Investigadores da Universidade do Estado de Illinois, nos EUA, recorreram à tecnologia CRISPR-Cas9 para acelerar a domesticação da planta silvestre Thlaspi arvense (pennycress). As novas linhas apresentam uma redução de 75% no teor de glucosinolatos das sementes, menor capacidade de persistir como infestante e um bom desempenho produtivo. A espécie poderá ser cultivada durante o inverno entre as culturas de milho e soja, protegendo o solo e criando uma nova fonte de óleo e biomassa com valor económico.
A agricultura dos Estados Unidos enfrenta todos os anos o mesmo desafio: após a colheita do milho e da soja, milhões de hectares permanecem sem qualquer cobertura vegetal durante o inverno. Esta situação favorece a erosão dos solos, a perda de nutrientes e o arrastamento de sedimentos para rios e linhas de água.
Uma equipa multidisciplinar da Universidade do Estado de Illinois, liderada pelo geneticista John Sedbrook, pretende alterar este cenário através da domesticação de uma planta silvestre, Thlaspi arvense, conhecida como pennycress ou erva-das-moedas. A espécie germina no outono, resiste às baixas temperaturas e completa o seu ciclo na primavera, permitindo ser colhida antes da instalação da cultura seguinte.
Desta forma, os agricultores podem manter o solo protegido durante o inverno e obter simultaneamente uma nova fonte de rendimento, sem substituir as culturas principais de milho ou soja.
De infestante a cultura agrícola
O pennycress pertence à família das brassicáceas, tal como a colza, a mostarda, os brócolos e a couve-flor. Embora as suas sementes sejam ricas em óleo, a planta apresenta várias características que dificultam a sua utilização agrícola.
Entre essas limitações encontram-se o elevado teor de glucosinolatos (compostos naturais que reduzem o valor alimentar da farinha obtida após a extração do óleo), sementes pequenas, uma cobertura espessa e mecanismos de dormência que permitem às sementes permanecer viáveis no solo durante longos períodos, favorecendo o reaparecimento da planta como infestante.
Em vez de recorrer apenas ao melhoramento convencional, os investigadores optaram por uma estratégia de domesticação de novo, identificando diretamente os genes responsáveis pelas características indesejáveis e editando-os com recurso à tecnologia CRISPR-Cas9.
O projeto teve início em 2012 e reuniu especialistas em genética, agronomia, biologia, produção animal e processamento de biomassa, contando também com a participação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e de outras instituições. O financiamento federal acumulado ascende a cerca de 23 milhões de dólares.
Várias alterações genéticas numa única planta
Num estudo publicado na revista Nature Plants, os investigadores combinaram múltiplas mutações obtidas por CRISPR-Cas9 numa mesma planta. Uma das alterações mais importantes foi a redução de cerca de 75% dos glucosinolatos das sementes, conseguida através da edição de genes reguladores como MYB28/HAG1 e MYC3.
A equipa introduziu ainda características semelhantes às da colza “duplo zero”, reduzindo simultaneamente o teor de ácido erúcico e de glucosinolatos, além de diminuir a quantidade de fibra presente nas sementes, aumentando assim o potencial de aproveitamento da proteína residual após a extração do óleo.
Outra modificação incidiu sobre o gene TT8, cuja inativação reduziu a dormência das sementes e enfraqueceu parcialmente a sua cobertura protetora. Esta alteração diminui a probabilidade de as sementes permanecerem viáveis durante longos períodos no solo, reduzindo o risco de a planta voltar a comportar-se como infestante.
Apesar da acumulação de várias alterações genéticas, as novas linhas mantiveram produtividades semelhantes às das plantas de referência utilizadas no estudo.
Três colheitas comerciais em apenas dois anos
Graças ao seu ciclo curto e à elevada tolerância ao frio, o pennycress pode ser integrado entre duas culturas principais.
Após a colheita do milho, é semeado no outono, permanece a cobrir o solo durante todo o inverno e é colhido no final da primavera. De seguida, o agricultor pode instalar soja ou outra cultura de verão.
Este sistema permite obter três colheitas comerciais em apenas dois anos, mantendo simultaneamente raízes vivas no solo durante os meses de inverno.
Além de reduzir a erosão e a escorrência superficial, a cultura ajuda a reter nutrientes, aumenta a matéria orgânica do solo e cria habitat para insetos e outros organismos numa época do ano em que a paisagem agrícola permanece praticamente sem vegetação.
Óleo para biocombustíveis e outros produtos renováveis
O óleo extraído das sementes poderá ser utilizado na produção de biodiesel e combustível sustentável para aviação, bem como em biolubrificantes, bioplásticos e outras matérias-primas da indústria química de origem renovável.
Após a extração do óleo, a farinha residual poderá ser utilizada na alimentação animal, desde que cumpra os requisitos de segurança e composição nutricional. A biomassa restante está também a ser estudada para produção de biogás e outros produtos de base biológica.
Segundo John Sedbrook, esta estratégia alia benefícios ambientais e económicos: “Esta abordagem não só ajudaria o ambiente, como também produziria sementes oleaginosas que os agricultores poderiam vender.”
Embora o óleo vegetal permita substituir combustíveis fósseis em determinadas aplicações, os investigadores salientam que o impacto climático global dependerá de todo o sistema de produção, incluindo fertilização, maquinaria agrícola, processamento industrial, transporte e utilização do solo.
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Fonte: Centro de informação de biotecnologia
Depois de analisarmos como o envelhecimento da população, a redução da dimensão dos lares e a pressão sobre o rendimento estão a transformar o cabaz, a segunda parte desta série dedicada às tendências identificadas na Alimentaria acompanha o consumidor ao longo do dia. A conclusão é clara: o consumo já não se concentra apenas nas refeições principais, nem acontece exclusivamente dentro de casa, no supermercado ou na restauração. O dia fragmentou-se em novas ocasiões, os canais começaram a sobrepor-se e a conveniência deixou de ser apenas um formato comercial para passar a significar proximidade, rapidez e disponibilidade.
Um em cada três consumidores já incorporou um novo momento de consumo na sua rotina. É precisamente nesta fragmentação do dia que surgem alguns dos principais espaços de crescimento para marcas, retalhistas e operadores da restauração.
Entre as ocasiões que ganham relevância encontra-se o pequeno-almoço a meio da manhã, sobretudo entre quem trabalha fora de casa, e o aperitivo, associado principalmente aos fins de semana, ao consumo fora do lar, à cerveja e aos petiscos.
Também o almoço no local de trabalho emerge como uma oportunidade transversal ao retalho e à restauração. A necessidade de conciliar rapidez, conveniência e controlo do orçamento abre espaço tanto para refeições prontas como para propostas preparadas especificamente para o consumo em ambiente profissional.
Outra tendência é o tardeo, conceito popularizado em Espanha que transfere parte do convívio tradicionalmente noturno para o final da tarde. A ocasião combina restauração, bebidas e socialização, respondendo a consumidores que procuram sair, mas preferem regressar a casa mais cedo.
O café de especialidade integra igualmente este mapa de novas ocasiões. Consumido sobretudo fora de casa, é valorizado não apenas pela qualidade do produto, mas também pelo espaço, pelo serviço e pelo ambiente. Mais do que uma bebida, torna-se uma experiência e um pretexto para permanecer.
A multiplicação dos momentos de consumo é acompanhada pelo crescimento das soluções que reduzem o tempo dedicado à preparação das refeições. Os pratos ready to eat ganham especial relevância entre os consumidores da Geração Z, que procuram respostas imediatas e adaptadas a rotinas menos previsíveis. As soluções ready to cook ocupam um espaço intermédio, oferecendo conveniência sem eliminar totalmente a preparação doméstica.
Também os conjuntos de batch cooking começam a responder à procura de consumidores que concentram a preparação das refeições da semana numa única sessão de cozinha. Neste caso, o valor não está em eliminar o ato de cozinhar, mas em torná-lo mais eficiente.
Os retalhistas estão a responder através do reforço das secções de pronto a comer e da criação de espaços que aproximam o supermercado da restauração. Os chamados “mercaurantes” combinam compra, preparação e consumo, transformando a loja num local onde o cliente pode abastecer a despensa, comprar uma refeição ou comer no momento.
Esta evolução mostra que a conveniência não significa necessariamente ausência de envolvimento. Significa, antes, permitir ao consumidor escolher quanto tempo e esforço pretende dedicar a cada ocasião.
Cerca de 43% dos consumidores já fizeram compras em estabelecimentos de conveniência, categoria que inclui pequenos supermercados, lojas de proximidade e postos de abastecimento. O principal motivo não é o preço, mas a possibilidade de resolver rapidamente uma necessidade, num espaço próximo e disponível quando o consumidor precisa.
Estas compras são geralmente realizadas por urgência ou reposição, têm uma duração média entre dez e 15 minutos e concentram-se num número reduzido de produtos. Gelo, snacks, cerveja, água, pastelaria e pão encontram-se entre as categorias mais procuradas.
A quarta-feira destaca-se como um dos dias mais relevantes para estas missões, possivelmente por representar um momento intermédio entre a compra principal e as necessidades associadas ao fim de semana.
As plataformas de entrega rápida, como a Glovo e o Uber Eats, estão também a consolidar-se como uma extensão natural do canal de conveniência. Não substituem necessariamente o supermercado ou a restauração, mas permitem resolver necessidades concretas sem deslocação.
Para o consumidor, conveniência já não corresponde a uma tipologia de estabelecimento. É uma combinação entre distância, rapidez, sortido adequado e horário. Sob esta perspetiva, até um supermercado convencional pode desempenhar uma missão de conveniência.
A sustentabilidade continua a influenciar as decisões, sobretudo quando se traduz em soluções facilmente compreensíveis, como a redução da embalagem, a venda a granel ou os sistemas de recarga.
A dimensão social das marcas também ganha importância, incluindo a forma como tratam os trabalhadores, se relacionam com os fornecedores e contribuem para as comunidades onde operam.
Contudo, existe um limite claro: a predisposição para escolher uma alternativa sustentável diminui quando implica um agravamento significativo do preço. A intenção ambiental mantém-se, mas é condicionada pela pressão sobre o rendimento disponível.
Para as empresas, o desafio consiste em integrar a sustentabilidade na proposta de valor sem a transformar num benefício reservado a quem pode pagar mais. O consumidor quer reduzir o impacto das suas escolhas, mas não aceita que toda a responsabilidade financeira da transição recaia sobre si.
Adigitalização da compra já não se limita ao comércio eletrónico ou ao pagamento. As ferramentas de inteligência artificial começam também a participar nas fases de pesquisa, comparação e decisão. Entre os consumidores que utilizam soluções como o ChatGPT, 27% já recorrem a estas ferramentas para pedir aconselhamento sobre marcas, produtos ou serviços antes de comprar. Embora a utilização geral ainda seja limitada, o desconhecimento sobre estas plataformas caiu para metade em apenas dois anos.
Esta evolução cria um novo desafio para as marcas. Já não basta monitorizar o que os consumidores, os meios de comunicação, os influenciadores ou os motores de pesquisa dizem sobre elas. Torna-se igualmente necessário compreender como são interpretadas e recomendadas pelos sistemas de inteligência artificial.
A qualidade da informação disponível online, a coerência das descrições dos produtos, a reputação digital e a presença em fontes consideradas credíveis poderão influenciar cada vez mais as respostas apresentadas ao consumidor.
A transformação digital é também visível no momento de pagar. Cerca de 34% dos consumidores já utilizam o telemóvel ou o smartwatch para realizar pagamentos.
Nas compras online, soluções como PayPal e Bizum continuam a ganhar terreno, enquanto o reconhecimento facial e a impressão digital se tornam mais familiares. A biometria começa, assim, a aproximar-se de uma utilização quotidiana no pagamento, reduzindo etapas e tornando a transação progressivamente menos visível.
Esta evolução encerra a mesma promessa que atravessa as restantes tendências: eliminar fricção. Seja através de uma refeição pronta, de uma loja próxima, de uma entrega rápida, de uma recomendação produzida por inteligência artificial ou de um pagamento biométrico, o consumidor procura resolver necessidades com menos tempo e menor esforço.
O consumo deixou de obedecer a uma sequência previsível de horários, locais e canais. A oportunidade passa a estar onde e quando a necessidade surge.
Esta é a segunda de cinco análises sobre as transformações que estão a redefinir o grande consumo. Nos próximos dias, a Grande Consumo continuará a aprofundar as restantes tendências identificadas durante a Alimentaria.
Fonte: Grande Consumo
A Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos (EFSA) anunciou na última semana uma revisão em alta das exigências de segurança relativas ao ácido trifluoroacético (TFA), reduzindo significativamente a margem de exposição considerada segura para os consumidores da União Europeia.
O TFA é um produto resultante da degradação de substâncias per-e polifluoroalquiladas (PFAS), com origem, entre outras fontes, em determinados ingredientes ativos utilizados em pesticidas. Devido à sua persistência e mobilidade, o composto pode acumular-se nos solos, nas águas subterrâneas e, consequentemente, em culturas agrícolas destinadas à alimentação humana e animal.
Limites mais estritos baseados em novas evidências
Com base numa reavaliação científica aprofundada, os peritos da EFSA fixaram a nova dose diária aceitável do TFA em 0,014 miligramas por quilograma de peso corporal por dia, o que representa uma descida substancial face ao limite anterior de 0,05 mg/kg/dia. Adicionalmente, o organismo europeu definiu, pela primeira vez para esta substância, uma dose de referência aguda (ARfD) fixada nos 0,07 mg/kg de peso corporal.
A decisão fundamenta-se em novos dados científicos que demonstraram que a exposição ao TFA afeta os níveis de tiroxina, uma hormona determinante produzida pela glândula tiroide, responsável pela regulação do metabolismo e de múltiplos processos biológicos no organismo humano.
Fator de incerteza adicional e processo de avaliação
Para além do impacto no sistema endócrino, a equipa técnica da EFSA identificou a necessidade de aprofundar os estudos sobre potenciais efeitos de toxicidade a longo prazo, carcinogenicidade e imunotoxicidade no desenvolvimento. Por essa razão, foi incorporado um fator de incerteza adicional no cálculo da DDA para assegurar um elevado nível de proteção preventiva.
A atualização dos valores é o resultado de uma recolha abrangente de dados iniciada em agosto de 2024, que incluiu avaliações de produtos fitofarmacêuticos realizadas pelos Estados-Membros, pareceres da Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) e dados da indústria. A consulta pública prévia recolheu 177 contributos de peritos e organizações, todos analisados na versão final do documento científico.
Próximos passos na regulamentação europeia
Os novos parâmetros de referência serão agora transmitidos à Comissão Europeia e aos governos dos Estados-Membros da UE, a quem cabe a responsabilidade de anotar as medidas legislativas e de gestão de risco adequadas para garantir a proteção do consumidor.
Em paralelo, a EFSA prossegue o trabalho conjunto com a ECHA para determinar a extensão exata em que os pesticidas do grupo PFAS se degradam em TFA, bem como a sua persistência no solo e na água, devendo as conclusões deste estudo complementar ser apresentadas no verão do próximo ano.
Fonte: TecnoAlimentar
Portugal foi identificado como país de origem num novo alerta da rede europeia RASFF – Rapid Alert System for Food and Feed, referente à presença de Delta‑8‑Tetrahydrocannabinol (Δ8‑THC) e Delta‑9‑Tetrahydrocannabinol (Δ9‑THC) num produto alimentar do tipo barra de chocolate distribuído para outros Estados‑Membros. Embora o RASFF 2026.6802 não esteja publicamente detalhado nas fontes oficiais consultadas, a informação disponível sobre regulamentação europeia relativa ao THC permite contextualizar o risco e a relevância do alerta.
As autoridades europeias têm vindo a reforçar o controlo sobre contaminantes derivados de canábis, em particular o Δ9‑THC, devido ao seu efeito psicoativo e ao risco de ultrapassar a dose aguda de referência (DAR) de 1 μg/kg de peso corporal, definida pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA).
A presença simultânea de Δ8‑THC e Δ9‑THC num alimento como uma barra de chocolate levanta preocupações adicionais, já que:
O chocolate é um produto de consumo generalizado, incluindo por menores;
A matriz gordurosa pode facilitar a absorção de compostos lipofílicos como o THC;
A ingestão acidental pode resultar em efeitos psicoativos inesperados.
O alerta refere um produto tipo barra de chocolate, fornecido por Portugal, contendo níveis não conformes de Δ8‑THC e Δ9‑THC. Embora os detalhes específicos do lote não estejam disponíveis nas fontes públicas, o enquadramento regulamentar europeu indica que qualquer presença acima dos limites máximos estabelecidos para THC em géneros alimentícios derivados de cânhamo constitui incumprimento.
Com base em procedimentos habituais do RASFF, e considerando alertas semelhantes, é expectável que os Estados‑Membros tenham adotado medidas como:
Retirada imediata do produto dos canais de distribuição,
Informação aos consumidores sobre o risco de ingestão acidental;
Rastreabilidade reforçada para identificar origem, ingredientes e eventuais contaminações cruzadas;
Ações de fiscalização pela ASAE e autoridades congéneres europeias, alinhadas com o reforço regulamentar previsto no Regulamento (UE) 2019/1020.
A União Europeia tem vindo a atualizar os limites máximos de Δ9‑THC em produtos alimentares, incluindo infusões e derivados de cânhamo, reforçando a necessidade de controlo rigoroso.
Este alerta reforça:
A importância da vigilância contínua sobre ingredientes derivados de cânhamo;
A necessidade de verificação laboratorial de compostos psicoativos em produtos alimentares;
A relevância do RASFF como ferramenta de proteção do consumidor e coordenação europeia.
O alerta RASFF 2026.6802 evidencia um risco emergente relacionado com compostos psicoativos em alimentos processados, sublinhando a importância de controlos rigorosos e da cooperação entre autoridades europeias. A atuação rápida permite mitigar potenciais efeitos adversos e garantir que produtos não conformes são retirados antes de chegarem ao consumidor.
Fonte: Qualfood
A agricultura é dos setores mais expostos às crises planetárias, como as alterações climáticas e a perda de biodiversidade, pela sua alta dependência da saúde e bom funcionamento dos ecossistemas. Para ser sustentável num planeta em mudança, tem de se adaptar e as práticas regenerativas podem ser parte da solução.
É um grande paradoxo que o setor que mais depende da biodiversidade, a agricultura, seja também a maior ameaça aos ecossistemas mais frágeis do mundo”. Esta frase foi usada pelo Banco Mundial aquando da divulgação de um relatório em dezembro de 2025, no qual os especialistas concluem que, nesta altura, o mais premente não é apenas reduzir os impactos da agricultura na biodiversidade, mas sim colocar a biodiversidade no centro de todas as políticas e investimentos agrícolas.
A agricultura é uma das atividades mais antigas da história humana, pensando-se que terá emergido algures há 10.000 ou 12.000 anos. Foi um marco incontornável na jornada da nossa espécie na Terra, alterando profundamente a organização das sociedades e a nossa relação com o mundo natural que nos rodeia, permitindo a transição do nomadismo para modos de vida sedentários e geograficamente mais estáveis e com maior previsibilidade no que toca à obtenção de alimento.
Mas a agricultura não mudou só a nossa história, transformando indelevelmente também a de muitos outros seres que partilham connosco o planeta, a de inúmeras paisagens e habitats e, no final de contas, a da própria Terra. Avanços tecnológicos revolucionaram a agricultura de subsistência, a de pequena escala e a de menores impactos no ambiente. Com a ajuda de máquinas e de produtos químicos sintéticos, os humanos transformaram não só a agricultura e a produção de alimentos, mas também o mundo.
Atualmente, a expansão da agricultura, muito impulsionada pelas forças de um mercado global ainda fortemente assente na lógica capitalista e na abordagem extrativista, é apontada como uma das grandes ameaças à diversidade de formas de vida que distingue o nosso planeta. Várias espécies de animais e plantas têm na agricultura, no seu alargamento e na sua intensificação, o maior perigo que a sua sobrevivência enfrenta.
Numa altura em que a perda de biodiversidade é classificada como uma das crises planetárias, e que as previsões de aumento da população mundial deixam antever maiores necessidades de alimento, alinhar a agricultura com os objetivos de conservação e revitalização da Natureza é fundamental, para o futuro de ambas.
Uma relação íntima e nem sempre fácil
Pensar na agricultura sem pensar na biodiversidade é o mesmo que pensar na pesca sem pensar no mar.
A agricultura está altamente dependente da saúde e do funcionamento dos solos nos quais criam raízes as plantas – que dão frutos, cereais, fibras, alimento para nós e para outros animais. Sem solos saudáveis, livres de tóxicos, sustentados por comunidades diversas de microrganismos que reciclam matéria orgânica e nutrem o solo e por teias ecológicas dinâmicas, sustentáveis e resilientes, a produção agrícola ver-se-á fortemente limitada, mesmo com toda a tecnologia e químicos que possam ser usados para tentar, muitas vezes em vão, contornar a desvitalização progressiva do solo.
Mas a relação entre a agricultura e a biodiversidade vai mais além. Os insetos e outros invertebrados são fundamentais nessa relação, servindo como guardiões naturais das plantas (ainda que nem todos, claro) contra outros organismos que as fragilizam e destroem. Esses e outros animais levam consigo os grãos de pólen de umas plantas para as outras, as sementes de um local para o outro, ajudando a manter a diversidade genética das culturas e a aumentar a sua resiliência face a acontecimentos potencialmente devastadores, como doenças ou pragas. Estima-se que cerca de 80% das culturas em todo o mundo dependam de alguma forma da polinização feita por insetos, como as abelhas, borboletas e sirfídeos, e por outros animais.
A juntar a tudo isso, ecossistemas saudáveis e diversos contribuem para a formação, proteção e descontaminação dos solos e dos sedimentos e para a qualidade e quantidade de água doce disponível, um recurso precioso e a rarear.
Todos esses serviços de ecossistema, como são conhecidos na gíria científica e até já cada vez mais em discursos públicos, como dos políticos, são fundamentais para que a agricultura seja produtiva e possa lidar com alterações ambientais que, sem eles, poderiam ser desastrosas.
O Banco Mundial calcula que as paisagens com uma porção de entre 20% e 25% de habitats naturais fornecem melhores serviços de ecossistema, e que abaixo dos 10% alguns desses serviços desaparecem por completo. Atualmente, entre 18% e 33% das zonas agrícolas a nível mundial não têm áreas de habitats naturais em suficiente dimensão e com a devida estrutura e funcionamento para, por exemplo, promover a polinização selvagem e o controlo natural de pragas.
Os impactos da agricultura na biodiversidade são significativos. A produção de alimentos é considerada a principal causa da perda de biodiversidade a nível global, seja através da sua intensificação, seja por via da sua expansão que resulta na destruição de habitats naturais.
Um relatório de 2021, da Chatham House com o apoio do Programa Ambiental das Nações Unidas, com o título “Food System Impacts on Biodiversity Loss”, apontava que a agricultura é identificada como uma ameaça a 24.000 de 28.000 espécies ameaçadas de extinção. E agricultura é também apontada como o maior consumidor de água (cerca de 70% do uso global) e uma fonte de emissões de gases com efeito de estufa (através da conversão de habitats naturais em áreas agrícolas, das emissões na produção e operações), que agravam a crise climática, dessa forma afetando, indiretamente, a biodiversidade com a redução das áreas favoráveis a muitas espécies não-humanas.
Apesar desta relação conturbada, a agricultura é um dos principais beneficiários das diversidades biológica e ecológica e um dos principais interessados na sua proteção, conservação e recuperação, pois delas depende a sustentabilidade e rentabilidade da sua produção. Nesse sentido, e apesar de ao longo da História recente, especialmente no último par de séculos com uma explosão demográfica humana e com a revolução tecnológica e industrial, a agricultura ter mais combatido a Natureza do que trabalhado ao lado dela, hoje percebe-se que é preciso juntar forças para que ambas possam prosperar. E um novo caminho de sinergia começa a desenhar-se.
Um alinhamento possível, mas ainda não totalmente concretizado
A agricultura pode (e poderia argumentar-se que deve) alinhar-se com os objetivos da conservação e restauro da biodiversidade. Além de ser um dos principais beneficiários de uma Natureza saudável e funcional, o facto de ter impactos significativos e diretos sobre ela significa que é parte indispensável da solução.
João Roseiro, Diretor Agronómico para a Europa na SLM Partners, diz que é “inevitável” questionar se e como a agricultura pode alinhar-se com a conservação e restauro ecológico “num mundo marcado pelo crescimento populacional atual, pelas alterações climáticas e pela degradação dos ecossistemas”.
Para o agrónomo, esse alinhamento “é possível, mas não é automático”, pois tudo depende do modelo agrícola adotado, da escala e do contexto ecológico em que a produção é feita. Sistemas agrícolas mais diversificados, que estejam integrados na paisagem, e não separados dela, e que se articulem com as dinâmicas ecológicas dos ecossistemas onde estão inseridos, “podem desempenhar um papel relevante na conservação da natureza, sobretudo em regiões onde a agricultura já domina o território”, diz João Roseiro.
A ideia de que tudo depende das práticas é ecoada por Ricardo Vieira Santos. O engenheiro agrónomo, e investigador nos institutos MED e CHANGE da Universidade de Évora, diz-nos que os contributos que o setor da produção alimentar poderá dar à conservação da biodiversidade dependem da forma como se faz agricultura.
Para que isso seja conseguido, é preciso equilibrar a produção com a salvaguarda dos serviços de ecossistema. Se o foco incidir desproporcionadamente na produção e desvalorizar a dimensão ecológica, então voltamos a uma visão extrativista da agricultura, em que o que se quer é tirar o máximo possível da terra sem preocupação em reduzir ou remediar os danos causados.
Um caminho que vai sendo feito
Em Portugal, a agricultura tem procurado tornar-se mais sustentável e reduzir os seus impactos negativos nos ecossistemas dos quais depende, como usar a água e o solo de forma mais eficiente e recorrer menos a químicos tóxicos, tentando, ao mesmo tempo, que isso não resulte em quebras na produção e na rentabilidade do setor. Um equilíbrio nem sempre fácil nem isento de solavancos ou trambolhões, mas, ainda assim, possível.
Diz David Fangueiro, professor no Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa e coordenador do centro de investigação LEAF – Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food, que “o nosso setor agrícola está cada vez mais alinhado com as estratégias de conservação e restauro”.
Destacando o papel das associações e organizações de produtores na sensibilização dos agricultores para essas questões, o investigador afirma que “há uma vontade de melhorar os solos para os tornar mais produtivos”, a par de “uma grande preocupação em deixar para as próximas gerações solos que sejam, pelo menos, tão bons como os que receberam”.
Contudo, essa transição, que não é apenas de formas de fazer, mas também de formas de pensar e de relação com o ambiente envolvente, não é um movimento contínuo e fluido. Refere David Fangueiro que existem “diferentes realidades e nem todos os agricultores têm ainda essa consciência”.
Algo semelhante é-nos dito por João Roseiro, que detalha que a agricultura em Portugal “não segue um modelo único”. Por cá, “coexistem sistemas ainda marcadamente extrativistas”, que dependem muito de inputs externos, como adubos e químicos sintéticos, e que fazem uma grande pressão sobre os solos e a água, e “outros modelos mais integrados”, tais como os sistemas agroflorestais, explorações em transição ecológica ou “projetos que incorporam práticas de conservação do solo e promoção ativa da biodiversidade”.
Para o agrónomo da SLM Partners, essa “pluralidade” é reflexo de “uma transição em curso, ainda incompleta e desigual” que é impulsionada por “políticas europeias, exigências de mercado e uma crescente consciencialização ambiental”. Contudo, diz que esse caminho continua a ser limitado por “constrangimentos económicos, técnicos e institucionais”.
A conservação da biodiversidade já entrou nos discursos políticos e nas estratégias, tanto a nível europeu como nacional, mas continua a haver “incoerências” na articulação das políticas de vários setores que limitam a eficácia das medidas no terreno, aponta João Roseiro.
Reconhecendo que a agricultura em Portugal não anda toda à mesma velocidade no que toca à relação com a Natureza, Ricardo Vieira Santos diz que a importância da articulação entre a produção e a conservação deveria chegar a mais agricultores. Mas para isso é preciso dar a conhecer práticas emergentes que permitam “ultrapassar os desafios da atualidade” e que conjuguem “o interesse produtivo do agricultor” com a conservação e restauro dos ecossistemas. Nessa senda, são também importantes políticas públicas que permitam fazer essa transição e, sobretudo, que a incentivem, através de apoios públicos para mitigar potenciais quebras de rendimento resultantes dessa transformação.
Essas abordagens “deverão caminhar lado a lado de forma a chegarem a um maior número de agricultores, pois no fundo são eles que implementam a mudança”, salienta o investigador da Universidade de Évora.
Apesar da importância da aliança entre a agricultura e a conservação da Natureza, especialmente num planeta em convulsão e mais incerto, o incentivo a esse alinhamento não é ainda prioridade política em Portugal. No entanto, os agricultores não estão à espera de que o poder político se chegue à frente e vão fazendo eles o seu próprio caminho.
Isso acontece, a pouco e pouco, “à medida que os agricultores vão reconhecendo os benefícios de práticas consideradas mais sustentáveis ou mesmo regenerativas”, diz Ricardo Vieira Santos, destacando o papel “fundamental” da academia e das associações de agricultores na experimentação e divulgação de conhecimento.
David Fangueiro, do ISA, diz-nos que fazer da produção agrícola e da conservação da biodiversidade duas faces de uma mesma moeda “deveria, sem dúvida, tornar-se numa das prioridades nos próximos anos”. Ainda que os agricultores estejam já a lançar mãos à obra e a implementar a suas próprias medidas, “seria uma mais-valia se houvesse incentivos para estas novas práticas”, salienta.
Aliar a produção agrícola à conservação da biodiversidade implica, portanto, mudar a forma como nas últimas décadas se tem feito grande parte da agricultura (certo que não toda) e como se tem olhado para os ecossistemas e para o mundo natural, e também tentar olhar para os tempos que estão por vir para preparar e adaptar a cenários possivelmente adversos.
Mais do que conservar, regenerar
É neste caminho de construção de uma relação cada vez mais sustentável e próxima entre agricultura e Natureza, em que a ambas possam reforçar-se e beneficiar-se mutuamente, que surge uma série de abordagens à produção agrícola. Uma delas é a Agricultura Regenerativa (AR).
Embora não haja ainda uma definição científica consensual, a AR, em traços muito largos, tem como objetivo precisamente fazer com que a regeneração dos ecossistemas e a produção agrícola não estejam em lados opostos da barricada. De acordo com a Aliança Europeia de Agricultura Regenerativa, os agricultores que a praticam mostram que as colheitas mais resilientes e com maior qualidade são conseguidas através “da regeneração dos ecossistemas, com vários co-benefícios para a saúde e para a mitigação das alterações climáticas”.
Numa tentativa para harmonizar as várias definições, em 2020, um grupo de investigadores encabeçado por Loekie Schreefel, num artigo publicado na revista ‘Global Food Security’, propõe que a agricultura regenerativa seja entendida como “uma abordagem ao cultivo que usa a conservação do solo como ponto de partida para regenerar e contribuir para múltiplos serviços de aprovisionamento, regulação e suporte”, com o objetivo não apenas de melhorar a dimensão ambiental, “mas também as dimensões social e económica da produção sustentável de alimentos”.
Os proponentes da AR defendem que é a abordagem mais indicada para ajudar a combater as crises climática e de perda de biodiversidade, ao mesmo tempo que torna a produção de alimentos mais resiliente a choques ambientais e a eventos extremos e mais alinhada com a conservação da Natureza.
João Roseiro, da SLM Partners, explica-nos que a AR “não é um sistema fechado nem um modo de produção regulamentado”. É, isso sim, “um enquadramento conceptual” que tem por base princípios como a regeneração do solo, a promoção da biodiversidade, a melhoria do ciclo da água e o reforço da resiliência dos ecossistemas agrícolas.
Enquanto a agricultura biológica, por exemplo, caracteriza-se por “regras rígidas de processos, como a exclusão de determinados fertilizantes e fitofármacos de síntese”, acrescenta o agrónomo, a AR “enfatiza os resultados ecológicos mensuráveis”, tais como o aumento da matéria orgânica do solo e a melhoria da sua estrutura física e biológica, ou a maior estabilidade da produção agrícola no contexto de crise climática. Ou seja, ao passo que a biológica centra-se em processos, a regenerativa está orientada para os resultados.
Lembrando-nos de que é a base da agricultura, na melhoria da qualidade do solo a AR pode ter “um papel crucial”, acredita Ricardo Vieira Santos. O investigador da Universidade de Évora explica que, para tal, a agricultura tem se de orientar por práticas regenerativas assentes em cinco grandes princípios: a mínima perturbação do solo, a diversificação das espécies plantadas, o uso de culturas de cobertura com plantas vivas ou fragmentos delas para proteger o solo dos elementos, o máximo número possível de raízes vivas no solo e a introdução de gado para ajudar a revitalizá-lo.
Apesar do que se possa pensar, a AR não surge como uma alternativa a outros modos de agricultura, como a convencional ou a biológica, mas sim como completamento, uma vez que cada um dos dois modos anteriores pode incorporar, em maior ou menor grau, práticas regenerativas.
“A agricultura regenerativa é uma nova forma de produzir que vem oferecer aos agricultores mais uma opção para definirem as melhores estratégias para a sua realidade”, diz David Fangueiro do ISA e coordenador do centro LEAF.
“Não irá ‘acabar’ com os outros modos de produção, surge apenas como mais uma opção, o que é sempre positivo”, aponta, acrescentando que “penso que iremos ter no futuro os três modos de produção, convencional, regenerativo e biológico, a serem usados em contextos distintos”.
A Regenerativa em Portugal
Embora não existam ainda dados consolidados sobre a AR em Portugal, os especialistas dizem que, aqui e ali, vão surgindo iniciativas e explorações que aplicam práticas regenerativas, ainda que, a nível nacional, a AR na sua plenitude não seja ainda muito praticada.
A sementeira direita, sem se ter de perturbar o solo, o uso de culturas de cobertura e a integração de animais, por exemplo, em pomares já acontecem pelo país, e as práticas regenerativas começam também a ser usadas em culturas permanentes, em sistemas agroflorestais e na agricultura de conservação. Essa última integra várias práticas da AR, mas o foco é em manter e proteger o que existe, ao passo que o da AR é regenerar e recuperar.
Há também projetos, uns de ordem mais prática, outros de índole mais científica, que têm como objetivo aumentar o conhecimento sobre essa área emergente e levá-lo aos agricultores e com eles desenvolver soluções.
Um deles é o “SOILRES – Integração multifacetada da biodiversidade para um solo saudável e culturas resilientes”, um projeto europeu coordenado pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, no qual Portugal participa através da Quinta da Cholda e de uma equipa de investigadores do LEAF, incluindo David Fangueiro.
O grande objetivo deste projeto é melhorar a saúde do solo e fortalecer a resiliência das culturas em resposta à degradação dos solos, ao uso excessivo de pesticidas e aos impactos das alterações climáticas. A abordagem passa por promover práticas agrícolas sustentáveis que dão prioridade à biodiversidade e às interações dinâmicas entre o solo, as plantas e os microrganismos.
Tendo arrancado no dia 1 de junho de 2025 e estendendo-se até 31 de maio de 2029, o SOILRES contempla ensaios para validar e melhorar as intervenções inovadoras em seis casos distintos que, diz-nos David Fangueiro, representam as principais regiões agroclimáticas na Europa: a Atlântica (Dinamarca), a Boreal (Finlândia), a Continental (França), a Panónica (Hungria) e a Mediterrânica (Itália e Portugal).
“Ao avaliar o desempenho agronómico, os benefícios ambientais e a relação custo-benefício, o projeto identificará desafios e oportunidades, desenvolvendo, em última instância, estratégias otimizadas para ampliar e replicar práticas sustentáveis nos sistemas agrícolas europeus”, incluindo Portugal, explica o investigador do ISA e coordenador do centro LEAF.
Por cá, os parceiros irão desenvolver estudos sobre o uso de culturas de cobertura e de bioestimulantes na cultura do milho.
Apesar do interesse académico e de algumas explorações e agricultores na AR, persistem obstáculos que, por agora, travam a sua expansão. A falta de conhecimento e de formação sobre essas práticas é apontada pelos especialistas como um dos principais.
Ricardo Vieira Santos, da Universidade de Évora, está confiante de que, à medida que forem sendo demonstrados os benefícios da AR e divulgados os resultados obtidos, “mais agricultores tenderão a aderir a esta forma de produção”.
Nesse sentido, destaca como importante a formação dos agricultores nas práticas regenerativas, especialmente numa fase inicial. Mas não é tudo, pois também a transição poderá acarretar custos com a aquisição de equipamentos ou auxílio técnico, pelo que o investigador considera que apoios podem “incentivar o agricultor à mudança”.
A esse respeito, João Roseiro, da SLM Partners, destaca que os obstáculos à AR em Portugal “são conhecidos” e semelhantes aos que se veem a nível internacional, como “o risco económico durante a fase de transição, a falta de conhecimento técnico aplicado, ausência de incentivos claros e dificuldade em medir e valorizar os benefícios ecológicos”.
Por isso, as barreiras ao desenvolvimento e disseminação da AR tendem a não ser tanto tecnológicas, mas sobretudo económicas e institucionais.
A conservação não tem de limitar a produção
Provavelmente, para muitos a conservação e restauro da biodiversidade é sinónimo de restrições e perdas de produtividade e de rentabilidade. No entanto, a AR não tem necessariamente de ser vista como inimiga da produção.
De uma perspetiva económica, “a agricultura regenerativa não é incompatível com a rentabilidade financeira”, assegura-nos João Roseiro. Isso, porque, quando combinadas com uma gestão eficiente e com acesso a mercados diferenciados, as práticas regenerativas podem “reduzir custos variáveis, aumentar a estabilidade financeira e melhorar margens no médio-prazo”, acrescenta.
A AR pode também promover a rentabilidade agrícola, por exemplo, ao melhorar a fertilidade do solo e reduzir custos com adubos, e também por um “possível aumento de receita” devido a uma maior produtividade e qualidade dos alimentos, diz Ricardo Vieira Santos.
“Implica uma mudança de mentalidade, não só nas práticas agrícolas, mas também na forma como o agricultor lida com o mercado”, salienta. “É necessário continuar o desenvolvimento de soluções, enfrentar os desafios que forem surgindo, adaptar práticas e mentalidades a uma nova abordagem, mas é possível fazer diferente e para melhor.”
David Fangueiro, por sua vez, concorda que as práticas regenerativas ajudam a reduzir custos, mas reconhece também que pode haver quebras de produção, podendo existir situações em que a AR não seja rentável. Por isso, cada prática regenerativa deve ser adaptada ao contexto específico em que está a ser aplicada, pois cada caso é um caso e não existem medidas de “tamanho único”.
“A conservação deve ser feita em conjunto com o setor agrícola que é um dos principais beneficiários. Havendo este diálogo, creio que será possível, encontrar soluções de compromisso que não limitem o setor agrícola”, sentencia o investigador do ISA.
Como tal, a conservação da biodiversidade não tem de limitar a agricultura nem de pôr em risco a sua rentabilidade. Argumenta João Roseiro que “essa visão ignora que a degradação ecológica representa, ela própria, um risco económico significativo”, com custos crescentes para vários setores, incluindo a agricultura.
“A questão central não é se a conservação impõe limites, mas se esses limites são desenhados de forma inteligente, proporcional e acompanhados de incentivos adequados.”
Ricardo Vieira Santos destaca a importância do foco da AR nos resultados e não nos processos, pois isso dará ao agricultor maior liberdade para poder aplicar as medidas que entenda serem as mais adequadas para si e para alcançar os resultados pretendidos ao nível da conservação do ecossistema.
“Deve ser dada mais atenção aos resultados obtidos na conservação do ecossistema do que propriamente à limitação de práticas, até porque o agricultor conhecedor da sua exploração é a melhor pessoa para saber o que pode e deve fazer para melhorar a conservação do seu ecossistema.”
Agricultura em crise climática
No campo climático, as práticas regenerativas podem ajudar a reter durante mais tempo o carbono no solo e nas plantas, reduzindo as emissões da produção de alimentos, contribuir para a preservação e uso mais eficiente da água e ser mais um aliado nos esforços de conservação e restauro da biodiversidade. Todas essas ações contribuem para a mitigação e adaptação climáticas e para a preparação do setor para os cenários futuros, alguns dos quais bem negros, que a Ciência nos diz, repetidamente, que podem vir a acontecer se os humanos não mudarem rapidamente a forma como têm tratado a Terra.
A AR pode ser parte da solução, embora, como nos diz João Roseiro, “não é uma solução milagrosa”. Ainda assim, se “aplicada com rigor científico, pragmatismo económico e honestidade intelectual”, será estrategicamente relevante.
O “verdadeiro desafio”, assegura-nos, está em “transformar sistemas produtivos de forma consistente com os limites ecológicos do planeta e com a necessidade de garantir segurança alimentar a longo prazo”.
Para Ricardo Vieira Santos, a chave para o futuro da agricultura está em escolher as práticas que melhor se adequem a cada caso concreto e que permitam “maximizar a rentabilidade e os benefícios no ecossistema”, e, nesse aspeto, a AR pode proporcionar essa sinergia. A disseminação dessa abordagem pode ser fundamental para tornar a agricultura portuguesa mais resiliente e para tentar evitar possíveis quebras na produção e na rentabilidade.
Olhando para os tempos que se avizinham, David Fangueiro considera que a agricultura continuará a caminhar para uma maior eficiência, combinando diferentes modos de produção e “tendo sempre como objetivo principal a produção de alimentos de qualidade e a preservação do solo”.
Isto, porque, como declara o investigador do ISA, “sem solos saudáveis não se podem produzir alimentos saudáveis”.
Fonte: sapo.pt
A conservação de alimentos evoluiu de forma notável nas últimas décadas. Monitorização digital, alarmes automáticos, embalagens de alto desempenho e processos cada vez mais controlados permitiram reduzir riscos, melhorar a rastreabilidade e prolongar a vida útil dos produtos. Este progresso beneficia diariamente todos os consumidores — nem sempre de forma reconhecida, mas de forma concreta. O investimento tecnológico em toda a cadeia foi real.
Na prática, a segurança alimentar raramente falha apenas por falta de equipamentos. Falha, muitas vezes, nos pequenos desvios que se tornam rotina: uma porta aberta mais tempo do que deveria, um produto deixado fora de refrigeração durante a preparação, um alarme ignorado porque “nunca costuma ser nada”, uma decisão tomada sob pressão operacional. Situações aparentemente menores que, repetidas, constroem vulnerabilidades reais.
Quando o sistema existe, mas não vive na operação
Um caso ilustrativo, retirado de contexto real em ambiente fabril, ajuda a tornar este ponto concreto. Numa operação de confeção alimentar, existiam equipamentos de fritura com controlo automático de temperatura e procedimentos definidos para monitorização do óleo. Apesar disso, começaram a verificar-se desperdício de produto, inconsistência na confeção e deterioração mais rápida do óleo. Durante a análise, percebeu-se que pequenas oscilações de temperatura passavam despercebidas — os equipamentos pareciam funcionais e a equipa, sob pressão produtiva, focava-se no ritmo sem interpretar o impacto dessas variações.
O mecanismo é direto: oscilações frequentes de temperatura aceleram a degradação química do óleo — oxidação e formação de compostos polares — comprometendo a qualidade e aproximando o óleo dos limites legalmente estabelecidos para a sua utilização segura. A fragilidade decisiva estava noutro ponto: os equipamentos operavam sem alarme sonoro ativo, uma falha de verificação inicial nunca detetada. A equipa confiava que o alarme seria acionado se a temperatura descesse — mas ninguém tinha validado que funcionava antes de iniciar a operação. A tecnologia existia. O que falhou foi a capacidade de transformar monitorização em decisão.
Cultura de segurança alimentar: o fator que os sistemas não conseguem instalar
Em março de 2026, a Global Food Safety Initiative (GFSI) apresentou na sua Conferência Anual em Vancouver a versão 2.0 do seu position paper sobre cultura de segurança alimentar. O documento reforça uma ideia central: a cultura de segurança alimentar não é um conceito “soft”, mas um determinante crítico dos resultados — um modelo integrado de valores partilhados, comportamentos, consciência do risco e aprendizagem organizacional, que vai muito além dos procedimentos escritos. A segurança alimentar efetiva exige alinhamento entre o que a organização define como valores e o que as equipas fazem, todos os dias, no terreno.
Na prática, isto significa que dois locais com equipamentos semelhantes, procedimentos idênticos e tecnologia equivalente podem apresentar resultados completamente diferentes. A diferença está, muitas vezes, na forma como o risco é percecionado e gerido pelas pessoas. Equipas que compreendem o impacto real dos desvios tendem a reagir mais rapidamente, a comunicar problemas com maior transparência e a manter maior consistência operacional. Pelo contrário, ambientes onde os procedimentos são vistos apenas como obrigação documental tornam-se mais expostos à banalização do risco.
Este fator é particularmente crítico num contexto marcado por pressão operacional e necessidade de produtividade. A conservação de alimentos exige consistência. Pequenas oscilações de temperatura, interrupções sucessivas da cadeia de frio ou tempos inadequados de exposição podem não gerar consequências visíveis de imediato, mas aumentam progressivamente a vulnerabilidade microbiológica do produto.
A responsabilidade que a tecnologia não assume
O setor alimentar investiu, e bem, em inovação tecnológica para aumentar a capacidade de conservação, prolongar a vida útil dos produtos e responder às exigências de distribuição global. Ainda assim, cabe salientar que esse investimento só produz resultados sólidos quando existe alinhamento entre tecnologia, processos e comportamento humano.
Num setor cada vez mais automatizado, talvez o maior desafio seja garantir que o fator humano permanece no centro da tomada de decisão. Os sistemas evoluem. Os equipamentos melhoram mas não resolvem tudo. Até porque se assim fosse não teríamos o número de recalls que temos mundialmente — em 2024, os alertas alimentares do RASFF cresceram 12% na União Europeia, e os EUA registaram um máximo histórico de 300 recalls, num ano em que as hospitalizações por doenças de origem alimentar duplicaram face ao ano anterior.
O que efetivamente determina a eficácia real da conservação alimentar é a forma como as pessoas aplicam os processos no terreno — todos os dias, mesmo quando ninguém está a verificar.
Mais do que conservar alimentos, o objetivo continua a ser proteger consumidores. E essa responsabilidade não é da tecnologia. É das organizações que escolhem — ou não — transformar procedimentos em cultura.
Fonte: iAlimentar
Nova ferramenta Ecodesign Readiness Levels (ERL) permite avaliar a maturidade dos produtos, identificar oportunidades de melhoria e preparar as empresas para os novos requisitos europeus.
A Smart Waste Portugal desenvolveu, no âmbito do projeto TransformEC - Transformação Circular, a metodologia Ecodesign Readiness Levels (ERL), uma ferramenta de autoavaliação que ajuda as pequenas e médias empresas (PME) a perceber até que ponto integram critérios de ecodesign no desenvolvimento dos seus produtos e a definir os próximos passos. Adaptada à realidade das PME, a ERL funciona como um instrumento de diagnóstico, planeamento e melhoria contínua, foi divulgado em comunicado.
Segundo a mesma fonte, a metodologia pretende também ajudar as PME a prepararem-se para as mudanças introduzidas pelo Regulamento Ecodesign for Sustainable Products (ESPR), em vigor na União Europeia desde 2024. Este novo enquadramento procura tornar os produtos reutilizáveis, mais duráveis, reparáveis, eficientes no uso de recursos e recicláveis, reforçando o papel do ecodesign na transição para uma economia circular.
Segundo a Comissão Europeia, 80% dos impactes ambientais de um produto ficam definidos durante a fase de design. Os resultados das regras europeias já existentes mostram o impacto destas medidas. De acordo com o Conselho da União Europeia, os requisitos de ecodesign aplicados a 31 grupos de produtos permitiram reduzir em 10% o respetivo consumo anual de energia e poupar 120 mil milhões de euros em custos energéticos.
“O ecodesign é uma das áreas em que a transição para uma economia circular se pode traduzir em mudanças muito concretas. Este trabalho permitiu-nos compreender melhor o ponto de situação das PME e, ao mesmo tempo, criar ferramentas que as ajudam a transformar conhecimento em ação. Queremos que as empresas consigam identificar o seu ponto de partida, perceber onde podem evoluir e integrar, de forma progressiva, critérios de circularidade no desenvolvimento dos seus produtos”, afirma Luísa Magalhães, diretora executiva da Smart Waste Portugal.
Inspirada nos Technology Readiness Levels (TRL), usados para medir a maturidade tecnológica, a ERL adapta esta lógica ao ecodesign. A escala permite posicionar um produto entre o cumprimento dos requisitos legais mínimos e a integração sistemática e estratégica da sustentabilidade no seu desenvolvimento.
Com base nesse diagnóstico, as empresas podem identificar oportunidades de melhoria, definir prioridades de intervenção, orientar investimentos em inovação sustentável e acompanhar a evolução do desempenho ambiental dos produtos ao longo do tempo. A ferramenta ajuda ainda a preparar as organizações para os novos requisitos regulamentares e para as crescentes exigências do mercado.
A metodologia tem uma finalidade de capacitação e apoio à decisão. Não constitui um sistema de certificação nem verifica a conformidade legal, e não deve ser utilizada para fundamentar alegações ambientais, rotulagem ou comunicação externa sobre o desempenho ambiental dos produtos. A sua aplicação pressupõe que estes cumprem previamente todos os requisitos legais e normativos em vigor.
Para facilitar a utilização da ferramenta, a Associação disponibiliza um documento técnico sobre a metodologia, a matriz detalhada, um manual de aplicação, a ferramenta de autoavaliação em Excel e um booklet explicativo. Todos os materiais estão disponíveis para download no website da Smart Waste Portugal.
No âmbito da mesma atividade, a Smart Waste Portugal desenvolveu ainda o estudo “Estado do Ecodesign nas PME e Tendências”, que caracteriza o nível de adoção destas práticas, identifica tendências, desafios e oportunidades e analisa as implicações do novo enquadramento regulamentar europeu. Com base em análise documental, auscultação de stakeholders e sistematização de exemplos práticos do TransformEC, o estudo aprofunda a compreensão das necessidades das PME e das condições que podem favorecer uma adoção progressiva e eficaz do ecodesign.
Em conjunto, a metodologia ERL e o estudo reforçam o compromisso do TransformEC com a capacitação empresarial e disponibilizam conhecimento e ferramentas que ajudam as PME a transformar a circularidade em decisões concretas de desenvolvimento de produto, apoiar a inovação e reforçar a competitividade.
O projeto TransformEC – Transformação Circular é financiado pelo COMPETE 2030, no âmbito do Sistema de Apoio a Ações Coletivas, na vertente Qualificação, e tem como copromotores a Smart Waste Portugal, o CVR (Centro para a Valorização de Resíduos) e o CECOLAB (Laboratório Colaborativo para a Economia Circular).
Fonte: GreenSavers
O Programa Volta é reconhecido por 94% dos portugueses, mas 66% defendem que o aumento do número de locais de devolução deve ser a principal prioridade da iniciativa, segundo um estudo da ConsumerChoice sobre a reciclagem de embalagens de bebidas.
O estudo indica que 85% dos inquiridos reciclam embalagens de bebidas sempre ou frequentemente, enquanto 79% consideram esta prática muito importante. Já 80% dos participantes acreditam que o Programa Volta representa uma medida importante para Portugal e 87% referem que a iniciativa contribui para incentivar a reciclagem.
A adesão ao sistema começa também a refletir-se nos hábitos de utilização. Segundo a ConsumerChoice, 41% dos portugueses usam o Programa Volta regularmente e 23% recorrem ao sistema algumas vezes, o que significa que 64% já experimentaram a iniciativa. Entre os que ainda não utilizam o programa, 17% afirmam que ainda não tiveram oportunidade de o fazer e 12% admitem aderir futuramente.
Apesar da avaliação positiva, os consumidores apontam oportunidades de melhoria. Além do reforço da rede de pontos de devolução, são referidas a simplificação do processo de devolução e reembolso, a redução do tempo necessário para utilizar o sistema e a criação de benefícios adicionais.
O incentivo financeiro continua a ter peso no comportamento dos consumidores. Quase metade dos inquiridos afirma que utilizaria o Programa Volta com maior frequência caso o valor do depósito fosse superior aos atuais 10 cêntimos.
O estudo identifica ainda dúvidas sobre o funcionamento do sistema, nomeadamente quanto ao destino do valor dos depósitos que não são reclamados. A ConsumerChoice considera que existe espaço para reforçar a comunicação e aumentar a transparência da iniciativa.
A televisão, com 69%, e as redes sociais, com 50%, surgem como os principais canais através dos quais os consumidores conheceram o Programa Volta.
Entre as sugestões deixadas pelos inquiridos estão o alargamento do sistema a mais tipos de embalagens, a simplificação da experiência de utilização e reembolso e a introdução de soluções de pagamento mais práticas, como o MB Way.
O questionário foi respondido por 750 portugueses. A amostra inclui 51% de participantes do sexo masculino e 49% do sexo feminino, com maior representação das faixas etárias dos 35 aos 44 anos, com 30%, e dos 45 aos 54 anos, com 28%.
Fonte:HiperSuper
O mercado português de bens de grande consumo aumentou 4,6% em valor na quadrissemana compreendida entre 18 de maio e 15 de junho de 2026, recuperando face aos crescimentos de 2,6% e 2,5% registados nos dois períodos anteriores.
Apesar da aceleração, a evolução permanece abaixo dos 6,8% alcançados na quadrissemana homóloga de 2025, de acordo com os dados do “Scantrends”, da NielsenIQ.
A marca própria continuou a ser o principal motor do mercado, com as vendas a aumentarem 5,7%. As marcas de fabricante cresceram 3,6%, uma recuperação expressiva depois de terem avançado apenas 0,7% e 0,5% nas duas quadrissemanas anteriores.
No acumulado até à semana 24, o mercado analisado pela NielsenIQ movimentou 5.641 milhões de euros, mais 4,5% do que no mesmo período de 2025.
Os supermercados de maior dimensão apresentaram o crescimento mais elevado entre os canais analisados, com uma progressão homóloga de 7,6%. Este formato concentrou 57,9% das vendas de bens de grande consumo no período.
Os supermercados de menor dimensão avançaram 3,5% e mantiveram uma quota de 10,8%, enquanto os hipermercados regressaram ao crescimento, com uma subida de 2,6%, depois da quebra de 1,1% registada na quadrissemana anterior.
O canal de livre serviço permaneceu em terreno negativo, com as vendas a recuarem 5,7%. O seu peso no mercado total estabilizou nos 10%.
No acumulado do ano, os grandes supermercados crescem 7,4%, acima dos 2,9% dos supermercados pequenos e dos 2,2% dos hipermercados. O livre serviço apresenta uma quebra acumulada de 4,1%.
As bebidas foram a área com a evolução mais dinâmica na quadrissemana, ao crescerem 6,3%.
As marcas próprias avançaram 6,7%, enquanto as marcas de fabricante cresceram 6,2%, aproximando-se da paridade depois de terem registado uma evolução de apenas 0,6% no período anterior.
A recuperação foi transversal às bebidas alcoólicas e não alcoólicas. No acumulado do ano, as bebidas não alcoólicas apresentam uma progressão de 7,6%, enquanto as alcoólicas crescem 2,4%.
A marca própria e os produtos de primeiro preço representam atualmente 25,5% das vendas de bebidas em valor, acima dos 24,9% observados no período homólogo. Nas bebidas não alcoólicas, a quota chega aos 36,1%, enquanto nas alcoólicas se situa nos 16,1%.
A alimentação manteve a trajetória de recuperação e cresceu 4,6%, depois dos 0,9% e 2,7% das duas quadrissemanas anteriores.
As vendas de marca própria aumentaram 5,7%, superando os 3,2% das marcas de fabricante. Estas últimas registaram, ainda assim, uma recuperação significativa, após terem recuado 1,9% na quadrissemana 13-16 e crescido apenas 0,3% no período seguinte.
Entre as áreas alimentares, os congelados apresentam o crescimento acumulado mais elevado, de 9,2%, seguindo-se os lacticínios, com 5,5%, e a mercearia, com 3,3%.
A quota conjunta da marca própria e dos primeiros preços na alimentação subiu para 56,1%. Nos congelados, estes produtos já representam 67,8% das vendas em valor, enquanto nos laticínios alcançam 50,1% e na mercearia 56,2%.
A higiene do lar cresceu 3,6%, mantendo a evolução registada na quadrissemana anterior.
A marca própria voltou a acelerar, com uma subida de 6,1%, e continuou a sustentar o crescimento da categoria. Em sentido contrário, as marcas de fabricante abrandaram para 1,1%, depois de terem avançado 2,8% no período anterior.
No acumulado do ano, a categoria apresenta um crescimento de 4,8%. A quota da marca própria e dos primeiros preços aumentou de 48,8% para 50,1%.
A higiene pessoal registou um crescimento de 2,4%, recuperando face aos 1,7% da quadrissemana anterior, mas mantendo-se abaixo da evolução do mercado total.
As marcas próprias avançaram 3,8%, enquanto as marcas de fabricante cresceram 1,4%, regressando a uma evolução positiva depois de terem ficado praticamente estagnadas no período anterior.
No acumulado até à semana 24, a higiene pessoal cresce 3,1%. A quota da marca própria e dos primeiros preços subiu de 40% para 41,1%.
Fonte: Grande Consumo
Portugal assinala, a 31 de julho, o Dia Nacional da Vinha e do Vinho, formalmente instituído pelo Despacho n.º 9616/2026, que reconhece a relevância estratégica, cultural e económica da viticultura e da produção de vinho no país. A criação desta efeméride reforça o papel central do setor na identidade nacional e na projeção internacional dos vinhos portugueses.
O despacho determina que o Dia Nacional da Vinha e do Vinho passa a ser celebrado anualmente, com o objetivo de:
Valorizar a viticultura enquanto atividade agrícola estruturante;
Promover o vinho português como produto de excelência e relevância económica;
Sensibilizar para a sustentabilidade e boas práticas no setor;
Reforçar a ligação entre território, cultura e produção;
Mobilizar entidades públicas e privadas para ações de divulgação, formação e celebração.
O despacho enquadra a efeméride no conjunto de políticas públicas dedicadas à agricultura, à valorização das regiões vitivinícolas e à promoção internacional dos vinhos nacionais.
Da Região Demarcada do Douro ao Alentejo, passando pelos Vinhos Verdes, a vinha é um motor económico que sustenta milhares de produtores, adegas e cooperativas. Em 2025, as exportações de vinho português ultrapassaram os 900 milhões de euros, consolidando Portugal entre os principais produtores mundiais.
Desafios que moldam o futuro da viticultura
A celebração deste ano destaca desafios estruturais:
Alterações climáticas e necessidade de adaptação varietal;
Gestão hídrica e pressão sobre recursos naturais;
Competitividade internacional e inovação tecnológica;
Digitalização, com novas exigências de rastreabilidade como o Passaporte Digital do Produto;
Sustentabilidade, incluindo práticas de viticultura de precisão e redução de impacto ambiental.
O setor vitivinícola português combina práticas tradicionais com tecnologia avançada: monitorização por satélite, sensores de solo, previsão de pragas e sistemas de gestão digital de vinhas. Esta evolução permite aumentar a eficiência, garantir qualidade e reforçar a competitividade internacional.
Portugal no mapa mundial do vinho
O Dia Nacional da Vinha e do Vinho reforça o papel do país na diplomacia económica e cultural. Os vinhos portugueses continuam a conquistar prémios internacionais e a atrair consumidores que procuram autenticidade, diversidade e excelência.
Fonte: Qualfood
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