos de história sem perder a sua autenticidade”, adianta Ricardo Costa.

Espanha e Marrocos pressionam competitividade

As empresas do setor enfrentam vários desafios, desde a disponibilidade de pescado até à volatilidade dos custos das matérias-primas, mas com a sustentabilidade dos recursos marinhos a assumir um papel central.

Luís Avides Moreira refere a disponibilidade de matéria-prima como uma das principais incertezas enfrentadas pelas empresas. “Sem dúvida que o abastecimento é um dos maiores desafios que a indústria conserveira enfrenta atualmente, em particular no caso de espécies estratégicas como a sardinha e a cavala. É essencial que a gestão dos recursos seja sustentada no melhor conhecimento científico disponível, garantindo simultaneamente a preservação dos stocks e a viabilidade económica das empresas, da frota pesqueira e das comunidades que dependem desta atividade”, alerta.

O administrador adjunto da Ramirez refere igualmente a oscilação dos preços das matérias-primas, da energia, dos materiais de embalagem e dos transportes, como fatores com “um impacto significativo na competitividade da indústria, aos quais soma a escassez de mão de obra qualificada, as novas exigências regulatórias e ambientais e a necessidade de acelerar a digitalização.

“Os desafios do setor vão muito além das quotas de pesca”, sublinha Luís Avides Moreira. Segundo o administrador, a pressão para investir continuamente em inovação, sustentabilidade e desenvolvimento de novos produtos tem impacto direto na competitividade das conserveiras. Uma indústria que tem também que saber responder aos novos hábitos de consumo, a consumidores “cada vez mais informados e exigentes, que procuram produtos de elevada qualidade, saudáveis, sustentáveis e com total transparência quanto à sua origem e processo produtivo”, refere ainda.

No plano internacional, as conserveiras portuguesas enfrentam concorrentes com vantagens de escala, proximidade das zonas de captura ou custos de produção inferiores. Espanha dispõe de uma indústria de grande dimensão, fortemente internacionalizada e especializada no atum. Marrocos beneficia de custos mais baixos e de uma posição relevante no segmento da sardinha.

Mas para Luís Avides Moreira, “a concorrência é saudável e contribui para elevar o nível da indústria”. A estratégia da Ramirez procura combinar o conhecimento acumulado durante quase dois séculos com processos industriais modernos. “Somos uma empresa que alia tradição e tecnologia, preservando o saber-fazer conserveiro português enquanto incorpora as melhores práticas industriais e ambientais.”

Luís Avides Moreira destaca a capacidade do setor conserveiro nacional para se adaptar ao longo da sua história, mas define que “para continuar a crescer, investir e reforçar a sua posição nos mercados internacionais, necessita de um enquadramento que proporcione maior estabilidade, previsibilidade e uma visão de longo prazo para toda a cadeia de valor, desde a pesca até ao consumidor final”.

Para Sofia Brandão, a capacidade de adaptação tem sido determinante para a evolução da Poveira. “Todos os anos nos deparamos com dificuldades que encaramos como desafios que têm de ser ultrapassados. Somos uma empresa fortemente reativa e com grande capacidade de adaptação, daí, apesar de todos os constrangimentos conjunturais, mantermos o nosso crescimento”, afirma. A responsável de marketing e comunicação da empresa destaca a sustentabilidade e a disponibilidade de recursos da atividade piscatória como dois dos “mais importantes desafios da indústria”. Sobre a concorrência, nomeadamente de países próximos como Espanha e Marrocos, Sofia Brandão também a vê como “um elemento fundamental para a melhoria contínua” do negócio de A Poveira. “Melhoria contínua dos nossos produtos, do nosso serviço, de sermos cada vez mais competitivos. É esta busca incessante e sempre olhando para a nossa concorrência que garante a preferência dos nossos clientes”, assegura.

A Poveira promove a diferenciação sobretudo através da preservação de um método de produção tradicional. Segundo a responsável, a empresa é “um dos poucos grandes fabricantes a nível mundial que mantém o fabrico tradicional da conserva de sardinha”, recorrendo a um processo totalmente manual que se distingue pelo pré-cozimento da sardinha fora da lata, uma técnica que continua a conferir características únicas ao produto final.

Matéria-prima e preços

Também Ricardo Costa considera que o setor enfrenta atualmente vários desafios em simultâneo. “A disponibilidade de matéria-prima, a volatilidade dos preços das várias matérias-primas e a crescente exigência dos consumidores são fatores que obrigam as empresas a uma adaptação permanente”, enumera.

Apesar deste cenário, o head of sales da Conserveira do Sul destaca a resiliência da indústria nacional. “É fundamental reconhecer que a indústria conserveira portuguesa tem demonstrado uma grande capacidade de adaptação ao longo das décadas, encontrando soluções para continuar a criar valor e a apresentar ao mercado produtos de elevada qualidade e diversidade”.

A crescente concorrência de produtores internacionais, nomeadamente Espanha e Marrocos, é encarada não como uma ameaça, mas como um estímulo à inovação e à melhoria contínua. Ricardo Costa lembra que a indústria conserveira portuguesa integra um mercado global altamente competitivo e onde Espanha e Marrocos são preponderantes na produção de conservas, mas considera que Portugal reúne atributos difíceis de replicar.

Entre esses fatores, destaca “a qualidade da conserva portuguesa, reconhecida internacionalmente, quer pelo pescado utilizado, quer pela experiência acumulada ao longo de gerações e o elevado nível de exigência na produção”.

Na Conserveira do Sul, além da aposta continua na preparação manual do peixe, realizada por profissionais experientes, a empresa procura distinguir-se pela diversidade da sua oferta., tanto de produto como de marcas. Exemplifica com a Good Boy – “transporta consigo uma herança muito própria e um posicionamento descontraído e diferenciador” – e a Manná que “representa décadas de confiança junto dos consumidores portugueses e prepara-se para iniciar uma nova etapa que reforçará ainda mais a sua identidade e proximidade às suas origens”.

Reforçar produção e sustentabilidade

Os investimentos nos próximos anos em produção, tecnologia ou sustentabilidade visam a modernização das unidades produtivas, no aumento da capacidade de fabrico e a adoção de soluções mais sustentáveis.

A Poveira tem em curso um dos mais significativos planos de investimento dos últimos anos. Sofia Brandão revela que “nos próximos dois anos estão previstos investimentos de cerca de 14 milhões de euros, investimentos aliás já em curso”.

O montante será aplicado em várias frentes estratégicas. “Os investimentos consubstanciam-se numa nova fábrica para o que designamos de especialidades – mexilhões, polvo, amêijoas, entre outros produtos -, mas também na ampliação da capacidade em atum, com a instalação de novas linhas”, explica Sofia Brandão.

Na Ramirez a inovação continuará a ser um dos principais motores de crescimento. Segundo Luís Avides Moreira, o plano para os próximos anos passa por reforçar a capacidade produtiva e tornar os processos mais eficientes e sustentáveis. Os investimentos previstos abrangem a modernização industrial, através da instalação de novas linhas de produção, bem como a digitalização dos processos, permitindo ganhos de eficiência e maior competitividade num mercado cada vez mais exigente.

A estratégia da empresa passa também por mais soluções de sustentabilidade.

Segundo o, administrador adjunto, a empresa pretende aprofundar iniciativas de redução do desperdício e de valorização dos coprodutos gerados durante o processo produtivo, ao mesmo tempo que reforça os sistemas de rastreabilidade, cada vez mais valorizados pelos consumidores e pelos mercados internacionais. “Continuaremos igualmente a apostar na redução do desperdício, na valorização dos coprodutos, no reforço dos sistemas de rastreabilidade e em projetos que promovam uma maior sustentabilidade em toda a cadeia de valor”, revela.

A Conserveira do Sul mantém uma estratégia de investimento contínuo, embora centrada sobretudo na modernização tecnológica e na eficiência operacional. Segundo Ricardo Costa, “a Conserveira do Sul tem vindo a investir de forma contínua na modernização das suas instalações e dos seus processos produtivos, procurando aumentar a eficiência sem comprometer aquilo que nos distingue: uma produção onde o know-how humano continua a desempenhar um papel fundamental”.

Além da componente ambiental, a Conserveira do Sul continuará a investir em áreas consideradas estratégicas para a competitividade, como a certificação e a segurança alimentar, áreas que a empresa considera essenciais para responder às exigências dos mercados. O responsável sublinha que a modernização não significa abdicar da identidade da indústria conserveira portuguesa. “Acreditamos que a inovação e a tradição têm de ser aliadas na nossa indústria e só assim poderemos continuar a evoluir e a melhorar processos, conclui ao Hipersuper.

Fonte: HiperSuper