Durante anos, o debate em torno das proteínas alternativas girou quase exclusivamente em torno da soja, da ervilha e do trigo. O feijão mungo – Vigna radiata, cultivado há milénios na Ásia, Índia e Médio Oriente – ficou à margem, apesar de reunir um conjunto de características que o tornam particularmente atrativo para a formulação de produtos inovadores.
A GlobalData, identificou o feijão mungo como uma oportunidade de inovação de primeira linha para os fabricantes que procuram diferenciar-se no saturado segmento das proteínas vegetais, destacando o seu perfil comparável à carne em termos funcionais como um elemento diferenciador chave.
O mercado global de proteína de feijão mungo foi avaliado em cerca de 890 milhões de dólares e deverá crescer para 1.700 milhões de dólares até 2032, a um ritmo anual composto de 8,5%. Um crescimento expressivo, impulsionado por um conjunto de fatores que se reforçam mutuamente: a transição para dietas mais ricas em proteínas vegetais, a procura de ingredientes com perfil clean label, a expansão do mercado de análogos de carne e a crescente insatisfação dos consumidores com produtos ultratransformados à base de soja.
Funcionalidade que rivaliza com a carne
O argumento técnico a favor do feijão mungo é sólido. A sua proteína apresenta capacidades de absorção de água e de gordura comparáveis às da proteína de soja, dois dos atributos mais críticos para replicar a suculência e a textura da carne em produtos plant-based. Estudos laboratoriais mostram que, em análogos de carne de alta humidade produzidos por extrusão, o isolado proteico de feijão mungo gera estruturas fibrosas semelhantes à carne quando a sua concentração atinge os 40 a 50% da formulação – um resultado que poucas proteínas vegetais conseguem igualar sem recurso a aditivos.
A proteína 8S globulina presente no feijão mungo apresenta uma estrutura molecular com 68% de identidade de sequência com a beta-conglicinina da soja, o que explica o seu comportamento funcional similar. Além disso, a sua capacidade de gelificação melhora com o aumento da temperatura, o que é relevante para processos industriais de alta intensidade. A estas vantagens junta-se uma propriedade sensorial interessante: através de hidrólise enzimática, a proteína de feijão mungo pode desenvolver aroma e sabor subtilmente umami – características tipicamente associadas à carne.
Para além das propriedades funcionais, o feijão mungo acumula vantagens competitivas noutras dimensões que os fabricantes valorizam cada vez mais. É naturalmente hipoalergénico – ao contrário da soja e do trigo, dois dos principais alergénios alimentares -, o que alarga o seu potencial de mercado a consumidores com restrições alimentares específicas. É também uma leguminosa com baixo impacto ambiental, fixadora de azoto no solo, que requer menos água e terra por quilo de proteína produzida do que a maioria das culturas proteicas de referência.
Do ponto de vista do consumidor, a simplicidade do ingrediente é uma vantagem: o feijão mungo é reconhecível, tem história culinária em múltiplas culturas e presta-se a formulações com listas de ingredientes curtas. Num contexto em que 64% dos consumidores globais afirmam preferir produtos plant-based com menos processamento, segundo a Innova Market Insights, este atributo é cada vez mais um critério de decisão de compra.
Europa como terreno fértil, mas ainda subexplorado
Na Europa, o crescimento do mercado de proteínas vegetais encontra suporte nas metas de diversificação proteica que vários retalhistas de peso já assumiram publicamente. A Ahold Delhaize comprometeu-se a que 50% das proteínas vendidas nas suas lojas europeias sejam de origem vegetal até 2030. A Carrefour superou em 2024 o seu objetivo de 500 milhões de euros em vendas plant-based – dois anos antes do previsto. A penetração do feijão mungo neste ecossistema, porém, mantém-se limitada: a maioria das formulações plant-based europeias continua a depender da ervilha e da soja importada.
A diversificação de fontes proteicas é apontada por analistas da GlobalData como uma prioridade estratégica para o sector. A dependência excessiva de poucas culturas cria vulnerabilidade na cadeia de abastecimento e fragiliza a resiliência das marcas em contextos de volatilidade de preços ou disrupção logística. O feijão mungo – cuja produção global atingiu 5,3 milhões de toneladas métricas em 2026, com destaque para a Índia, que registou um recorde de 3,8 milhões de toneladas – oferece uma alternativa com cadeia de abastecimento estruturada e preços relativamente estáveis.
Janela de oportunidade para os fabricantes
O momento é propício para os fabricantes que queiram posicionar-se neste segmento antes que a competição se intensifique. A proteína de feijão mungo é ainda um ingrediente de nicho nas prateleiras europeias, mas a janela está a abrir-se: a procura supera a oferta nos mercados retalhistas europeus e norte-americanos, os custos de extrusão e processamento estão a baixar com a escala, e a investigação sobre modificações tecnológicas da proteína – ultrassonificação, ajuste de pH, spray-drying – está a alargar as suas aplicações funcionais.
As categorias com maior potencial de incorporação incluem análogos de carne (hambúrgueres, salsichas, produtos fatiados), ovos vegetais – onde o feijão mungo já é o ingrediente central em marcas como a JUST Egg - snacks proteicos, bebidas funcionais e produtos de padaria enriquecidos. Em todos estes segmentos, a vantagem competitiva do feijão mungo sobre a ervilha e a soja reside numa combinação difícil de replicar: funcionalidade técnica elevada, perfil nutricional completo, menor alergenia, apelo clean label e uma narrativa de sustentabilidade credível. Para os fabricantes dispostos a investir em formulação e em cadeia de abastecimento, o feijão mungo pode ser o próximo grande salto proteico.
Fonte: Grande Consumo
No contexto do programa de contenção e erradicação da flavescência dourada da videira, a DGAV procede à divulgação dos seguintes documentos:
EDITAL 2/2025/FD_ST
Luta contra a doença “Flavescência Dourada” e seu vetor Scaphoideus titanus Ball.
Notificação da aplicação de medidas fitossanitárias na zona demarcada em contenção, que se mantem em vigor
EDITAL 1/2026/FD_ST
Notificação da Aplicação de Medidas Fitossanitárias
Luta contra a doença “Flavescência Dourada” e seu vetor Scaphoideus titanus Ball
DESPACHO n.º 69/G/2026
Manutenção das Zonas Demarcadas em Erradicação para a doença da Flavescência Dourada (Grapevine flavescence dorée phytoplasma) e atualização da lista de freguesias onde o inseto vetor Scaphoideus titanus Ball está presente, com indicação do n.º de tratamentos obrigatórios, face ao risco de disseminação da doença.
Fonte: DGAV
A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), através das suas Unidades Regionais, realizou no mês de abril, uma operação nacional de segurança alimentar centrada na verificação da presença de acrilamida, um contaminante que se forma em alimentos ricos em hidratos de carbono quando sujeitos a processos de confeção ou transformação a temperaturas superiores a 120ºC, e em condições de baixa humidade, por poder representar riscos relevantes para a saúde dos consumidores e dirigida ao setor da indústria das batatas fritas e aperitivos.
Esta operação teve como propósito avaliar o cumprimento das normas de segurança alimentar aplicáveis e as medidas preventivas e de controlo adequadas para a mitigação da formação de acrilamida nos produtos fabricados, com análise das práticas de fabrico adotadas pelos operadores e os sistemas HACCP implementados, e ainda de licenciamento da atividade.
No âmbito desta operação, foram fiscalizados 15 operadores económicos, tendo destas ações resultado a instauração de seis processos contraordenacionais por incumprimentos em matéria de higiene e segurança alimentar, incluindo a violação dos requisitos gerais e específicos de higiene previstos no Regulamento (CE) n.º 852/2004 e a inexistência de processos baseados nos princípios do HACCP.
Foram apreendidas cerca de 2 toneladas de aperitivos, 40 kg de batatas fritas, mais de 27 600 embalagens de produtos alimentares, cerca de 2 toneladas de bobines de rótulos de produtos alimentares e ainda, um instrumento de pesagem.
Foram ainda detetadas infrações relativas às práticas de rotulagem, ao regime geral do controlo metrológico legal dos métodos e instrumentos de medição, ao início de exploração de estabelecimento industrial de tipo 3 sem o devido enquadramento legal, e ao Código da Propriedade Industrial, nomeadamente o uso indevido de nome, insígnia ou logótipo.
Fonte: ASAE
As algas absorvem dióxido de carbono e transformam-no em biocombustíveis: uma tecnologia emergente que poderá desempenhar um papel fundamental na construção dos sistemas energéticos do futuro.
A redução das emissões de dióxido de carbono e a sua remoção da atmosfera representam um dos maiores desafios ambientais do nosso tempo. As estratégias atualmente adotadas incluem a transição para as energias renováveis, a eficiência energética, a captura e armazenamento de CO₂ e a reflorestação.
Entre os sistemas naturais, o método mais eficiente para o sequestro de CO₂ continua a ser a fotossíntese das plantas, que converte o dióxido de carbono em biomassa utilizando a luz solar como fonte de energia.
É neste contexto que as algas entram em cena: organismos aquáticos fotossintéticos capazes de crescer rapidamente e de absorver grandes quantidades de CO₂. Não se trata de uma categoria única, mas sim de um grupo heterogéneo que inclui microalgas unicelulares como a Chlorella, a Spirulina e a Nannochloropsis, espécies frequentemente utilizadas em processos industriais. A sua elevada eficiência fotossintética e a sua capacidade de acumular lípidos (ou seja, gorduras) tornam estes microrganismos de natureza vegetal uma opção particularmente promissora na cadeia de produção de biocombustíveis.
O processo industrial decorre em instalações controladas conhecidas como fotobiorreatores ou, em alternativa, em tanques abertos. As algas são cultivadas na água, expostas à luz solar ou à luz artificial, e recebem nutrientes e dióxido de carbono; este último é frequentemente obtido a partir de emissões industriais.
Esta tecnologia ainda se encontra em fase de desenvolvimento: os Estados Unidos e a China, juntamente com vários centros de investigação europeus e internacionais, têm investido em projetos-piloto e instalações de demonstração; no entanto, a produção em grande escala ainda não é competitiva em comparação com os combustíveis fósseis.
Os biocombustíveis à base de algas oferecem vantagens significativas: não competem diretamente com as culturas alimentares, podem ser produzidos em ambientes não agrícolas e contribuem para a redução do CO₂ atmosférico durante o seu crescimento.
No entanto, subsistem limitações importantes: os custos de produção são elevados, os rendimentos energéticos nem sempre são estáveis e a gestão das instalações requer um investimento tecnológico considerável.
Ao ponderar as suas vantagens e limitações, os biocombustíveis à base de microalgas representam uma tecnologia promissora ainda em fase de desenvolvimento: embora apresentem um elevado potencial ambiental, é necessário superar desafios técnicos e económicos para permitir a sua aplicação em grande escala.
Em comparação com os combustíveis fósseis, as algas oferecem um ciclo potencialmente mais sustentável, embora ainda insuficiente para substituir completamente as fontes de energia tradicionais.
O futuro dos biocombustíveis à base de algas dependerá da capacidade de melhorar a eficiência dos processos e reduzir os custos industriais. Neste contexto, as algas representam uma das várias soluções integradas potenciais para fazer face à crise climática, a par de estratégias de mitigação, adaptação e desenvolvimento de tecnologias energéticas sustentáveis.
Após a implementação das medidas de controlo e erradicação dos focos ocorridos em Portugal entre 2 de setembro e 26 de dezembro de 2025, Portugal recuperou o estatuto de país livre de gripe aviária de alta patogenicidade a 13 de março de 2026, de acordo com o disposto no capítulo 10.4 do Código Sanitário dos Animais Terrestres da Organização Mundial para a Saúde Animal (WOAH).
A validação oficial do estatuto de “país livre” para gripe aviária de alta patogenicidade pela WOAH pode ser consultada aqui.
Fonte: DGAV
Uma equipa internacional de cientistas conseguiu sequenciar, pela primeira vez, genomas completos e sem lacunas de seis variedades de amendoim, criando um recurso considerado decisivo para acelerar programas de melhoramento agrícola e aumentar a produtividade desta cultura essencial.
O trabalho, publicado na revista Nature Genetics, envolveu investigadores da Murdoch University e de várias instituições internacionais, que analisaram duas espécies ancestrais selvagens e quatro variedades cultivadas, além de desenvolverem genomas de referência para subespécies que nunca tinham sido totalmente mapeadas.
Genes associados ao tamanho das sementes e teor de óleo
Com base na análise de mais de 500 amostras recolhidas em todo o mundo, os investigadores identificaram variantes genéticas ligadas a características-chave, como o tamanho das sementes e o teor de óleo.
Entre os principais resultados, destaca-se a identificação do gene AhWRI1, associado a diferenças significativas no conteúdo de óleo — cerca de seis pontos percentuais entre variedades —, e do gene AhGSA1, ligado a sementes substancialmente maiores, com diferenças superiores a 70% no peso.
Estas descobertas poderão ser utilizadas como marcadores genéticos para acelerar o desenvolvimento de variedades mais produtivas e nutritivas.
Um desafio genético finalmente ultrapassado
O genoma do amendoim tem sido historicamente difícil de sequenciar devido à sua elevada complexidade e à presença de grandes regiões repetitivas de ADN. Tentativas anteriores deixaram lacunas importantes, limitando o uso de ferramentas genómicas no melhoramento da cultura.
Agora, com uma montagem completa “de telómero a telómero”, os cientistas conseguiram preencher essas falhas e revelar novas informações sobre a estrutura e evolução do genoma.
“O amendoim é uma fonte essencial de óleo e proteína para centenas de milhões de pessoas, mas a sua genética tem sido mais difícil de estudar do que a de outras culturas”, explica Rajeev Varshney, um dos autores do estudo.
Implicações para a segurança alimentar e agricultura sustentável
O estudo identificou ainda diferenças estruturais relevantes entre subespécies de amendoim, incluindo regiões de ADN associadas à arquitetura da planta e ao metabolismo lipídico, o que ajuda a explicar variações observadas no campo.
Para os investigadores, este avanço poderá ter impacto direto na segurança alimentar global. O amendoim é uma cultura fundamental em muitas regiões, não só pelo seu valor nutricional, mas também pela capacidade de fixar azoto no solo, contribuindo para sistemas agrícolas mais sustentáveis.
Com este novo recurso genómico, espera-se que seja possível desenvolver variedades mais resistentes, produtivas e adaptadas às exigências climáticas futuras.
Fonte: GreenSavers
Revisão científica alerta para um “fosso de validação” entre a precisão molecular e os efeitos concretos nos alimentos e no consumidor. Para ultrapassar esta lacuna, os investigadores sugerem um novo modelo de validação mais abrangente e centrado na exposição real. A proposta passa por combinar diferentes tipos de dados “ómicos” (como genómica, proteómica e metabolómica), estudar o comportamento dos alimentos após a colheita e acompanhar o seu desempenho já no mercado.
A edição genética está cada vez mais a ser apontada por inúmeros estudos científicos como uma ferramenta promissora para melhorar a segurança alimentar e a qualidade nutricional dos alimentos. No entanto, o seu impacto no mundo real ainda depende de fatores que vão muito além da precisão ao nível do ADN. Esta é a principal conclusão de uma revisão científica publicada na revista Nature (npj Science of Food), da autoria de Pinar Sekerci Keles e Yusuf Esen.
O estudo analisa evidência acumulada sobre a forma como alterações genéticas se traduzem em efeitos concretos ao longo de toda a cadeia alimentar — desde os fenótipos das plantas até à sua interação com a matriz alimentar, os processos de transformação, a ecologia microbiana e, por fim, a exposição alimentar dos consumidores.
Os autores identificam um “fosso de validação” persistente entre os indicadores técnicos utilizados nas fases iniciais do desenvolvimento, como a precisão da edição genética, e os resultados que realmente importam para a segurança alimentar. Ou seja, uma alteração bem-sucedida ao nível molecular não garante, por si só, benefícios mensuráveis no alimento final ou na saúde do consumidor.
Para colmatar esta lacuna, os investigadores propõem um novo modelo de validação, baseado numa abordagem multidimensional e centrada na exposição. Este enquadramento inclui a integração de dados “ómicos” (como genómica, proteómica e metabolómica), a análise do comportamento dos alimentos após a colheita, e ainda a monitorização após a sua entrada no mercado.
Segundo os autores, só com este tipo de abordagem será possível alinhar a inovação em edição genética com melhorias concretas na segurança dos sistemas alimentares e na proteção dos consumidores.
A revisão sublinha, assim, a necessidade de ir além dos critérios laboratoriais tradicionais, defendendo uma avaliação mais abrangente e contínua dos impactos da edição genética ao longo de toda a cadeia alimentar.
Leia o abstract na Nature.
Fonte: Centro de informação de biotecnologia
A aplicação de biocarvão pode contribuir para reduzir a acidificação dos solos e melhorar as condições de produção agrícola, segundo um estudo global da Universidade de Wuhan, na China.
A investigação baseou-se numa meta-análise de 232 estudos, abrangendo diferentes climas, tipos de solo e sistemas agrícolas. No total, foram avaliadas 1.460 observações emparelhadas que compararam solos com e sem aplicação de biocarvão.
Os resultados indicam que, em média, o biocarvão aumentou o pH do solo em 5,59%, evidenciando uma redução significativa da acidez. No entanto, os autores sublinham que a eficácia desta solução varia em função de fatores ambientais e de gestão.
“A acidificação dos solos é um desafio global crescente, especialmente em regiões com agricultura intensiva”, refere Nanhai Zhang, um dos autores do estudo, acrescentando que “o biocarvão pode melhorar significativamente as condições do solo, mas a sua eficácia depende tanto de fatores ambientais como de gestão”.
Segundo os investigadores, o biocarvão atua através de vários mecanismos, incluindo a presença de compostos alcalinos e cinzas minerais que neutralizam a acidez, bem como grupos funcionais que ligam iões de hidrogénio, reduzem a acidez na solução do solo. Ao contrário de corretivos tradicionais como o calcário, pode apresentar efeitos mais duradouros e benefícios adicionais, como a melhoria da estrutura do solo e o sequestro de carbono.
A análise identificou vários fatores determinantes para o desempenho do biocarvão. Solos inicialmente ácidos registaram maiores melhorias, enquanto solos neutros ou alcalinos apresentaram pouca ou nenhuma resposta. Solos com elevada capacidade de retenção de nutrientes também revelaram menor sensibilidade à aplicação.
As condições climáticas influenciam igualmente os resultados, aponta a análise. O biocarvão demonstrou maior eficácia em regiões com temperaturas e precipitação mais elevadas, onde os processos de acidificação são mais intensos. Em particular, sistemas agrícolas em ambientes mais húmidos, como arrozais, evidenciaram melhorias superiores no pH face a sistemas de sequeiro.
De acordo com a investigação, as características do próprio biocarvão são outro fator crítico, uma vez que materiais produzidos a temperaturas moderadas e com pH intrínseco mais elevado mostraram melhores resultados. A taxa de aplicação também se revelou relevante, com maiores quantidades associadas a aumentos mais expressivos do pH. A combinação com fertilizantes orgânicos potenciou a eficácia, em comparação com a utilização conjunta com fertilizantes sintéticos.
Apesar dos benefícios identificados, o estudo alerta que o biocarvão não constitui uma solução universal. Em determinados contextos, como solos já alcalinos, a sua aplicação pode ter efeitos limitados ou mesmo reduzir ligeiramente o pH. Os autores referem ainda que os efeitos positivos podem diminuir ao longo do tempo, nomeadamente devido à absorção de nutrientes pelas culturas ou à sua lixiviação.
Os autores frisaram o potencial do biocarvão enquanto solução alinhada com a bioeconomia circular, ao valorizar resíduos agrícolas como recurso para melhoria dos solos.
Fonte: Vida Rural
Algumas doenças transmitidas por alimentos não começam com sintomas gastrointestinais como diarreia, mas levam diretamente a doenças invasivas graves, incluindo infecções da corrente sanguínea, destruição articular e complicações a longo prazo, mesmo em adultos saudáveis. Essa é a realidade do Streptococcus agalactiae tipo de sequência 283 (ST283), também conhecido como estreptococo do grupo B (EGB), um patogénio zoonótico associado a peixes de água doce e sistemas de aquicultura. A revisão abrangente “Repensando o estreptococo do grupo B: a ascensão do tipo de sequência 283 como um patogénio zoonótico transmitido por alimentos” , publicada na revista Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety, reúne as evidências atuais sobre essa preocupação com a segurança alimentar e suas implicações mais amplas.
Além das doenças típicas transmitidas por alimentos
A GBS ST283 desafia as expectativas convencionais sobre doenças transmitidas por alimentos. A maioria dos riscos microbiológicos transmitidos por alimentos está associada a sintomas gastrointestinais e geralmente é autolimitada. A GBS ST283 apresenta um perfil fundamentalmente diferente. Ela está associada a infeções invasivas, incluindo meningite, artrite séptica e bacteremia, e afetou indivíduos sem comorbidades.
As evidências mostram que a exposição está ligada não apenas ao consumo de peixes de água doce contaminados, mas também às práticas de manipulação ao longo da cadeia alimentar, ampliando o leque de possíveis pontos de entrada. Esse contraste ressalta uma importante mudança de perspectiva: a exposição a doenças transmitidas por alimentos nem sempre leva a doenças transmitidas por alimentos, mas pode resultar em doenças invasivas transmitidas por alimentos.
Peixes de água doce: um contexto de risco diferente
O papel dos peixes de água doce é fundamental para a compreensão desse risco alimentar. Ao contrário dos peixes marinhos comumente usados para sushi e sashimi, os peixes de água doce não são tipicamente consumidos crus em muitas culturas preocupadas com a segurança alimentar, em parte porque são mais frequentemente associados a riscos como parasitas e contaminação ambiental.
A norma GBS ST283 adiciona uma nova dimensão a este panorama de riscos já existente. Ela destaca que, além dos riscos parasitários bem conhecidos, os perigos bacterianos associados aos sistemas de aquicultura e às práticas de manuseio também podem levar a consequências graves, principalmente quando o peixe é consumido cru ou malpassado, ou manuseado sem a devida proteção. Este contexto é importante para a comunicação de riscos. A questão não é o consumo do peixe em si, mas o tipo de peixe, como ele é produzido, preparado e manuseado.
O invisível: o papel das ferramentas genómicas
Um aspecto fundamental para essa compreensão é o uso do sequenciamento de genoma completo (WGS). O GBS ST283 não pode ser identificado de forma confiável apenas por métodos microbiológicos convencionais. Sua identificação depende de abordagens baseadas em sequências, que permitem a diferenciação no nível do tipo de sequência e revelam ligações entre casos humanos, peixes e fontes ambientais. Por meio do WGS, o que poderia parecer infeções esporádicas ou não relacionadas torna-se visível como parte de um padrão interconectado ao longo da cadeia alimentar. Isso tem sido crucial para reconhecer o GBS ST283 não apenas como uma observação clínica, mas como um risco zoonótico transmitido por alimentos.
Perfil de risco na prática
Essa compreensão em evolução está em estreita consonância com o trabalho da FAO sobre a elaboração de perfis de risco, particularmente para perigos que não se encaixam perfeitamente em categorias estabelecidas. O GBS ST283 ilustra como o risco não é definido apenas pela exposição, mas pela combinação de gravidade, complexidade de transmissão e fatores sistémicos. Ele se situa na interseção entre produção de alimentos, vias ambientais e saúde humana, com ligações a sistemas de aquicultura, múltiplas rotas de transmissão e importantes lacunas em dados e vigilância. A FAO identificou o GBS ST283 como um perigo que requer a elaboração de perfis de risco estruturados, enfatizando a necessidade de considerar não apenas a frequência da exposição, mas também o que acontece quando ela ocorre.
Uma perspectiva de Saúde Única
A revisão destaca como a ST283 se dissemina entre humanos, peixes e ambientes aquáticos, reforçando a importância de uma abordagem de Saúde Única. Peixes de água doce atuam como reservatórios, enquanto as condições ambientais e as práticas de manipulação de alimentos contribuem para as vias de exposição. Ao mesmo tempo, diferenças na capacidade laboratorial e no acesso a ferramentas avançadas, como o sequenciamento de genoma completo (WGS), influenciam a deteção, sugerindo que o panorama atual pode não capturar completamente a escala ou a distribuição do risco.
Da evidência à ação
Apesar do crescente conhecimento, questões cruciais permanecem. A forma como a exposição leva a doenças invasivas ainda não é totalmente compreendida. O papel do estado de portador assintomático, a ausência de dados quantitativos sobre a relação dose-resposta e as incertezas em torno de intervenções eficazes limitam a capacidade de traduzir evidências em ações concretas. O fortalecimento do acesso a ferramentas como o sequenciamento de genoma completo (WGS), juntamente com a vigilância e a integração de dados, será essencial para apoiar a tomada de decisões baseada em risco, que continua sendo fundamental para o trabalho da FAO em segurança alimentar.
Olhando para o futuro
A GBS ST283 continua a fornecer uma lição valiosa e abrangente. Os perigos transmitidos por alimentos nem sempre seguem padrões conhecidos. Alguns são menos visíveis, menos frequentes, mas muito mais graves em suas consequências. Ao mesmo tempo, ferramentas como o sequenciamento completo do genoma estão tornando esses perigos cada vez mais visíveis. Integrar essas abordagens aos sistemas de segurança alimentar será fundamental para garantir que os riscos emergentes sejam reconhecidos precocemente e tratados de forma eficaz.
Fonte: FAO
O Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, assinalado todos os anos a 28 de abril, volta a colocar no centro do debate uma questão que atravessa fronteiras, setores e realidades: como garantir que cada pessoa regressa a casa em segurança no final do dia. Este ano, o tema ganha ainda mais força num contexto de transformação acelerada dos ambientes laborais, marcado pela digitalização, novas formas de trabalho e riscos emergentes.
Um dia que lembra o essencial: a vida em primeiro lugar
Criado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), este dia pretende reforçar a prevenção como a ferramenta mais poderosa para reduzir acidentes e doenças profissionais. Apesar dos avanços, os números continuam a impressionar: milhões de trabalhadores em todo o mundo enfrentam diariamente riscos que poderiam ser evitados com políticas eficazes, formação contínua e uma cultura de segurança verdadeiramente integrada.
Riscos antigos, desafios novos
Se por um lado persistem problemas clássicos — quedas, má ergonomia, exposição a agentes químicos — por outro surgem ameaças modernas:
Sobrecarga digital e riscos psicossociais, como burnout e ansiedade;
Automatização e interação com máquinas inteligentes, que exigem novas competências;
Alterações climáticas, que aumentam episódios de calor extremo e impactam setores como agricultura, construção e logística.
A segurança no trabalho deixou de ser apenas capacetes e sinalização. Hoje, envolve também saúde mental, bem-estar e adaptação a um mundo laboral em constante mudança.
Em Portugal, o debate ganha tração
Empresas, associações e entidades reguladoras reforçam campanhas, formações e auditorias internas. A aposta em sistemas de gestão de SST, na monitorização contínua e na capacitação das equipas tem vindo a crescer, mas especialistas alertam: ainda há caminho a percorrer para consolidar uma cultura preventiva robusta e transversal.
Uma oportunidade para repensar prioridades
Mais do que uma data simbólica, o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho funciona como um espelho: mostra o que já foi conquistado, mas também o que ainda precisa de ser feito. É um convite à ação — para líderes, técnicos, trabalhadores e instituições — porque a segurança não é um custo, é um investimento que salva vidas, aumenta produtividade e fortalece organizações.
Fonte: Qualfood
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