Com a chegada das temperaturas mais elevadas, a investigadora Paula Teixeira alerta para os principais erros cometidos pelos consumidores e explica como prevenir intoxicações alimentares durante o Verão.
O calor acelera a multiplicação de bactérias e bolores, tornando os meses de Verão particularmente críticos do ponto de vista da segurança alimentar. Desde a quebra da cadeia de frio durante o transporte das compras até à conservação inadequada de sobras ou à contaminação cruzada na cozinha, pequenos descuidos podem aumentar significativamente o risco de doenças transmitidas por alimentos.
Para Paula Teixeira, docente e investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, muitos destes problemas persistem não por falta de informação, mas devido a hábitos enraizados que continuam a ser repetidos nas casas dos portugueses.
Em entrevista à Green Savers, a especialista desmistifica algumas das crenças mais comuns sobre conservação alimentar, alerta para os riscos acrescidos associados às altas temperaturas e recorda que a prevenção começa com gestos simples. Manter o frigorífico à temperatura correta, evitar deixar alimentos demasiado tempo à temperatura ambiente e reforçar os cuidados de higiene são algumas das medidas que podem fazer a diferença. Afinal, como sublinha, a segurança alimentar depende sobretudo da capacidade de impedir que os microrganismos cheguem aos alimentos, se multipliquem ou sobrevivam ao processo de preparação.
A segurança alimentar é um tema que tende a ganhar destaque durante os meses mais quentes. Que tipos de riscos aumentam com a subida das temperaturas?
O tempo quente é o ambiente ideal para o desenvolvimento de bactérias e bolores. À medida que as temperaturas sobem, estes microrganismos multiplicam‑se muito mais rapidamente. Isto significa que pequenos abusos de temperatura, por exemplo, durante o transporte do supermercado para casa, na mala do carro ou no caso de refeições levadas em lancheiras sem acumuladores térmicos, podem transformar rapidamente alimentos seguros em alimentos potencialmente perigosos.
Além disso, no Verão multiplicam‑se as refeições ao ar livre, as viagens, os piqueniques e as celebrações, muitas vezes em condições que dificultam a manutenção adequada da higiene e da cadeia de frio. É também uma altura em que aumenta o consumo de alimentos particularmente sensíveis do ponto de vista microbiológico, nomeadamente carnes de churrasco, marisco e fruta já cortada. Em situações como campismo, festivais ou festas populares, onde nem sempre é possível garantir boas condições de conservação, a probabilidade de quebra da cadeia de frio e de contaminação cruzada, isto é, a passagem de microrganismos de superfícies, mãos ou alimentos crus para alimentos prontos a consumir, aumenta significativamente. A isto junta‑se muitas vezes o espaço limitado no frigorífico, em que nem sempre são priorizados os alimentos mais sensíveis do ponto de vista microbiológico, por exemplo, quando se privilegia ter bebidas frescas em detrimento de alimentos perecíveis, como fruta já cortada ou sobras de refeições, aumentando assim o risco de consumo de alimentos potencialmente contaminados.
Apesar da informação disponível, continuam a verificar-se muitos casos de doenças de origem alimentar. Quais são os erros mais frequentes que os consumidores portugueses cometem em casa?
Muitos erros não têm a ver com falta de informação ou de conhecimento, mas com hábitos enraizados, muitas vezes associados a ideias como “sempre fiz assim” ou “já a minha mãe fazia desta forma”, e com uma visão “simplista” da segurança dos alimentos. Um alimento só é considerado como tal se for seguro. No entanto, essa segurança não é estática e depende de ser mantida até ao momento do consumo. Na prática, alimentos que chegam ao consumidor em boas condições podem tornar‑se inseguros por práticas inadequadas ao nível doméstico, seja durante a conservação, manipulação ou preparação.
Acresce que nem sempre existe a perceção de que as doenças de origem alimentar podem ser graves. São frequentemente associadas apenas a episódios ligeiros de vómitos ou diarreia, o que contribui para a sua desvalorização. Existe até a ideia de que uma diarreia ocasional não tem consequências relevantes, podendo mesmo ser vista como uma forma de “desintoxicar” o organismo. No entanto, estas infeções podem ser sérias e, em alguns casos, até fatais, sobretudo em grupos mais vulneráveis.
No âmbito do projeto europeu SafeConsume, em que participámos, tivemos oportunidade de acompanhar várias famílias durante as compras e a preparação das refeições. E percebemos que muitos dos erros começam logo aí: por exemplo, quando os alimentos ficam demasiado tempo fora do frio, entre o supermercado e a chegada a casa, ou quando se transportam alimentos crus, como frango, no mesmo saco que alimentos que depois vão ser consumidos sem cozedura, como pão ou saladas.
Foram também observadas muitas práticas que podem resultar em contaminação cruzada, como usar a mesma faca ou a mesma tábua para cortar frango cru e, logo a seguir, preparar legumes para uma salada, sem lavar bem esses utensílios e superfícies.
A lavagem do frango cru é outra prática de risco que ainda se vê com muita frequência. Muitas pessoas fazem-no com a ideia de que estão a tornar o frango mais seguro, mas, na verdade, os salpicos de água podem espalhar microrganismos pela banca, pelos utensílios e até por outros alimentos que estejam por perto.
A higiene das mãos continua a ser outro ponto crítico. Passar as mãos rapidamente por água não chega, sobretudo depois de mexer em carne, peixe ou ovos crus e antes de preparar alimentos que vão ser consumidos sem cozedura, como saladas.
Também observámos outros erros relativamente comuns: não lavar bem os vegetais em água corrente; usar ovos caseiros em pratos pouco cozinhados, como mousse de chocolate ou bacalhau à Brás; não verificar se a carne ficou bem cozinhada; manter alimentos no frigorífico fora do prazo de validade; ou deixar sobras esquecidas durante demasiado tempo.
Outro erro muito frequente é confiar apenas nos sentidos (cheirar, provar ou sentir) para decidir se um alimento ainda está “bom” ou se o frigorifico está à temperatura certa.
O frigorífico é frequentemente apontado como uma das principais fontes de risco. Que práticas incorretas observa com maior frequência no armazenamento dos alimentos?
O frigorífico deveria ser um espaço (mais) seguro, mas nem sempre é assim. É muito comum encontrá-lo demasiado cheio, o que impede a circulação adequada do ar frio.
Também se observa frequentemente a falta de separação entre alimentos crus e cozinhados ou o armazenamento incorreto (por exemplo, peixe e carne crus nas prateleiras superiores – as zonas menos frias) ou os ovos guardados na porta do frigorífico (a zona menos fria e mais sujeita a flutuações de temperatura). E há ainda um detalhe importante, muitos consumidores não sabem a que temperatura está realmente o seu frigorífico.
Uma outra questão prende-se com a limpeza do frigorífico. Num estudo feito aqui no centro de investigação (CBQF) há alguns anos, verificámos que mais de 80% dos frigoríficos domésticos (total 86 frigoríficos) só era limpo uma vez por mês ou com menor frequência … e em alguns destes frigoríficos encontrámos uma bactéria (Listeria monocytogenes) que causa doenças muito graves, em algumas situações fatais. As bactérias que estão no frigorífico com muita facilidade passam para os alimentos.
Existe uma temperatura ideal para o frigorífico? Tem a perceção de que os consumidores estão atentos a este aspeto?
Sim, o frigorífico deve estar a 4 °C.
O problema é que muitas pessoas não sabem e\ou nunca verificam esta temperatura. Confiam no sistema de regulação e no mostrador de temperatura do frigorífico, mas nem sempre corresponde à temperatura real. Outras pessoas confiam nos seus sentidos… se a água está fresquinha, então o frigórico está à temperatura correta. A realidade é que uma a água a 10 °C continua fresquinha… mas a 4 ºC ou a 10 ºC a capacidade de crescimento das bactérias é muito diferente!
No estudo feito aqui no CBQF que já referi, observamos que mais de 70% dos frigoríficos domésticos estava a uma temperatura superior a 6,1 °C – temperatura medida em 86 frigoríficos.
Um termómetro no frigorífico pode fazer toda a diferença (existem muitas opções com custo inferior a 5 euros).
É comum guardar sobras de refeições durante vários dias. Qual é o limite a partir do qual esta prática pode representar um risco para a saúde?
Guardar sobras faz todo o sentido do ponto de vista económico e ambiental, mas deve ser feito com cuidado. Embora não exista um tempo único aplicável a todas as situações, pois depende do tipo de alimento e das condições a que foi exposto antes de ser guardado, regra geral, 2 a 3 dias no frigorífico é o período recomendado. Antes de serem consumidos, os alimentos devem, sempre que possível, ser fervidos ou, pelo menos, reaquecidos a temperaturas elevadas (cerca de 70 °C). Quando os alimentos são reaquecidos no micro-ondas, é importante que sejam mexidos durante o processo, para garantir uma distribuição uniforme do calor.
Alguns alimentos podem ser guardados por mais tempo. Por exemplo, uma sopa que tenha sido preparada e arrefecida rapidamente antes de ser refrigerada pode ser mantida durante um período mais longo, sendo recomendável que seja fervida antes do consumo.
Em todas as situações, é fundamental evitar que os alimentos permaneçam demasiado tempo à temperatura ambiente antes de serem guardados, uma vez que isso favorece o crescimento de microrganismos. A chamada “regra das duas horas” aplica-se: depois de cozinhados, os alimentos não devem permanecer mais de duas horas à temperatura ambiente.
Uma boa prática é identificar as sobras com a data de armazenamento, pois rapidamente se perde a noção do tempo decorrido.
Em caso de dúvida, mais vale não consumir.
A descongelação de alimentos continua a gerar muitas dúvidas. Quais são os métodos mais seguros e os erros que nunca devem ser cometidos?
A descongelação à temperatura ambiente continua a ser um dos erros mais comuns e também com grande risco.
O ideal é descongelar no frigorífico, lentamente, ou recorrer ao micro-ondas se for para consumo imediato. Também se pode usar água fria corrente, desde que o alimento esteja bem embalado, mas o desperdício de água é grande. O importante é evitar zonas de temperatura suficientemente alta para que as bactérias se multipliquem rapidamente. Quando descongelamos à temperatura ambiente, o interior do alimento pode ainda estar congelado mas o exterior já está a temperaturas “perigosas”.
Muitas pessoas acreditam que o cheiro ou o aspeto dos alimentos são suficientes para avaliar se estão seguros para consumo. Até que ponto esta ideia corresponde à realidade?
É uma ideia muito comum, mas não é fiável.
O cheiro, a cor e outras caraterísticas sensoriais podem ser bons indicadores da qualidade e do estado de conservação de alguns alimentos, como frutos, vinho, café ou azeite. No entanto, o cheiro não é fiável para avaliar a segurança dos alimentos.
Muitos microrganismos que podem causar doença, como Salmonella, Listeria monocytogenes e Escherichia coli, não provocam alterações nas caraterísticas sensoriais dos alimentos. Assim, um alimento pode parecer e cheirar bem e, ainda assim, representar um risco para a saúde.
Os maus cheiros e outras alterações visíveis são geralmente causados por microrganismos de deterioração, responsáveis pela perda de qualidade dos alimentos, e não pelos microrganismos que habitualmente causam doenças de origem alimentar.
Em caso de dúvida, a regra é nunca provar. Alguns microrganismos podem produzir toxinas capazes de causar doença em doses muito baixas.
A contaminação cruzada continua a ser um problema nas cozinhas domésticas? Que cuidados simples podem fazer a diferença no dia-a-dia?
Sem dúvida. A contaminação cruzada é um problema recorrente nas cozinhas domésticas. Muitas vezes, não resulta de falta de cuidado, mas de pequenas distrações enquanto se cozinha: o telemóvel toca, o bebé chora, é necessário abrir uma gaveta ou um armário… ou usar a mesma tábua ou a mesma faca para alimentos crus e alimentos prontos a comer, sem lavar bem as mãos ou os utensílios e as superfícies.
Como prevenir? Sempre que se passa de um alimento cru para outro alimento, ou de uma tarefa “suja” para uma tarefa “limpa”, é preciso parar e lavar as mãos, os utensílios ou as superfícies antes de continuar.
Salmonella, Listeria monocytogenes e norovírus estão entre os agentes patogénicos mais monitorizados. Qual é atualmente o panorama destes riscos em Portugal?
Em Portugal, o panorama destes riscos segue a tendência europeia: Salmonella continua (e tem mesmo aumentado) a ser um dos principais agentes responsáveis por casos e surtos de infeções alimentares. Listeria monocytogenes, embora muito menos frequente, é talvez a mais preocupante pela gravidade das infeções e impacto nos grupos mais vulneráveis, particularmente idosos. A nível europeu, continua a ser o agente que causa o maior número de hospitalizações e mortes. Pela sua elevada transmissibilidade, norovírus é frequentemente identificado como uma das principais causas de gastroenterite viral.
Que grupos da população são mais vulneráveis às doenças transmitidas por alimentos e exigem cuidados acrescidos?
Existem grupos mais vulneráveis, como idosos, grávidas, crianças e pessoas com o sistema imunitário comprometido por medicação ou doença (pessoas com doenças crónicas, doentes oncológicos em tratamento, transplantados ou indivíduos a tomar medicação imunossupressora). Em comum, apresentam uma menor capacidade de resposta às infeções, o que os torna mais suscetíveis a consequências graves. Nestes casos, uma infeção que poderia ser ligeira pode evoluir de forma mais severa, pelo que as medidas de prevenção assumem uma importância acrescida.
Os alimentos prontos a consumir têm ganho peso nos hábitos alimentares dos portugueses. Este tipo de produtos exige cuidados específicos de conservação?
Sim. Como são consumidos tal como estão, sem qualquer tratamento térmico, é fundamental garantir que não ocorra crescimento de microrganismos até níveis que possam representar um risco. Isso exige condições adequadas de armazenamento, nomeadamente o controlo da temperatura (4 ºC), e uma manipulação em condições de higiene. É também importante respeitar e os prazos de validade, sobretudo após abertura.
No caso dos lacticínios, da carne, do peixe e das refeições preparadas, quais são os principais riscos microbiológicos que preocupam actualmente os especialistas?
Lacticínios: Listeria monocytogenes (em particular em produtos prontos a consumir, como queijos de pasta mole e leite cru).
Carne: Salmonella spp., Campylobacter spp. (sobretudo em carne de aves) e Escherichia coli produtoras de toxina Shiga (STEC).
Peixe e marisco – Listeria monocytogenes (especialmente em peixe fumado), norovírus (sobretudo em moluscos bivalves crus); em produtos embalados sob vácuo ou atmosfera modificada pode ainda existir risco de Clostridium botulinum.
Refeições preparadas – Listeria monocytogenes, Clostridium perfringens e Bacillus cereus, frequentemente associados a abusos de temperatura e conservação inadequada.
Há alimentos que, pela sua natureza, deveriam merecer maior atenção dos consumidores durante o Verão?
Sim, sobretudo saladas prontas a consumir, frutos cortados, marisco e moluscos bivalves, produtos à base de ovos crus ou insuficientemente cozinhados, carnes e outros alimentos cozinhados, bem como refeições prontas refrigeradas. São alimentos que, pela sua natureza, permitem o crescimento de microrganismos e que, quando não são mantidos à temperatura adequada, situação mais frequente durante o Verão, podem rapidamente atingir níveis perigosos para a saúde, uma vez que esse crescimento é tanto mais rápido quanto mais elevada for a temperatura.
Nos últimos anos, verificou-se uma maior consciencialização dos portugueses para as questões da segurança alimentar ou persistem comportamentos de risco?
Não tenho dúvidas de que os portugueses estão hoje mais sensibilizados para as questões da segurança dos alimentos. Ainda assim, persistem vários comportamentos de risco, sobretudo ao nível doméstico, bem como alguns mitos que importa continuar a esclarecer.
Embora a informação esteja atualmente mais disponível, essa maior disponibilidade nem sempre se traduz em alterações efetivas dos hábitos quotidianos. Continua, por isso, a ser necessário investir numa comunicação mais eficaz. Não basta dizer às pessoas o que devem ou não devem fazer; é preciso explicar o porquê… Por exemplo, dizer a uma grávida que não deve consumir sushi poderá ter algum impacto. Mas explicar que o sushi pode conter uma bactéria que pode causar infeções graves durante a gravidez, com consequências muito graves para o feto ou para o bebé recém-nascido, será provavelmente uma forma bastante mais eficaz de comunicar a uma grávida que não deve comer sushi.
Importa ainda reconhecer que uma parte significativa da informação é disponibilizada através de meios digitais, o que pode dificultar o acesso a alguns grupos da população, nomeadamente pessoas mais idosas ou com menores níveis de literacia. Por isso, é essencial adaptar as estratégias de comunicação aos diferentes públicos, utilizando linguagem clara e canais diversificados.
Neste contexto, a educação em segurança alimentar das crianças e dos jovens assume particular importância. A integração destes temas nos currículos escolares poderia contribuir para a adoção de práticas mais seguras a longo prazo e, simultaneamente, promover a partilha de conhecimentos com as famílias, ajudando a criar uma verdadeira cultura de segurança alimentar em ambiente doméstico.
Que mitos relacionados com a conservação de alimentos gostaria de ver definitivamente esclarecidos? Por exemplo, congelar alimentos elimina bactérias?
Congelar não mata as bactérias, apenas impede o seu crescimento. Quando o alimento descongela e a temperatura aumenta, os microrganismos retomam a atividade e podem multiplicar-se rapidamente. Só o cozimento adequado elimina a maioria dos microrganismos perigosos.
Uma exceção importante: a maioria dos parasitas é destruída pela congelação. Por este motivo, recomenda-se congelar o peixe utilizado em sushi.
Reaquecer uma refeição torna-a automaticamente segura?
Não. Reaquecer uma refeição a temperaturas elevadas (mais 70 °C) pode destruir muitos microrganismos, mas a segurança do alimento não pode ser dada como garantida. Por exemplo, se o arroz for mantido durante longos períodos à temperatura ambiente, pode ocorrer o crescimento de bactérias que produzem toxinas (Bacillus cereus). Quando o arroz é reaquecido, as bactérias podem ser destruídas, mas as toxinas são termorresistentes e permanecem ativas. Ou seja, a segurança depende não só da temperatura de reaquecimento, mas também da forma como os alimentos foram armazenados e manuseados previamente.
Que outras ideias feitas continuam a circular sem fundamento científico?
No âmbito do projeto SafeConsume fizemos uma “recolha de mitos”. Os resultados foram surpreendentes! Partilho os referidos com maior frequência, excluindo aqueles que não estão diretamente relacionados com questões sobre a segurança dos alimentos:
- Os vegetarianos não sofrem toxinfeções alimentares;
- O frango deve ser lavado antes da preparação;
- Estar demasiado limpo é a causa das alergias;
- Os alimentos quentes estragam-se e são menos seguros para comer se forem guardados quentes;
- Limpar a cozinha com demasiada frequência cria um ambiente estéril que é mau para a formação de um bom sistema imunitário;
- Algumas gotas de vinagre ou de sumo de limão desinfetam as saladas;
- Os ovos guardados no frigorífico são menos seguros do que os ovos guardados à temperatura ambiente;
- Os ovos que não flutuam em água são seguros;
- As bactérias não sobrevivem em tábuas de madeira;
- O sal mata tudo o que é perigoso;
- Não há problema em comer um pedaço de pão que tenha caído no chão, desde que lhe dês um beijo depois de o apanhares;
- Qualquer alimento que tenha caído no chão, e não tenha ficado lá mais de 5 s, pode ser comido;
- Se a comida cheira e sabe bem, é segura para comer.
As aplicações de entrega ao domicílio e o aumento do consumo de refeições fora de casa introduzem novos desafios em matéria de segurança alimentar?
No caso das aplicações de entrega ao domicílio os maiores desafios são ao nível do tempo de transporte e do controlo da temperatura. Quanto mais longo for o percurso entre a confeção e o consumo, maior o risco, especialmente no Verão. Com uma temperatura ambiente de, por exemplo, 30 ºC, qual será a temperatura a que são expostos os alimentos desde o ponto de recolha até ao local de entrega?
Fora de casa, quando alguma coisa corre mal (abusos de temperatura, contaminações cruzadas, higiene dos manipuladores, …), e pode correr porque o risco zero não existe, vai afetar um maior número de pessoas.
Que recomendações considera essenciais para reduzir o risco de intoxicações alimentares durante os meses de Verão?
Se o principal problema é o aumento da temperatura, a solução passa por evitar que os alimentos sejam expostos a condições de risco. A regra é simples: “das compras ao prato”, manter os alimentos frios quando devem estar frios e quentes quando devem estar quentes, minimizando o tempo à temperatura ambiente. Em termos práticos, os alimentos refrigerados devem ser mantidos a cerca de 4 °C e os alimentos quentes acima dos 60 °C. Isto é particularmente importante quando se leva comida para a praia, para piqueniques ou em viagem; os alimentos perecíveis devem ser transportados em lancheiras ou sacos térmicos com acumuladores de frio, mantidos à sombra e consumidos o mais cedo possível.
Nos churrascos, é essencial garantir que as carnes ficam bem cozinhadas, sobretudo hambúrgueres, salsichas e espetadas, e evitar a contaminação cruzada, usando utensílios, pratos e tábuas diferentes para alimentos crus e alimentos já cozinhados. Deve também reforçar-se a higiene das mãos, superfícies e utensílios.
Cuidado com alimentos como marisco, saladas, molhos, sobremesas com creme ou fruta já cortada, sobretudo quando vendidos na praia, em feiras ou em mercados informais. Em viagem, dependendo do destino, convém ter cuidado com alimentos crus, água para beber e gelo nas bebidas.
Se tivesse de destacar três regras básicas de segurança alimentar que todos os portugueses deveriam adotar em casa, quais seriam?
Evitar que os microrganismos cheguem aos alimentos, através de boas práticas de higiene, como a lavagem das mãos e a prevenção da contaminação cruzada entre alimentos crus e prontos a consumir.
Como não é possível garantir a ausência total de microrganismos nos alimentos, a segunda regra é impedir que se multipliquem, assegurando uma conservação adequada, em particular através da refrigeração dos alimentos mais perecíveis.
Por fim, importa destruir os microrganismos que possam estar presentes, uma vez que alguns agentes patogénicos podem causar doença mesmo em baixos níveis. Para isso, é cozinhar adequadamente os alimentos que necessitam de confeção. No fundo, estas três regras alinham-se com três das cinco chaves da OMS para a segurança dos alimentos: manter a limpeza, manter os alimentos a temperaturas seguras e cozinhar bem os alimentos.
Fonte: GreenSavers
A notificação RASFF 2026.5425 reporta a presença de Salmonella spp. em hambúrgueres de frango panados ultracongelados, com origem tanto em Espanha como em Portugal, elevando o nível de atenção das autoridades de segurança alimentar.
O que foi detetado
Os controlos oficiais identificaram contaminação por Salmonella spp., um agente patogénico responsável por infeções gastrointestinais que podem causar febre, vómitos, diarreia e dores abdominais. O risco é particularmente relevante em produtos de aves, que exigem cozedura completa para eliminação do microrganismo.
A notificação indica dupla origem:
Espanha — país onde foram detetadas inicialmente as inconformidades;
Portugal — identificado como co‑originador do produto ou como parte da cadeia de produção/distribuição.
Esta ligação entre ambos os países sugere cadeias de fornecimento partilhadas, comuns no setor de produtos ultracongelados de aves.
O alerta refere-se a:
Hambúrgueres de frango panados ultracongelados;
Destinados ao consumidor final;
Com distribuição no mercado ibérico.
Os detalhes de lote, marca e validade não foram ainda divulgados publicamente, mas o padrão segue notificações anteriores envolvendo produtos de frango processado.
Medidas recomendadas
Evitar o consumo de hambúrgueres de frango panados adquiridos recentemente, sobretudo se de origem espanhola ou portuguesa;
Verificar a rotulagem e a origem do produto no congelador doméstico;
Devolver ao ponto de venda caso exista correspondência com a descrição do alerta;
Procurar apoio médico se surgirem sintomas após consumo.
O caso reforça a relevância do RASFF como mecanismo de resposta rápida, permitindo que Estados‑Membros atuem de forma coordenada para prevenir riscos alimentares. A identificação de Portugal como país de origem adicional aumenta a necessidade de rastreabilidade rigorosa e verificação de fornecedores.
Fonte: Qualfood
O projeto europeu Increase - Intelligent Collections of Food Legumes Genetic Resources for European Agrofood Systems - chegou ao fim após seis anos de trabalho, deixando um legado significativo para a conservação da biodiversidade agrícola e para o desenvolvimento de sistemas alimentares mais sustentáveis. Um dos principais resultados é a plataforma de acesso aberto que reúne dados de passaporte, fenotípicos e genómicos, sobre os recursos genéticos das leguminosas alimentares.
Financiado pela União Europeia através do programa Horizon 2020, o projeto reuniu 25 parceiros de 12 países, incluindo a Universidade Católica Portuguesa (UCP), com o objetivo de preservar e promover a utilização sustentável dos recursos genéticos de quatro leguminosas alimentares fundamentais: grão-de-bico, feijão comum, lentilha e tremocilha (lupino).
A Universidade Católica Portuguesa participou no consórcio através do Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF) da Escola Superior de Biotecnologia. No âmbito do projeto, a equipa de investigadores caracterizou cerca de 1.300 amostras de feijão comum cultivadas em Espanha, Itália e Polónia ao longo de dois anos. As análises incluíram a avaliação do teor de proteína, compostos fenólicos, minerais essenciais, hidratos de carbono, óleo e humidade, contribuindo para o conhecimento da qualidade nutricional destas variedades e para o estudo das interações entre genótipo e ambiente.
“Um dos aspetos mais inspiradores do Increase foi a capacidade de envolver milhares de cidadãos na conservação da agrodiversidade europeia. Este projeto mostrou que a ciência participativa pode desempenhar um papel determinante na valorização dos recursos genéticos e na sensibilização da sociedade para a importância das leguminosas na alimentação e na sustentabilidade agrícola”, referiu Marta Vasconcelos, investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa e coordenadora do projeto em Portugal.
O projeto destacou-se pela sua forte componente de ciência cidadã. Através de uma aplicação móvel desenvolvida no âmbito da iniciativa, mais de 27 mil cidadãos europeus participaram na avaliação e conservação de variedades de feijão comum, cultivando plantas em jardins, escolas e espaços urbanos e partilhando observações com a comunidade científica. Este modelo foi possível graças a um enquadramento legal, incluindo o Standard Material Transfer Agreement (SMTA) para a troca rastreável de sementes, no âmbito do Tratado Internacional sobre os Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e a Agricultura da FAO. Esta experiência foi distinguida com o Prémio da União Europeia para a Cidadania e Ciência, tornando-se uma referência internacional na promoção da participação pública na investigação científica.
Outro resultado em destaque foi a criação das chamadas ‘Coleções Inteligentes’, subconjuntos cuidadosamente selecionados de recursos genéticos que representam, de forma eficiente, a diversidade existente nos bancos de genes. Estas coleções combinam diversidade genética representativa, dados fenotípicos harmonizados (características observáveis das plantas) e informação genómica de alta resolução. “Para o feijão comum, por exemplo, foram geradas cerca de oito mil linhas geneticamente estáveis, apoiadas por sequenciação genómica extensiva e ensaios de campo em múltiplos locais europeus”, esclareceu Marta Vasconcelos. No caso do lupino, trata-se da caracterização mais completa alguma vez realizada para esta cultura. Estes recursos permitem aos investigadores identificar, de forma muito mais eficiente, características genéticas importantes e desenvolver novas variedades adaptadas às condições ambientais em constante mudança.
Utilizando tecnologias avançadas de genómica e 'ómicas', o Increase identificou também regiões genéticas importantes em várias leguminosas: no grão-de-bico, regiões associadas à tolerância à seca; na lentilha, genes que ajudam as plantas a adaptarem-se a condições de altitude; e no feijão comum, genes que conferem resistência a doenças. Combinando estes dados com novos métodos estatísticos, os cientistas conseguem agora identificar genes cujos efeitos dependem do ambiente em que a planta cresce. Esta informação alimenta modelos preditivos que permitem determinar quais as variedades mais adequadas a cada contexto, hoje e no futuro, face às alterações climáticas.
Embora o projeto tenha terminado em abril de 2026, os recursos genéticos, os dados científicos e as ferramentas desenvolvidas vão permanecer disponíveis para investigadores, agricultores, melhoradores de plantas e bancos de genes em toda a Europa. A continuidade da comunidade criada em torno da iniciativa será assegurada pela associação Diversitas, criada para dar seguimento às atividades de conservação descentralizada e investigação participativa iniciadas pelo projeto.
Fonte: iAlimentar
O Governo aprovou o arranque dos trabalhos da proposta da Estratégia Industrial Verde, um instrumento previsto na Lei de Bases do Clima destinado a apoiar a transição climática do setor industrial e a reforçar a competitividade sustentável das empresas. A decisão foi formalizada através do Despacho n.º 7909/2026, publicado esta quarta-feira, 24 de junho, em Diário da República.
A proposta vai ter um horizonte temporal até 2040 e fica a cargo da Adene - Agência para a Energia e do IAPMEI - Agência para a Competitividade e Inovação, em articulação com o Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), e a Direção-Geral da Economia (DGE).
Segundo o despacho, a estratégia deve procurar maximizar o valor económico associado à transição energética, promover investimentos em atividades de elevado valor acrescentado e aproveitar a competitividade da eletricidade renovável para reduzir custos operacionais e mitigar o défice de produtividade nacional.
O diploma estabelece igualmente como prioridades a modernização e descarbonização da base industrial existente, em particular nos setores eletrointensivos e de difícil descarbonização, bem como a convergência com os instrumentos de política industrial europeus para reforçar a autonomia estratégica das cadeias de valor nacionais e o acesso a financiamento.
A proposta deve incluir um diagnóstico das cadeias de valor industriais nacionais e do respetivo potencial de descarbonização, uma avaliação das oportunidades de desenvolvimento tecnológico, industrial e económico associadas à industrialização verde e uma estimativa dos impactos esperados na economia, no emprego e no sistema energético.
Entre os elementos a integrar constam ainda a identificação de obstáculos regulamentares, financeiros, infraestruturais ou relacionados com qualificações, bem como a definição das medidas necessárias para concretizar a estratégia, acompanhadas por um calendário de implementação e mecanismos de monitorização.
O plano de trabalhos determina que, até 31 de agosto de 2026, sejam realizadas ações de auscultação junto de organismos tutelados, associações setoriais e do público em geral, além da definição das áreas estratégicas prioritárias e da elaboração de um diagnóstico quantificado da base industrial verde.
Numa fase posterior, a concluir até 30 de novembro de 2026, devem ser consolidados os contributos recolhidos, elaborada a proposta da Estratégia Industrial Verde e desenvolvidos o roteiro de execução, os indicadores de desempenho, as metas e o modelo de avaliação dos impactos na economia e no emprego.
Concluída esta etapa, a proposta vai ser sujeita aos procedimentos de consulta pública e ao parecer prévio do Conselho para a Ação Climática (CAC), conforme previsto na Lei de Bases do Clima.
Fonte: iAlimentar
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) publicou um novo recurso para ajudar as partes interessadas na segurança alimentar a compreender as medidas que podem tomar para mitigar a resistência aos antimicrobianos (RAM) de origem alimentar.
O uso excessivo ou indevido de antimicrobianos e a eliminação inadequada destes em animais destinados à produção alimentar e na agricultura podem resultar na contaminação dos alimentos e do ambiente, criando riscos para a segurança alimentar e contribuindo para o aumento global da RAM.
Algumas estimativas sugerem que, até 2050, poderão morrer prematuramente até 300 milhões de pessoas em todo o mundo devido à resistência aos medicamentos. Em 2019, estimou-se que 4,95 milhões de mortes estivessem associadas à RAM bacteriana e 1,27 milhões fossem atribuídas a esta.
Por conseguinte, a nova publicação da FAO incentiva os produtores alimentares e as autoridades a promoverem e implementarem intervenções como programas de vacinação, monitorização do cumprimento da legislação, investigação sobre alternativas aos antibióticos na agricultura e programas de sensibilização dos consumidores. A publicação remete para textos específicos do Codex e outros recursos sobre a utilização de antimicrobianos nos sistemas agroalimentares, com o objetivo de ajudar as partes interessadas em todos os pontos da cadeia de valor a mitigar a RAM de origem alimentar.
A publicação completa pode ser consultada aqui.
Fonte: Food Safety
As serras e planícies portuguesas, que nos últimos anos viram a paisagem transformar-se com o avanço de gigantescas torres eólicas e extensos espelhos fotovoltaicos, preparam-se para conhecer regras inéditas de convivência com a tecnologia verde.
Esta mudança de rumo surge em resposta direta aos sinais de saturação ecológica visíveis em vários pontos do território nacional. A proliferação acelerada destas grandes centrais vinha gerando forte contestação devido à fragmentação de habitats e à mortalidade de fauna silvestre.
O novo diploma tem como intuito criar um escudo protetor para espécies que viram o seu espaço vital encolher significativamente, traçando uma linha vermelha que os promotores energéticos deixam de poder atravessar.
O mapa dos territórios protegidos pelo Estado
Até agora, a ausência de uma proibição explícita permitia que novos empreendimentos avançassem sobre áreas de elevada sensibilidade ecológica. Casos emblemáticos como o Parque Eólico de Silves, localizado no nordeste algarvio, ou as torres geradoras em Arcos de Valdevez, que tocam a área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, ilustram bem este conflito de interesses entre a transição energética e o património natural.
O panorama das centrais solares de grande dimensão também motivou alertas urgentes da comunidade científica e de associações ambientalistas. A Central Solar da Beira, planeada para a zona envolvente do Parque Natural do Tejo Internacional, em Castelo Branco, enfrentou forte oposição por ameaçar ecossistemas vulneráveis.
Noutro ponto, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves contestou severamente a central fotovoltaica Sophia, localizada na região Centro, demonstrando que a barreira física dos painéis fragmenta corredores ecológicos vitais para mamíferos e avifauna.
Já na central de Ferreira do Alentejo, a associação Zero identificou riscos sérios para a sobrevivência de aves estepárias raras, como a abetarda e o sisão, que dependem das planícies abertas de cereais para nidificar.
Regras claras para acelerar no local certo
Com o novo enquadramento normativo, os projetos que incidam nestas áreas geográficas proibidas serão liminarmente recusados ou forçados a mudar de localização.
O texto legal estabelece que a energia fotovoltaica deve expandir-se preferencialmente através de estruturas já artificializadas, incentivando o aproveitamento de telhados industriais, recintos residenciais, parques de estacionamento e antigas minas desativadas.
Esta clarificação territorial surge quando se discutem os mapas de aceleração energética do país. Embora esses planos setoriais excluíssem os parques das áreas protegidas pela Rede Natura 2000, subsistia uma lacuna que permitia submeter propostas para zonas adjacentes através de avaliações de impacto ambiental. A estratégia agora publicada fecha essa porta, definindo claramente onde a instalação é estritamente proibida.
Dos fungos esquecidos à proteção do lobo
A nova estratégia ambiental vai muito além da regulação do setor das energias limpas. O documento acolheu mais de metade das propostas apresentadas na consulta pública, integrando novidades estruturais profundas.
A nível de fauna e flora, o diploma reativa a obrigatoriedade de implementar planos de ação urgentes destinados à preservação do lobo-ibérico, do lince-ibérico e de aves necrófagas.
Cidadãos e proprietários como guardiões da natureza
A governação ambiental do país ganha novas ferramentas práticas com a introdução do princípio do protetor-recebedor. O mecanismo visa remunerar financeiramente os proprietários privados e os gestores rurais que promovam boas práticas de conservação, reconhecendo o seu papel como guardiões do território.
O envolvimento da sociedade civil na recolha de dados científicos passa também a estar formalmente oficializado. A ciência cidadã será utilizada como um instrumento estratégico da administração pública, através da criação de plataformas digitais para validar as observações biológicas registadas pela população e por programas escolares.
A obrigatoriedade de proteger os geossítios nos planos diretores municipais é mais uma regra que a nova estratégia de biodiversidade impõe às autarquias.
Por fim, a geodiversidade é elevada ao mesmo patamar de relevância jurídica da biodiversidade animal e vegetal, obrigando os municípios a delimitar e proteger os geossítios diretamente nos seus planos diretores municipais.
Leia a nova Estratégia Nacional para a Biodiversidade aqui.
Fonte: Tempo
A diversificação das fontes de proteína na Europa pode contribuir para reduzir pressões ambientais, reforçar a resiliência dos sistemas alimentares e criar novas oportunidades para a agricultura e a indústria alimentar, segundo um relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA).
O relatório Diversificação de proteínas — riscos e oportunidades estratégicos para sistemas alimentares sustentáveis analisa o papel das diferentes fontes de proteína no contexto europeu e defende uma transição gradual, e não uma substituição direta da produção pecuária.
De acordo com a AEA, a ingestão média de proteína entre adultos na União Europeia (UE) situa-se entre 80 e 85 gramas por pessoa por dia, acima das necessidades da maioria dos grupos populacionais. Os produtos de origem animal representam cerca de 60% da ingestão total de proteína, o que, segundo o relatório, sugere margem para reequilibrar as fontes proteicas, mantendo uma nutrição adequada.
O atual sistema proteico europeu está associado a pressões ambientais relevantes. A produção pecuária responde por mais de 65% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) da agricultura na UE, enquanto o pastoreio e a produção de rações ocupam, em conjunto, mais de metade da área agrícola.
O relatório aponta ainda impactos associados ao azoto proveniente da pecuária e do uso de fertilizantes, que contribui para a poluição da água e para a eutrofização. Em 2023, a agricultura foi responsável por cerca de 94% das emissões de amoníaco da UE, uma fonte relevante de poluição atmosférica por partículas finas.
A dependência externa é outro dos fatores identificados. O sistema pecuário europeu depende fortemente da importação de ração, com a UE a importar quase dois terços da ração rica em proteína usada na produção animal. O fornecimento está concentrado em poucos países, sobretudo Brasil, Argentina e Estados Unidos. Só as importações de soja ascendem a cerca de 30 milhões de toneladas por ano, maioritariamente destinadas à alimentação animal.
Segundo a AEA, a expansão da soja está associada à desflorestação e perda de biodiversidade em partes da América do Sul. O relatório refere ainda que as tensões geopolíticas dos últimos anos, o aumento dos preços da energia e dos fertilizantes e as perturbações nas cadeias de abastecimento evidenciaram vulnerabilidades associadas a estas dependências.
Reequilíbrio gradual, não substituição
A Agência Europeia do Ambiente sublinha que nem todos os sistemas pecuários têm a mesma pegada ambiental. O pastoreio extensivo em pastagens pode apoiar a conservação da biodiversidade e a gestão da paisagem, sendo que cerca de um em cada três habitats protegidos na Europa depende do pastoreio.
Por essa razão, o relatório enquadra a diversificação proteica como um reequilíbrio gradual da oferta e dos padrões de consumo de proteína na Europa, a desenvolver em paralelo com sistemas pecuários mais sustentáveis e com atenção à proteção dos meios rurais e das economias regionais.
A diversificação proteica é apresentada como um conjunto de soluções complementares. Além de alimentos vegetais já estabelecidos, como leguminosas e alternativas à carne e aos laticínios, o relatório analisa opções emergentes, incluindo insetos, fermentação de biomassa, fermentação de precisão e carne cultivada.
Proteínas vegetais com benefícios mais imediatos
As proteínas vegetais são identificadas como a opção com benefícios ambientais mais imediatos. De acordo com o relatório, beneficiam de sistemas de produção estabelecidos, mercados mais maduros e maior familiaridade dos consumidores.
A AEA considera que estas fontes têm potencial para reduzir emissões de GEE, poluição por azoto e pressões sobre o uso do solo, criando também oportunidades de recuperação da natureza e de novo valor ao longo dos sistemas agrícola e alimentar.
As vias emergentes de diversificação poderão oferecer vantagens ambientais, tecnológicas ou estratégicas em aplicações específicas, incluindo diversificação de rações, menor dependência do uso do solo e novas oportunidades nas cadeias de valor alimentar e de alimentação animal. Contudo, muitas continuam a enfrentar desafios relacionados com custos de produção, necessidades de infraestrutura, complexidade regulamentar e níveis incertos de aceitação pelos consumidores.
O relatório aponta também oportunidades económicas. O consumo global de proteínas alternativas poderá aumentar mais de sete vezes até 2035, enquanto o mercado das proteínas vegetais deverá crescer de cerca de 24 mil milhões de dólares em 2025 para 35 mil milhões de dólares em 2030.
Segundo a análise, a Europa está bem posicionada para competir em segmentos de maior valor, incluindo alimentos de base vegetal, proteínas obtidas por fermentação e ingredientes mais sustentáveis para alimentação animal.
Segundo a análise, o reforço da produção europeia de culturas proteicas é apresentado como uma via para fortalecer a resiliência dos sistemas alimentares.
Fonte: Vida Rural
Agricultores no Reino Unido estão a testar mapas de previsão de lesmas desenvolvidos com modelos computacionais, no âmbito de um projeto de investigação que procura melhorar o controlo desta praga e reduzir o uso de pesticidas.
De acordo com os responsáveis do projeto, a ferramenta permite identificar zonas de maior risco nos campos cultivados e direcionar melhor a aplicação de armadilhas.
No Reino Unido, os prejuízos em trigo e colza causados por lesmas estão estimados em quase 44 milhões de libras por ano. Além dos cereais, as lesmas consomem sementes de cevada, aveia e trigo, alimentam-se de folhas jovens em germinação e podem danificar batata e culturas hortícolas.
O trabalho está a ser desenvolvido no âmbito do projeto Slimers, um programa de três anos iniciado em 2023 e com conclusão prevista para o final de agosto. O projeto tem um orçamento de 2,6 milhões de libras, é financiado pelo Departamento de Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido e liderado pela British On-Farm Innovation Network.
A iniciativa recrutou 28 agricultores “caçadores de lesmas” para trabalhar com cientistas e aprofundar o conhecimento sobre o comportamento destes invertebrados.
Para recolher dados, os agricultores instalaram armadilhas nas suas explorações. A informação obtida foi integrada num modelo computacional, que utiliza um algoritmo para prever onde as lesmas poderão surgir nos campos cultivados. Foram também recolhidas amostras de solo.
Os mapas de previsão resultantes foram testados por 16 agricultores durante o último outono e inverno. De acordo com a informação divulgada, a ferramenta já permitiu reduzir para metade a quantidade de armadilhas utilizadas no controlo da praga.
Charles Paynter, agricultor de Bedfordshire envolvido no projeto desde o início, afirma que já reduziu o uso de pesticidas. “O meu limiar para tomar medidas de controlo é agora mais elevado, porque consegui comprovar que posso avaliar os riscos da atividade das lesmas com maior precisão”, afirmou.
O projeto surge também num contexto de maior procura por alternativas aos pesticidas. O metaldeído, substância química comummente usada em produtos para controlo de lesmas no Reino Unido, foi proibido em 2022, o que levou ao aumento da utilização de grânulos de fosfato férrico.
Segundo os investigadores, há confiança no funcionamento da ferramenta. “Já sabíamos que as lesmas não surgiam aleatoriamente nos campos, mas que formavam manchas distintas de acordo com o tipo de solo e as condições climáticas”, afirmaram.
Os responsáveis acrescentam ainda que os dados recolhidos pelos agricultores permitiram aprofundar esse conhecimento e confirmar a hipótese sobre a forma como os focos de lesmas se reorganizam após períodos de encharcamento.
“Em solos com mais abundância de água, os aglomerados tornam-se instáveis e desfazem-se, mas agora confirmámos que se reformam temporariamente em locais onde não os esperaríamos em condições normais e, em seguida, regressam rapidamente às suas áreas previstas assim que as condições típicas do solo retornam”, explicaram.
Outra vertente do projeto Slimers está dedicada ao desenvolvimento de variedades de trigo resistentes à lesma. Os cientistas identificaram três áreas do genoma do trigo associadas à resistência à lesma, uma descoberta que poderá apoiar o desenvolvimento de novas variedades menos suscetíveis a esta praga.
Fonte: Vida Rural
No São João, até a nossa equipa faz uma pausa para ver balões, comer sardinhas e tentar não levar com um martelo na cabeça.
Por isso, os serviços Qualfood estarão temporariamente encerrados — mas não se preocupe: o acesso à base de dados continua firme e forte, sem saltar fogueiras.
Voltamos no dia útil seguinte, renovados e prontos para tudo.
Aproveite o feriado e deixe-se contagiar pelo espírito sanjoanino!!
Fonte: Qualfood
Investigadores chineses identificaram um gene no milho que pode aumentar de forma significativa o teor de proteína nas sementes.
O estudo, publicado na revista Nature , aponta uma nova possibilidade para desenvolver variedades de milho com maior valor proteico, sem reduzir o rendimento em grão.
De acordo com os cientistas, o milho tem um papel relevante na segurança alimentar global, mas o teor de proteína não foi uma prioridade ao longo do processo de domesticação e melhoria da cultura. Segundo os investigadores, várias características genéticas associadas a níveis mais elevados de proteína foram-se perdendo nas variedades cultivadas.
Como resultado, muitas variedades modernas de milho apresentam baixos teores de proteína na semente, contribuindo para uma maior dependência de farinha de soja importada na alimentação animal.
O gene agora identificado foi encontrado no teosinto, a planta silvestre que deu origem ao milho moderno. De acordo com o estudo, este gene ajuda a planta a utilizar melhor o azoto na produção de proteínas.
Os investigadores verificaram que esta característica se tornou rara nas variedades modernas de milho, estando presente em apenas 2,1% das linhas analisadas.
A equipa testou a introdução deste gene, em combinação com outro gene anteriormente identificado, num híbrido de milho bastante cultivado na China. O resultado foi um aumento do teor de proteína da semente de 8,5% para 12% a 13%.
O teor de proteína da planta inteira também aumentou, passando de 7% para mais de 9%, sem comprometer o rendimento em grão.
Segundo os autores, a investigação ajuda a explicar por que razão o milho perdeu parte do seu teor proteico ao longo da domesticação. O estudo indica também que a recuperação de características genéticas presentes em parentes selvagens da cultura pode ser uma ferramenta útil para a melhoria de novas variedades.
Os investigadores sublinham que a descoberta poderá contribuir para o desenvolvimento de milho com maior teor de proteína, com potencial interesse para a alimentação humana e animal.
Fonte: Vida Rural
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