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Porque razão os produtores estão em dificuldades?

  • Friday, 18 September 2026 15:58

Portugal produz mais azeite e vinho do que aquele que consome, mas a abundância registada nas estatísticas está longe de significar prosperidade para todos os agricultores. Quatro produtores dos 2 setores, descrevem dificuldades no escoamento, pressão sobre os preços e custos de produção que continuam elevados. E deixam vários pedidos ao Governo.

Os números mostram um país excedentário nas duas fileiras. Segundo dados do INE relativos a 2025, o grau de autoaprovisionamento atingiu 247,9% no azeite e 107,2% no vinho. Ou seja, Portugal produz bastante mais azeite do que necessita para o consumo interno e, no caso do vinho, mantém igualmente uma produção superior às necessidades nacionais.

A situação parece, à primeira vista, confortável. Mas os indicadores nacionais escondem realidades muito diferentes entre regiões, modelos de produção e dimensão das explorações. Produzir acima das necessidades internas não significa que toda a produção seja facilmente vendida, muito menos que o preço recebido pelo agricultor cubra os custos.

“Quando se olha para estes números parece que estamos todos a ganhar dinheiro. Não estamos. O país pode produzir muito azeite e exportar muito azeite, mas isso não significa que o produtor tenha margem”, afirma ao 24notícias António Martins, olivicultor de Trás-os-Montes.

“Produzir mais não me serve se vender abaixo do custo”

O setor do azeite português sofreu uma transformação profunda nas últimas décadas, sobretudo com o crescimento do olival intensivo e superintensivo no Alentejo. O aumento da produtividade colocou Portugal numa posição claramente excedentária e reforçou a capacidade exportadora.

Essa evolução, porém, criou uma realidade muito desigual. Os sistemas modernos, altamente mecanizados e com grandes áreas de produção, coexistem com milhares de pequenos olivicultores tradicionais, sobretudo no Norte e Centro, que têm custos e produtividades muito diferentes.

António Martins diz que a preocupação de um pequeno produtor não está no grau de autoaprovisionamento do país, mas no preço que consegue obter pela produção.

“Produzir mais não me serve de nada se depois tiver de vender abaixo do custo. Posso ter uma campanha excelente e chegar ao fim com menos dinheiro. É isso que muitas pessoas não percebem quando olham apenas para a produção nacional”, refere.

O produtor aponta a mão de obra como uma das principais dificuldades. A subida dos custos com combustíveis, fertilizantes e tratamentos também pesa nas contas.

“Num olival tradicional há trabalhos que não conseguimos mecanizar como numa exploração intensiva. Se a azeitona baixa e tudo aquilo que utilizamos para produzir sobe, a conta é muito simples, a margem desaparece”, acrescenta.

Maria Fernandes, produtora de azeite no Alentejo, enfrenta uma realidade diferente, mas identifica o mesmo problema, a pressão sobre o preço.

“Temos de competir num mercado internacional. Espanha influencia enormemente o preço e há azeite a entrar de outros países a valores com os quais é muito difícil competir. Quando o mercado baixa, essa redução acaba por chegar rapidamente ao produtor”, explica A produtora considera que Portugal deve concentrar-se menos na quantidade e mais no valor acrescentado. “Não precisamos de produzir por produzir. Precisamos de vender melhor. Se Portugal aumentar a produção 20%, mas o agricultor receber menos por cada quilo, não vejo isso como uma vitória”, diz.

Produtores de azeite querem diferenciação e fiscalização

Os dois produtores defendem que o Governo deve distinguir melhor os diferentes modelos de olivicultura e criar mecanismos específicos para preservar o olival tradicional.

António Martins considera insuficiente tratar da mesma forma explorações com estruturas de custos completamente diferentes. “Um olival tradicional numa encosta de Trás-os-Montes não consegue competir em custos com centenas de hectares mecanizados. Se queremos manter estes olivais, o Estado tem de reconhecer essa diferença. Caso contrário, muitos vão simplesmente ser abandonados”, avisa.

Já Maria Fernandes pede maior fiscalização da cadeia comercial e transparência na formação dos preços, mas rejeita que a solução passe apenas pela atribuição de subsídios. “O que queremos é conseguir viver do que produzimos. Os apoios podem ser necessários em determinadas situações, mas não podem substituir um mercado que remunere adequadamente o agricultor”, salienta, referindo depois que a valorização da origem também é apontada como fundamental.

“Portugal já sabe produzir azeite de grande qualidade. Agora tem de conseguir que essa qualidade seja paga. É aí que precisamos de promoção externa, diferenciação e uma indicação de origem que seja clara para o consumidor”, acrescenta.

No vinho, produzir mais pode agravar o problema

A situação do vinho apresenta características diferentes. Portugal também produz acima das necessidades internas, mas algumas regiões enfrentam um problema crescente de stocks, redução da procura e dificuldades no escoamento das uvas.

No Douro, a pressão tem sido particularmente intensa. O Governo reconheceu a existência de stocks acumulados e dificuldades de comercialização e aprovou, em setembro, um apoio extraordinário que pode atingir 12 milhões de euros para viticultores da região sem capacidade para escoar a produção.

João Carvalho, viticultor do Douro, diz que a expressão “excesso de produção” tem uma tradução muito concreta para quem vive da vinha.

“É ter as uvas prontas para vindimar e não saber quem as compra. Ou saber que há comprador, mas o preço que nos oferecem não chega para pagar aquilo que gastámos durante o ano”, diz, garantindo que a incerteza começa muito antes da vindima.

“Passamos meses a tratar da vinha. Pagamos mão de obra, combustível, produtos fitossanitários, máquinas. Depois chegamos a setembro sem saber quanto vamos receber. Nenhuma empresa consegue funcionar normalmente desta maneira”, salienta.

Para João Carvalho, a existência de um setor exportador forte não resolve automaticamente o problema de quem produz a matéria-prima.

“Portugal pode exportar centenas de milhões de euros de vinho e o viticultor continuar em dificuldades. A questão é perceber quanto desse valor chega efetivamente a quem tem a vinha”, salienta.

“Não quero um subsídio para continuar a perder dinheiro”

Ana Sousa, viticultora da região do Dão, considera que o problema ultrapassa o Douro e alerta para dificuldades noutras regiões.

“Fala-se muito do Douro porque a situação é particularmente grave, mas há produtores com problemas de escoamento e de rentabilidade noutras zonas do país. Uma política para o vinho tem de olhar para Portugal inteiro”, afirma ao 24notícias.

A produtora defende que os apoios extraordinários podem ser necessários para impedir o abandono imediato das explorações, mas considera que não resolvem o problema estrutural.

“Não quero receber um subsídio para continuar a perder dinheiro no ano seguinte. Quero vender as minhas uvas ou o meu vinho a um preço que permita pagar os custos e continuar a trabalhar”, diz, apontando ainda a entrada de vinho estrangeiro a preços reduzidos como uma das matérias que exigem maior fiscalização.

“Não sou contra as importações. Estamos num mercado aberto e também precisamos de exportar. O que tem de existir é rastreabilidade absoluta. O consumidor deve saber de onde vem aquilo que está a comprar e nós precisamos de competir com regras iguais”, salienta.

Viticultores pedem contratos e uma estratégia para os excedentes

Os dois viticultores defendem maior previsibilidade na relação entre produtores e compradores. João Carvalho, por exemplo, considera que os contratos deveriam ser celebrados antes da vindima e estabelecer claramente quantidades e condições.

“Não podemos descobrir o preço das uvas quando elas já estão praticamente dentro da adega. Precisamos de contratos, previsibilidade e preços que tenham alguma relação com os custos de produção”, afirma, pedindo também uma estratégia permanente para lidar com os excedentes.“Todos sabemos que existem stocks. Não vale a pena esconder o problema. Temos de decidir como equilibramos produção e procura sem destruir o rendimento de quem vive da vinha”, salienta.

Por sua vez, Ana Sousa acrescenta a necessidade de reforçar a promoção internacional dos vinhos portugueses.

“Temos castas que outros países não têm, regiões reconhecidas e uma diversidade extraordinária. Portugal dificilmente vai ganhar uma guerra mundial de preços. Temos de ganhar pela diferenciação e pelo valor”, aponta.

“Produzir muito não significa viver bem”

Apesar das diferenças entre vinho e azeite, as quatro fontes convergem num ponto, nomeadamente que o grau de autoaprovisionamento mede a capacidade de Portugal satisfazer as necessidades internas, mas não mede o rendimento dos agricultores.

No azeite, uma produção muito superior ao consumo obriga o setor a depender dos mercados externos para absorver uma parte significativa da oferta. No vinho, o equilíbrio é mais próximo, mas a acumulação de stocks e as diferenças regionais podem criar excedentes que pressionam os preços pagos aos produtores.

Para António Martins, é precisamente esta distinção que falta quando se fala da autossuficiência alimentar portuguesa. “Podemos dizer que Portugal tem azeite mais do que suficiente. É verdade. Mas a pergunta seguinte tem de ser: conseguimos pagar justamente a quem o produz?”; questiona.

Pelo mesmo diapasão afinal João Carvalho, que faz uma leitura semelhante para o vinho. “Produzir muito não significa viver bem. Podemos ter vinho nas adegas e uvas nas vinhas e, ao mesmo tempo, agricultores sem rendimento. O objetivo não pode ser simplesmente produzir mais. Tem de ser produzir aquilo que conseguimos valorizar”, acrescenta.

Resumidamente, é neste ponto que os dois setores se encontram. Portugal conseguiu alcançar uma capacidade produtiva que lhe permite satisfazer o consumo interno e exportar. O desafio está agora em transformar essa capacidade em rendimento sustentável para quem mantém as vinhas e os olivais.

Fonte: SAPO

  • Last modified on Friday, 18 September 2026 16:09