As alterações climáticas estão a transformar profundamente a produção mundial de café, tornando a cadeia de abastecimento mais frágil e pressionando os preços ao longo de todo o sector, segundo uma análise da GlobalData.
O aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e a maior frequência de fenómenos meteorológicos extremos estão a afetar as principais regiões produtoras, reduzindo a previsibilidade das colheitas e a disponibilidade de matéria-prima. O impacto faz-se sentir desde os agricultores até aos fabricantes e consumidores, com preços mais elevados e menor consistência do produto.
A variedade arábica, que representa mais de metade da produção global e domina os segmentos premium, é particularmente vulnerável. Esta casta desenvolve-se melhor em intervalos de temperatura específicos e, com o aquecimento global, muitas zonas tradicionais estão a tornar-se menos adequadas ao seu cultivo.
As projeções apontam para um cenário ainda mais desafiante. O Rabobank estima que cerca de 20% das áreas atuais de cultivo de arábica possam tornar-se inviáveis até 2050, forçando uma redistribuição geográfica da produção e aumentando o risco de ruturas no abastecimento.
Além da quantidade, a qualidade também está em risco. Temperaturas mais elevadas aceleram a maturação dos grãos, reduzindo a complexidade aromática, enquanto chuvas intensas durante a colheita aumentam a probabilidade de defeitos. Como resultado, fabricantes poderão ser obrigados a ajustar misturas, recorrer mais à variedade robusta – mais resistente ao calor – ou reformular produtos.
O impacto já chega ao consumidor final. A FAO registou uma subida de quase 40% nos preços do café em 2024, impulsionada por quebras de produção associadas ao clima adverso. Para além do preço, os consumidores enfrentam também menor diversidade de oferta e possíveis alterações no sabor habitual.
Apesar dos desafios, existem estratégias de adaptação em curso, como sistemas agroflorestais, desenvolvimento de novas variedades mais resistentes e maior diversificação de origens por parte da indústria. No entanto, especialistas alertam que o sucesso destas medidas dependerá da rapidez do investimento e do apoio aos pequenos produtores, responsáveis por grande parte da produção mundial.
A conclusão é clara: o futuro do café dependerá não só da evolução do clima, mas também da capacidade de resposta de toda a cadeia de valor para garantir oferta, qualidade e estabilidade num mercado cada vez mais pressionado.
Fonte: Grande Consumo
A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), através das suas Unidades Regionais do Norte e do Centro e do empenho das Brigadas Especializadas dos Vinhos e Produtos Vitivinícolas, realizou diversas operações de fiscalização dirigidas a operadores económicos com atividade de produção, engarrafamento, armazenamento e distribuição de vinhos, nas últimas semanas, nos concelhos de Lamego, Fafe, Maia, Lousada, Viseu e Tondela.
As ações de fiscalização tiveram como objetivo verificar o cumprimento das normas aplicáveis ao setor vitivinícola, nomeadamente no que respeita às condições de produção, armazenamento e comercialização destes produtos.
Como resultados operacionais destaca-se a apreensão de 39.391 litros de vinho (tinto e branco) cuja rotulagem apresentava diversas irregularidades incluindo omissões de menções obrigatórias, já engarrafados e prontos a serem introduzidos no mercado, bem como 600 rótulos com informação não conforme.
Em todos os operadores inspecionados verificou-se que a rotulagem dos produtos não cumpria a legislação em vigor, nomeadamente no que respeita à informação obrigatória ao consumidor, conforme previsto na legislação aplicável.
No âmbito destas fiscalizações, foram instaurados 7 processos de contraordenação, destacando-se como principais infrações:
- a inexistência de rastreabilidade dos produtos,
- irregularidades na rotulagem,
- falta de registo junto do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP, I.P.),
- ausência de comunicações obrigatórias à entidade competente, incluindo a declaração nutricional e a lista de ingredientes,
- falta de comunicação prévia da rotulagem ao Instituto da Vinha e do Vinho (IVV, I.P.), e
- incumprimento das regras aplicáveis ao controlo metrológico dos pré-embalados.
O incumprimento destes requisitos legais essenciais compromete a integridade do circuito comercial, gera desequilíbrios concorrenciais, limita a capacidade de controlo das Autoridades Oficiais e representa um risco para a salvaguarda e segurança do consumidor.
Fonte: ASAE
Uma plataforma online gratuita é hoje lançada para ajudar a identificar as espécies a plantar em cada região, aumentando a resiliência do território a fenómenos extremos como as tempestades que afetaram Portugal no início do ano.
“As tempestades que atingiram Portugal expuseram uma fragilidade estrutural: muitos territórios continuam mal preparados para responder a fenómenos climáticos extremos e parte do problema está nas escolhas feitas no terreno,” explica em comunicado a Natural Business Intelligence (NBI), consultora que lançou a plataforma.
A ‘webApp’ Racidi foi criada com uma ideia “simples, mas crítica”: escolher a espécie certa, no sítio certo é uma necessidade estratégica, porque se “tornou evidente que entre cheias, deslizamentos de terra e destruição de infraestruturas, plantar sem critério pode amplificar riscos em vez de os mitigar”, defendeu a empresa.
A plataforma organiza dados complexos de “forma simples, clara e acionável” e pode ser usada tanto para “apoio ao planeamento municipal como na recuperação de áreas afetadas por incêndios ou tempestades”.
Basta selecionar um distrito, concelho e/ou freguesia para identificar as espécies autóctones presentes, explorar as suas características ecológicas e consultar o respetivo grau de resiliência perante fenómenos extremos.
“Temos o conhecimento e sentimos a responsabilidade de partilhar este conhecimento. A Radici é a nossa forma de contribuir para que todos tenham acesso à informação necessária para tomar decisões fundamentadas sobre o que plantar em determinada localização, cuidando melhor do território e reforçando a sua resiliência,” diz o CEO da NBI, Nuno Gaspar de Oliveira, no comunicado.
A consultora, especializada na valorização do capital natural, explica a importância de se investir na natureza e apresenta valores de “quanto custa” ignorá-la.
Conclui no comunicado que a plataforma “ajuda a evitar decisões mal informadas, reduz desperdício de recursos e potencia intervenções mais eficazes e duradouras”.
Fonte: Agroportal
O setor das embalagens em Portugal vive um dos períodos mais desafiantes das últimas décadas. Entre metas ambientais cada vez mais exigentes, pressão para reduzir desperdício e a necessidade de garantir segurança alimentar absoluta, seria natural esperar que o quadro regulamentar europeu oferecesse clareza e estabilidade. No entanto, o que está a acontecer com o Regulamento (UE) 2025/40 (PPWR – Packaging and Packaging Waste Regulation) revela precisamente o contrário.
A sucessão de notas interpretativas emitidas pela Comissão Europeia é um sinal claro de que a legislação, tal como foi publicada, não está a ser suficientemente precisa para quem a tem de aplicar. No universo alimentar, onde cada detalhe conta, a falta de clareza é um risco real.
Dar resposta ao PPWR tem sido um desafio enorme para o setor das embalagens. O regulamento exige uma mudança estrutural, e não apenas pequenos ajustes.
A Europa definiu metas ambiciosas, os consumidores exigem mais responsabilidade e o planeta já não tolera excessos. As embalagens são produzidas a um ritmo que o sistema já não consegue absorver, e o regulamento não deixa margem para dúvidas: reduzir, reutilizar e reciclar deixaram de ser apenas conceitos e passaram a ser obrigações com prazos e metas apertados.
O problema é que a legislação tem avançado mais depressa do que a capacidade de adaptação das empresas portuguesas. Muitas ainda estão a tentar perceber e ajustar os seus processos produtivos e logísticos, mas o ritmo exigido não acompanha a realidade tecnológica e financeira disponível. Nem sempre existe capacidade para cumprir dentro dos prazos estabelecidos.
No setor alimentar, a embalagem é um elemento crítico de segurança, conservação, rastreabilidade e comunicação com o consumidor.
Cada material, cada constituinte, cada aditivo tem impacto direto na qualidade e segurança do produto final. Por isso, quando a legislação é ambígua, toda a cadeia alimentar fica vulnerável. Materiais que hoje são permitidos podem amanhã ter restrições ou ser proibidos. Investimentos feitos podem deixar de fazer sentido e decisões sobre substituição de materiais tornam‑se arriscadas.
A entrada em vigor do regulamento tem levantado tantas questões que a Comissão se viu obrigada a emitir sucessivas notas interpretativas, o que revela que algo não está tão claro, tão operacional ou tão alinhado com a realidade industrial quanto deveria.
Cada nova nota altera o entendimento anterior, obriga a rever processos internos e cria a sensação de que o regulamento ainda está “em construção”, mesmo já estando em vigor.
Quando um regulamento precisa de tantas notas interpretativas, o problema não está na indústria, está possivelmente na própria legislação.
O PPWR foi apresentado como um instrumento de harmonização europeia. Mas a necessidade constante de clarificações mostra que a sua redação não antecipou a complexidade do setor, especialmente no alimentar, onde existem uma série de questões e dúvidas.
Nesta área especifica existem embalagens para contacto direto e indireto, existem requisitos específicos de migração; substâncias proibidas cuja ausência tem de ser comprovada; especificidades relacionadas com tecnologias de barreira essenciais para segurança e shelf‑life e ainda sistemas de rotulagem e rastreabilidade altamente regulados.
Quando a Comissão precisa de explicar repetidamente o que a legislação “quer dizer”, é porque a mesma não disse o suficiente.
As empresas dependem de regras claras para garantir que os seus produtos circulam sem entraves no mercado europeu.
A falta de clareza leva a que as empresas maiores se adaptem mais rapidamente e as PME enfrentem custos desproporcionais, a competitividade nacional seja afetada e que decisões de inovação sejam adiadas por receio de incumprimento
O objetivo do regulamento é harmonizar, mas isso só é possível se as interpretações também forem harmonizadas.
Quando a legislação é ambígua, cada país interpreta à sua maneira e isso é especialmente crítico na área alimentar, onde os requisitos já são complexos por natureza.
O setor alimentar precisa de coerência, não de incerteza. A sustentabilidade não se constrói com incerteza, constrói‑se com regras claras, tecnicamente sólidas e operacionalmente exequíveis.
Seria essencial que fossem publicados guias técnicos completos em simultâneo com o regulamento, garantir que as notas interpretativas não o substituem e assegurar que as interpretações são uniformes em toda a União Europeia.
A inovação em embalagem alimentar exige investimento, e o investimento exige confiança.
Não é possível garantir segurança alimentar, inovação e sustentabilidade quando a própria legislação ainda está a ser interpretada.
Fonte: iAlimentar
Cientistas do Rothamsted Research anunciaram o desenvolvimento de um trigo obtido por edição genética que poderá representar um avanço importante na segurança alimentar.
A nova variedade apresenta uma redução acentuada de asparagina, um aminoácido naturalmente presente no trigo que, quando sujeito a altas temperaturas durante processos como cozedura, fritura ou torrefação, pode dar origem à acrilamida, uma substância potencialmente nociva.
Para alcançar este resultado, os investigadores recorreram à tecnologia de edição genética CRISPR, desativando de forma precisa genes associados à produção de asparagina. Entre eles destaca-se o gene TaASN2, considerado central neste processo metabólico.
Os ensaios demonstraram reduções muito significativas dos níveis de asparagina nos grãos, podendo atingir valores superiores a 50% em comparação com variedades convencionais, sem prejuízo na produção. Em algumas linhas com múltiplas alterações genéticas, a diminuição foi ainda mais expressiva.
O estudo envolveu várias instituições internacionais, incluindo o Karlsruhe Institute of Technology, o Leibniz Institute for Food Systems Biology, a Technical University of Munich, a University of Reading e a Curtis Analytics Limited.
Os resultados foram também comparados com abordagens tradicionais de melhoramento, como a mutagénese TILLING, que, embora consiga reduzir a asparagina, tende a comprometer o rendimento das culturas. Neste novo trabalho, a edição genética permitiu evitar esse efeito negativo, evidenciando uma maior precisão e eficiência.
Para os investigadores, este avanço demonstra o potencial das novas técnicas genómicas na resolução de desafios complexos na cadeia alimentar. Para além dos benefícios industriais, a redução da acrilamida nos alimentos poderá ter um impacto positivo na saúde pública, ao diminuir a exposição dos consumidores a contaminantes formados durante o processamento térmico.
O desenvolvimento surge numa altura em que o Reino Unido tem vindo a avançar com legislação favorável à utilização de tecnologias de melhoramento de precisão, abrindo caminho à aplicação destas soluções inovadoras na agricultura e na produção alimentar.
Mais informações em Rothamsted Research News.
Fonte: Centro de informação de biotecnologia
A GNR – Guarda Nacional Republicana concluiu a Operação Campo Seguro 2025, que decorreu entre 1 de julho de 2025 e 15 de fevereiro de 2026, com um balanço que evidencia a apreensão de cerca de nove toneladas de produtos agrícolas em todo o território nacional.
A operação teve como principal objetivo reforçar o patrulhamento, a sensibilização e a fiscalização nas explorações agrícolas e florestais, apostando na prevenção e combate a crimes como o furto de produtos e máquinas, bem como na redução da sinistralidade com veículos agrícolas.
Durante este período, foram realizadas 4219 ações de patrulhamento e 2054 ações de fiscalização direcionadas para a segurança no mundo rural e transporte de produtos, das quais resultaram 47 detenções, maioritariamente relacionadas com furtos, e a identificação de 95 indivíduos. Ao nível da criminalidade, foram registados 379 furtos e ainda quatro crimes de tráfico de seres humanos em contexto laboral.
No âmbito das apreensões, a GNR destaca a recolha de 6 687,5 toneladas de azeitona, com maior incidência no distrito de Beja, onde foram apreendidas cerca de 4 698,5 toneladas, seguido de Évora com 1 771. Foram ainda apreendidos 445 quilos de cortiça em Santarém, 1 150 quilos de alfarroba e 234 quilos de abacate no distrito de Faro, além de 240 quilos de pinha mansa, também em Santarém.
A vertente de prevenção e sensibilização assumiu igualmente destaque, com a realização de 3941 ações que alcançaram mais de 19 mil pessoas, incidindo na prevenção de ilícitos, na segurança na condução de veículos agrícolas e na identificação de situações de exploração laboral.
Relativamente à sinistralidade com veículos agrícolas, em 2025 foram registados 613 acidentes, dos quais resultaram 47 vítimas mortais. Estes números comparam com os 602 acidentes e 40 vítimas mortais registados em 2023 e os 684 acidentes com 52 vítimas mortais em 2024. Segundo a GNR, as principais causas continuam a estar associadas à perda de controlo do veículo, às irregularidades do terreno e à não utilização de estruturas de proteção, como o arco de “Santo António”.
A operação contou ainda com articulação transfronteiriça com a Guardia Civil, considerada fundamental para o controlo de fluxos de mercadorias e para a identificação de redes de furto de metais não preciosos e produtos agrícolas sazonais.
A GNR reforça o apelo aos proprietários para que reportem qualquer movimento suspeito e aos utilizadores de máquinas agrícolas para que apostem na manutenção dos equipamentos e na formação adequada, sublinhando que a Operação Campo Seguro se afirma como um pilar essencial na proteção do mundo rural e da vida humana.
Fonte: Radio Castrense
A solução para combater a doença da tinta pode estar no ADN dos castanheiros, conclui um estudo recentemente publicado e cuja primeira autora é Susana Serrazina, investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) e do Instituto de Biossistemas e Ciências Integrativas (BioISI) que, entre outras alternativas, antevê a criação de uma espécie de vacina para enfrentar esta praga que afeta os castanheiros em Portugal.
Primeiro, o contexto: a doença da tinta é uma infeção grave provocada por agentes patogénicos, semelhantes a fungos, que se disseminam pelo solo e infetam as árvores através das raízes – quando a doença se faz notar (através do tronco e das folhas), já não há possível salvação para a árvore. Trata-se de uma doença que tem tido um forte impacto na sociedade, sobretudo entre as comunidades que dependem deste cultivo. Afinal, ao longo de cerca de 20 anos, a doença da tinta destruiu um milhão de castanheiros em Portugal.
Mas a doença não afeta todos os castanheiros de igual forma. Por isso os investigadores se debruçaram sobre o castanheiro europeu e castanheiro japonês – o primeiro é normalmente reconhecido pelo valor do fruto, o segundo pela sua perseverança, nomeadamente na resistência à doença da tinta.
Foi através desta análise comparativa que a equipa científica chegou a uma conclusão promissora, que a resposta está a nível genómico, no ADN: “Em laboratório, infetámos plantas das espécies europeia e japonesa e vimos quais os genes que cada uma dessas plantas ativava para resistir à infeção. Verificámos que há um conjunto de genes que são ativados pelo castanheiro japonês e que não são ativados, ou então são ativados muito tarde, pelo castanheiro europeu”, descreve Susana Serrazina. Destacar os genes é o primeiro passo para fazer frente ao micro-organismo subterrâneo que está na origem da doença, conhecido como Fitóftora (Phytophthora cinnamomi).
Apesar dos vários estudos e investigações de que tem sido alvo a nível nacional e internacional, até à data, não se conhecem produtos químicos eficazes para o tratamento da doença da tinta. Este novo estudo permite abordar a problemática em três frentes distintas: primeiro, o uso da proteína codificada pelo gene do castanheiro japonês como uma forma de pré-ativação da defesa (uma espécie de vacina); em segundo lugar, o uso do gene como marcador molecular (na identificação das árvores mais propensas a sofrer da doença); e em último lugar no trabalho de edição génica para a criação de novas variedades de castanheiro que já nascem com uma defesa para esta praga.
Fonte: Green Savers
A aquacultura em Portugal é considerada um setor estratégico, mas com uma produção insuficiente para suprir o elevado consumo interno de pescado (~60 kg per capita/ano), do qual cerca de 80 % é importado. Em 2023, a produção nacional atingiu 20 872 T, distribuídas entre peixes (pregado, dourada e robalo) e bivalves (ameijoa, mexilhão e ostras). O setor caracteriza-se por uma diversidade de sistemas produtivos, desde viveiros tradicionais e aquacultura semi-intensiva em esteiros, até unidades intensivas com recirculação de água (RAS) e cultivos offshore. Portugal destaca-se pelo conhecimento técnico e científico, garantindo produtos de qualidade e sustentabilidade ambiental. Entre os desafios do setor estão o licenciamento complexo, custos elevados dos fatores de produção, escassez de mão de obra qualificada e as alterações climáticas, exigindo inovação e integração entre investigação e indústria alimentar.
A nível global, a quantidade de pescado produzido em aquacultura supera, atualmente, o proveniente da pesca extrativa.
Os portugueses são os maiores consumidores de pescado da União Europeia, com cerca de 60 kg per capita/ano, e ocupam o quinto lugar a nível mundial. No entanto, aproximadamente 80 % desse pescado é importado, o que resulta num défice comercial anual de cerca de 600 T e num valor próximo de 1,2 mil milhões de euros. A produção nacional, estimada em cerca de 20 000 T por ano é manifestamente insuficiente face às necessidades e ao potencial do país. Contribui com apenas 3 % da quantidade de pescado consumido em Portugal e representa menos que 2 % da produção europeia.
A aquacultura marinha, teve início em Portugal nas décadas de 1980 e 1990, com a instalação de algumas unidades de produção intensiva de robalo e dourada, bem como com o desenvolvimento da aquacultura semi-intensiva em tanques de terra resultantes da reconversão de antigas salinas. Nos últimos 15 anos, o setor registou um crescimento significativo, com o surgimento de empresas que utilizam sistemas de produção tecnologicamente mais avançados, como os sistemas de recirculação de água (RAS - Recirculation Aquaculture Systems), tornando Portugal uma referência na produção de peixes planos como o pregado e o linguado. Paralelamente, a produção de bivalves, nomeadamente a ostra, tem crescido de forma exponencial em todo o país. Simultaneamente, tem-se verificado a expansão da aquacultura em meio marinho, com a instalação de unidades offshore para a produção de robalo, dourada, lírio, mexilhão e amêijoas, sobretudo ao longo da costa algarvia.
A aquacultura é uma atividade de produção relativamente recente, que exige elevado nível de conhecimento técnico e emprego qualificado. Portugal destaca-se como um dos países europeus com maior produção científica na área da aquacultura, dispondo de uma comunidade científica sólida nas universidades, centros de Investigação e Collaborative Laboratories (CoLABs), nas áreas da nutrição, patologia, equipamentos, engenharia, bem-estar animal, entre outras. Por outro lado, são formados em Portugal recursos humanos altamente qualificados para o setor, nas áreas da biologia, engenharia, zootecnia e medicina veterinária. A Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS-UP), a Universidade do Algarve e o Politécnico de Leiria, através da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESTM) são alguns exemplos de instituições, onde foram formados muitos dos técnicos e gestores que atualmente trabalham na aquacultura nacional.
As maternidades empregam, essencialmente, biólogos e licenciados nas áreas da biologia e biotecnologia. Os sistemas intensivos em RAS, para além de biólogos e zootécnicos, requerem técnicos com competências em engenharia, responsáveis pela gestão dos sistemas e pela manutenção dos equipamentos. A produção offshore de peixes e bivalves emprega técnicos com capacidades em navegação, mergulho profissional e gestão logística em ambiente marítimo. A produção em esteiros, embora com menor incorporação tecnológica, integra frequentemente biólogos ou médicos veterinários na gestão das operações. Por sua vez, a produção de ostras tem vindo a empregar profissionais de diversas áreas, licenciados ou não, sendo maioritariamente desenvolvida por jovens aquacultores.
Os dados estatísticos mais recentes do INE e DGRM indicam que, em 2023, a produção total aquícola em Portugal ascendeu às 20 872 T, o que representa um aumento de 10,9 %, face a 2022, resultando numa receita de 205,9 milhões de euros (159,8 milhões de euros em 2022. Quase a totalidade da produção aquícola nacional (98,5 %) provém de águas marinhas e de transição (zonas estuarinas), sendo a produção em águas interiores, essencialmente de trutas, reduzida a 308 T.
A produção aquícola nacional distribui-se de forma quase equitativa entre peixes (8 850 t) e moluscos bivalves (11 952 t). No grupo dos peixes, a espécie mais produzida é o pregado (3 209 t), seguido da dourada (2 798 t) e do robalo (1 703 t). Acrescem cerca de 800 t, correspondentes a produção de outras espécies de peixes, entre os quais se destaca o linguado, cuja produção se encontra em franco crescimento em Portugal. Relativamente aos bivalves, a espécie mais produzida é a ameijoa (5 820 t), seguida do mexilhão (3 274 t) e das ostras (2 738 t).
Em 2023, a aquacultura nacional contava com 1 307 estabelecimentos licenciados, maioritariamente viveiros de produção de bivalves (1 163), seguindo-se as unidades em tanques (106), os estabelecimentos flutuantes (31) e as unidades de reprodução (7).
Fonte: TecnoAlimentar
O projeto CERTRA, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), está a desenvolver iniciativas para valorizar os cereais tradicionais em Portugal, envolvendo mais de 25 entidades ao longo da cadeia de valor.
No âmbito da Linha de Ação 1.1 – Consumo, o projeto reuniu produtores, transformadores e instituições de investigação, resultando no desenvolvimento de mais de 12 novos produtos alimentares, incluindo pão, cerveja, broas, biscoitos e cuscos. Foi também criada a marca CERTRA, com o objetivo de reforçar a visibilidade destes produtos no mercado.
Na vertente científica, a Linha de Ação 1.2 – Produtos permitiu aprofundar o conhecimento sobre cereais tradicionais portugueses. Foram analisadas mais de 64 populações de trigo, centeio e milho, com base em estudos genéticos, agronómicos e tecnológicos. Estes dados foram comparados com mais de 60 farinhas comerciais, permitindo validar a autenticidade e o posicionamento diferenciador dos produtos tradicionais.
O projeto inclui ainda uma componente dedicada à valorização alimentar e cultural, enquadrada na Linha de Ação 1.3 – Dieta Mediterrânica. Neste âmbito, foram promovidas experiências gastronómicas com farinhas integrais tradicionais e está em desenvolvimento um livro de receitas, bem como a compilação de práticas e técnicas associadas a estes cereais.
Na área da comunicação e sensibilização (Linha de Ação 1.4), foram realizadas ações de formação, visitas técnicas e campanhas dirigidas a produtores, técnicos, estudantes e consumidores. O projeto integra também iniciativas de cooperação internacional, com foco na partilha de conhecimento e reforço de redes científicas.
De acordo com os objetivos definidos, o CERTRA pretende criar valor ao longo da cadeia, incentivando a utilização de cereais locais, promovendo a agricultura biológica e reforçando a ligação entre produção, transformação e consumo. A iniciativa visa ainda aumentar o conhecimento sobre as características dos cereais tradicionais, melhorar a sua adequação a produtos transformados e criar novas oportunidades de mercado.
O projeto aposta também na criação de redes de partilha de conhecimento entre os diferentes agentes do setor e na promoção da sustentabilidade, segurança alimentar e valorização da diversidade cultural associada à produção de cereais tradicionais.
Fonte: Vida Rural
Cientistas desenvolveram variedades de trigo editado geneticamente capazes de reduzir significativamente a formação de acrilamida — composto classificado como potencial cancerígeno — sem impacto na produtividade agrícola.
A investigação, conduzida pelo Rothamsted Research, no Reino Unido, utilizou a tecnologia CRISPR para editar genes responsáveis pela produção de asparagina livre, um aminoácido presente no trigo que, quando sujeito a altas temperaturas durante a confeção, dá origem à acrilamida.
Resultados de dois anos de ensaios de campo mostram que o trigo modificado apresenta níveis substancialmente mais baixos de asparagina livre, sem redução do rendimento. As alterações genéticas permitiram reduzir este composto em 59% e até 93% numa das linhas editadas.
Esta redução traduz-se diretamente em menores níveis de acrilamida nos produtos finais. Pão e bolachas produzidos com este trigo registaram concentrações significativamente mais baixas, com alguns exemplos de pão a apresentarem níveis abaixo do limite de deteção mesmo após serem torrados.
Os investigadores compararam estas variedades com trigo desenvolvido por métodos convencionais, baseados em mutações induzidas por agentes químicos. Embora estas técnicas tenham permitido uma redução de cerca de 50% na asparagina livre, resultaram numa penalização de produtividade próxima dos 25%, associada a mutações não direcionadas.
“Este trabalho demonstra o potencial da tecnologia CRISPR para introduzir alterações precisas e benéficas na genética das culturas”, afirmou Navneet Kaur, investigadora principal do estudo. “Com enquadramentos regulatórios favoráveis, é possível desbloquear benefícios significativos para a agricultura e os sistemas alimentares”.
A investigação surge num contexto de crescente exigência regulatória sobre os níveis de acrilamida nos alimentos. A União Europeia (UE) já definiu valores de referência para este composto e prevê restringir ainda mais os limites máximos, com impacto também em produtos exportados.
Segundo Nigel Halford, investigador principal do estudo, “o trigo com baixo teor de acrilamida pode permitir às empresas alimentares cumprir normas de segurança em evolução sem comprometer a qualidade dos produtos ou aumentar significativamente os custos de produção”. O investigador acrescenta que esta solução representa também uma oportunidade para reduzir a exposição dos consumidores a este composto.
Fonte: Agroportal
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