Produtividade do trabalho agrícola em Portugal aumentou 277% em três décadas e salários no setor cresceram mais de 50% na última década, acima da média da economia nacional;
• Mais de 10.500 jovens agricultores instalaram-se em Portugal desde 2007, mobilizando mais de 1,5 mil milhões de euros de investimento;
• Apenas 12% dos gestores agrícolas da União Europeia têm menos de 40 anos;
• Complexo agroflorestal gera 9,4 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto e 15,2 mil milhões de euros em exportações.
A agricultura portuguesa está mais produtiva, mais tecnológica e mais competitiva do que nunca. Nas últimas três décadas, a produtividade do trabalho agrícola aumentou 277%, os salários cresceram acima da média da economia nacional e o setor consolidou-se como um dos motores da criação de valor, do emprego e das exportações do país. Mas, apesar desta transformação, a agricultura enfrenta hoje um desafio que pode condicionar a sua capacidade de crescimento nas próximas décadas: a renovação geracional.
A idade média da mão-de-obra familiar agrícola aumentou de 46 para 59 anos em cerca de 30 anos, enquanto o número de trabalhadores familiares caiu mais de 50%. Ao mesmo tempo, apenas 12% dos gestores agrícolas na União Europeia têm menos de 40 anos, revelando uma tendência de envelhecimento que ameaça a competitividade, a capacidade produtiva e a sustentabilidade futura do setor. Esta será uma das questões centrais do B-Rural Summit, iniciativa promovida pela CONSULAI que terá lugar no próximo dia 23 de junho, em Lisboa, reunindo especialistas, empresários, jovens empreendedores e decisores para discutir o futuro da agricultura e da floresta em Portugal.
Nova geração está a chegar, mas os obstáculos mantêm-se
Entre 2007 e 2022, instalaram-se em Portugal 10.513 jovens agricultores, responsáveis por mais de 1,5 mil milhões de euros de investimento e pela gestão de mais de 252 mil hectares de superfície agrícola.
Trata-se de uma geração mais qualificada, mais empreendedora e mais aberta à inovação. A idade média dos novos agricultores é de 33 anos e a maioria possui formação superior ou técnico-profissional especializada. Ainda assim, quase um terço iniciou atividade sem experiência prévia no setor.
Os desafios permanecem essencialmente estruturais: acesso à terra, financiamento, escala económica das explorações e integração em mercados organizados. A experiência mostra que o sucesso da renovação geracional depende menos da motivação dos jovens e mais da capacidade de criar condições para que os seus projetos sejam sustentáveis e competitivos.
“Existe ainda um desfasamento significativo entre a perceção pública e a realidade do setor. A agricultura de hoje é uma atividade empresarial, tecnológica e altamente especializada. Atrair talento exige mostrar que estamos perante um setor com futuro, capacidade de inovação e oportunidades de carreira qualificadas”, acrescenta aquele responsável.
Um desafio estratégico para a economia nacional
A renovação geracional deixou de ser apenas uma questão setorial para assumir uma dimensão estratégica para a economia portuguesa.
Num contexto marcado pela pressão sobre a segurança alimentar, pelas alterações climáticas e pela crescente necessidade de gestão sustentável do território, garantir a entrada de novos profissionais tornou-se um fator crítico para a competitividade do país.
B-Rural Summit: em busca das soluções
Sob o mote “Do Exemplo à Ação”, o B-Rural Summit, pretende ir além do diagnóstico e centrar-se nas soluções.
Estruturado em torno dos temas “Novas Gerações, Novas Ideias: Casos que Inspiram”, “Da Inspiração à Transformação” e “Construir Pontes Entre Gerações”, o evento pretende demonstrar que o futuro da agricultura e da floresta dependerá não apenas de tecnologia, investimento ou produtividade, mas sobretudo da capacidade de atrair, desenvolver e reter uma nova geração de líderes, gestores e empreendedores.
Fonte: B-Rural
Portugal reforça o seu compromisso com a conservação da natureza: candidatura da Serra da Estrela foi hoje aprovada pelo Conselho Internacional de Coordenação do Programa Homem e Biosfera da UNESCO, reunido em Hernandarias, no Paraguai
A Serra da Estrela passa a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera, uma das mais prestigiadas distinções atribuídas pela UNESCO a territórios que conciliam exemplarmente a conservação da natureza com o desenvolvimento humano sustentável. A aprovação foi anunciada hoje na 38.ª sessão do Conselho Internacional de Coordenação do Programa Homem e Biosfera (MAB), que decorre no Centro de Convenções Itaipu Roga, em Hernandarias, Paraguai, desde 3 de junho.
A nova Reserva da Biosfera da Estrela abrange uma área total de 2.372,99 km², distribuída pelos seis municípios do Parque Natural da Serra da Estrela — Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Guarda, Manteigas e Covilhã — e estruturada em três zonas complementares: uma Zona Núcleo onde se concentram os valores naturais mais relevantes (212,55 km²), uma Zona Tampão de mediação ecológica (679,65 km²) e uma Zona de Transição dedicada às atividades humanas sustentáveis (1.480,80 km², correspondendo a 62% da reserva).
O território alberga 30 habitats listados na Diretiva Habitats da União Europeia e constitui um repositório vivo de diversidade biológica e cultural, com ecossistemas únicos, espécies endémicas e mosaicos agro-ecológicos de montanha que moldaram séculos de relação entre as comunidades locais e a natureza.
A candidatura foi promovida pela AGE – Associação Geopark Estrela, com coordenação científica da Professora Helena Freitas, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra. A Professora Helena Freitas representou Portugal na sessão do Conselho, acompanhada pelo presidente da Câmara de Manteigas, que marcou presença na reunião no Paraguai.
A iniciativa resulta de um amplo processo participativo que envolveu autarquias, sociedade civil, comunidade educativa e organizações ambientais, tendo como base o Plano de Cogestão do Parque Natural, aprovado em novembro de 2024.
Com esta aprovação, a Serra da Estrela passa a deter duas designações UNESCO para o mesmo território: o Geopark Global UNESCO, reconhecido em julho de 2020, e agora a Reserva da Biosfera. Os dois estatutos serão geridos de forma integrada, numa lógica de governança conjunta que permitirá otimizar recursos humanos, financeiros e materiais.
Esta designação não é apenas um reconhecimento internacional, é um compromisso ativo com os objetivos globais de conservação da biodiversidade inscritos no Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, e uma oportunidade para afirmar a Serra da Estrela como referência nacional e internacional em práticas inovadoras de sustentabilidade e educação ambiental.
O ponto mais alto de Portugal continental, com 1 993 metros de altitude, tem agora uma nova dimensão: a de “laboratório vivo” onde se testam e consolidam soluções para conciliar a conservação da natureza com o desenvolvimento humano, combatendo a desertificação, adaptando-se às alterações climáticas e valorizando o conhecimento ancestral das comunidades de montanha.
Com esta aprovação, Portugal passa a contar com 14 Reservas da Biosfera, reforçando a sua posição na Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO. Mais informação sobre a rede nacional em www.reservasdabiosfera.pt.
Fonte: ICNF
À primeira vista, transportar abelhas pode parecer uma necessidade de nicho. Mas, na realidade, está no centro de uma transformação silenciosa da agricultura moderna. À medida que a produção alimentar se torna mais intensiva e dependente de culturas que exigem polinização — como amêndoas, frutos vermelhos ou pomares — cresce também a necessidade de deslocar milhões de abelhas entre regiões, acompanhando os ciclos de floração.
Esta prática, conhecida como apicultura migratória, levou ao desenvolvimento de serviços logísticos altamente especializados. Os apicultores deixaram de operar apenas localmente e passaram a integrar cadeias agrícolas mais amplas, onde o tempo, a localização e a saúde das colónias são determinantes para a produtividade. Nesse contexto, os camiões para transporte de colmeias tornaram-se uma peça essencial, garantindo que as abelhas chegam em segurança aos destinos onde são mais necessárias — e no momento certo.
O mercado global de camiões para transporte de colmeias deverá atingir cerca de 1,07 mil milhões de euros até 2030, crescendo a uma taxa média anual de 6,5%, segundo um relatório recente da The Business Research Company.
O estudo aponta para um crescimento de 782 milhões de euros em 2025 para aproximadamente 828 milhões de euros em 2026, refletindo a crescente profissionalização da apicultura e o aumento da procura global por serviços de polinização.
Este segmento logístico especializado acompanha a expansão de um setor mais amplo: a apicultura. Na Europa, o mercado apícola foi avaliado em cerca 3,66 mil milhões de euros em 2024 e deverá crescer para 6,04 mil milhões de euros até 2033, evidenciando a importância crescente desta atividade no espaço europeu.
Os camiões dedicados ao transporte de colmeias — equipados com sistemas de ventilação, racks modulares e mecanismos de carga — tornaram-se essenciais para a chamada apicultura migratória, permitindo deslocar colónias para zonas com maior disponibilidade de néctar ou para culturas agrícolas que dependem de polinização.
Na União Europeia, estima-se a existência de cerca de 600 mil apicultores e 16 milhões de colmeias, embora apenas uma pequena fração opere em escala comercial, o que indica margem para crescimento e modernização — incluindo na logística associada.
Portugal insere-se neste panorama europeu. Estudos académicos mostram que o país integra o grupo de nações com atividade apícola relevante, ainda que com forte presença de produtores de pequena escala e características heterogéneas entre regiões. Quanto a números, em Portugal existem 12.282 apicultores registados, 43 mil apiários e 765.594 colmeias.
A procura por mel — impulsionada por tendências de consumo mais naturais — e o aumento da dependência agrícola de polinizadores são apontados como principais motores do crescimento. Paralelamente, a produção europeia de cerca de 200 mil toneladas de mel por ano não é suficiente para cobrir a procura interna, o que reforça a pressão sobre o setor para aumentar a produtividade e eficiência.
É neste contexto que os camiões de transporte de colmeias ganham relevância estratégica. O relatório destaca ainda tendências como a adoção de veículos elétricos ou de baixas emissões, sistemas de controlo climático para proteger as abelhas durante o transporte e tecnologias de monitorização da saúde das colónias.
Pedro Acabado, apicultor da Pa Bees & Blooms conta que é o segundo ano que contrata um serviço de camião refrigerado para levar colmeias do Alentejo para uma cultura de Kiwis no Norte. O valor situa-se entre os 1000 e os 1500 euros para transportar cerca de 500 a 650 colmeias.
No entanto, diz que em Portugal como as distâncias são curtas muitas vezes faz o transporte durante a noite utilizando o seu próprio camião, quando a cultura fica mais próxima e demora uma hora ou duas. Contudo, salienta que o mercado de polinização teve um boom e que há muitos apicultores que não têm as condições logísticas apropriadas para fazer o transporte das abelhas e que este tipo de serviço é uma alternativa no mercado.
Fonte: Jornal Económico
A SeaForester, com o apoio de uma conhecida marca de alimentação animal, desenvolveu e colocou em operação a terceira geração de viveiros móveis de algas (G3) em Peniche, desde início de 2025. Esta nova tecnologia reduziu o ciclo de produção de 12 para sete semanas e, combinada com uma nova unidade de viveiros construída em 2026, triplicou a capacidade de produção total.
Este avanço tecnológico significativo alcançado em Portugal, promovido pela SeaForester, especialista em biologia marinha, promete revolucionar a velocidade e a escala da restauração de ecossistemas marinhos em todo o mundo, com um ganho de eficiência até 60%.
Este marco, alcançado com o apoio estratégico da marca, no âmbito do seu programa de sustentabilidade oceânica, representa um ponto de viragem, permitindo que a restauração de florestas de algas, vitais para a biodiversidade marinha e para a captura de carbono, passe de projetos-piloto para uma implementação em larga escala. O novo viveiro, sediado em Peniche, tem a capacidade de produzir algas para cobrir mais de 1 hectare por ciclo.
“Este viveiro G3 não é apenas uma melhoria, é um salto quântico. Muda fundamentalmente a nossa capacidade de resposta à crise dos oceanos”, afirma Pål Bakken, fundador e CEO da SeaForester. “Passamos de uma escala artesanal para uma escala que pode, efetivamente, começar a curar o nosso litoral. O apoio de parceiros é crucial, pois eles não só fornecem recursos, mas partilham a visão de investir em soluções escaláveis e baseadas na ciência para resolver problemas sistémicos”, acrescenta.
A parceria, que utiliza subprodutos da indústria pesqueira nos seus alimentos para animais de companhia, reflete um compromisso com a saúde de toda a cadeia de valor marinha. Ao apoiar a restauração dos habitats que servem de maternidade para inúmeras espécies de peixe, o parceiro investe na resiliência do ecossistema do qual também depende.
“O nosso compromisso com o oceano tem de ir além da gestão responsável da nossa cadeia de fornecimento. Temos de ser um agente ativo de regeneração”, declara Kerstin Schmeiduch, diretora de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade. “Quando a SeaForester nos apresentou a tecnologia G3, percebemos que estávamos perante uma solução que poderia verdadeiramente escalar o impacto. Apoiar este tipo de inovação disruptiva é a forma mais eficaz de cumprirmos a nossa promessa de deixar um planeta mais saudável”.
Para assinalar o Dia Mundial dos Oceanos, que se comemorou a 8 de junho, e demonstrar a implementação desta nova tecnologia, a marca, em parceria com a SeaForester e a Câmara Municipal de Cascais, realizou uma ação de plantação de algas marinhas em Cascais.
Fonte: iAlimentar
O estado da Flórida, nos EUA, iniciou uma das maiores experiências agrícolas com edição genética: a plantação comercial de mais de 300 mil árvores de citrinos geneticamente editadas com a tecnologia CRISPR. O objetivo é combater o “greening” (HLB), uma doença que reduziu drasticamente a produção e ameaça a viabilidade da indústria citrícola no país.
Depois de duas décadas de perdas contínuas provocadas pelo Huanglongbing (HLB), também conhecido como enverdecimento dos citrinos, a citricultura da Flórida entra numa nova fase marcada pela aposta em biotecnologia de ponta. Este ano serão plantadas mais de 300.000 árvores cítricas editadas com a tecnologia CRISPR, num dos ensaios mais ambiciosos até agora realizados em agricultura comercial.
O objetivo já não é apenas testar em ambiente controlado, mas avaliar o comportamento destas variedades em condições reais de produção, numa indústria fortemente afetada pela doença, por fenómenos climáticos extremos e por uma quebra acentuada da produção. Em duas décadas, a produção passou de cerca de 251 milhões de caixas para menos de 14 milhões.
A iniciativa é coordenada por estruturas de investigação e transferência tecnológica como a Citrus Research and Field Trial Foundation (CRAFT), que gere ensaios em larga escala e já canalizou mais de 85 milhões de dólares para apoiar produtores. O programa inclui ainda pagamentos diretos por árvore plantada e reembolsos adicionais para materiais genéticos emergentes, como portainjertos editados com CRISPR.
O esforço é também suportado por investimento público: a Comissão Citrícola da Florida aprovou recentemente cerca de 2 milhões de dólares para apoiar custos de licenciamento e adoção destas novas variedades. O modelo combina financiamento público com participação privada e recolha de dados em campo durante vários anos.
No plano científico, a Universidade of Flórida desempenha um papel central no desenvolvimento de novas plantas através de edição genética, melhoramento de precisão e inteligência artificial. Investigador têm sublinhado a complexidade de tornar os citrinos resistentes ao HLB, uma doença bacteriana para a qual não existe cura conhecida.
Em paralelo, o USDA-ARS tem vindo a desenvolver também ferramentas de diagnóstico baseadas em CRISPR, capazes de detetar a bactéria com uma sensibilidade muito superior aos métodos convencionais, permitindo decisões mais rápidas no terreno.
O sistema em implementação na Flórida não aposta numa única solução, mas sim num ecossistema integrado: plantas editadas para maior tolerância à doença, ferramentas de deteção precoce e um modelo de financiamento que partilha o risco entre produtores e Estado.
Mais do que um ensaio agrícola, este programa é já visto como um teste global à viabilidade da edição genética em culturas permanentes de grande escala. Os resultados poderão ter impacto direto noutras regiões citrícolas, incluindo a América do Sul, onde o HLB já está presente em vários países produtores.
Se os resultados forem positivos, esta poderá marcar um ponto de viragem na forma como a biotecnologia é usada para responder a doenças agrícolas complexas, não em laboratório, mas diretamente no campo.
Mais informação aqui.
Fonte: Centro de informação de biotecnologia
Um estudo de investigadores da Universidade de Calgary, no Canadá, concluiu que plantas como arroz e tomate reduzem ativamente a sua capacidade de absorver ferro quando estão expostas a situações de seca. A investigação, publicada na revista Cell, aponta para possíveis implicações na qualidade nutricional das culturas agrícolas.
O trabalho analisou a forma como as plantas respondem ao stress hídrico e de que modo essa resposta influencia a relação com os microrganismos presentes no solo, incluindo bactérias e fungos nas raízes.
“Descobrimos que esta alteração resulta de mudanças específicas nas raízes das plantas”, afirma Connor Fitzpatrick, autor principal do estudo e professor assistente no Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências da Universidade de Calgary. “Isto acontece porque as plantas, sob stress de seca, reduzem tanto os seus sistemas imunitários como os mecanismos de absorção de ferro”, enalteceu.
Segundo o investigador, esta resposta permite que um grupo específico de bactérias, designado Streptomyces, se desenvolva nas raízes. No entanto, a sua presença não significa necessariamente plantas mais saudáveis, uma vez que algumas estirpes podem ser benéficas e outras podem interferir com o desenvolvimento das plantas.
“Em conjunto, isto conduz a uma nova forma de pensar sobre as interações entre plantas e microrganismos durante a seca”, refere Connor Fitzpatrick. “A seca não se limita a provocar stress nas plantas. Reconfigura fundamentalmente a forma como gerem nutrientes e interagem com o mundo microbiano à sua volta”, afirmou.
O investigador considera que os resultados são relevantes para a biologia vegetal, mas também para a segurança alimentar e a nutrição humana.
“A deficiência de ferro já é uma das perturbações nutricionais mais disseminadas no mundo, afetando milhares de milhões de pessoas”, afirma. “Grande parte do ferro nas dietas humanas provém de plantas como cereais e leguminosas”, conclui.
O estudo sugere que os efeitos da seca sobre a produção agrícola e sobre a qualidade nutricional das culturas podem estar mais relacionados do que se pensava. “Isto significa que a seca pode não só reduzir a produtividade das culturas, como também diminuir a sua qualidade nutricional ao limitar o ferro nos tecidos comestíveis”, acrescenta o investigador.
A equipa identificou a redução da absorção de ferro enquanto procurava compreender o enriquecimento microbiano nas raízes das plantas. “Manipulámos experimentalmente o stress de seca e a disponibilidade de ferro para chegar ao mecanismo”, explica o investigador.
Numa primeira fase, os ensaios recorreram a Arabidopsis thaliana, organismo modelo em biologia vegetal. Posteriormente, os investigadores demonstraram o mesmo processo em diferentes culturas, como o arroz e o tomate.
De acordo com o investigador, os resultados abrem caminho ao desenvolvimento de tratamentos probióticos para o solo ou a estratégias de melhoria de culturas que mantenham a absorção de ferro durante períodos de seca.
Fonte: Vida Rural
A resistência antimicrobiana representa uma ameaça de longo prazo para a segurança alimentar, a produção pecuária, a economia e a saúde humana, levando a perdas económicas significativas, alerta uma nova avaliação económica da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Segundo o relatório The future of antimicrobial use in livestock – The economic cost of action or inaction, mantendo-se as tendências atuais, impulsionadas pelo aumento da procura de alimentos de origem animal e pela intensificação da produção, o uso global de antimicrobianos na pecuária poderá aumentar quase 30% até 2040, face a 2019.
A análise conclui que os promotores de crescimento antimicrobianos estão associados a ganhos de produtividade no curto prazo, sobretudo em regiões com menos recursos. No entanto, as perdas produtivas de longo prazo associadas ao aumento da resistência antimicrobiana poderão ser significativamente superiores.
Nos cenários avaliados, as perdas acumuladas na produção pecuária podem atingir cerca de 318 mil milhões de dólares até 2040 num contexto de elevada resistência antimicrobiana, contra cerca de 53 mil milhões de dólares no cenário mais severo de retirada progressiva dos antimicrobianos usados para promover o crescimento animal.
“Os custos de reduzir o uso desnecessário de antimicrobianos são frequentemente imediatos e concentrados, enquanto os benefícios de preservar a eficácia antimicrobiana são de longo prazo e amplamente partilhados”, afirmou Thanawat Tiensin, diretor-geral adjunto da FAO, diretor da Divisão de Produção e Saúde Animal e médico veterinário-chefe da organização.
Para o responsável, “a eficácia antimicrobiana deve ser tratada como um bem público global”, exigindo um melhor alinhamento entre os incentivos nacionais e ao nível das explorações e os benefícios globais de preservação da sua eficácia, com investimento que torne a prevenção viável em escala.
O relatório defende abordagens integradas que combinem regulação, incentivos económicos, investimento em serviços veterinários, vigilância e diagnóstico, bem como alternativas como vacinação, biossegurança e melhoria das práticas de gestão. A FAO estima que seriam necessários, pelo menos, 28,4 mil milhões de dólares em investimento de transição para cobrir os custos de curto prazo da ação.
A organização assinala que as orientações internacionais apontam cada vez mais para a restrição e eliminação progressiva dos antimicrobianos usados para promover o crescimento animal. Ainda assim, o relatório sublinha que o esforço para avançar com ajustes não será uniforme, uma vez que estes produtos estão associados a ganhos de produtividade, em particular em sistemas com maior risco sanitário e menor acesso a serviços veterinários, medidas de biossegurança e alternativas acessíveis.
De acordo com a análise, o uso futuro de antimicrobianos na pecuária pode ser reduzido através de ganhos de produtividade, sistemas de saúde animal mais robustos e melhor prevenção.
O relatório avança ainda que a eliminação progressiva de antimicrobianos usados para promover o crescimento animal implica, contudo, um impacto inicial visível, seguido de uma recuperação parcial à medida que os produtores se adaptam e adotam alternativas.
A resistência antimicrobiana segue uma trajetória distinta: os seus efeitos económicos podem ser menos evidentes numa fase inicial, mas tendem a aumentar ao longo do tempo. Para a FAO, esta diferença temporal ajuda a explicar o adiamento da ação, mesmo quando o argumento económico de longo prazo favorece a intervenção.
O relatório apresenta um enquadramento económico integrado de abordagem “Uma Só Saúde” e uma análise por cenários para avaliar o retorno do investimento na gestão responsável dos antimicrobianos na pecuária. A FAO conclui que esta transição não pode depender apenas de orientações técnicas ou de regulação nacional, defendendo metas claras, financiamento sustentável, incentivos de mercado e apoio à adoção ao nível das explorações.
Entre os instrumentos económicos referidos estão limites de utilização, normas transacionáveis e medidas fiscais, sempre adaptados ao contexto de cada país. A FAO considera ainda essencial combinar restrições com apoio direcionado à transição, incluindo investimentos em biossegurança, vacinação, serviços veterinários e acesso acelerado a alternativas não antibióticas eficazes.
A pressão sobre o setor deverá manter-se, uma vez que a produção pecuária global deverá aumentar cerca de 23% até 2040, liderada pela produção de aves e leite. No mesmo horizonte, a Ásia e o Pacífico deverão continuar a ser os maiores utilizadores globais de antimicrobianos na pecuária, representando quase 65% do total, seguidos da América do Sul, com cerca de 19%. África terá uma quota inferior, mas uma das taxas de crescimento mais elevadas.
Fonte: Vida Rural
Os alimentos produzidos a partir do reaproveitamento de excedentes agrícolas e subprodutos da indústria alimentar estão a ganhar relevância junto de fabricantes e consumidores, surgindo como uma resposta simultânea ao desperdício alimentar, à pressão sobre os custos e à crescente procura por opções mais sustentáveis.
Conhecidos como “upcycled foods”, estes produtos transformam ingredientes que normalmente seriam descartados em novos alimentos com valor acrescentado. A tendência está a ganhar força à medida que as empresas procuram melhorar a eficiência na utilização de recursos e reforçar as suas credenciais ambientais, num contexto em que o desperdício alimentar continua a representar um desafio global.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o desperdício alimentar é responsável por cerca de 8% a 10% das emissões globais de gases com efeito de estufa e gera perdas económicas estimadas em um bilião de dólares por ano.
A crescente sensibilização dos consumidores para estas questões está a criar novas oportunidades de mercado. Dados da GlobalData revelam que metade dos consumidores considera que a origem sustentável de um produto influencia sempre as suas decisões de compra, reforçando o potencial comercial das soluções baseadas em reaproveitamento alimentar.
Empresas como a norte-americana Misfits Market e a britânica Oddbox têm sido pioneiras neste segmento. Ambas recuperam frutas e legumes excedentários ou considerados esteticamente imperfeitos, comercializando-os através de modelos de subscrição. No caso da Misfits Market, a estratégia vai mais longe, incluindo uma gama própria de produtos transformados a partir de ingredientes reaproveitados, como arroz partido, aparas de produção ou excedentes alimentares.
Apesar do interesse crescente, o preço continua a ser um fator decisivo para a adoção destes produtos. Um estudo da GlobalData mostra que muitos consumidores estão a reduzir despesas com alimentação devido ao aumento do custo de vida, enquanto um terço identifica os preços elevados como uma barreira à compra de produtos sustentáveis.
Segundo os analistas da consultora, o futuro dos alimentos reaproveitados dependerá da capacidade das marcas em combinar sustentabilidade com acessibilidade. Embora a consciência ambiental esteja a impulsionar a procura, a criação de uma base de consumidores fiel exigirá produtos competitivos em preço e capazes de demonstrar benefícios concretos para o ambiente e para a economia.
À medida que fabricantes e retalhistas procuram novas formas de reduzir desperdícios e melhorar margens, o reaproveitamento alimentar afirma-se como uma das tendências mais promissoras da indústria alimentar, conciliando inovação, sustentabilidade e eficiência económica.
Fonte: Grande Consumo
O oceano cobre mais de 70% da superfície da Terra, regula o clima, produz mais de metade do oxigénio que respiramos e sustenta milhões de famílias que dele dependem para viver. Mas, apesar desta importância colossal, enfrenta hoje uma pressão sem precedentes: poluição, sobrepesca, acidificação, perda de biodiversidade e impactos crescentes das alterações climáticas.
Este Dia Mundial dos Oceanos surge como um apelo global para inverter a maré. Organizações científicas, governos, empresas e cidadãos estão a unir esforços para proteger ecossistemas marinhos críticos — dos recifes de coral às pradarias marinhas, das zonas costeiras às profundezas ainda desconhecidas.
Com uma das maiores zonas económicas exclusivas da Europa, Portugal tem um papel estratégico na defesa dos oceanos. Projetos de monitorização da biodiversidade, inovação azul, energias renováveis marinhas e combate ao lixo marinho estão a ganhar força, reforçando o compromisso nacional com a sustentabilidade oceânica.
Ao mesmo tempo, comunidades piscatórias continuam a adaptar-se a práticas mais sustentáveis, garantindo que a economia do mar pode prosperar sem comprometer os recursos das gerações futuras.
Da biotecnologia marinha à inteligência artificial aplicada à conservação, a ciência está a abrir novas portas para compreender e proteger os ecossistemas oceânicos. Estudos recentes revelam que restaurar habitats marinhos pode multiplicar a biodiversidade em poucos anos e aumentar a resiliência climática das zonas costeiras.
O Dia Mundial dos Oceanos não é apenas uma data simbólica — é um convite para agir. Reduzir o consumo de plástico, apoiar pesca sustentável, valorizar produtos do mar certificados, participar em ações de limpeza costeira ou simplesmente divulgar informação credível são passos que fazem diferença.
O oceano dá-nos tudo: alimento, oxigénio, equilíbrio climático, beleza, vida. Hoje, pede-nos algo em troca — cuidar dele com a urgência e a responsabilidade que merece.
Fonte: Qualfood
Ensaio com camelina geneticamente editada pretende aumentar a produção de óleo e poderá abrir caminho à aplicação da tecnologia em culturas agrícolas de maior relevância económica.
O centro de investigação britânico Rothamsted Research iniciou o primeiro ensaio de campo no Reino Unido com uma cultura desenvolvida através de edição genética ao abrigo do novo quadro legal para organismos obtidos por melhoramento genético de precisão. Este é um passo importante para a biotecnologia agrícola no país e para a avaliação do potencial destas tecnologias em condições reais de cultivo.
A cultura escolhida para este ensaio é a Camelina sativa, uma oleaginosa utilizada na produção de óleos vegetais e biocombustíveis. O objetivo é testar variedades editadas geneticamente para verificar se os resultados obtidos em laboratório se confirmam no terreno.
O ensaio é o primeiro a ser registado ao abrigo da Lei de Tecnologia Genética (Melhoramento de Precisão), aprovada no Reino Unido em 2023, e das respetivas regulamentações que entraram em vigor em 2025. Esta legislação criou um regime específico para plantas desenvolvidas através de técnicas de edição genética que reproduzem alterações que poderiam ocorrer naturalmente ou resultar de métodos tradicionais de melhoramento.
Aumentar o tamanho das sementes e o teor de óleo
A equipa responsável pelo projeto, liderada pelas investigadoras Smita Kurup e Mollie Langdon, recorreu à tecnologia de edição genética CRISPR-Cas9 para modificar genes envolvidos na divisão celular durante o desenvolvimento dos óvulos da planta.
Ao atuar sobre estes mecanismos biológicos, os cientistas procuram aumentar o tamanho dos óvulos em formação, o que poderá resultar em sementes maiores e com maior teor de óleo. Segundo os investigadores, as alterações introduzidas consistem em pequenas inserções e deleções de ADN semelhantes às que podem surgir naturalmente ou através de cruzamentos convencionais.
Potencial para aplicação em culturas de maior importância económica
Os investigadores esperam que os conhecimentos obtidos com a camelina possam ser posteriormente aplicados à colza, uma das principais culturas utilizadas na produção de óleo vegetal no Reino Unido.
Caso os resultados de campo confirmem o desempenho observado em ambiente controlado, a tecnologia poderá contribuir para aumentar a produtividade das culturas oleaginosas e reforçar a produção nacional de óleos vegetais.
Para a equipa de Rothamsted Research, estes ensaios representam uma etapa essencial para avaliar de que forma o melhoramento de precisão pode ajudar os agricultores a produzir culturas mais produtivas e sustentáveis, contribuindo para responder aos desafios colocados pelas alterações climáticas e pela crescente procura de alimentos e matérias-primas agrícolas.
O ensaio constitui também um teste importante à nova legislação britânica, que pretende acelerar a inovação agrícola através de um enquadramento regulatório mais adaptado às tecnologias modernas de edição genética.
Fonte: CiB
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