A agricultura é dos setores mais expostos às crises planetárias, como as alterações climáticas e a perda de biodiversidade, pela sua alta dependência da saúde e bom funcionamento dos ecossistemas. Para ser sustentável num planeta em mudança, tem de se adaptar e as práticas regenerativas podem ser parte da solução.
É um grande paradoxo que o setor que mais depende da biodiversidade, a agricultura, seja também a maior ameaça aos ecossistemas mais frágeis do mundo”. Esta frase foi usada pelo Banco Mundial aquando da divulgação de um relatório em dezembro de 2025, no qual os especialistas concluem que, nesta altura, o mais premente não é apenas reduzir os impactos da agricultura na biodiversidade, mas sim colocar a biodiversidade no centro de todas as políticas e investimentos agrícolas.
A agricultura é uma das atividades mais antigas da história humana, pensando-se que terá emergido algures há 10.000 ou 12.000 anos. Foi um marco incontornável na jornada da nossa espécie na Terra, alterando profundamente a organização das sociedades e a nossa relação com o mundo natural que nos rodeia, permitindo a transição do nomadismo para modos de vida sedentários e geograficamente mais estáveis e com maior previsibilidade no que toca à obtenção de alimento.
Mas a agricultura não mudou só a nossa história, transformando indelevelmente também a de muitos outros seres que partilham connosco o planeta, a de inúmeras paisagens e habitats e, no final de contas, a da própria Terra. Avanços tecnológicos revolucionaram a agricultura de subsistência, a de pequena escala e a de menores impactos no ambiente. Com a ajuda de máquinas e de produtos químicos sintéticos, os humanos transformaram não só a agricultura e a produção de alimentos, mas também o mundo.
Atualmente, a expansão da agricultura, muito impulsionada pelas forças de um mercado global ainda fortemente assente na lógica capitalista e na abordagem extrativista, é apontada como uma das grandes ameaças à diversidade de formas de vida que distingue o nosso planeta. Várias espécies de animais e plantas têm na agricultura, no seu alargamento e na sua intensificação, o maior perigo que a sua sobrevivência enfrenta.
Numa altura em que a perda de biodiversidade é classificada como uma das crises planetárias, e que as previsões de aumento da população mundial deixam antever maiores necessidades de alimento, alinhar a agricultura com os objetivos de conservação e revitalização da Natureza é fundamental, para o futuro de ambas.
Uma relação íntima e nem sempre fácil
Pensar na agricultura sem pensar na biodiversidade é o mesmo que pensar na pesca sem pensar no mar.
A agricultura está altamente dependente da saúde e do funcionamento dos solos nos quais criam raízes as plantas – que dão frutos, cereais, fibras, alimento para nós e para outros animais. Sem solos saudáveis, livres de tóxicos, sustentados por comunidades diversas de microrganismos que reciclam matéria orgânica e nutrem o solo e por teias ecológicas dinâmicas, sustentáveis e resilientes, a produção agrícola ver-se-á fortemente limitada, mesmo com toda a tecnologia e químicos que possam ser usados para tentar, muitas vezes em vão, contornar a desvitalização progressiva do solo.
Mas a relação entre a agricultura e a biodiversidade vai mais além. Os insetos e outros invertebrados são fundamentais nessa relação, servindo como guardiões naturais das plantas (ainda que nem todos, claro) contra outros organismos que as fragilizam e destroem. Esses e outros animais levam consigo os grãos de pólen de umas plantas para as outras, as sementes de um local para o outro, ajudando a manter a diversidade genética das culturas e a aumentar a sua resiliência face a acontecimentos potencialmente devastadores, como doenças ou pragas. Estima-se que cerca de 80% das culturas em todo o mundo dependam de alguma forma da polinização feita por insetos, como as abelhas, borboletas e sirfídeos, e por outros animais.
A juntar a tudo isso, ecossistemas saudáveis e diversos contribuem para a formação, proteção e descontaminação dos solos e dos sedimentos e para a qualidade e quantidade de água doce disponível, um recurso precioso e a rarear.
Todos esses serviços de ecossistema, como são conhecidos na gíria científica e até já cada vez mais em discursos públicos, como dos políticos, são fundamentais para que a agricultura seja produtiva e possa lidar com alterações ambientais que, sem eles, poderiam ser desastrosas.
O Banco Mundial calcula que as paisagens com uma porção de entre 20% e 25% de habitats naturais fornecem melhores serviços de ecossistema, e que abaixo dos 10% alguns desses serviços desaparecem por completo. Atualmente, entre 18% e 33% das zonas agrícolas a nível mundial não têm áreas de habitats naturais em suficiente dimensão e com a devida estrutura e funcionamento para, por exemplo, promover a polinização selvagem e o controlo natural de pragas.
Os impactos da agricultura na biodiversidade são significativos. A produção de alimentos é considerada a principal causa da perda de biodiversidade a nível global, seja através da sua intensificação, seja por via da sua expansão que resulta na destruição de habitats naturais.
Um relatório de 2021, da Chatham House com o apoio do Programa Ambiental das Nações Unidas, com o título “Food System Impacts on Biodiversity Loss”, apontava que a agricultura é identificada como uma ameaça a 24.000 de 28.000 espécies ameaçadas de extinção. E agricultura é também apontada como o maior consumidor de água (cerca de 70% do uso global) e uma fonte de emissões de gases com efeito de estufa (através da conversão de habitats naturais em áreas agrícolas, das emissões na produção e operações), que agravam a crise climática, dessa forma afetando, indiretamente, a biodiversidade com a redução das áreas favoráveis a muitas espécies não-humanas.
Apesar desta relação conturbada, a agricultura é um dos principais beneficiários das diversidades biológica e ecológica e um dos principais interessados na sua proteção, conservação e recuperação, pois delas depende a sustentabilidade e rentabilidade da sua produção. Nesse sentido, e apesar de ao longo da História recente, especialmente no último par de séculos com uma explosão demográfica humana e com a revolução tecnológica e industrial, a agricultura ter mais combatido a Natureza do que trabalhado ao lado dela, hoje percebe-se que é preciso juntar forças para que ambas possam prosperar. E um novo caminho de sinergia começa a desenhar-se.
Um alinhamento possível, mas ainda não totalmente concretizado
A agricultura pode (e poderia argumentar-se que deve) alinhar-se com os objetivos da conservação e restauro da biodiversidade. Além de ser um dos principais beneficiários de uma Natureza saudável e funcional, o facto de ter impactos significativos e diretos sobre ela significa que é parte indispensável da solução.
João Roseiro, Diretor Agronómico para a Europa na SLM Partners, diz que é “inevitável” questionar se e como a agricultura pode alinhar-se com a conservação e restauro ecológico “num mundo marcado pelo crescimento populacional atual, pelas alterações climáticas e pela degradação dos ecossistemas”.
Para o agrónomo, esse alinhamento “é possível, mas não é automático”, pois tudo depende do modelo agrícola adotado, da escala e do contexto ecológico em que a produção é feita. Sistemas agrícolas mais diversificados, que estejam integrados na paisagem, e não separados dela, e que se articulem com as dinâmicas ecológicas dos ecossistemas onde estão inseridos, “podem desempenhar um papel relevante na conservação da natureza, sobretudo em regiões onde a agricultura já domina o território”, diz João Roseiro.
A ideia de que tudo depende das práticas é ecoada por Ricardo Vieira Santos. O engenheiro agrónomo, e investigador nos institutos MED e CHANGE da Universidade de Évora, diz-nos que os contributos que o setor da produção alimentar poderá dar à conservação da biodiversidade dependem da forma como se faz agricultura.
Para que isso seja conseguido, é preciso equilibrar a produção com a salvaguarda dos serviços de ecossistema. Se o foco incidir desproporcionadamente na produção e desvalorizar a dimensão ecológica, então voltamos a uma visão extrativista da agricultura, em que o que se quer é tirar o máximo possível da terra sem preocupação em reduzir ou remediar os danos causados.
Um caminho que vai sendo feito
Em Portugal, a agricultura tem procurado tornar-se mais sustentável e reduzir os seus impactos negativos nos ecossistemas dos quais depende, como usar a água e o solo de forma mais eficiente e recorrer menos a químicos tóxicos, tentando, ao mesmo tempo, que isso não resulte em quebras na produção e na rentabilidade do setor. Um equilíbrio nem sempre fácil nem isento de solavancos ou trambolhões, mas, ainda assim, possível.
Diz David Fangueiro, professor no Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa e coordenador do centro de investigação LEAF – Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food, que “o nosso setor agrícola está cada vez mais alinhado com as estratégias de conservação e restauro”.
Destacando o papel das associações e organizações de produtores na sensibilização dos agricultores para essas questões, o investigador afirma que “há uma vontade de melhorar os solos para os tornar mais produtivos”, a par de “uma grande preocupação em deixar para as próximas gerações solos que sejam, pelo menos, tão bons como os que receberam”.
Contudo, essa transição, que não é apenas de formas de fazer, mas também de formas de pensar e de relação com o ambiente envolvente, não é um movimento contínuo e fluido. Refere David Fangueiro que existem “diferentes realidades e nem todos os agricultores têm ainda essa consciência”.
Algo semelhante é-nos dito por João Roseiro, que detalha que a agricultura em Portugal “não segue um modelo único”. Por cá, “coexistem sistemas ainda marcadamente extrativistas”, que dependem muito de inputs externos, como adubos e químicos sintéticos, e que fazem uma grande pressão sobre os solos e a água, e “outros modelos mais integrados”, tais como os sistemas agroflorestais, explorações em transição ecológica ou “projetos que incorporam práticas de conservação do solo e promoção ativa da biodiversidade”.
Para o agrónomo da SLM Partners, essa “pluralidade” é reflexo de “uma transição em curso, ainda incompleta e desigual” que é impulsionada por “políticas europeias, exigências de mercado e uma crescente consciencialização ambiental”. Contudo, diz que esse caminho continua a ser limitado por “constrangimentos económicos, técnicos e institucionais”.
A conservação da biodiversidade já entrou nos discursos políticos e nas estratégias, tanto a nível europeu como nacional, mas continua a haver “incoerências” na articulação das políticas de vários setores que limitam a eficácia das medidas no terreno, aponta João Roseiro.
Reconhecendo que a agricultura em Portugal não anda toda à mesma velocidade no que toca à relação com a Natureza, Ricardo Vieira Santos diz que a importância da articulação entre a produção e a conservação deveria chegar a mais agricultores. Mas para isso é preciso dar a conhecer práticas emergentes que permitam “ultrapassar os desafios da atualidade” e que conjuguem “o interesse produtivo do agricultor” com a conservação e restauro dos ecossistemas. Nessa senda, são também importantes políticas públicas que permitam fazer essa transição e, sobretudo, que a incentivem, através de apoios públicos para mitigar potenciais quebras de rendimento resultantes dessa transformação.
Essas abordagens “deverão caminhar lado a lado de forma a chegarem a um maior número de agricultores, pois no fundo são eles que implementam a mudança”, salienta o investigador da Universidade de Évora.
Apesar da importância da aliança entre a agricultura e a conservação da Natureza, especialmente num planeta em convulsão e mais incerto, o incentivo a esse alinhamento não é ainda prioridade política em Portugal. No entanto, os agricultores não estão à espera de que o poder político se chegue à frente e vão fazendo eles o seu próprio caminho.
Isso acontece, a pouco e pouco, “à medida que os agricultores vão reconhecendo os benefícios de práticas consideradas mais sustentáveis ou mesmo regenerativas”, diz Ricardo Vieira Santos, destacando o papel “fundamental” da academia e das associações de agricultores na experimentação e divulgação de conhecimento.
David Fangueiro, do ISA, diz-nos que fazer da produção agrícola e da conservação da biodiversidade duas faces de uma mesma moeda “deveria, sem dúvida, tornar-se numa das prioridades nos próximos anos”. Ainda que os agricultores estejam já a lançar mãos à obra e a implementar a suas próprias medidas, “seria uma mais-valia se houvesse incentivos para estas novas práticas”, salienta.
Aliar a produção agrícola à conservação da biodiversidade implica, portanto, mudar a forma como nas últimas décadas se tem feito grande parte da agricultura (certo que não toda) e como se tem olhado para os ecossistemas e para o mundo natural, e também tentar olhar para os tempos que estão por vir para preparar e adaptar a cenários possivelmente adversos.
Mais do que conservar, regenerar
É neste caminho de construção de uma relação cada vez mais sustentável e próxima entre agricultura e Natureza, em que a ambas possam reforçar-se e beneficiar-se mutuamente, que surge uma série de abordagens à produção agrícola. Uma delas é a Agricultura Regenerativa (AR).
Embora não haja ainda uma definição científica consensual, a AR, em traços muito largos, tem como objetivo precisamente fazer com que a regeneração dos ecossistemas e a produção agrícola não estejam em lados opostos da barricada. De acordo com a Aliança Europeia de Agricultura Regenerativa, os agricultores que a praticam mostram que as colheitas mais resilientes e com maior qualidade são conseguidas através “da regeneração dos ecossistemas, com vários co-benefícios para a saúde e para a mitigação das alterações climáticas”.
Numa tentativa para harmonizar as várias definições, em 2020, um grupo de investigadores encabeçado por Loekie Schreefel, num artigo publicado na revista ‘Global Food Security’, propõe que a agricultura regenerativa seja entendida como “uma abordagem ao cultivo que usa a conservação do solo como ponto de partida para regenerar e contribuir para múltiplos serviços de aprovisionamento, regulação e suporte”, com o objetivo não apenas de melhorar a dimensão ambiental, “mas também as dimensões social e económica da produção sustentável de alimentos”.
Os proponentes da AR defendem que é a abordagem mais indicada para ajudar a combater as crises climática e de perda de biodiversidade, ao mesmo tempo que torna a produção de alimentos mais resiliente a choques ambientais e a eventos extremos e mais alinhada com a conservação da Natureza.
João Roseiro, da SLM Partners, explica-nos que a AR “não é um sistema fechado nem um modo de produção regulamentado”. É, isso sim, “um enquadramento conceptual” que tem por base princípios como a regeneração do solo, a promoção da biodiversidade, a melhoria do ciclo da água e o reforço da resiliência dos ecossistemas agrícolas.
Enquanto a agricultura biológica, por exemplo, caracteriza-se por “regras rígidas de processos, como a exclusão de determinados fertilizantes e fitofármacos de síntese”, acrescenta o agrónomo, a AR “enfatiza os resultados ecológicos mensuráveis”, tais como o aumento da matéria orgânica do solo e a melhoria da sua estrutura física e biológica, ou a maior estabilidade da produção agrícola no contexto de crise climática. Ou seja, ao passo que a biológica centra-se em processos, a regenerativa está orientada para os resultados.
Lembrando-nos de que é a base da agricultura, na melhoria da qualidade do solo a AR pode ter “um papel crucial”, acredita Ricardo Vieira Santos. O investigador da Universidade de Évora explica que, para tal, a agricultura tem se de orientar por práticas regenerativas assentes em cinco grandes princípios: a mínima perturbação do solo, a diversificação das espécies plantadas, o uso de culturas de cobertura com plantas vivas ou fragmentos delas para proteger o solo dos elementos, o máximo número possível de raízes vivas no solo e a introdução de gado para ajudar a revitalizá-lo.
Apesar do que se possa pensar, a AR não surge como uma alternativa a outros modos de agricultura, como a convencional ou a biológica, mas sim como completamento, uma vez que cada um dos dois modos anteriores pode incorporar, em maior ou menor grau, práticas regenerativas.
“A agricultura regenerativa é uma nova forma de produzir que vem oferecer aos agricultores mais uma opção para definirem as melhores estratégias para a sua realidade”, diz David Fangueiro do ISA e coordenador do centro LEAF.
“Não irá ‘acabar’ com os outros modos de produção, surge apenas como mais uma opção, o que é sempre positivo”, aponta, acrescentando que “penso que iremos ter no futuro os três modos de produção, convencional, regenerativo e biológico, a serem usados em contextos distintos”.
A Regenerativa em Portugal
Embora não existam ainda dados consolidados sobre a AR em Portugal, os especialistas dizem que, aqui e ali, vão surgindo iniciativas e explorações que aplicam práticas regenerativas, ainda que, a nível nacional, a AR na sua plenitude não seja ainda muito praticada.
A sementeira direita, sem se ter de perturbar o solo, o uso de culturas de cobertura e a integração de animais, por exemplo, em pomares já acontecem pelo país, e as práticas regenerativas começam também a ser usadas em culturas permanentes, em sistemas agroflorestais e na agricultura de conservação. Essa última integra várias práticas da AR, mas o foco é em manter e proteger o que existe, ao passo que o da AR é regenerar e recuperar.
Há também projetos, uns de ordem mais prática, outros de índole mais científica, que têm como objetivo aumentar o conhecimento sobre essa área emergente e levá-lo aos agricultores e com eles desenvolver soluções.
Um deles é o “SOILRES – Integração multifacetada da biodiversidade para um solo saudável e culturas resilientes”, um projeto europeu coordenado pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, no qual Portugal participa através da Quinta da Cholda e de uma equipa de investigadores do LEAF, incluindo David Fangueiro.
O grande objetivo deste projeto é melhorar a saúde do solo e fortalecer a resiliência das culturas em resposta à degradação dos solos, ao uso excessivo de pesticidas e aos impactos das alterações climáticas. A abordagem passa por promover práticas agrícolas sustentáveis que dão prioridade à biodiversidade e às interações dinâmicas entre o solo, as plantas e os microrganismos.
Tendo arrancado no dia 1 de junho de 2025 e estendendo-se até 31 de maio de 2029, o SOILRES contempla ensaios para validar e melhorar as intervenções inovadoras em seis casos distintos que, diz-nos David Fangueiro, representam as principais regiões agroclimáticas na Europa: a Atlântica (Dinamarca), a Boreal (Finlândia), a Continental (França), a Panónica (Hungria) e a Mediterrânica (Itália e Portugal).
“Ao avaliar o desempenho agronómico, os benefícios ambientais e a relação custo-benefício, o projeto identificará desafios e oportunidades, desenvolvendo, em última instância, estratégias otimizadas para ampliar e replicar práticas sustentáveis nos sistemas agrícolas europeus”, incluindo Portugal, explica o investigador do ISA e coordenador do centro LEAF.
Por cá, os parceiros irão desenvolver estudos sobre o uso de culturas de cobertura e de bioestimulantes na cultura do milho.
Apesar do interesse académico e de algumas explorações e agricultores na AR, persistem obstáculos que, por agora, travam a sua expansão. A falta de conhecimento e de formação sobre essas práticas é apontada pelos especialistas como um dos principais.
Ricardo Vieira Santos, da Universidade de Évora, está confiante de que, à medida que forem sendo demonstrados os benefícios da AR e divulgados os resultados obtidos, “mais agricultores tenderão a aderir a esta forma de produção”.
Nesse sentido, destaca como importante a formação dos agricultores nas práticas regenerativas, especialmente numa fase inicial. Mas não é tudo, pois também a transição poderá acarretar custos com a aquisição de equipamentos ou auxílio técnico, pelo que o investigador considera que apoios podem “incentivar o agricultor à mudança”.
A esse respeito, João Roseiro, da SLM Partners, destaca que os obstáculos à AR em Portugal “são conhecidos” e semelhantes aos que se veem a nível internacional, como “o risco económico durante a fase de transição, a falta de conhecimento técnico aplicado, ausência de incentivos claros e dificuldade em medir e valorizar os benefícios ecológicos”.
Por isso, as barreiras ao desenvolvimento e disseminação da AR tendem a não ser tanto tecnológicas, mas sobretudo económicas e institucionais.
A conservação não tem de limitar a produção
Provavelmente, para muitos a conservação e restauro da biodiversidade é sinónimo de restrições e perdas de produtividade e de rentabilidade. No entanto, a AR não tem necessariamente de ser vista como inimiga da produção.
De uma perspetiva económica, “a agricultura regenerativa não é incompatível com a rentabilidade financeira”, assegura-nos João Roseiro. Isso, porque, quando combinadas com uma gestão eficiente e com acesso a mercados diferenciados, as práticas regenerativas podem “reduzir custos variáveis, aumentar a estabilidade financeira e melhorar margens no médio-prazo”, acrescenta.
A AR pode também promover a rentabilidade agrícola, por exemplo, ao melhorar a fertilidade do solo e reduzir custos com adubos, e também por um “possível aumento de receita” devido a uma maior produtividade e qualidade dos alimentos, diz Ricardo Vieira Santos.
“Implica uma mudança de mentalidade, não só nas práticas agrícolas, mas também na forma como o agricultor lida com o mercado”, salienta. “É necessário continuar o desenvolvimento de soluções, enfrentar os desafios que forem surgindo, adaptar práticas e mentalidades a uma nova abordagem, mas é possível fazer diferente e para melhor.”
David Fangueiro, por sua vez, concorda que as práticas regenerativas ajudam a reduzir custos, mas reconhece também que pode haver quebras de produção, podendo existir situações em que a AR não seja rentável. Por isso, cada prática regenerativa deve ser adaptada ao contexto específico em que está a ser aplicada, pois cada caso é um caso e não existem medidas de “tamanho único”.
“A conservação deve ser feita em conjunto com o setor agrícola que é um dos principais beneficiários. Havendo este diálogo, creio que será possível, encontrar soluções de compromisso que não limitem o setor agrícola”, sentencia o investigador do ISA.
Como tal, a conservação da biodiversidade não tem de limitar a agricultura nem de pôr em risco a sua rentabilidade. Argumenta João Roseiro que “essa visão ignora que a degradação ecológica representa, ela própria, um risco económico significativo”, com custos crescentes para vários setores, incluindo a agricultura.
“A questão central não é se a conservação impõe limites, mas se esses limites são desenhados de forma inteligente, proporcional e acompanhados de incentivos adequados.”
Ricardo Vieira Santos destaca a importância do foco da AR nos resultados e não nos processos, pois isso dará ao agricultor maior liberdade para poder aplicar as medidas que entenda serem as mais adequadas para si e para alcançar os resultados pretendidos ao nível da conservação do ecossistema.
“Deve ser dada mais atenção aos resultados obtidos na conservação do ecossistema do que propriamente à limitação de práticas, até porque o agricultor conhecedor da sua exploração é a melhor pessoa para saber o que pode e deve fazer para melhorar a conservação do seu ecossistema.”
Agricultura em crise climática
No campo climático, as práticas regenerativas podem ajudar a reter durante mais tempo o carbono no solo e nas plantas, reduzindo as emissões da produção de alimentos, contribuir para a preservação e uso mais eficiente da água e ser mais um aliado nos esforços de conservação e restauro da biodiversidade. Todas essas ações contribuem para a mitigação e adaptação climáticas e para a preparação do setor para os cenários futuros, alguns dos quais bem negros, que a Ciência nos diz, repetidamente, que podem vir a acontecer se os humanos não mudarem rapidamente a forma como têm tratado a Terra.
A AR pode ser parte da solução, embora, como nos diz João Roseiro, “não é uma solução milagrosa”. Ainda assim, se “aplicada com rigor científico, pragmatismo económico e honestidade intelectual”, será estrategicamente relevante.
O “verdadeiro desafio”, assegura-nos, está em “transformar sistemas produtivos de forma consistente com os limites ecológicos do planeta e com a necessidade de garantir segurança alimentar a longo prazo”.
Para Ricardo Vieira Santos, a chave para o futuro da agricultura está em escolher as práticas que melhor se adequem a cada caso concreto e que permitam “maximizar a rentabilidade e os benefícios no ecossistema”, e, nesse aspeto, a AR pode proporcionar essa sinergia. A disseminação dessa abordagem pode ser fundamental para tornar a agricultura portuguesa mais resiliente e para tentar evitar possíveis quebras na produção e na rentabilidade.
Olhando para os tempos que se avizinham, David Fangueiro considera que a agricultura continuará a caminhar para uma maior eficiência, combinando diferentes modos de produção e “tendo sempre como objetivo principal a produção de alimentos de qualidade e a preservação do solo”.
Isto, porque, como declara o investigador do ISA, “sem solos saudáveis não se podem produzir alimentos saudáveis”.
Fonte: sapo.pt
A conservação de alimentos evoluiu de forma notável nas últimas décadas. Monitorização digital, alarmes automáticos, embalagens de alto desempenho e processos cada vez mais controlados permitiram reduzir riscos, melhorar a rastreabilidade e prolongar a vida útil dos produtos. Este progresso beneficia diariamente todos os consumidores — nem sempre de forma reconhecida, mas de forma concreta. O investimento tecnológico em toda a cadeia foi real.
Na prática, a segurança alimentar raramente falha apenas por falta de equipamentos. Falha, muitas vezes, nos pequenos desvios que se tornam rotina: uma porta aberta mais tempo do que deveria, um produto deixado fora de refrigeração durante a preparação, um alarme ignorado porque “nunca costuma ser nada”, uma decisão tomada sob pressão operacional. Situações aparentemente menores que, repetidas, constroem vulnerabilidades reais.
Quando o sistema existe, mas não vive na operação
Um caso ilustrativo, retirado de contexto real em ambiente fabril, ajuda a tornar este ponto concreto. Numa operação de confeção alimentar, existiam equipamentos de fritura com controlo automático de temperatura e procedimentos definidos para monitorização do óleo. Apesar disso, começaram a verificar-se desperdício de produto, inconsistência na confeção e deterioração mais rápida do óleo. Durante a análise, percebeu-se que pequenas oscilações de temperatura passavam despercebidas — os equipamentos pareciam funcionais e a equipa, sob pressão produtiva, focava-se no ritmo sem interpretar o impacto dessas variações.
O mecanismo é direto: oscilações frequentes de temperatura aceleram a degradação química do óleo — oxidação e formação de compostos polares — comprometendo a qualidade e aproximando o óleo dos limites legalmente estabelecidos para a sua utilização segura. A fragilidade decisiva estava noutro ponto: os equipamentos operavam sem alarme sonoro ativo, uma falha de verificação inicial nunca detetada. A equipa confiava que o alarme seria acionado se a temperatura descesse — mas ninguém tinha validado que funcionava antes de iniciar a operação. A tecnologia existia. O que falhou foi a capacidade de transformar monitorização em decisão.
Cultura de segurança alimentar: o fator que os sistemas não conseguem instalar
Em março de 2026, a Global Food Safety Initiative (GFSI) apresentou na sua Conferência Anual em Vancouver a versão 2.0 do seu position paper sobre cultura de segurança alimentar. O documento reforça uma ideia central: a cultura de segurança alimentar não é um conceito “soft”, mas um determinante crítico dos resultados — um modelo integrado de valores partilhados, comportamentos, consciência do risco e aprendizagem organizacional, que vai muito além dos procedimentos escritos. A segurança alimentar efetiva exige alinhamento entre o que a organização define como valores e o que as equipas fazem, todos os dias, no terreno.
Na prática, isto significa que dois locais com equipamentos semelhantes, procedimentos idênticos e tecnologia equivalente podem apresentar resultados completamente diferentes. A diferença está, muitas vezes, na forma como o risco é percecionado e gerido pelas pessoas. Equipas que compreendem o impacto real dos desvios tendem a reagir mais rapidamente, a comunicar problemas com maior transparência e a manter maior consistência operacional. Pelo contrário, ambientes onde os procedimentos são vistos apenas como obrigação documental tornam-se mais expostos à banalização do risco.
Este fator é particularmente crítico num contexto marcado por pressão operacional e necessidade de produtividade. A conservação de alimentos exige consistência. Pequenas oscilações de temperatura, interrupções sucessivas da cadeia de frio ou tempos inadequados de exposição podem não gerar consequências visíveis de imediato, mas aumentam progressivamente a vulnerabilidade microbiológica do produto.
A responsabilidade que a tecnologia não assume
O setor alimentar investiu, e bem, em inovação tecnológica para aumentar a capacidade de conservação, prolongar a vida útil dos produtos e responder às exigências de distribuição global. Ainda assim, cabe salientar que esse investimento só produz resultados sólidos quando existe alinhamento entre tecnologia, processos e comportamento humano.
Num setor cada vez mais automatizado, talvez o maior desafio seja garantir que o fator humano permanece no centro da tomada de decisão. Os sistemas evoluem. Os equipamentos melhoram mas não resolvem tudo. Até porque se assim fosse não teríamos o número de recalls que temos mundialmente — em 2024, os alertas alimentares do RASFF cresceram 12% na União Europeia, e os EUA registaram um máximo histórico de 300 recalls, num ano em que as hospitalizações por doenças de origem alimentar duplicaram face ao ano anterior.
O que efetivamente determina a eficácia real da conservação alimentar é a forma como as pessoas aplicam os processos no terreno — todos os dias, mesmo quando ninguém está a verificar.
Mais do que conservar alimentos, o objetivo continua a ser proteger consumidores. E essa responsabilidade não é da tecnologia. É das organizações que escolhem — ou não — transformar procedimentos em cultura.
Fonte: iAlimentar
Nova ferramenta Ecodesign Readiness Levels (ERL) permite avaliar a maturidade dos produtos, identificar oportunidades de melhoria e preparar as empresas para os novos requisitos europeus.
A Smart Waste Portugal desenvolveu, no âmbito do projeto TransformEC - Transformação Circular, a metodologia Ecodesign Readiness Levels (ERL), uma ferramenta de autoavaliação que ajuda as pequenas e médias empresas (PME) a perceber até que ponto integram critérios de ecodesign no desenvolvimento dos seus produtos e a definir os próximos passos. Adaptada à realidade das PME, a ERL funciona como um instrumento de diagnóstico, planeamento e melhoria contínua, foi divulgado em comunicado.
Segundo a mesma fonte, a metodologia pretende também ajudar as PME a prepararem-se para as mudanças introduzidas pelo Regulamento Ecodesign for Sustainable Products (ESPR), em vigor na União Europeia desde 2024. Este novo enquadramento procura tornar os produtos reutilizáveis, mais duráveis, reparáveis, eficientes no uso de recursos e recicláveis, reforçando o papel do ecodesign na transição para uma economia circular.
Segundo a Comissão Europeia, 80% dos impactes ambientais de um produto ficam definidos durante a fase de design. Os resultados das regras europeias já existentes mostram o impacto destas medidas. De acordo com o Conselho da União Europeia, os requisitos de ecodesign aplicados a 31 grupos de produtos permitiram reduzir em 10% o respetivo consumo anual de energia e poupar 120 mil milhões de euros em custos energéticos.
“O ecodesign é uma das áreas em que a transição para uma economia circular se pode traduzir em mudanças muito concretas. Este trabalho permitiu-nos compreender melhor o ponto de situação das PME e, ao mesmo tempo, criar ferramentas que as ajudam a transformar conhecimento em ação. Queremos que as empresas consigam identificar o seu ponto de partida, perceber onde podem evoluir e integrar, de forma progressiva, critérios de circularidade no desenvolvimento dos seus produtos”, afirma Luísa Magalhães, diretora executiva da Smart Waste Portugal.
Inspirada nos Technology Readiness Levels (TRL), usados para medir a maturidade tecnológica, a ERL adapta esta lógica ao ecodesign. A escala permite posicionar um produto entre o cumprimento dos requisitos legais mínimos e a integração sistemática e estratégica da sustentabilidade no seu desenvolvimento.
Com base nesse diagnóstico, as empresas podem identificar oportunidades de melhoria, definir prioridades de intervenção, orientar investimentos em inovação sustentável e acompanhar a evolução do desempenho ambiental dos produtos ao longo do tempo. A ferramenta ajuda ainda a preparar as organizações para os novos requisitos regulamentares e para as crescentes exigências do mercado.
A metodologia tem uma finalidade de capacitação e apoio à decisão. Não constitui um sistema de certificação nem verifica a conformidade legal, e não deve ser utilizada para fundamentar alegações ambientais, rotulagem ou comunicação externa sobre o desempenho ambiental dos produtos. A sua aplicação pressupõe que estes cumprem previamente todos os requisitos legais e normativos em vigor.
Para facilitar a utilização da ferramenta, a Associação disponibiliza um documento técnico sobre a metodologia, a matriz detalhada, um manual de aplicação, a ferramenta de autoavaliação em Excel e um booklet explicativo. Todos os materiais estão disponíveis para download no website da Smart Waste Portugal.
No âmbito da mesma atividade, a Smart Waste Portugal desenvolveu ainda o estudo “Estado do Ecodesign nas PME e Tendências”, que caracteriza o nível de adoção destas práticas, identifica tendências, desafios e oportunidades e analisa as implicações do novo enquadramento regulamentar europeu. Com base em análise documental, auscultação de stakeholders e sistematização de exemplos práticos do TransformEC, o estudo aprofunda a compreensão das necessidades das PME e das condições que podem favorecer uma adoção progressiva e eficaz do ecodesign.
Em conjunto, a metodologia ERL e o estudo reforçam o compromisso do TransformEC com a capacitação empresarial e disponibilizam conhecimento e ferramentas que ajudam as PME a transformar a circularidade em decisões concretas de desenvolvimento de produto, apoiar a inovação e reforçar a competitividade.
O projeto TransformEC – Transformação Circular é financiado pelo COMPETE 2030, no âmbito do Sistema de Apoio a Ações Coletivas, na vertente Qualificação, e tem como copromotores a Smart Waste Portugal, o CVR (Centro para a Valorização de Resíduos) e o CECOLAB (Laboratório Colaborativo para a Economia Circular).
Fonte: GreenSavers
O Programa Volta é reconhecido por 94% dos portugueses, mas 66% defendem que o aumento do número de locais de devolução deve ser a principal prioridade da iniciativa, segundo um estudo da ConsumerChoice sobre a reciclagem de embalagens de bebidas.
O estudo indica que 85% dos inquiridos reciclam embalagens de bebidas sempre ou frequentemente, enquanto 79% consideram esta prática muito importante. Já 80% dos participantes acreditam que o Programa Volta representa uma medida importante para Portugal e 87% referem que a iniciativa contribui para incentivar a reciclagem.
A adesão ao sistema começa também a refletir-se nos hábitos de utilização. Segundo a ConsumerChoice, 41% dos portugueses usam o Programa Volta regularmente e 23% recorrem ao sistema algumas vezes, o que significa que 64% já experimentaram a iniciativa. Entre os que ainda não utilizam o programa, 17% afirmam que ainda não tiveram oportunidade de o fazer e 12% admitem aderir futuramente.
Apesar da avaliação positiva, os consumidores apontam oportunidades de melhoria. Além do reforço da rede de pontos de devolução, são referidas a simplificação do processo de devolução e reembolso, a redução do tempo necessário para utilizar o sistema e a criação de benefícios adicionais.
O incentivo financeiro continua a ter peso no comportamento dos consumidores. Quase metade dos inquiridos afirma que utilizaria o Programa Volta com maior frequência caso o valor do depósito fosse superior aos atuais 10 cêntimos.
O estudo identifica ainda dúvidas sobre o funcionamento do sistema, nomeadamente quanto ao destino do valor dos depósitos que não são reclamados. A ConsumerChoice considera que existe espaço para reforçar a comunicação e aumentar a transparência da iniciativa.
A televisão, com 69%, e as redes sociais, com 50%, surgem como os principais canais através dos quais os consumidores conheceram o Programa Volta.
Entre as sugestões deixadas pelos inquiridos estão o alargamento do sistema a mais tipos de embalagens, a simplificação da experiência de utilização e reembolso e a introdução de soluções de pagamento mais práticas, como o MB Way.
O questionário foi respondido por 750 portugueses. A amostra inclui 51% de participantes do sexo masculino e 49% do sexo feminino, com maior representação das faixas etárias dos 35 aos 44 anos, com 30%, e dos 45 aos 54 anos, com 28%.
Fonte:HiperSuper
O mercado português de bens de grande consumo aumentou 4,6% em valor na quadrissemana compreendida entre 18 de maio e 15 de junho de 2026, recuperando face aos crescimentos de 2,6% e 2,5% registados nos dois períodos anteriores.
Apesar da aceleração, a evolução permanece abaixo dos 6,8% alcançados na quadrissemana homóloga de 2025, de acordo com os dados do “Scantrends”, da NielsenIQ.
A marca própria continuou a ser o principal motor do mercado, com as vendas a aumentarem 5,7%. As marcas de fabricante cresceram 3,6%, uma recuperação expressiva depois de terem avançado apenas 0,7% e 0,5% nas duas quadrissemanas anteriores.
No acumulado até à semana 24, o mercado analisado pela NielsenIQ movimentou 5.641 milhões de euros, mais 4,5% do que no mesmo período de 2025.
Os supermercados de maior dimensão apresentaram o crescimento mais elevado entre os canais analisados, com uma progressão homóloga de 7,6%. Este formato concentrou 57,9% das vendas de bens de grande consumo no período.
Os supermercados de menor dimensão avançaram 3,5% e mantiveram uma quota de 10,8%, enquanto os hipermercados regressaram ao crescimento, com uma subida de 2,6%, depois da quebra de 1,1% registada na quadrissemana anterior.
O canal de livre serviço permaneceu em terreno negativo, com as vendas a recuarem 5,7%. O seu peso no mercado total estabilizou nos 10%.
No acumulado do ano, os grandes supermercados crescem 7,4%, acima dos 2,9% dos supermercados pequenos e dos 2,2% dos hipermercados. O livre serviço apresenta uma quebra acumulada de 4,1%.
As bebidas foram a área com a evolução mais dinâmica na quadrissemana, ao crescerem 6,3%.
As marcas próprias avançaram 6,7%, enquanto as marcas de fabricante cresceram 6,2%, aproximando-se da paridade depois de terem registado uma evolução de apenas 0,6% no período anterior.
A recuperação foi transversal às bebidas alcoólicas e não alcoólicas. No acumulado do ano, as bebidas não alcoólicas apresentam uma progressão de 7,6%, enquanto as alcoólicas crescem 2,4%.
A marca própria e os produtos de primeiro preço representam atualmente 25,5% das vendas de bebidas em valor, acima dos 24,9% observados no período homólogo. Nas bebidas não alcoólicas, a quota chega aos 36,1%, enquanto nas alcoólicas se situa nos 16,1%.
A alimentação manteve a trajetória de recuperação e cresceu 4,6%, depois dos 0,9% e 2,7% das duas quadrissemanas anteriores.
As vendas de marca própria aumentaram 5,7%, superando os 3,2% das marcas de fabricante. Estas últimas registaram, ainda assim, uma recuperação significativa, após terem recuado 1,9% na quadrissemana 13-16 e crescido apenas 0,3% no período seguinte.
Entre as áreas alimentares, os congelados apresentam o crescimento acumulado mais elevado, de 9,2%, seguindo-se os lacticínios, com 5,5%, e a mercearia, com 3,3%.
A quota conjunta da marca própria e dos primeiros preços na alimentação subiu para 56,1%. Nos congelados, estes produtos já representam 67,8% das vendas em valor, enquanto nos laticínios alcançam 50,1% e na mercearia 56,2%.
A higiene do lar cresceu 3,6%, mantendo a evolução registada na quadrissemana anterior.
A marca própria voltou a acelerar, com uma subida de 6,1%, e continuou a sustentar o crescimento da categoria. Em sentido contrário, as marcas de fabricante abrandaram para 1,1%, depois de terem avançado 2,8% no período anterior.
No acumulado do ano, a categoria apresenta um crescimento de 4,8%. A quota da marca própria e dos primeiros preços aumentou de 48,8% para 50,1%.
A higiene pessoal registou um crescimento de 2,4%, recuperando face aos 1,7% da quadrissemana anterior, mas mantendo-se abaixo da evolução do mercado total.
As marcas próprias avançaram 3,8%, enquanto as marcas de fabricante cresceram 1,4%, regressando a uma evolução positiva depois de terem ficado praticamente estagnadas no período anterior.
No acumulado até à semana 24, a higiene pessoal cresce 3,1%. A quota da marca própria e dos primeiros preços subiu de 40% para 41,1%.
Fonte: Grande Consumo
Portugal assinala, a 31 de julho, o Dia Nacional da Vinha e do Vinho, formalmente instituído pelo Despacho n.º 9616/2026, que reconhece a relevância estratégica, cultural e económica da viticultura e da produção de vinho no país. A criação desta efeméride reforça o papel central do setor na identidade nacional e na projeção internacional dos vinhos portugueses.
O despacho determina que o Dia Nacional da Vinha e do Vinho passa a ser celebrado anualmente, com o objetivo de:
Valorizar a viticultura enquanto atividade agrícola estruturante;
Promover o vinho português como produto de excelência e relevância económica;
Sensibilizar para a sustentabilidade e boas práticas no setor;
Reforçar a ligação entre território, cultura e produção;
Mobilizar entidades públicas e privadas para ações de divulgação, formação e celebração.
O despacho enquadra a efeméride no conjunto de políticas públicas dedicadas à agricultura, à valorização das regiões vitivinícolas e à promoção internacional dos vinhos nacionais.
Da Região Demarcada do Douro ao Alentejo, passando pelos Vinhos Verdes, a vinha é um motor económico que sustenta milhares de produtores, adegas e cooperativas. Em 2025, as exportações de vinho português ultrapassaram os 900 milhões de euros, consolidando Portugal entre os principais produtores mundiais.
Desafios que moldam o futuro da viticultura
A celebração deste ano destaca desafios estruturais:
Alterações climáticas e necessidade de adaptação varietal;
Gestão hídrica e pressão sobre recursos naturais;
Competitividade internacional e inovação tecnológica;
Digitalização, com novas exigências de rastreabilidade como o Passaporte Digital do Produto;
Sustentabilidade, incluindo práticas de viticultura de precisão e redução de impacto ambiental.
O setor vitivinícola português combina práticas tradicionais com tecnologia avançada: monitorização por satélite, sensores de solo, previsão de pragas e sistemas de gestão digital de vinhas. Esta evolução permite aumentar a eficiência, garantir qualidade e reforçar a competitividade internacional.
Portugal no mapa mundial do vinho
O Dia Nacional da Vinha e do Vinho reforça o papel do país na diplomacia económica e cultural. Os vinhos portugueses continuam a conquistar prémios internacionais e a atrair consumidores que procuram autenticidade, diversidade e excelência.
Fonte: Qualfood
O Congresso Mundial do Azeite (OOWC), realizado nos dias 2 e 3 de julho no Centro Cultural de Belém, concluiu as suas sessões com um diagnóstico claro e conclusões que vão além do habitual debate técnico: o azeite é um ativo estratégico cujo futuro depende de quatro frentes — clima, tecnologia, qualidade e comunicação — que o setor já não pode continuar a abordar separadamente.
A primeira e mais urgente é o clima. A região mediterrânica está a aquecer ao dobro da média global, e as projeções apontam para uma redução de até 44% nos rendimentos dos olivais no sul de Espanha, a par de um aumento das pragas, alterações na floração e episódios cada vez mais precoces de calor extremo. A resposta passa pela preservação da diversidade genética — o projeto GEN4OLIVE caracterizou mais de 600 variedades e depositou material no Depósito Global de Sementes de Svalbard —, pelo desenvolvimento de variedades resistentes e pela melhoria da gestão da água e do solo. A sobrevivência das explorações agrícolas de pequena e média dimensão, que sustentam a paisagem mediterrânica, continua a ser a preocupação mais urgente.
Tecnologia que ainda não chega a todos
Neste contexto, a digitalização surge como um fator-chave: a IA, os drones e os sensores permitem poupanças comprovadas de 68 % na água de rega e de 35 % nos produtos fitofarmacêuticos, enquanto o lagar do futuro será mais conectado e preditivo. No entanto, a adoção da tecnologia continua a ser o verdadeiro obstáculo. As ferramentas avançadas estão a chegar tarde aos pequenos produtores, precisamente quando a colheita, por si só, representa quase metade dos custos de produção na olivicultura tradicional. Sem formação e novos modelos de negócio, a tecnologia, por si só, não é suficiente.
Fraude, qualidade e os 40 anos do painel de degustação
Produzir mais e melhor não faz sentido se o produto que chega ao mercado não for o que afirma ser. O azeite continua a ser um dos alimentos mais expostos à fraude: as ameaças mais difíceis de combater são a desodorização suave — que remove defeitos sem deixar vestígios analíticos evidentes — e as misturas concebidas para contornar os controlos. O Congresso defendeu a harmonização entre o Codex Alimentarius e o COI, a utilização de esteróis como «impressão digital» de autenticidade e a ressonância magnética nuclear (RMN) como técnica de verificação emergente. As árvores de decisão do COI permitem também que os azeites autênticos que se situam fora dos limites de pureza devido a variações naturais sejam comercializados sem comprometer a deteção de fraudes. Neste contexto, o painel de degustação — que celebra agora o seu 40.º aniversário — continua a ser insubstituível: 150 painéis registados em 2026, com presença em 27 países.
O seu futuro reside na integração com narizes eletrónicos, IA e biomarcadores, bem como na resposta a um desafio pendente: ensinar os consumidores a valorizar o amargor e o picante como sinais de qualidade, em vez de defeitos.
A evidência científica, o maior trunfo do setor
A par da qualidade, a saúde está a emergir como um poderoso fator diferenciador. Os ensaios PREDIMED e CORDIOPREV confirmam que cada 25 gramas adicionais de azeite consumidos por dia reduzem o risco de doenças cardiovasculares em 16%, o risco de diabetes em 22% e a mortalidade por todas as causas em 11%. A investigação está a avançar no campo dos polifenóis — hidroxitirosol, oleuropeína e oleocanthal — e do seu papel na saúde cerebral e no envelhecimento saudável, abrindo simultaneamente as portas aos nutracêuticos derivados de subprodutos da azeitona.
Sustentabilidade verificada, não sustentabilidade declarada
A par da saúde vem a sustentabilidade: não como um argumento de marketing, mas como uma infraestrutura de confiança. Os 11 milhões de hectares de olivais funcionam como sumidouros de carbono; o COI está a desenvolver um sistema de certificação de créditos de carbono apoiado em blockchain; e a economia circular oferece um enorme potencial: apenas 20% do peso da azeitona é convertido em azeite, enquanto os restantes 80% podem ser transformados em energia, biofertilizantes e antioxidantes. A biodiversidade e os serviços ecossistémicos dos olivais têm também um valor económico mensurável, enquanto os quadros ESG e CSRD estão a transformar a sustentabilidade comprovada numa condição para o acesso ao mercado, em vez de um valor acrescentado opcional.
O Congresso também pôs fim ao debate mais alargado: tanto os sistemas tradicionais como os intensivos podem ser sustentáveis, desde que sejam devidamente geridos.
Do volume ao valor, e da produção à narrativa
Tudo isto está a ocorrer num mercado que tem continuado a crescer: o consumo global aumentou 83% desde a década de 1990 e atinge agora 3,2 milhões de toneladas, com os Estados Unidos como principal importador (35%) e um crescimento superior a 400% em mercados não pertencentes ao COI, como o Brasil, a China e o Japão. Mas a principal conclusão do Congresso não foi um número relativo à produção: foi o facto de os consumidores já não estarem simplesmente a comprar azeite, mas sim confiança, autenticidade, identidade e experiência. Não existe uma fórmula universal — cada mercado, cultura e geração requer mensagens e canais diferentes — e as redes sociais são agora essenciais para os consumidores mais jovens. A narrativa sobre a origem e o turismo do azeite transformam os visitantes em embaixadores. As crianças de hoje serão os consumidores de amanhã.
O Congresso contou com o apoio institucional do Conselho Oleícola Internacional (COI), do CIHEAM de Saragoça e da Fundação da Dieta Mediterrânica, juntamente com organismos públicos como o Ministério da Agricultura e dos Assuntos Marítimos de Portugal, o Governo Regional de Castela-La Mancha («Campo y Alma»), o Governo da Catalunha, o Governo Regional da Andaluzia e o IMIDRA.
Leia o Relatório Final aqui.
Fonte: OOW
A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), no âmbito das suas competências e através das suas Unidades Regionais, realizou, nas últimas semanas, uma operação nacional de fiscalização dirigida a operadores económicos presentes em estações de comboios, terminais de expressos e zonas envolventes. Esta ação teve como propósito reforçar a proteção do consumidor, assegurar o cumprimento das normas legais aplicáveis e garantir condições adequadas de higiene e segurança alimentar em locais caracterizados por elevada afluência e diversidade de oferta.
Como balanço da operação, foram fiscalizados 98 operadores económicos, tendo sido instaurados 2 processos-crime, relativos a géneros alimentícios falsificados e uso ilegal de denominação de origem ou indicação geográfica, e 24 processos de contraordenação, destacando-se como principais infrações a violação dos deveres gerais da entidade exploradora, a falta de mera comunicação prévia, a inexistência ou não atualização de processos HACCP, falhas de rotulagem e ausência de menções obrigatórias, bem como a inobservância dos requisitos das cozinhas, copas e zonas de fabrico dos estabelecimentos de restauração e bebidas, entre outras.
Foi ainda determinada a suspensão de atividade de um operador económico, por violação dos deveres gerais da entidade exploradora do estabelecimento de restauração e bebidas, e apreendidas 162 unidades de géneros alimentícios com canábis ou derivados, enquadrados como géneros alimentícios falsificados.
Fonte: ASAE
A conservação de alimentos evoluiu de forma notável nas últimas décadas. Monitorização digital, alarmes automáticos, embalagens de alto desempenho e processos cada vez mais controlados permitiram reduzir riscos, melhorar a rastreabilidade e prolongar a vida útil dos produtos. Este progresso beneficia diariamente todos os consumidores — nem sempre de forma reconhecida, mas de forma concreta. O investimento tecnológico em toda a cadeia foi real.
Na prática, a segurança alimentar raramente falha apenas por falta de equipamentos. Falha, muitas vezes, nos pequenos desvios que se tornam rotina: uma porta aberta mais tempo do que deveria, um produto deixado fora de refrigeração durante a preparação, um alarme ignorado porque “nunca costuma ser nada”, uma decisão tomada sob pressão operacional. Situações aparentemente menores que, repetidas, constroem vulnerabilidades reais.
Quando o sistema existe, mas não vive na operação
Um caso ilustrativo, retirado de contexto real em ambiente fabril, ajuda a tornar este ponto concreto. Numa operação de confeção alimentar, existiam equipamentos de fritura com controlo automático de temperatura e procedimentos definidos para monitorização do óleo. Apesar disso, começaram a verificar-se desperdício de produto, inconsistência na confeção e deterioração mais rápida do óleo. Durante a análise, percebeu-se que pequenas oscilações de temperatura passavam despercebidas — os equipamentos pareciam funcionais e a equipa, sob pressão produtiva, focava-se no ritmo sem interpretar o impacto dessas variações.
O mecanismo é direto: oscilações frequentes de temperatura aceleram a degradação química do óleo — oxidação e formação de compostos polares — comprometendo a qualidade e aproximando o óleo dos limites legalmente estabelecidos para a sua utilização segura. A fragilidade decisiva estava noutro ponto: os equipamentos operavam sem alarme sonoro ativo, uma falha de verificação inicial nunca detetada. A equipa confiava que o alarme seria acionado se a temperatura descesse — mas ninguém tinha validado que funcionava antes de iniciar a operação. A tecnologia existia. O que falhou foi a capacidade de transformar monitorização em decisão.
Cultura de segurança alimentar: o fator que os sistemas não conseguem instalar
Em março de 2026, a Global Food Safety Initiative (GFSI) apresentou na sua Conferência Anual em Vancouver a versão 2.0 do seu position paper sobre cultura de segurança alimentar. O documento reforça uma ideia central: a cultura de segurança alimentar não é um conceito “soft”, mas um determinante crítico dos resultados — um modelo integrado de valores partilhados, comportamentos, consciência do risco e aprendizagem organizacional, que vai muito além dos procedimentos escritos. A segurança alimentar efetiva exige alinhamento entre o que a organização define como valores e o que as equipas fazem, todos os dias, no terreno.
Na prática, isto significa que dois locais com equipamentos semelhantes, procedimentos idênticos e tecnologia equivalente podem apresentar resultados completamente diferentes. A diferença está, muitas vezes, na forma como o risco é percecionado e gerido pelas pessoas. Equipas que compreendem o impacto real dos desvios tendem a reagir mais rapidamente, a comunicar problemas com maior transparência e a manter maior consistência operacional. Pelo contrário, ambientes onde os procedimentos são vistos apenas como obrigação documental tornam-se mais expostos à banalização do risco.
Este fator é particularmente crítico num contexto marcado por pressão operacional e necessidade de produtividade. A conservação de alimentos exige consistência. Pequenas oscilações de temperatura, interrupções sucessivas da cadeia de frio ou tempos inadequados de exposição podem não gerar consequências visíveis de imediato, mas aumentam progressivamente a vulnerabilidade microbiológica do produto.
A responsabilidade que a tecnologia não assume
O setor alimentar investiu, e bem, em inovação tecnológica para aumentar a capacidade de conservação, prolongar a vida útil dos produtos e responder às exigências de distribuição global. Ainda assim, cabe salientar que esse investimento só produz resultados sólidos quando existe alinhamento entre tecnologia, processos e comportamento humano.
Num setor cada vez mais automatizado, talvez o maior desafio seja garantir que o fator humano permanece no centro da tomada de decisão. Os sistemas evoluem. Os equipamentos melhoram mas não resolvem tudo. Até porque se assim fosse não teríamos o número de recalls que temos mundialmente — em 2024, os alertas alimentares do RASFF cresceram 12% na União Europeia, e os EUA registaram um máximo histórico de 300 recalls, num ano em que as hospitalizações por doenças de origem alimentar duplicaram face ao ano anterior.
O que efetivamente determina a eficácia real da conservação alimentar é a forma como as pessoas aplicam os processos no terreno — todos os dias, mesmo quando ninguém está a verificar.
Mais do que conservar alimentos, o objetivo continua a ser proteger consumidores. E essa responsabilidade não é da tecnologia. É das organizações que escolhem — ou não — transformar procedimentos em cultura.
Fonte: iAlimentar
Os mercados municipais e de produtores locais estão a deixar de ser meros pontos tradicionais de comércio de alimentos para se tornarem pilares estratégicos de sustentabilidade, coesão social e segurança alimentar nas cidades europeias. A conclusão resulta de uma análise desenvolvida pela rede Eurocities, que destaca como diferentes municípios estão a adaptar a sua rede de abastecimento aos desafios ambientais e económicos atuais.
A transição dos sistemas alimentares urbanos visa reduzir a dependência dos mercados globais, estabilizar preços e encurtar as cadeias de distribuição. No entanto, a implementação destas estratégias varia consoante o contexto geográfico e cultural das cidades, como demonstram os casos de Florença, Barcelona e Dublin.
Abordagens locais: de Florença a Dublin
Na Europa do Sul, os mercados continuam fortemente enraizados na vida quotidiana. Em Florença (Itália) o município está a mapear o sistema alimentar urbano em parceria com a Universidade de Florença, visando estruturar mercados de produtores a distâncias pedonais (cerca de 700 metros ou 10 minutos a pé dos residentes). Simultaneamente, o mercado abastecedor grossista da cidade, o Mercafir, atua como um polo logístico sustentável, promovendo entregas com veículos elétricos e redistribuindo excedentes alimentares que alimentam cerca de 120 mil pessoas por ano através do Banco Alimentar da Toscana.
Em Barcelona (Espanha) a rede de 43 mercados municipais e 11 mercados de produtores integra a estratégia Barcelona Feeds Proximity. A iniciativa “Comércio Verde” abrange 550 estabelecimentos participantes, nos quais os comerciantes utilizam rotulagem clara para indicar a origem local, sazonal e biológica dos produtos. Além da vertente comercial, estes espaços promovem a gestão sustentável de resíduos, a utilização de energias renováveis e oficinas de nutrição em contexto escolar.
Por outro lado, em cidades do norte europeu como Dublin (Irlanda), o modelo enfrenta entraves climáticos e de infraestrutura. As condições meteorológicas adversas e a concorrência dos grandes supermercados limitam a consolidação dos mercados de rua. Em resposta a autarquia irlandesa está a rever a legislação sobre o comércio ambulante para criar mais espaços cobertos (a exemplo do mercado de Temple Bar) e a integrar estes polos no plano de ação climática Edible Dublin, prevendo-se também a reabilitação do histórico mercado vitoriano de frutas e legumes.
O papel dos governos locais
A análise da Eurocities reforça que a consolidação destes canais de distribuição direta exige intervenção pública ativa para ultrapassar barreiras burocráticas, assimetrias no acesso aos produtos e limitações logísticas. Ao encurtar a distância entre produtores e consumidores finais, as cidades procuram promover hábitos de consumo mais conscientes e garantir uma maior resiliência do abastecimento urbano perante choques económicos e climáticos.
Fonte: TecnoAlimentar
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