Uma equipa de investigadores chineses conseguiu mapear em detalhe o genoma de uma variedade de trigo conhecida pela elevada qualidade do seu glúten, revelando que a qualidade da farinha não depende apenas de alguns genes-chave, mas sim de uma rede complexa de interações entre diferentes genes.
O estudo mostra que estas interações podem ser decisivas para a elasticidade e estabilidade da massa, características essenciais para pão, massas e outros produtos alimentares. Os resultados sugerem que o melhoramento do trigo poderá no futuro ir além da seleção de genes isolados, passando a considerar combinações genéticas mais complexas.
A qualidade do trigo utilizado na alimentação humana não depende apenas da quantidade produzida no campo, mas também da forma como a sua farinha se comporta durante o processamento. Essa qualidade está sobretudo ligada ao glúten, um conjunto de proteínas presentes no grão que determina a elasticidade e a estrutura das massas.
Um novo estudo liderado por investigadores chineses deu um passo importante na compreensão deste processo ao “descodificar” parte do chamado código genético do glúten. A equipa analisou o genoma de alta qualidade de uma variedade de trigo harinheiro chamada Jimai 44, conhecida pelo seu bom desempenho na panificação e pela força do seu glúten.
O trabalho mostra que os genes responsáveis pelas proteínas do glúten estão localizados em regiões muito complexas do genoma do trigo, difíceis de analisar até agora. Ao estudar essas regiões em detalhe, os investigadores concluíram que a qualidade da farinha não resulta apenas da presença de alguns genes considerados “bons”, mas sim da interação entre várias famílias de genes, muitas delas altamente variáveis.
Essa descoberta é importante porque muda a forma como se entende o melhoramento do trigo. Até agora, os programas de seleção genética focavam sobretudo alguns genes associados a glúten forte. No entanto, este estudo indica que a realidade é mais complexa: a forma como diferentes genes interagem entre si pode ter um impacto tão ou mais relevante na qualidade final da farinha.
Os investigadores também analisaram a evolução destes genes ao longo da história do trigo, desde a sua domesticação até ao melhoramento moderno. Os resultados mostram que a seleção humana teve influência em diferentes fases, favorecendo em alguns casos combinações genéticas associadas a melhor desempenho na panificação.
Outro dos pontos-chave do estudo é a importância das chamadas interações entre genes. Estas interações significam que o efeito de um gene pode mudar dependendo dos outros genes com que está combinado. No caso do glúten, isto ajuda a explicar porque algumas variedades de trigo apresentam melhor desempenho industrial do que outras, mesmo quando partilham genes semelhantes.
Os autores defendem que estes resultados podem abrir novas estratégias para o melhoramento do trigo, permitindo desenvolver variedades mais estáveis, adaptadas à indústria alimentar e com melhor qualidade tecnológica. Em vez de procurar apenas genes isolados, o futuro poderá passar por selecionar combinações genéticas mais eficazes.
Este avanço científico poderá ter impacto direto na produção de alimentos como pão, massas e produtos de pastelaria, contribuindo para melhorar a consistência e qualidade da farinha utilizada na indústria alimentar.
Estudo publicado em Nature Plants, divulgado por instituições científicas chinesas (IGDB/CAS e Academia de Ciências Agrícolas de Shandong).
Fonte: Centro de informação de biotecnologia
Portugal emitiu uma notificação através da rede europeia RASFF – Rapid Alert System for Food and Feed, após a deteção de corpos estranhos metálicos em cereais de pequeno‑almoço com chocolate produzidos no país e distribuídos para outros mercados europeus. A informação foi posteriormente difundida pelas autoridades espanholas, que confirmaram a presença de partículas de alumínio em dois lotes comercializados em Espanha.
As autoridades portuguesas comunicaram ao sistema RASFF a possível contaminação por fragmentos metálicos, um risco físico que pode causar lesões orais, danos gastrointestinais ou engasgamento. A notificação permitiu uma resposta rápida noutros Estados‑Membros, levando a Espanha a ativar os seus mecanismos internos de controlo.
Segundo a Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição (AESAN), os produtos contaminados correspondem a:
Lote 31176 – Pétalos de trigo y chocolate (marca Gran Dia), validade abril de 2027
Lote 32176 – Choco Cups (marca Golden Bridge), validade abril de 2027. Ambos embalados em caixas de 500 g e armazenados à temperatura ambiente.
As autoridades espanholas ativaram o SCIRI – Sistema Coordenado de Intercâmbio Rápido de Informação, iniciando a retirada dos produtos dos canais de comercialização. Os consumidores que tenham adquirido estes lotes são aconselhados a não os consumir e a devolvê‑los no ponto de compra.
O caso demonstra a eficácia do RASFF, que permite uma circulação rápida de informação entre Estados‑Membros sempre que existe um risco para a saúde pública. O sistema funciona 24/7 e é essencial para garantir que produtos potencialmente perigosos são identificados e retirados antes de chegarem ao consumidor.
Este alerta reforça a importância dos controlos de qualidade na indústria alimentar e da cooperação europeia na proteção dos consumidores. A rápida atuação das autoridades portuguesas e espanholas permitiu mitigar o risco e assegurar que os produtos contaminados estão a ser removidos do mercado.
Fonte: Qualfood
O Compete 2030 está a apoiar três projetos de inovação no setor alimentar que procuram transformar desperdícios e subprodutos em novos ingredientes e alimentos sustentáveis. As operações HealthierSweet, PEPTI9 e Beiralma foram envolvem empresas e instituições científicas focadas no desenvolvimento de soluções para a alimentação humana e animal.
O projeto HealthierSweet, promovido pela WildBran em copromoção com a Universidade Católica Portuguesa, pretende transformar fruta rejeitada por critérios estéticos em xaropes, pastas adoçantes, farinhas ricas em fibra e produtos funcionais com melhor perfil nutricional. A iniciativa utiliza frutas como maçã, pera, figo e alperce e assenta numa lógica de economia circular e aproveitamento integral das matérias-primas.
Segundo a informação divulgada, a operação procura responder simultaneamente ao desperdício alimentar e à procura crescente por alternativas nutricionalmente mais equilibradas. O desenvolvimento tecnológico inclui processos de hidrólise térmica e enzimática, preservação de nutrientes e caracterização funcional dos ingredientes produzidos.
Já o PEPTI9 – Proteínas e Péptidos Bioativos e Inovadores para Nutrição Sustentável é promovido pela Biorbis, também em copromoção com a Universidade Católica Portuguesa. O projeto aposta na utilização de leveduras provenientes das indústrias da cerveja, do vinho e do etanol para criar ingredientes bioativos destinados à nutrição humana e animal.
A operação pretende desenvolver compostos ricos em péptidos, aminoácidos, glucanas e outros elementos bioativos, recorrendo também a ferramentas de bioinformática e inteligência artificial para acelerar a identificação de moléculas com potencial funcional. Entre as aplicações previstas estão ingredientes para aquacultura, alimentação canina e suplementos alimentares.
O projeto Beiralma centra-se no desenvolvimento de enchidos vegetarianos e vegan a partir de subprodutos das indústrias do azeite e do vinho, nomeadamente bagaço de azeitona e bagaço de uva. A iniciativa é liderada pela Fumeiro de Seia e conta com a participação da Universidade Católica Portuguesa, da BLC3, do Centro de Valorização e Transferência de Tecnologia para o Habitat (CECOLAB) e da Azeites do Cobral.
A operação pretende criar alimentos de base vegetal inspirados nos sabores tradicionais portugueses, recorrendo a técnicas de texturização, fermentação e fumagem para aproximar sabor e textura dos enchidos convencionais. O projeto prevê ainda diferentes níveis de consistência e a utilização de invólucros sustentáveis.
De acordo com o Compete 2030, os três projetos demonstram o potencial da inovação para reforçar a sustentabilidade, promover a valorização de recursos subaproveitados e aumentar a competitividade da indústria alimentar portuguesa.
Fonte: iAlimentar
Os agricultores canadianos vão poder produzir um novo tomate roxo geneticamente modificado, desenvolvido para produzir níveis elevados de antocianinas, compostos naturais com propriedades antioxidantes que estão associados a vários benefícios para a saúde.
A autorização para cultivo foi concedida pelas autoridades reguladoras do Canadá em 2025 e a distribuição das sementes a agricultores e jardineiros deverá decorrer ao longo deste ano. O tomate já tinha sido lançado nos Estados Unidos em 2024, onde despertou um forte interesse junto dos consumidores, e recebeu recentemente aprovação na Austrália e na Nova Zelândia.
O tomate foi desenvolvido pela empresa britânica Norfolk Healthy Produce através de técnicas de engenharia genética. Os investigadores introduziram alterações que permitem à planta produzir maiores quantidades de antocianinas no fruto, conferindo-lhe a sua característica cor roxa.
As antocianinas são pigmentos naturais presentes em alimentos como os mirtilos, amoras, framboesas e couve-roxa. Diversos estudos científicos sugerem que estes compostos podem ajudar a proteger as células contra o stress oxidativo, um processo associado ao envelhecimento e ao desenvolvimento de várias doenças.
Algumas investigações apontam ainda para potenciais efeitos benéficos na saúde cardiovascular, no controlo da diabetes e na redução do risco de determinados tipos de cancro. No entanto, os cientistas sublinham que estes efeitos dependem de múltiplos fatores e que nenhum alimento, por si só, previne ou cura doenças.
Além das potenciais vantagens nutricionais, o tomate roxo representa um exemplo de uma nova geração de culturas geneticamente modificadas desenvolvidas não apenas para beneficiar os agricultores, mas também para oferecer características que podem interessar diretamente aos consumidores.
A receção do produto nos Estados Unidos foi positiva. Segundo dados divulgados pelos promotores da tecnologia, foram vendidos cerca de 1.200 pacotes de sementes nos primeiros dois dias após o lançamento e mais de 9.600 durante a primeira semana.
Especialistas consideram que este tipo de inovação poderá abrir caminho a novos alimentos com características nutricionais melhoradas. Um exemplo semelhante já existe no Japão, onde são comercializados tomates com níveis mais elevados de GABA, um composto associado à regulação da pressão arterial e à redução do stress.
À medida que a investigação em biotecnologia alimentar avança, espera-se que mais frutas e hortícolas com características nutricionais específicas cheguem ao mercado nos próximos anos, oferecendo aos consumidores uma maior diversidade de escolhas alimentares.
Mais informação aqui.
Fonte: Centro de informação de biotecnologia
A Porbatata – Associação da Batata de Portugal assinalou a 27 de maio, em Salvaterra de Magos, o arranque da campanha de colheita de 2026, através de uma nova ação de promoção da batata portuguesa destinada a aproximar os consumidores de um dos produtos mais emblemáticos da gastronomia nacional.
Produzida em várias regiões do país entre maio e setembro, a batata portuguesa beneficia das condições climáticas e das características dos solos nacionais, sublinha a associação. Até setembro, a Miss Tata – marca coletiva criada pelos produtores para representar a batata nacional – regressa às prateleiras dos supermercados, incentivando os consumidores a optar por batata acabada de colher.
Indicadores da batata em Portugal
Também a área de cultivo voltou a crescer. Depois de ter descido para 14.478 hectares em 2023, a área de produção aumentou para 16.462 hectares em 2024 e voltou a subir em 2025, fixando-se nos 17.210 hectares, o valor mais elevado desde 2021.
“Estes indicadores refletem o impacto positivo das campanhas de promoção desenvolvidas desde 2018 pela Porbatata. Queremos que os portugueses reconheçam a batata nacional e a valorizem. A nossa estratégia está a dar frutos e vamos continuar a investir nesse caminho”, afirma Paulo Simões, presidente da Porbatata.
A associação recorda ainda que, dois anos após o início das campanhas de promoção realizadas em parceria com a grande distribuição, foi lançada a Miss Tata, marca coletiva destinada à promoção da batata portuguesa nos mercados nacional e internacional.
Segundo a Porbatata, esta foi a primeira vez que a fileira da batata nacional se uniu em torno de uma imagem comum para o setor, apostando na diferenciação e na valorização da qualidade do produto português.
A Miss Tata é apresentada como a embaixadora da batata portuguesa, promovendo uma alimentação equilibrada e reforçando a identidade nacional da produção agrícola.
Fonte: iAlimentar
São mais de cinco milhões de dados agregados numa plataforma. É assim a Data+, plataforma de controlo e rastreabilidade da fileira vitivinícola alentejana que a CVRA – Comissão Vitivinícola Regional Alentejana acaba de lançar.
Nas palavras do presidente da CVRA, Luís Sequeira, esta é uma plataforma inovadora a nível mundial: “Quando analisamos este tipo de dados, a partilha de dados com esta riqueza, só encontramos um exemplo na Austrália, mas nós vamos para lá da informação que é disponibilizada nessa plataforma. Arrisco dizer que, com este nível de detalhe, só existe no Alentejo”, afirmou, à margem da apresentação da nova ferramenta.
O objetivo – acrescentou – é dotar os agentes económicos, e não apenas a CVRA, de informação que lhes permitam tomar uma decisão mais acertada. Os dados estão, pois, acessíveis e são partilháveis.
Como afirmou, na apresentação, António Pisco, da CVRA, existia já muita informação sobre os vinhos do Alentejo, mas estava dispersa, com a multiplicidade de fontes a dificultar o acesso. A Data + vem, pois, centralizar essa informação, aportando valor à tomada de decisão, nomeadamente em termos de investimento.
A plataforma – acrescentou Raquel Lopes, da equipa de marketing da comissão – estará em contante evolução, de modo a tornar-se uma ferramenta cada vez mais potente.
Fonte: Grande Consumo
Portugal voltou a estar no radar do RASFF – Rapid Alert System for Food and Feed, desta vez devido a um caso de alergénio não declarado em panquecas produzidas em território nacional. A notificação, classificada como de risco sério, levou à retirada imediata dos lotes afetados e ao alerta aos consumidores em vários Estados‑Membros.
As autoridades identificaram que o produto continha proteína de leite não declarada no rótulo, um erro que pode representar um perigo significativo para pessoas com alergia ou intolerância. A falha foi detetada durante controlos oficiais, desencadeando a comunicação urgente através do sistema europeu.
Segundo a informação divulgada, o problema está relacionado com incumprimento dos requisitos de rotulagem, impedindo que consumidores alérgicos identifiquem o risco antes da compra. A DGAV já está a acompanhar o operador responsável e a verificar a extensão da distribuição.
O alerta reforça a importância de boas práticas de fabrico, controlo rigoroso de ingredientes e revisão contínua de rotulagem, especialmente em produtos de conveniência amplamente consumidos como panquecas prontas a comer.
As autoridades recomendam que consumidores com alergia ao leite evitem o consumo dos lotes identificados e contactem os serviços de segurança alimentar em caso de dúvida.
Fonte: Qualfood
A decisão da Nestlé de intensificar o investimento em agricultura regenerativa representa mais do que uma atualização estratégica: é um sinal claro de que a maior indústria alimentar do mundo reconhece que o modelo agrícola tradicional chegou ao limite. A pressão sobre os solos, a perda de biodiversidade e a instabilidade climática já não permitem abordagens convencionais — e a resposta das grandes empresas começa finalmente a refletir essa urgência.
Nos últimos anos, a Nestlé tem anunciado programas que visam apoiar agricultores na transição para práticas que regeneram o solo, capturam carbono, reduzem a erosão e devolvem vitalidade aos ecossistemas agrícolas. Mas o que torna esta aposta particularmente relevante é a escala: quando um gigante global decide alterar a forma como produz e compra matérias‑primas, o impacto estende‑se muito para além das suas próprias cadeias de abastecimento.
A agricultura regenerativa, muitas vezes vista como um conceito idealista ou restrito a nichos, ganha aqui uma validação industrial que pode acelerar a sua adoção. A Nestlé afirma que está a investir em formação técnica, incentivos financeiros e parcerias científicas para medir resultados — e este ponto é crucial. Sem métricas, a regeneração corre o risco de se tornar apenas mais um slogan verde. Com dados, pode transformar‑se num novo padrão de produção.
Ainda assim, é legítimo questionar se o ritmo é suficiente. A transição para sistemas alimentares sustentáveis exige mudanças profundas e rápidas, e a dimensão da Nestlé tanto pode ser uma força motriz como um obstáculo, caso as metas não acompanhem a escala da responsabilidade. O setor agroalimentar enfrenta desafios que não se resolvem com iniciativas isoladas, mas com compromissos estruturais e verificáveis.
O que é inegável é que esta aposta coloca a agricultura regenerativa no centro do debate sobre o futuro da alimentação. E, num momento em que consumidores, reguladores e produtores exigem transparência e impacto real, a Nestlé tem a oportunidade — e a obrigação — de demonstrar que regenerar o solo é mais do que uma tendência: é uma necessidade para garantir um sistema alimentar mais sustentável, resiliente e preparado para as próximas décadas.
Fonte: Qualfood
O Dia Mundial do Leite, celebrado a 1 de junho, volta a colocar no centro da discussão um dos alimentos mais completos e versáteis da nossa alimentação. Num momento em que os consumidores exigem mais transparência, sustentabilidade e qualidade, o setor leiteiro responde com inovação, rigor e um compromisso renovado com a saúde pública e o bem‑estar animal.
Um setor que se reinventa para ser mais sustentável
Da redução da pegada carbónica à melhoria das práticas de bem‑estar animal, os produtores portugueses têm acelerado a transição para modelos mais eficientes e responsáveis. Sistemas de monitorização, alimentação de precisão e investimentos em energia renovável estão a transformar a forma como o leite é produzido.
Qualidade e segurança: o eixo central da fileira
O leite que chega às famílias portuguesas passa por controlos rigorosos, análises laboratoriais frequentes e rastreabilidade completa — desde a exploração até ao consumidor final. Esta evolução tecnológica reforça a confiança num alimento que continua a ser uma fonte essencial de cálcio, proteínas de alto valor biológico e vitaminas fundamentais.
Um alimento presente em todas as fases da vida
Do pequeno‑almoço das crianças às receitas tradicionais que marcam a gastronomia portuguesa, o leite mantém um papel cultural e nutricional incontornável. Especialistas sublinham que, integrado numa alimentação equilibrada, contribui para a saúde óssea, o desenvolvimento cognitivo e o bem‑estar geral.
O desafio nacional: valorizar quem produz
Apesar dos avanços, o setor enfrenta pressões económicas, volatilidade de preços e custos de produção elevados. Organizações de produtores defendem que é urgente reforçar a valorização do leite nacional, garantindo condições justas para quem assegura diariamente a disponibilidade deste alimento essencial.
Fonte: Qualfood
O encerramento do Estreito de Ormuz poderá desencadear um choque sistémico no setor agroalimentar e conduzir a uma crise global de preços dos alimentos no prazo de seis a 12 meses, alertou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Segundo a organização, evitar este cenário exigirá a criação de rotas comerciais alternativas, contenção nas restrições às exportações, proteção dos fluxos humanitários e mecanismos que permitam absorver o aumento dos custos de transporte.
“O momento chegou para começar a pensar seriamente em como aumentar a capacidade de absorção dos países, como aumentar a sua resiliência a este estrangulamento, para que comecemos a minimizar os potenciais impactos”, afirmou Maximo Torero, economista-chefe da FAO, num novo podcast publicado na quarta-feira.
De acordo com a FAO, a janela para uma ação preventiva está a fechar-se rapidamente. As decisões tomadas agora por agricultores e governos sobre utilização de fertilizantes, importações, financiamento e escolha de culturas serão determinantes para perceber se uma crise severa de preços dos alimentos poderá emergir nos próximos seis a 12 meses.
O impacto já se começa a refletir nos mercados. O Índice de Preços dos Alimentos da FAO, que acompanha a evolução mensal dos preços internacionais de um cabaz de matérias-primas alimentares transacionadas globalmente, subiu pelo terceiro mês consecutivo em abril, impulsionado pelos elevados custos da energia e por perturbações associadas ao conflito no Médio Oriente.
A FAO descreve o choque como um processo em cadeia: energia, fertilizantes, sementes, menores produtividades, aumento dos preços das matérias-primas e, posteriormente, inflação alimentar.
Para mitigar estes efeitos, David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO, defende a utilização de rotas terrestres e marítimas alternativas para contornar Ormuz, incluindo através da zona oriental da Península Arábica, do oeste da Arábia Saudita e do Mar Vermelho. No entanto, estas alternativas têm capacidade limitada, o que torna essencial evitar restrições à exportação por parte dos principais produtores.
Maximo Torero sublinhou que esta preocupação é particularmente relevante para salvaguardar os fluxos de ajuda alimentar humanitária.
A situação poderá agravar-se com a chegada do fenómeno El Niño, que deverá provocar secas e alterar padrões de precipitação e temperatura em várias regiões.
Entre as recomendações de curto prazo, a FAO defende a criação rápida de corredores terrestres e marítimos alternativos para contornar Ormuz, a não imposição de restrições à exportação de energia, fertilizantes e outros fatores de produção, e a isenção da ajuda alimentar de limitações ao comércio.
A organização recomenda ainda intervenções de emergência que promovam a consociação de culturas, nomeadamente cereais e leguminosas, como forma de reduzir a utilização de fertilizantes azotados e gerar benefícios nutricionais, ambientais, económicos e agronómicos.
Para apoiar produtores e famílias vulneráveis, a FAO recomenda a ativação de programas de proteção social, mas desaconselha subsídios generalizados. A organização considera que esse tipo de apoio aumenta a pressão sobre as contas públicas e tende a beneficiar menos quem mais precisa. A prioridade, segundo a organização, deve passar por apoios direcionados aos grupos mais vulneráveis, com recurso a registos digitais que permitam encaminhar assistência para agregados rurais e pequenos produtores.
A médio prazo, a FAO recomenda evitar o aumento da procura de biocombustíveis durante períodos de escassez, garantir que as respostas de política energética não agravam crises alimentares e alargar o acesso a crédito acessível para agricultores, empresas agroalimentares, pequenas e médias empresas e outros agentes das cadeias de valor.
A organização defende linhas de crédito de emergência com juros reduzidos, calendários de reembolso alinhados com os períodos de colheita e períodos de carência de seis a nove meses. Recomenda também a combinação de empréstimos agrícolas com acordos de compra garantida por agregadores, transformadores ou compradores públicos.
Entre as medidas de longo prazo, a FAO propõe a diversificação de portos, corredores, sistemas de armazenamento e logística, bem como o reforço de reservas regionais e da capacidade de armazenagem. A organização defende ainda maior resiliência dos sistemas de transporte nacionais e transfronteiriços.
A FAO recomenda também o uso de financiamento concessional para acelerar a diversificação da matriz energética e expandir sistemas de regadio com substituição do gasóleo por soluções elétricas e solares. Entre as restantes medidas estão a expansão de maquinaria eletrificada, drones, tecnologias de agricultura de precisão, mapeamento de solos e aplicação mais eficiente de fertilizantes.
A organização defende ainda fundos de inovação para apoiar amoníaco verde, bioestimulantes, genética de culturas e tecnologias de eficiência nutricional. Embora estas soluções possam demorar três a cinco anos a produzir efeitos, a FAO considera que poderão reforçar de forma significativa a resiliência a longo prazo.
Fonte: Vida Rural
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