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O bloqueio do Estreito de Ormuz está a colocar em risco o abastecimento global de alimentos e fertilizantes, segundo um alerta da Organização Mundial do Comércio (OMC), que aponta para impactos diretos na agricultura, nos preços e na segurança alimentar mundial.

Mais do que uma crise energética, o cenário atual expõe uma fragilidade estrutural: a dependência do sistema alimentar global de rotas logísticas críticas.

De facto, o Estreito de Ormuz é um dos pontos mais importantes do comércio mundial. Por lá passa cerca de 20% do petróleo global e aproximadamente 30% dos fertilizantes comercializados. Este último dado é particularmente crítico, uma vez que os fertilizantes são essenciais para a produtividade agrícola global.

 Impacto direto na segurança alimentar

A crise não se limita aos países produtores. Os países do Golfo, altamente dependentes de importações alimentares, enfrentam riscos imediatos, já que grande parte dos alimentos básicos entra pela rota de Ormuz. Produtos como trigo, arroz, milho e soja estão expostos a disrupções. Nalguns países da região, até 70% dos alimentos consumidos depende desta via marítima, o que aumenta drasticamente a vulnerabilidade.

A OMC destaca ainda o impacto potencial em países mais frágeis, sobretudo em África, onde a dependência de importações é elevada e a capacidade de absorver choques de preço é limitada. Este cenário pode agravar crises alimentares já existentes e aumentar a pressão humanitária.

 Energia mais cara agrava o problema

A disrupção no Estreito de Ormuz também está a provocar uma subida dos preços da energia, com efeitos em cadeia, como o aumento dos custos de produção agrícola, a par do encarecimento do transporte. O resultado é uma dupla pressão: menos oferta e custos mais elevados.

Fonte: Grande Consumo

O cabaz essencial de 63 produtos monitorizado pela Deco Proteste aumentou 0,08 euros esta semana face à anterior e acumula um acréscimo de 12,57 euros desde início do ano, fixando-se num novo máximo de 254,40 euros.

Num comunicado divulgado hoje, a Deco Proteste salienta que, apesar da subida ligeira face à semana passada, “este aumento representa novamente o valor mais alto desde que a organização de defesa do consumidor iniciou esta análise, em 2022”.

“Há um ano era possível comprar exatamente os mesmos produtos por menos 17,46 euros (menos 7,37%)”, concretiza, acrescentando que, “no início de 2022, era possível gastar menos 66,70 euros (uma diferença de 35,53%)”.

Na última semana, entre 18 e 25 de março, os produtos cujo preço mais aumentaram percentualmente foram a curgete (17% para 2,75 euros), o tomate chucha (15% para 2,60 euros) e a cebola (10% para 1,42 euros).

Comparando com o mesmo período do ano passado, a maior subida percentual de preço verificou-se em produtos como a couve-coração (53%, custando atualmente 1,87 euros), o café torrado moído (39%, para os atuais 5,15 euros) e o robalo (39%, o que se reflete num custo de 9,81 euros por quilograma (kg)).

Desde que a Deco Proteste iniciou esta análise, em 05 de janeiro de 2022, os maiores aumentos percentuais foram os da carne de novilho para cozer (122% para 12,89 euros/kg), a couve-coração (88% para 1,87 euros/kg) e os ovos (84% para 2,10 euros).

O cabaz essencial monitorizado pela associação inclui carne, congelados, frutas e legumes, laticínios, mercearia e peixe, sendo considerados, entre outros, produtos como peru, frango, carapau, pescada, cebola, batata, cenoura, banana, maça, laranja, arroz, esparguete, açúcar, fiambre, leite, queijo, manteiga, entre vários outros.

Na semana em que se celebra o Dia Mundial da Água é importante transformar hábitos numa rotina saudável.

Sabia que, em média, uma pessoa pode gastar, por dia, 280 litros de água? No entanto, existem formas de reduzir este consumo para 100 litros, ou seja, uma poupança de 180 litros diários por pessoa, o que equivale a 36 garrafões de água de 5 litros, só precisas aprender como:

  1. Medir o caudal da água em casa

Usar um recipiente e cronómetro: encher o recipiente, registar o tempo e calcular o caudal em litros/minuto (volume × 60 ÷ tempo). De seguida, deve comparar com os valores recomendados antes de instalar redutores de caudal. Também é importante conhecer a pressão da água na sua habitação, ajustar conforme o piso, e escolher dispositivos compatíveis com essa pressão.

  1. Poupar água na casa de banho

Fechar a torneira ao escovar os dentes ou ensaboar-se e preferir duches rápidos, recolher a água inicial do duche para outros usos, evitar banhos de imersão e manter os chuveiros limpos. Arranjar torneiras e autoclismos que estejam a pingar e usar torneiras monocomando ou termostáticas. E, ainda, não usar a sanita como caixote do lixo, resíduos sólidos devem ser colocados no lixo.

  1. Diminuir o gasto de água com o autoclismo

Para reduzir o gasto de água no autoclismo, opte por sistemas de dupla descarga. Se não tiver, pode baixar o nível de enchimento da bóia para poupar até 4 litros por descarga e usar descargas completas só quando necessário. Ao remodelar, escolha autoclismos com dupla descarga ou instale mecanismos universais de poupança.

  1. Reduzir o consumo de água na cozinha

Deve evitar deixar a torneira a correr, encha a cuba para lavar loiça, fruta e legumes. A máquina de lavar loiça deve ser usada apenas quando a carga estiver completa, sem pré-lavagem desnecessária, e prefira programas eco, que reduzem água e eletricidade. As peças muito grandes devem ser lavadas à mão, quando compensar e os filtros devem ser limpos regularmente de forma a manter a eficiência.

  1. Poupar água no jardim

As plantas devem ser regadas nas horas mais frescas e de forma intensa, mas espaçada, focando nas raízes. O sistema gota a gota ou sensores de humidade também são uma boa opção e evitam regar em dias de chuva. A relva não deve ser cortada muito curta e deve eliminar as ervas daninhas. Para regar pode reaproveitar água doméstica sempre que possível e lave o carro só quando necessário, preferindo balde ou lavagens com reutilização de água.

Fonte: Green Savers

Ovos, peixe gordo e legumes são algumas das sugestões que María Aguirre, nutricionista, sugere para ajudar na preservação da massa muscular nos idosos.

“A nutrição no Inverno costuma estar associada apenas à prevenção de constipações, mas preservar a massa muscular é fundamental para a mobilidade e para reduzir o risco de quedas. Distribuir a ingestão de proteína ao longo do dia, privilegiar alimentos pouco processados e acompanhar a alimentação com exercícios de força adaptados, sempre que possível, contribui para manter a autonomia”, explica María Aguirre, nutricionista.

Os especialistas sugerem:

• Ovos e laticínios: fornecem proteínas de alto valor biológico e integram-se facilmente em refeições leves, como pequenos-almoços ou jantares. O iogurte natural e o kefir também contêm fermentos que contribuem para o equilíbrio da microbiota intestinal, um fator relacionado com a resposta imunitária.

• Peixe gordo: variedades como o salmão ou a sardinha fornecem proteína de qualidade e gorduras ricas em ómega-3. Essas gorduras associam-se a um melhor estado geral e a um controlo mais adequado dos processos inflamatórios. Algumas espécies contêm vitamina D, relevante em períodos com menor exposição solar.

• Legumes: lentilhas e grão-de-bico fornecem proteína vegetal e minerais, além de um teor relevante de fibras. No Inverno adaptam-se bem com pratos quentes com vegetais, contribuindo para uma melhor regularidade intestinal e para manter a saciedade sem recorrer a produtos ultraprocessados.

• Verduras e citrinos: alimentos como brócolos e espinafres adicionam fibras e compostos antioxidantes. Por sua vez, os citrinos adicionam vitamina C e podem ser consumidos como fruta fresca ou em sobremesas simples. Garantir a presença diária de vegetais e frutas contribui para um padrão alimentar mais protetor, especialmente quando se priorizam confeções suaves que facilitam a digestão.

Por sua vez, Miriam Piqueras, médica, alerta para alguns sinais funcionais que podem servir como sinal de alerta, como uma maior dificuldade em levantar-se de uma cadeira, subir escadas ou manter o ritmo habitual ao caminhar. “Perante estes sinais, é aconselhável rever a alimentação e consultar um profissional, seja presencialmente ou através de vídeo consulta. Um plano nutricional adaptado, que garanta uma ingestão correta de proteínas, faz uma diferença significativa no bem-estar dos idosos durante os meses frios”, conclui.

Fonte: TecnoAlimentar

A CropLife Portugal deu este ano continuidade ao projeto educativo “Agricultura é Vida”, reforçando o compromisso assumido em 2025 de sensibilizar alunos, professores e comunidade escolar para a importância vital do agricultor e da agricultura moderna.

A primeira sessão de 2026 realizou-se na Escola EB Santo António de Tercena, em Oeiras, dando início a um novo ciclo de visitas promovido em parceria com o Município de Oeiras, no âmbito do programa Educa+.

Esta ação teve a colaboração da Associação de Produtores de Maçã de Alcobaça, que disponibilizou a sua mascote para animar a sessão e entregar brindes às crianças para poderem levar maçãs para o lanche da escola.

Ao longo das próximas semanas, o projeto irá ainda passar pelo Centro Educativo Padre António de Oliveira (15 de abril), pela Escola EB Dr. Joaquim de Barros (21 de abril) e pela Escola EB1 António Rebelo de Andrade (14 de maio, data a confirmar). Cada sessão mantém o formato dinâmico e interativo que caracteriza o programa, destinado a aproximar os mais novos da agricultura e a reforçar a compreensão do seu papel na produção de alimentos seguros, saudáveis e acessíveis.

Durante a atividade, os alunos são convidados a explorar as várias dimensões da agricultura — social, económica e ambiental — através de conteúdos audiovisuais como “A PAC Explica” e “Um Enigma entre as Laranjas”. De forma clara e adaptada à idade, é destacada a importância da agricultura na preservação da biodiversidade, na proteção do ambiente, na prevenção de incêndios e na coesão territorial.

O momento mais inspirador da sessão é o testemunho de agricultores convidados que partilham a sua experiência de vida no campo, aproximando a realidade agrícola do dia a dia escolar.

No final de cada ação, cada escola recebe um Abrigo de Polinizadores, gesto simbólico que reforça a relação entre biodiversidade e produção agrícola sustentável.

“Pretendemos dar continuidade à dimensão educativa das nossas iniciativas, reforçando a ligação entre agricultura e biodiversidade. A instalação de abrigos de polinizadores nas escolas é um exemplo simples e real do impacto que pequenos gestos podem ter na preservação dos ecossistemas e na produção segura e sustentável de alimentos”, afirmou o Diretor Executivo da CropLife Portugal, João Cardoso, citado em comunicado.

O projeto encontra-se aberto à participação de outras escolas que desejem receber estas ações.

Fonte: TecnoAlimentar

Portugal pode estar prestes a mudar a forma como começamos o dia. Um grupo de investigadores nacionais desenvolveu um processo inovador que transforma leguminosas — como grão‑de‑bico, feijão e tremoço — numa bebida torrada e aromática capaz de substituir o café tradicional, sem cafeína e com pegada ambiental reduzida.

A iniciativa, ainda em fase de testes avançados, está a despertar curiosidade dentro e fora do país. O segredo está numa técnica de torrefação e moagem que realça compostos aromáticos naturalmente presentes nas leguminosas, criando um sabor surpreendentemente próximo do café, mas com um perfil nutricional mais rico e sustentável.

“Estamos a provar que é possível manter o ritual do café sem depender de culturas tropicais ou de cadeias de produção intensivas”, explica a equipa responsável pelo projeto, que destaca o potencial agrícola das leguminosas portuguesas e a oportunidade de valorizar produtos locais.

Além de ser uma alternativa para quem evita cafeína, a bebida promete benefícios adicionais: é rica em fibra, tem baixo impacto ambiental e pode ajudar a diversificar a produção agrícola nacional. Vários chefs e baristas já começaram a experimentar o produto, descrevendo-o como “uma surpresa agradável” e “um novo território de sabor”.

Se tudo correr como previsto, a bebida poderá chegar ao mercado nos próximos meses, posicionando Portugal na linha da frente da inovação alimentar sustentável. Uma revolução discreta, mas com aroma intenso.

Fonte: Qualfood

A proteção das culturas contra pragas e doenças é uma preocupação fundamental na agricultura, e encontrar estratégias sustentáveis e eficazes representa um desafio para a agronomia. Nesse sentido, o grupo de Entomologia Agrícola do Departamento de Agronomia da Universidade de Córdoba, Espanha, trabalha no desenvolvimento de métodos de biocontrole baseados no uso de fungos entomopatogénicos que podem infectar insectos causadores de pragas. O grupo acaba de publicar uma descoberta sobre esses agentes fúngicos que os torna uma ferramenta poderosa para a proteção das culturas.

A pesquisa descobriu a capacidade de um microvírus - um tipo de vírus que infecta e se replica dentro de fungos - de aumentar a virulência com que um fungo entomopatogénico infecta insectos. O grupo comparou duas variantes da mesma cepa fúngica: uma infectada com um micovírus e a outra não infectada. O estudo demonstrou que a cepa infectada com o micovírus - a cepa natural - foi capaz de infetar o insecto e causar a sua morte, enquanto a cepa não infectada com o micovírus - a cepa obtida pelos investigadores - não causou doença.

Esta pesquisa, publicada na revista Virulence, oferece uma nova perspectiva sobre a associação entre fungos entomopatogénicos e micovírus destacando a influência significativa que esses fungos exercem sobre a patogenicidade dos seus hospedeiros.

Leia o artigo aqui.

Fonte: Agrodigital

O Ministério do Ambiente e Energia reformulou o regime de cálculo da remuneração das centrais de biomassa, passando a atribuir maior peso ao contributo de cada unidade na gestão integrada de fogos rurais.

De acordo com a comunicação do Executivo, a alteração procura reforçar o papel destas centrais na prevenção de incêndios e na gestão florestal.

Com a nova portaria, a remuneração das centrais passa também a estar indexada à área ardida na respetiva região de influência, num período de referência até três anos.

Segundo a informação divulgada, esta solução pretende evitar penalizações por pequenos incêndios ou benefícios indevidos em situações em que o território tenha sido devastado pelas chamas no ano anterior, como acontecia no anterior regime legal.

 O ministério sustenta que essas situações distorciam a lógica da remuneração aplicada ao setor. Ao valorizar positivamente o contributo das centrais de biomassa na prevenção dos incêndios, ficam criadas condições para uma valorização da tarifa fixa em função do papel ativo de cada central na gestão da floresta.

As remunerações destas centrais assentam em duas componentes: um prémio de mercado e um prémio para a gestão integrada de fogos rurais e proteção da floresta. Ambos são definidos em euros por megawatt-hora de eletricidade injetado na Rede Elétrica de Serviço Público.

 A nova portaria corresponde à primeira alteração do diploma que fixou os suplementos remuneratórios atribuídos às centrais de valorização de biomassa.

De acordo com o Governo, a nova legislação pretende ir além da energia elétrica produzida e injetada na rede, incentivando o papel que estas centrais podem desempenhar no planeamento e na gestão da floresta, com o objetivo de a defender e preservar de incêndios rurais.

Fonte: Vida Rural

Vários foram já os alertas que surgiram sobre o impacto ambiental da expansão aparentemente imparável da Inteligência Artificial (IA), especialmente devido aos grandes consumos de energia e às emissões daí resultantes.

Em meados de 2025, surgiu um relatório que apontava nesse sentido, dizendo que as emissões de carbono das maiores empresas tecnológicas do mundo aumentaram, em média, 150% entre 2020 e 2023, devido ao reforço dos investimentos em IA e ao consumo de eletricidade para alimentar centros de dados.

Um ano antes, numa conferência em Los Angeles, nos Estados Unidos da América, o próprio diretor de operações da OpenAI, a criadora do célebre ChatGPT, disse que a proliferação de aplicações de IA colocava um “grande risco” às economias globais devido às exigências de consumo de energia.

Contudo, em novembro do ano passado, foi publicado um estudo na revista ‘Environmental Research Letters’ no qual os autores argumentam que, ao contrário do que se pensa, a IA pouco contribui para as emissões de gases com efeito de estufa e que até pode contribuir para a proteção ambiental.

A investigação foca-se nos Estados Unidos da América (EUA), que é onde estão concentrados os grandes desenvolvimentos desse tipo de tecnologia. Os economistas ambientais Anthony Harding, do Instituto de Tecnologia da Geórgia (EUA), e Juan Moreno-Cruz, da Universidade de Waterloo (Canadá), dizem ter combinado dados sobre a economia norte-americana com estimativas do uso de IA nos diversos setores para determinarem as consequências ambientais se o uso de IA mantiver a atual trajetória.

Os investigadores referem que a quantidade de energia consumida pela IA nos EUA é equivalente à que é consumida em toda a Islândia, mas, ainda assim, defendem que, pelo menos num plano mais abrangente, os efeitos serão praticamente negligenciáveis.

“É importante notar que o aumento do uso de energia não será uniforme”, afirma, em nota, Moreno-Cruz.

“Se olharmos para a energia de uma perspetiva local, isso é importante, porque em alguns lugares poderemos ver duplicar a produção de eletricidade e as emissões”, reconhece. No entanto, considera que, “de uma perspetiva mais ampla, o uso de energia pela IA não será notável”.

Para aquelas vozes que alertam para os impactos climáticos da IA e que defendem que se deve evitá-la, o investigador contra-argumenta com o que diz ser “uma perspetiva diferente”.

“Os efeitos no clima não são significativos e podemos usar a IA para desenvolver tecnologias verdes ou para melhorar as que já existem”, defende.

O objetivo da dupla é fazer estudos semelhantes noutras regiões do mundo onde o uso da IA esteja a crescer para avaliar os seus impactos.

Fonte: Greensavers

Num contexto de instabilidade geopolítica, pressão regulatória e volatilidade nos custos agrícolas, a soberania alimentar deixou de ser apenas um conceito político para se tornar uma variável estratégica na gestão das cadeias de abastecimento. Para Portugal – e para a Europa –, a questão já não é apenas garantir alimentos seguros, mas assegurar produção, logística e abastecimento resilientes, competitivos e sustentáveis.

Num mundo abalado por crises sucessivas – da pandemia à guerra na Ucrânia, passando pela emergência climática –, a forma como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos tornou-se uma questão central de segurança e estratégia. Emerge, neste contexto, com força renovada, o conceito de soberania alimentar, um termo que transcende a simples garantia de que há comida na mesa para questionar quem controla os sistemas que nos alimentam. Para a Europa, e em particular para Portugal, alcançar um maior grau de soberania alimentar não é apenas uma meta desejável; é um imperativo para a resiliência económica, a sustentabilidade ambiental e a coesão social. 

Este artigo explora, com base em análises de especialistas, dados de mercado e políticas em curso, o que significa realmente a soberania alimentar, a sua importância crítica, os alimentos que estão no centro deste debate e as profundas implicações das decisões que estão (ou deveriam estar) a ser tomadas.

Embora frequentemente confundidos, os conceitos de soberania e segurança alimentar apontam para dimensões distintas e, por vezes, conflituantes do sistema alimentar. A segurança alimentar, tal como definida e implementada na União Europeia, foca-se em garantir que os alimentos disponíveis são seguros para o consumo, desde o produtor ao consumidor. Este pilar assenta num vasto e harmonizado quadro legislativo que cobre toda a cadeia de abastecimento, incluindo as importações, com prioridade máxima para a higiene, a sanidade animal e vegetal e rigorosos controlos oficiais. O seu objetivo primordial é proteger a saúde do consumidor, independentemente da origem do produto.

Por outro lado, a soberania alimentar, um conceito cunhado pelo movimento de agricultores Via Campesina, em 1996, é fundamentalmente política. Refere-se ao “direito dos povos a alimentos saudáveis e culturalmente apropriados, produzidos através de métodos sustentáveis e ecológicos, e o seu direito a definir os seus próprios sistemas agrícolas e alimentares.” Como sublinha Marta Vasconcelos, investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Universidade Católica Portuguesa, a soberania alimentar “centra o direito das populações de decidir as suas políticas agrícolas e alimentares”, dando primazia ao mercado interno, ao controlo sobre os recursos naturais (terra, água, sementes) e aos agricultores que produzem de forma sustentável. É, na sua essência, uma alternativa ao modelo alimentar globalizado e dominado por grandes corporações, procurando capacitar as comunidades locais a controlar a produção, distribuição e consumo de alimentos.

A investigadora lembra que os conflitos de prioridades são evidentes. A soberania alimentar privilegia os circuitos curtos e a autonomia local, enquanto a segurança alimentar na União Europeia integra fluxos comerciais globais, desde que estes cumpram as normas sanitárias. Esta tensão manifesta-se no preço: produtos importados, muitas vezes produzidos com normas ambientais e laborais menos exigentes, podem ser mais baratos, colocando a produção local, que arca com custos de conformidade mais elevados, em desvantagem competitiva.

O conceito de soberania alimentar, no contexto europeu contemporâneo, foi adotado na perspetiva da soberania das nações, num quadro de defesa nacional, refere, por sua vez, Pedro Reis, professor da NOVA Medical School. Significa a necessidade de assegurar a disponibilidade de níveis mínimos dos principais bens alimentares, de forma a não haver ruturas de abastecimento em situações de crise, como, por exemplo, fortes perturbações ou interrupções prolongadas nos meios de transporte. “A maior falha estará, certamente, na nossa capacidade coletiva de nos prepararmos para responder a crises, como se verificou no apagão, e a aprovação muito recente de uma estrutura para melhorar a resposta a crises graves, o CorGov, onde terá de estar a segurança alimentar”, afirma, apontando que a questão mais crítica reside na garantia de níveis de armazenamento dos bens mais consumidos (consumo final ou intermédio) que evitem situações de rutura no sistema de abastecimento alimentar, em caso de crise grave e prolongada. 

“O conceito de soberania do sector depende do equilíbrio da balança comercial agroalimentar”, aponta, por seu turno, Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal. “Vivemos num mercado aberto e os consumidores são soberanos. Pelo que se preferirem consumir, por exemplo, frutas tropicais, em vez da fruta da época que é produzida no nosso país, estão, naturalmente, no seu direito”, nota, acrescentando que “o conceito de soberania alimentar é relativo e, de qualquer modo, o risco de falta de alimentos para a população no quadro da União Europeia é uma questão que não se coloca.”

Já António Alvarenga, professor associado convidado na NOVA SBE, e Maria Carvalho, teaching assistant na mesma instituição de ensino, lembram que, em Portugal, a soberania alimentar é parcial: o país destaca-se em produtos mediterrânicos (é o segundo maior produtor da União Europeia de azeite e amêndoa, além de forte exportador de vinho), mas muito dependente de culturas essenciais. Por exemplo, só cobriu cerca de 18% das suas necessidades de leguminosas em 2024, importando a grande maioria. Por outras palavras, Portugal é robusto em culturas tradicionais, eventualmente não essenciais, mas altamente dependente do exterior, por exemplo, em cereais, leguminosas e proteína animal, refletindo alguma vulnerabilidade na autonomia alimentar nacional.

“Na generalidade, podemos identificar algumas fragilidades estruturais dos sistemas alimentares dominantes na Europa: grande uso de energia, dependência de fertilizantes minerais e outras matérias-primas externas, poucos agricultores e dependência de trabalho precário, baixa agrobiodiversidade, padrões alimentares desajustados e alto volume de desperdício”, resume Pedro Horta, policy officer na ZERO. O ambientalista realça que os sistemas alimentares dominantes são muito intensos em energia, nas suas várias componentes. E que grande parte dessa energia – e dos materiais necessários para a sua distribuição e uso – dependem de grandes volumes de importações. A utilização de energia para o fabrico de fertilizantes azotados, por exemplo, ou para a produção animal, que “está largamente dependente da importação de mercadorias como a soja e o milho, de várias origens”, e que se “liga com padrões alimentares desajustados.”

A verdade é que, na opinião de Pedro Horta, a política agroindustrial tem favorecido também a concentração da produção e a diminuição dos preços no produtor, assim como da agrobiodiversidade e o desaparecimento de cadeias curtas de abastecimento, fatores que fragilizam a capacidade de inovação e resposta a crises. Por outras palavras, “os modelos agrícolas promovidos têm levado à contração do número de agricultores e à dependência de mão-de-obra tendencialmente precária, que se pretende móvel e barata, levando a situações graves, classificáveis como escravatura moderna.” 

Tudo isto coloca o foco no mercado e na escolha do consumidor, relativizando a importância da origem. Contudo, as recentes perturbações globais vieram demonstrar a fragilidade de uma dependência excessiva de cadeias de abastecimento longas e complexas, reforçando os argumentos a favor de uma maior autonomia estratégica.

Entre o Green Deal e a dependência externa

A União Europeia encontra-se numa encruzilhada. Por um lado, a Política Agrícola Comum (PAC), um dos pilares históricos do projeto europeu, tem como objetivo garantir a segurança dos abastecimentos e estabilizar os mercados. Por outro, o ambicioso Pacto Ecológico Europeu (Green Deal), e a sua estratégia Do Prado ao Prato (Farm to Fork), impõem metas ambientais rigorosas que visam transformar o sistema alimentar europeu, tornando-o mais justo, saudável e sustentável.

Instrumentos que, na opinião de Pedro Reis – nomeadamente a PAC –, são cruciais para garantir um abastecimento estável de produtos alimentares, preservar os rendimentos dos agricultores, proteger o ambiente e manter o dinamismo das zonas rurais. 

As metas definidas pela Comissão Europeia incluem objetivos ambiciosos para 2030, como a redução de 50% no uso de pesticidas, a diminuição de, pelo menos, 20% no uso de fertilizantes e o aumento da área de agricultura biológica para 25% da superfície agrícola total da União Europeia. Mas, embora cruciais para a sustentabilidade a longo prazo, estas políticas geram preocupações sobre o seu impacto na produtividade e competitividade no imediato. Como aponta António Alvarenga, estudos de impacto indicam que a redução de pesticidas, por si só, “poderia implicar uma queda de cerca de 10% na produção agrícola, pressionando a capacidade produtiva”, acrescentando que as reduções do uso de fertilizantes (cuja meta é menos 20%) podem diminuir os rendimentos em culturas intensivas, se essas reduções não forem compensadas por tecnologia.

Este potencial decréscimo produtivo colide com uma realidade de dependência externa em sectores críticos. A União Europeia é altamente dependente da importação de produtos como a soja e o milho para a alimentação animal, o que sustenta a sua produção de carne e lacticínios. A guerra na Ucrânia expôs de forma dramática esta vulnerabilidade, não só no que toca aos cereais, mas também aos fertilizantes, cuja produção é intensiva em gás natural, um recurso cujo preço disparou com o conflito. A dependência de importações de nutrientes essenciais como o fósforo, cujas reservas mundiais estão concentradas num número muito limitado de países, constitui outro risco estratégico de longo prazo.

O Parlamento Europeu, num relatório de 2023 sobre a resiliência da agricultura da União Europeia, reconheceu que a produção alimentar deve ser considerada um “sector estratégico” e instou a uma redução das dependências, nomeadamente através do incentivo à produção de culturas proteicas, como as leguminosas, em solo europeu. A PAC 2023-2027 tenta equilibrar estes objetivos, introduzindo os chamados eco-regimes, que remuneram os agricultores por práticas benéficas para o clima e o ambiente, como a rotação de culturas com leguminosas, que fixam o azoto no solo e reduzem a necessidade de fertilizantes sintéticos.

“A estratégia Farm to Fork promove a transição para sistemas alimentares mais sustentáveis e saudáveis, podendo aumentar o valor e a estabilidade das cadeias internas quando estas se alinham com metas ambientais e com a segurança do abastecimento”, refere Marta Vasconcelos. Que alerta, contudo, que também existem riscos e efeitos associados à transição. “Os custos de conformidade e de adaptação tecnológica, decorrentes das metas climáticas e ambientais do Green Deal, podem reduzir as margens a curto prazo e exigir investimentos significativos, criando o risco de dependência caso a produção local não acompanhe a competitividade.” Pegando no caso das leguminosas já mencionado, a investigadora da Católica refere que os efeitos positivos incluem a valorização destas culturas através da rotação obrigatória e dos eco-regimes, que as reconhecem como culturas de serviço e de produção, contribuindo para a redução de inputs e emissões.

Já o professor da NOVA Medical School considera que a principal questão está no excesso legislativo e de burocracia, assim como na falta de alguma flexibilidade na implementação das medidas. É o caso de instrumentos disponíveis nalgumas regiões do mundo, mas que não são permitidos na União Europeia, ou são fortemente condicionados. Pedro Reis dá o exemplo do uso da somatropina bovina e uma maior liberdade no cultivo de culturas geneticamente modificadas. 

Por outro lado, a agricultura é uma atividade fortemente dependente de energia, nomeadamente para tratores e outras máquinas pesadas, onde é muito difícil a transição para combustíveis provenientes de fontes renováveis. O professor aponta que, atualmente, já existe um nível elevado de investimento em energia solar para alguns consumos, como seja nos sistemas de rega e nas estufas, mas para as máquinas pesadas é muito mais complexa e difícil essa transição. 

Já no que se refere à retirada de mercado de alguns pesticidas e a planeada redução de 50% no seu uso, Pedro Reis afirma que é indiscutível que sejam retirados produtos com riscos elevados comprovados para a saúde humana e dos ecossistemas, assim como seja obrigatória a proteção integrada para os agricultores profissionais e que sejam implementadas medidas para um uso mais sustentável. No entanto, acrescenta, uma redução imponderada das substâncias ativas disponíveis no mercado pode incrementar significativamente o surgimento de resistências, podendo conduzir a elevadas perdas de produção ou ao aumento das quantidades usadas de pesticidas autorizados. Mas o fator mais relevante, no seu entender, “foi a imposição de metas demasiado ambiciosas na estratégia Farm To Fork, tanto ao nível da redução do uso de pesticidas como de fertilizantes azotados e fosfatados”, onde o incumprimento teria impacto muito significativo nalgumas produções. “Esta ambição foi contraproducente, pois a estratégia Farm to Fork é muito mais, incluindo a redução para metade do desperdício alimentar e medidas de promoção de um comércio mundial mais justo e sustentável”, conclui. 

No entanto, a implementação destas políticas é complexa e gera tensões. Os agricultores protestam contra o que consideram ser uma carga burocrática excessiva e uma concorrência desleal de produtos importados que não cumprem as mesmas regras. O enfraquecimento recente de algumas metas do Green Deal, em resposta a estes protestos, ilustra a dificuldade em conciliar a transição ecológica com a viabilidade económica do sector agrícola e a garantia da autonomia produtiva.

A conclusão das recentes políticas europeias é clara. Pelo menos para António Alvarenga e Maria Carvalho: “As metas climáticas da União Europeia, aliadas às regras agrícolas, tendem a tornar a agricultura mais sustentável, porém, potencialmente menos produtiva se não houver implementação eficaz de contrapartidas tecnológicas.”

Portugal: um retrato de contrastes

O caso português é um microcosmo das tensões e paradoxos europeus. O país detém uma balança comercial agroalimentar cronicamente deficitária, mas, ao mesmo tempo, exibe casos de enorme sucesso em nichos de mercado de alto valor. É robusto e excedentário em produtos emblemáticos da dieta mediterrânica, mas perigosamente dependente em alimentos da base da pirâmide alimentar.

Portugal afirma-se como uma potência em produtos de alta qualidade. É o segundo maior produtor de azeite da União Europeia e um exportador de renome de vinhos. O sector das frutas e legumes tem demonstrado um dinamismo notável, com as exportações a atingirem 2,5 mil milhões de euros em 2024. O sucesso dos pequenos frutos, como a framboesa e o mirtilo, e o crescimento exponencial da fileira do azeite – que passou de um défice comercial para um saldo positivo de quase mil milhões de euros em 2024 – são exemplos de como a aposta na qualidade, na tecnologia e na orientação para os mercados externos pode gerar valor.

O reverso da medalha é uma dependência externa preocupante em produtos essenciais. O grau de autoaprovisionamento em cereais é inferior a 20%, uma vulnerabilidade histórica que a recente Estratégia +Cereais do Governo tenta mitigar, com a ambiciosa meta de atingir 38% de produção nacional. A situação é igualmente crítica nas leguminosas secas (grão, feijão, ervilha), onde o autoaprovisionamento foi de apenas 18% em 2020, apesar de a área cultivada ter aumentado 40% na última década. Esta dependência estende-se às proteínas vegetais para rações, com importações massivas de soja e seus derivados, essenciais para a produção pecuária nacional. “O grau de autoaprovisionamento de cereais para ração e consumo é muito baixo, o que evidencia uma forte dependência externa e uma elevada exposição à volatilidade internacional e às novas regulamentações ambientais”, refere Marta Vasconcelos.

Alguns dos fatores que limitam a autonomia agrícola no país prendem-se com características geográficas, outros com capital humano e de inovação. Os professores da NOVA SBE lembram que Portugal enfrenta seca frequente e irregularidade pluviométrica no Alentejo e no Algarve. E que o aquecimento e eventos extremos (ondas de calor e tempestades) afetam negativamente os rendimentos agrários, sobretudo no sul. O resultado? A disponibilidade hídrica é crítica, exigindo irrigação intensiva em anos secos. Sendo que, com as alterações climáticas, a situação tenderá a agravar-se. 

Por outro lado, é inequívoco que a pressão urbana tem levado à redução da área cultivada, assim como a favor de utilizações para alimentação animal e culturas permanentes industriais. Sem esquecer que “solos erodíveis e pastoreio extensivo agravam o desafio”. E há ainda que contar com o inevitável envelhecimento da população, que também abarca os agricultores, e a que se junta a falta de trabalhadores sazonais. Tudo isto “aumenta a pressão para mais mecanização e implementação de soluções automatizadas”. É certo que “o recurso a mão-de-obra imigrante tem sido uma solução, mas novas restrições à sua entrada poderão pôr em causa essa solução”, refere António Alvarenga. 

O professor acrescenta que já se verificam alguns esforços de digitalização no sector (sensores IoT, regas eficientes, sistemas de agricultura de precisão), mas ainda são sobretudo pontuais.

Culturas como o feijão, o grão, a ervilha e a soja podem aumentar significativamente a produção nacional de proteína vegetal e de fixação de nitrogénio no solo. Incentivar este cultivo aumentaria as matérias-primas para consumo humano e alimentação animal, reduzindo importações de soja e milho. Mas as recomendações vão (ainda) mais longe: no que toca a cereais, embora o rendimento por hectare seja limitado, investir em variedades adaptadas ao clima mediterrânico (por exemplo, trigos de outono mais resistentes ou milho irrigado) poderia aumentar a autossuficiência. O Governo definiu como meta Portugal produzir 38% dos cereais consumidos, mas tal objetivo tem-se revelado difícil, com o horizonte temporal a ter de ser alterado. É um objetivo ambicioso, quase duplicando a percentagem atual (17,9%). A expansão do trigo de inverno e a modernização de arrozais são também possíveis prioridades.

Já no que concerne à produção de hortícolas protegidos (tomate, alface) e frutas locais (citrinos, maçã resistente), a sua ampliação “poderia diminuir as importações. Em particular, a reconversão de terras para culturas de ciclo curto e rotatividade, nomeadamente no Alentejo e no Ribatejo, poderia suprir parte dos hortofrutícolas importados.” 

Não menos importante, embora a olivicultura e a viticultura sejam já muito fortes no país, na opinião dos professores da NOVA SBE, são áreas que têm ainda espaço para crescer via intensificação sustentável, mantendo excedentes exportáveis. 

Finalmente, o desenvolvimento interno via biotecnologia de variedades de sementes adaptadas (biofortificação, tolerância à seca) pode atrair o investimento e fortalecer a cadeia produtiva, particularmente em contexto de alterações climáticas.

A questão do défice de aprovisionamento é mais complexa do que parece à primeira vista. É certo que há produtos – como o azeite – com grande sucesso. No entanto, Pedro Reis alerta para o facto de que a grande expansão dos novos olivais ocorreu em terras onde se produzia trigo, implicando uma redução da produção nacional deste bem agrícola. “A expansão das culturas com maior potencial de exportação implica uma maior pressão sobre os recursos hídricos nas regiões mais produtivas”, aponta, acrescentando que um dos nexos mais interessantes é a relação da agricultura com a alimentação. Face a isto, o professor afirma taxativamente que uma alimentação mais equilibrada, com maior consumo de produtos da época e optando por produtos nacionais, dá certamente um forte contributo para a redução da balança comercial. 

Futuro: entre a tecnologia e a política 

Perante um cenário de dependências estruturais e riscos emergentes, o reforço da soberania alimentar portuguesa e europeia exige uma ação concertada em múltiplas frentes, combinando inovação tecnológica, novas práticas agrícolas e políticas públicas coerentes.

A inovação surge como uma resposta-chave para produzir mais e melhor com menos recursos. A agricultura de precisão, que utiliza ferramentas digitais como sensores, drones e inteligência artificial, permite uma aplicação cirúrgica da água, fertilizantes e pesticidas, reduzindo os custos e os impactos ambientais. A biotecnologia e as novas técnicas genómicas (NTG), como a CRISPR, abrem a porta ao desenvolvimento mais rápido de variedades de plantas mais resistentes a pragas e doenças e à seca, um fator crítico no contexto das alterações climáticas. Pedro Reis salienta o potencial destas ferramentas para “obter, de forma mais rápida e precisa, plantas menos suscetíveis a stresses abióticos, como o hídrico.”

O professor da NOVA Medical School vai mais longe e afirma que “a tecnologia digital está a abrir muitas portas.” E dá o exemplo de “armadilhas inteligentes”, que permitem contar o número de insetos de uma determinada praga e, depois, determinar qual o momento certo para se fazer um tratamento fitossanitário. A que se junta a robotização, que está a ser puxada pela produção para colmatar a falta de mão-de-obra, existindo já testes de máquinas para a colheita de pequenos frutos.

No entanto, alerta que, neste leque de inovações, “é preciso ir para além das ferramentas digitais, automação e robotização e melhoramento de plantas, para referir a investigação e inovação em práticas baseadas no funcionamento dos ecossistemas, de forma a ir substituindo produtos de síntese por processos naturais (por exemplo, bactérias simbiontes e micorrizas para reduzir ou dispensar a aplicação de adubos, o uso de insetos auxiliares ou de luta biotécnica para reduzir ou substituir o uso de pesticidas).” Para o professor da NOVA Medical School, este conhecimento científico e a sua aplicação na produção agrícola é cada vez mais relevante, porque permite reduzir o uso de produtos de síntese, com todas as vantagens inerentes, mas também porque melhora a saúde do solo e de todo o ecossistema, aumentando o potencial produtivo e contribuindo para uma maior produção de bens públicos, como o sequestro de carbono, a melhoria do ciclo hidrológico e dos nutrientes. 

Paralelamente, ganham força as práticas baseadas na ecologia. A agricultura regenerativa, a rotação com leguminosas, o uso de coberturas e a aposta em biofertilizantes e controlo biológico de pragas são soluções que melhoram a saúde do solo, aumentam a sua capacidade de reter água e carbono e reduzem a dependência de produtos de síntese química. Como defende o ambientalista Pedro Horta, é preciso tratar a alimentação como um “bem público” e remunerar os agricultores pelos “serviços de ecossistema que não são valorizados pelos mercados.”

Desafio coletivo

A soberania alimentar deixou de ser uma bandeira de movimentos ativistas para se tornar um pilar central da estratégia e da resiliência da Europa. As crises recentes desnudaram as fragilidades de um sistema alimentar globalizado, excessivamente dependente de longas cadeias de abastecimento, de energia fóssil e de um número limitado de fontes de matérias-primas. Para Portugal, com as suas vulnerabilidades estruturais, mas também com os seus enormes potenciais, o desafio é particularmente agudo.

Alcançar uma maior autonomia alimentar não significa fechar fronteiras ou ambicionar uma autossuficiência irrealista. Significa, sim, fazer escolhas estratégicas: reduzir dependências críticas, valorizar os recursos endógenos, apostar na inovação e na sustentabilidade e construir um sistema alimentar mais resiliente, equitativo e capaz de garantir alimentos saudáveis e de qualidade para todos, hoje e no futuro. 

Este é um desafio que convoca todos os elos da cadeia: desde os decisores políticos que desenham a PAC, aos cientistas que desenvolvem novas variedades, aos agricultores que trabalham a terra, à indústria e ao retalho que processam e distribuem e, finalmente, a cada consumidor, cujas escolhas diárias moldam, em última análise, o sistema que nos alimenta.

Fonte: Grande Consumo