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Portugal foi um dos primeiros países europeus a apostar na reciclagem de embalagens. A nova série que assinala os 30 anos da Sociedade Ponto Verde recorda como tudo começou, e como a inteligência artificial já chegou aos camiões de recolha.

Houve um tempo em que não havia reciclagem de embalagens em Portugal. Sem ecopontos, sem hábitos e sem soluções para um problema cada vez mais urgente. Em pouco mais de três décadas, esse cenário mudou por completo: hoje separar embalagens faz parte do quotidiano de milhões de portugueses. É essa transformação que a Sociedade Ponto Verde recorda no primeiro episódio da série que assinala os seus 30 anos. 

Intitulada “Embalagens e Inovação Sempre no Ponto”, a série é composta por 12 episódios e nasce para celebrar três décadas de atividade que, nas palavras da própria organização, não se medem apenas em anos, mas em impacto. O objetivo é mostrar o papel que a inovação e as novas soluções tecnológicas tiveram na evolução da reciclagem de embalagens no país. E o ponto de partida é, naturalmente, o princípio de tudo.

Um dos primeiros sistemas da Europa

A grande transformação começou nos anos 90. Portugal foi o sexto país da União Europeia a criar um sistema de reciclagem de embalagens, pensado desde o início para servir todos os cidadãos. Mais do que uma solução técnica, foi uma mudança de cultura e de hábitos: em poucos anos, o país foi “pintado” de amarelo, verde e azul, as cores dos ecopontos que hoje todos reconhecem.

A Sociedade Ponto Verde descreve-se como filha de uma consciência ambiental que o mundo ganhou num momento de grande transformação da sociedade e do consumo. Trinta anos depois, essa consciência tornou-se um gesto tão natural como qualquer outro do dia a dia.

O conhecimento que mudou o sistema

Um dos marcos aconteceu em 2005, quando a Sociedade Ponto Verde encomendou uma avaliação de ciclo de vida das embalagens, um trabalho desenvolvido no Instituto Superior Técnico. Era preciso perceber, com rigor científico, qual o verdadeiro impacto ambiental de cada opção: uma embalagem de vidro perdida ou retornável, o alumínio, o cartão. O estudo analisou todos os processos, desde o fabrico ao uso, à recolha e à reciclagem, e foi construído à medida da realidade portuguesa.

Do calendário ao comportamento

No início, quase tudo era manual. À medida que as tecnologias de automação e digitalização foram surgindo, o setor acompanhou o ritmo. Na recolha seletiva, por exemplo, os circuitos passaram a ser dinâmicos: em vez de recolher sempre da mesma forma e nos mesmos dias, as rotas passaram a ajustar-se ao comportamento real das pessoas. Como se resume no episódio, “antes a recolha era calendário, hoje é cada vez mais comportamento”.

Inteligência artificial ao serviço da reciclagem

Grande parte desta evolução tem passado pelo RE.SOURCE, o programa de inovação aberta da Sociedade Ponto Verde. Nos últimos anos, foram desenvolvidos vários projetos que recorrem a robótica e a inteligência artificial, da localização de contentores à visão computacional aplicada à triagem de resíduos.

Um dos exemplos nasceu com a Amarsul e com a startup francesa Lixo, que instalou câmaras no interior dos camiões de recolha. O sistema observa em contínuo o que entra na viatura e identifica contaminações no exato momento em que os resíduos são recolhidos, permitindo perceber onde é preciso reforçar a sensibilização junto da população.

Uma história que continua todos os dias

O que começou como um desafio ambiental depressa se tornou numa transformação coletiva. Materiais que antes seguiam para aterro, como certas frações de plástico do ecoponto amarelo, passaram a ganhar nova vida em perfis e equipamentos. Trinta anos depois, como se conclui neste primeiro episódio, os resultados falam por si, e esta história continua a escrever-se todos os dias.

Fonte: Green Savers

A garantia de que os alimentos consumidos diariamente cumprem critérios rigorosos de qualidade e higiene volta a estar no centro da agenda europeia. Com o arranque da 6ª edição da campanha de sensibilização #Safe2Eat, promovida pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), 23 países – incluindo Portugal, através da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica – uniram esforços para promover escolhas alimentares mais informadas e seguras.

Num ecossistema alimentar cada vez mais globalizado e complexo, a iniciativa pretende desmitificar a ciência por trás do controlo de qualidade dos alimentos e aproximar o cidadão comum das boas práticas de consumo. Entre as prioridades da campanha deste ano destacam-se a leitura e interpretação correta de rótulos, a prevenção e controlo de contaminantes, o manuseamento higiénico na conservação de produtos e a atenção redobrada à presença de alergénios.

Uma responsabilidade partilhada por 23 nações

A edição de 2026 alarga o seu alcance a 18 Estados-Membros da União Europeia e a cinco países parceiros, como Montenegro e Sérvia. Dados recolhidos na edição anterior indicam que a iniciativa já impactou diretamente cerca de 41% dos cidadãos europeus, incentivando o debate público sobre a rastreabilidade e a origem do que chega à mesa.

Em Portugal, a ASAE atua como o ponto focal da EFSA, desempenhando um papel crucial na comunicação dos riscos e no esclarecimento de dúvida dos consumidores. O objetivo principal passa por capacitar a população com orientações científicas práticas, permitindo que fatores como a transparência e a segurança tenham tanto peso na decisão de compra quanto o preço ou o sabor.

À medida que os padrões de exigência do público aumentam, a campanha reforça a ideia de que a segurança alimentar não depende apenas de fiscalizações ou regras industriais, mas sim de uma cadeia de responsabilidade contínua que inclui produtores, distribuidores e, em última análise, os próprios consumidores nas suas escolhas diárias.

Fonte: TecnoAlimentar

As características do vinho vão sendo desenhadas desde a vinha, passando por várias fases, incluindo o engarrafamento e estágio em garrafa, até chegar ao consumidor final. O tipo de vedante é uma das variáveis que pode influenciar a evolução físico-química e sensorial do vinho após o engarrafamento. Um estudo realizado por uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro em parceria com uma empresa produtora de rolhas de cortiça mostrou que diferentes tipos de vedantes modulam as características dos vinhos tintos de forma distinta, para tempos de armazenamentos de curta a média duração, e que estas diferenças se tornam mais evidentes no tempo de armazenamento superior. Os resultados destacam o papel do vedante como uma ferramenta enológica capaz de orientar a evolução do vinho e contribuir para a construção do seu perfil sensorial. As rolhas de cortiça natural contribuem para um vinho tinto com uma maior complexidade de aroma, preservando as notas frutadas e florais.

Nos últimos anos, o estudo das propriedades sensoriais e físico-químicas do vinho tem vindo a ganhar relevo, impulsionado pela necessidade de inovação e de maior adaptação às preferências dos consumidores. Estas propriedades do vinho resultam da interação de múltiplos fatores, desde a vinha, passando por várias etapas do processo de vinificação até ao engarrafamento. A escolha do tipo de vedante em paralelo com a temperatura e duração de armazenamento e a posição das garrafas, podem influenciar de forma significativa as caraterísticas finais do vinho. É de realçar, que distintos tipos de vedantes podem apresentar diferentes taxas de transferência de oxigénio (OTR). Diferentes valores de OTR promovem ambientes oxidativo-redutivos distintos no interior da garrafa, modulando a composição físico-química do vinho, assim como a sua estabilidade e perceção sensorial. Assim, é reconhecido que o vedante assume um papel ativo na definição do perfil sensorial e na evolução do vinho durante o armazenamento. No entanto, ainda não são conhecidas em detalhe e de forma holística as alterações que ocorrem no vinho engarrafado com diferentes vedantes.

Motivados pela identificação desta oportunidade, uma equipa multidisciplinar desenvolveu um estudo sobre a avaliação do impacto do tipo de vedante na evolução dos vinhos tintos durante um tempo curto (5 meses) e médio (trinta e cinco meses) de armazenamento em garrafa. Este estudo envolveu a análise detalhada de uma diversidade de parâmetros físico-químicos e componentes dos vinhos tintos por recurso a equipamentos avançados e ferramentas estatísticas de processamento de dados. Os resultados deste estudo “Pairing Red Wine and Closure: New Achievements from Short-to-Medium Storage Time Assays” estão publicados na revista Foods.

O vedante como ferramenta enológica

Este estudo oferece novas perspetivas sobre o impacto do tipo de vedante na evolução sensorial e físico-química de vinhos tintos durante períodos curtos e médios de armazenamento em garrafa. Para períodos curtos de armazenamento, vinhos vedados com rolha natural ou microaglomerada apresentam um perfil semelhante, enquanto vinhos com cápsula de rosca desenvolvem um ambiente mais redutor, já percetível sensorialmente. Para tempos médios de armazenamento, as rolhas naturais contribuem para uma melhor preservação de compostos como terpenos, norisoprenóides e ésteres, que conferem notas frutadas e florais valorizadas pelos consumidores no vinho tinto. Estes resultados permitem inferir que fenómenos oxidativos são ligeiramente mais pronunciados em vinhos vedados com rolhas de cortiça natural.

Este estudo mostra claramente que o tipo de vedante define o ambiente dentro da garrafa, influenciando a evolução sensorial e físico-química dos vinhos tintos. A interação vinho–vedante constitui uma ferramenta enológica, permitindo ao enólogo orientar de forma estratégica o desenvolvimento do perfil aromático do vinho e do equilíbrio oxidativo–redutivo ao longo do armazenamento.

Fonte: iAlimentar

O projeto Sensimarine pretende desenvolver uma solução tecnológica para apoiar a transição digital da produção aquícola de peixes e bivalves, através da monitorização contínua da qualidade da água e de parâmetros biológicos, recorrendo a sensores inteligentes, sistemas de microfluídica, Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial e modelos preditivos.

A iniciativa é promovida por uma empresa dedicada à prestação de serviços de engenharia e à produção de moldes, mecânica de precisão e injecção de plástico para diferentes sectores de atividade, em copromoção com o Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes (CeNTI), a Universidade de Aveiro e a Associação Portuguesa de Aquacultores, contando com cofinanciamento do Compete 2030.

Monitorização contínua para otimizar a produção

De acordo com informação do CeNTI e do Compete 2030, o projeto pretende responder a um dos principais desafios da aquicultura: acompanhar, em tempo real, as condições ambientais que influenciam a produção de peixes e bivalves, contribuindo para melhorar o bem-estar animal, aumentar a produtividade, otimizar a gestão de dados e reduzir o impacto ambiental.

A solução em desenvolvimento prevê a criação de sensores capazes de monitorizar continuamente parâmetros como temperatura, pH, salinidade e oxigénio dissolvido, bem como indicadores biológicos relevantes para a atividade aquícola, entre os quais brometo, clorofila-a e cortisol. O objetivo é disponibilizar informação em tempo real que permita uma gestão mais eficiente das explorações.

O projeto contempla ainda o desenvolvimento de um sistema integrado de monitorização baseado em tecnologia de microfluídica, aplicável tanto a sistemas intensivos de produção – como truta, dourada, robalo, linguado e pregado – como a sistemas extensivos de cultivo de bivalves.

Inteligência artificial e rastreabilidade

Outra das vertentes do Sensimarine passa pelo desenvolvimento de algoritmos e modelos preditivos para apoio à decisão, recorrendo a técnicas de inteligência artificial e machine learning. Com base nos dados recolhidos, estas ferramentas deverão permitir antecipar situações de risco e apoiar a otimização dos processos produtivos.

O sistema vai incluir igualmente soluções de rastreabilidade para gaiolas de produção de bivalves em regimes extensivos, complementadas por uma plataforma digital de gestão de dados. Segundo o Compete 2030, esta componente poderá recorrer à tecnologia RFID (Radio-Frequency Identification) para acompanhar a localização das estruturas e centralizar a informação operacional.

Apoio europeu cobre 80% do projeto

O projeto Sensimarine representa um investimento de 1.084.896 euros e conta com um apoio de 864.691 euros do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), no âmbito do programa Compete 2030. O financiamento europeu cobre 80% do investimento.

Segundo o CeNTI, a iniciativa pretende reforçar a transformação digital da aquicultura nacional através da integração de tecnologias de sensorização avançada, inteligência artificial e sistemas de rastreabilidade, contribuindo para aumentar a competitividade e a sustentabilidade do setor.

Fonte: iAlimentar

A inteligência artificial e a automação estão a transformar a produção alimentar, fornecendo mais dados, mais rapidez e maior capacidade de controlo. Mas há uma verdade que não deve ser ignorada: a existência de normas, HACCP, certificações e tecnologia não elimina nem reduz o risco se os comportamentos, a liderança e a cultura operacional falharem. A segurança alimentar continua a depender de decisões tomadas todos os dias, especialmente quando existe pressão.

Mais tecnologia, mas não necessariamente menos risco

A produção alimentar vive hoje uma evolução acelerada. Sensores, sistemas de visão artificial, robótica, plataformas digitais, inteligência artificial e modelos preditivos começam a fazer parte da realidade de muitas empresas. Estas ferramentas permitem monitorizar processos, analisar grandes volumes de dados, antecipar falhas, melhorar a rastreabilidade e reduzir desperdícios.

À primeira vista, poderíamos pensar que quanto mais tecnologia existe, menor será o risco. Mas a realidade é mais complexa. A história da segurança alimentar mostra-nos que os sistemas são indispensáveis, mas não são suficientes. O HACCP (análise de perigos e pontos críticos de controlo), as boas práticas de higiene, os referenciais de certificação e os requisitos legais criam uma estrutura essencial. No entanto, essa estrutura só funciona quando é aplicada no terreno, por pessoas que compreendem o risco, cumprem procedimentos e tomam decisões coerentes. A tecnologia pode reforçar esta estrutura. Mas não a substitui.

A IA pode detetar desvios, mas não decide a cultura

A inteligência artificial tem um enorme potencial na produção alimentar. Pode identificar padrões, cruzar dados, emitir alertas e apoiar decisões. Pode ajudar a prever avarias, sinalizar desvios de temperatura, acompanhar tendências de não conformidades, analisar reclamações, controlar consumos e melhorar a gestão de fornecedores.

Na segurança alimentar, isto representa uma oportunidade clara: passar de uma lógica reativa para uma lógica mais preventiva. Mas há uma pergunta que continua a ser decisiva: o que acontece depois do alerta?

Se um sistema identifica um desvio de temperatura, alguém tem de agir. Se uma plataforma sinaliza uma falha de registo, alguém tem de o corrigir. Se os dados mostram uma tendência de incumprimento, alguém tem de investigar a causa. Se uma auditoria revela comportamentos inseguros, alguém tem de liderar a mudança.

A IA pode tornar o risco mais visível. Mas não garante, por si só, que a organização tenha maturidade para o enfrentar.

Automação não elimina o fator humano

Um dos maiores equívocos sobre a automação é pensar que ela retira o fator humano da equação. Na prática, acontece o contrário: a automação torna o fator humano ainda mais crítico. As pessoas continuam a definir parâmetros, validar limites, calibrar equipamentos, interpretar dados, responder a alertas, formar equipas e decidir perante situações inesperadas. Um sistema automatizado mal configurado, mal compreendido ou ignorado pode criar uma falsa sensação de segurança.

A tecnologia pode executar tarefas repetitivas com maior consistência, mas não substitui o julgamento técnico, responsabilidade e cultura de segurança alimentar. Se os colaboradores não compreendem porque fazem determinado controlo, se a liderança valoriza mais a velocidade do que a segurança, ou se os alertas são vistos como incómodos operacionais, a tecnologia perde força.

A produção alimentar do futuro será mais automatizada, mas também será mais exigente ao nível do comportamento humano.

O problema raramente está apenas no procedimento

Muitas empresas têm procedimentos escritos, planos HACCP, registos, auditorias e certificações. Ainda assim, continuam a existir falhas. Porquê? Porque o risco não aparece apenas por ausência de documentos. Aparece quando os procedimentos não são cumpridos. Quando a formação é insuficiente. Quando as equipas trabalham sob pressão sem apoio. Quando a liderança tolera atalhos. Quando a segurança alimentar é vista como uma obrigação administrativa e não como uma responsabilidade operacional.

A existência de um procedimento não garante a sua execução. A existência de um registo não garante que o controlo foi adequadamente realizado. A existência de uma certificação não garante que, no momento crítico, a decisão tomada será a mais segura. É aqui que a cultura operacional se torna determinante.

Cultura de segurança alimentar: o elo entre sistema e comportamento

A cultura de segurança alimentar é aquilo que acontece quando ninguém está a observar. É a forma como as equipas agem perante o risco, como comunicam desvios, como reagem a erros e como a liderança responde quando a produção, o tempo ou o custo entram em conflito com a segurança. Uma cultura forte não se mede apenas por documentos. Mede-se pela consistência dos comportamentos.

Quando uma organização tem uma cultura madura, os colaboradores sabem que a segurança alimentar não é negociável. Sentem-se autorizados a comunicar falhas. Percebem a importância dos controlos. Têm formação adequada. Recebem orientação clara. E sabem que a liderança não valoriza apenas resultados, mas também a forma como esses resultados são alcançados. Sem esta base, a IA e a automação tornam-se ferramentas úteis, mas limitadas.

Dados não são decisões

A digitalização trouxe uma vantagem enorme: mais dados. No entanto, mais dados não significam automaticamente melhores decisões. Para que a informação gere valor, é necessário saber interpretá-la. É preciso distinguir ruído de risco real, tendência de ocorrência isolada, falha técnica de falha comportamental. É também necessário transformar informação em ação.

Uma empresa pode ter dashboards, alertas e relatórios automáticos. Mas se ninguém os analisa, se ninguém atua sobre os desvios, se ninguém corrige causas de fundo, a tecnologia apenas documenta melhor aquilo que continua errado. A verdadeira evolução não está em recolher mais dados. Está em usar esses dados para mudar comportamentos, melhorar processos e prevenir falhas.

O papel da liderança

A liderança é um dos fatores mais críticos na integração da IA e da automação na produção alimentar. Não basta comprar tecnologia. É necessário criar condições para que ela funcione: definir objetivos, envolver equipas, formar utilizadores, acompanhar indicadores, responsabilizar funções e garantir que os sistemas digitais estão alinhados com a realidade operacional.

Quando a liderança trata a segurança alimentar como prioridade real, a tecnologia ganha impacto. Quando a liderança trata a segurança alimentar como burocracia, a tecnologia transforma-se em mais uma obrigação. As equipas observam mais o que a gestão tolera do que aquilo que a gestão escreve nos procedimentos.

Tecnologia com propósito

A IA e a automação devem ser vistas como instrumentos ao serviço da segurança alimentar, da eficiência e da sustentabilidade. Podem melhorar a rastreabilidade, reduzir desperdício, apoiar a manutenção preditiva, facilitar auditorias, acelerar respostas a crises e reforçar o controlo dos processos. Mas devem ser implementadas com propósito. A pergunta não deve ser apenas “que tecnologia podemos usar?”. Deve ser: “que risco queremos controlar melhor?”, “que decisão queremos melhorar?”, “que comportamento queremos influenciar?” e “que resultado queremos alcançar?”. Sem esta reflexão, existe o risco de confundir inovação com acumulação de ferramentas.

O futuro exige sistemas melhores e pessoas mais conscientes

A produção alimentar do futuro será mais digital, mais automatizada e mais orientada por dados. Isso é inevitável. Mas não será mais segura apenas por causa disso. Será mais segura se as empresas conseguirem integrar tecnologia com conhecimento técnico, formação, liderança e cultura operacional. Será mais segura se os sistemas ajudarem as pessoas a decidir melhor. Será mais segura se os dados forem usados para prevenir, e não apenas para justificar depois do problema acontecer.

A IA e a automação podem ser grandes aliadas da segurança alimentar. Mas não substituem aquilo que continua a ser essencial: pessoas conscientes, líderes responsáveis e comportamentos consistentes.Porque a segurança alimentar não começa na tecnologia. Também não começa no certificado. Começa nas decisões tomadas todos os dias.

Fonte: iAlimentar

Fundada em 2017 por Anastasia Hofmann e Naomi MacKenzie, a KITRO desenvolveu uma solução baseada em inteligência artificial que permite medir automaticamente o desperdício alimentar em cozinhas profissionais. Atualmente, a tecnologia está presente em mais de 40 países e é utilizada por mais de 500 cozinhas de hotéis, restaurantes, hospitais, universidades, empresas de catering e navios de cruzeiro.

A tecnológica suíça KITRO está a reforçar a sua expansão internacional numa altura em que a redução do desperdício alimentar ganha uma importância crescente para o setor da hotelaria, restauração e serviços alimentares, impulsionada por novas exigências regulatórias e pela necessidade de melhorar a eficiência operacional.

A União Europeia aprovou recentemente, pela primeira vez, metas vinculativas para a redução do desperdício alimentar, estabelecendo uma diminuição de 30% do desperdício per capita nos setores do retalho, restauração, hotelaria e food service até 2030. Paralelamente, países como Espanha estão a avançar com legislação nacional mais exigente, aumentando a pressão sobre os operadores para monitorizarem e reduzirem os alimentos desperdiçados.

Fundada em 2017 por Anastasia Hofmann e Naomi MacKenzie, a KITRO desenvolveu uma solução baseada em inteligência artificial que permite medir automaticamente o desperdício alimentar em cozinhas profissionais. Atualmente, a tecnologia está presente em mais de 40 países e é utilizada por mais de 500 cozinhas de hotéis, restaurantes, hospitais, universidades, empresas de catering e navios de cruzeiro.

Segundo dados da empresa, a tecnologia já permitiu aos seus clientes alcançar poupanças acumuladas de 13,6 milhões de euros, evitar o desperdício de 1.938 toneladas de alimentos comestíveis e preservar o equivalente a 4,2 milhões de refeições.

“Durante muitos anos, o desperdício alimentar foi visto sobretudo como uma questão de sustentabilidade. Hoje, é cada vez mais uma questão financeira, operacional e regulatória”, afirmam Anastasia Hofmann e Naomi MacKenzie, fundadoras da KITRO, citadas em comunicado.

A solução da KITRO combina uma balança de precisão com uma câmara equipada com visão por computador e inteligência artificial. O sistema identifica, pesa e classifica automaticamente os alimentos descartados, sem necessidade de introdução manual de dados. A informação recolhida é disponibilizada através de uma plataforma digital que permite às equipas acompanhar padrões de desperdício e identificar oportunidades de melhoria na gestão de compras, produção, menus, porções e buffets.

Além da componente tecnológica, a empresa disponibiliza apoio especializado para ajudar os clientes a interpretar os dados e implementar medidas de redução. De acordo com a KITRO, as cozinhas que utilizam a solução conseguem reduzir até 60% do desperdício alimentar evitável e diminuir entre 2% e 8% os custos com alimentos nos primeiros seis meses.

A Península Ibérica surge como um dos mercados prioritários para a empresa. Em Espanha, a recente legislação contra o desperdício alimentar exige que muitas organizações adotem planos de prevenção e medidas concretas de redução até ao final de 2026. Neste contexto, a KITRO celebrou uma parceria com a Hyatt Inclusive Collection, que implementou a tecnologia em 26 unidades ao longo do último ano.

Em Portugal, a empresa destaca os resultados obtidos pelo Pestana Hotel Group numa unidade hoteleira do Algarve. Segundo a KITRO, a implementação do sistema permitiu reduzir cerca de 50% do desperdício alimentar em menos de um ano, evitando aproximadamente 30 toneladas de alimentos desperdiçados e gerando uma poupança estimada em 300 mil euros.

Mais recentemente, a tecnológica iniciou um projeto-piloto com a Vila Galé Hotels, com o objetivo de recolher dados mais precisos sobre os alimentos descartados e identificar oportunidades de otimização em áreas como a produção, compras, menus e gestão de buffets.

“Estamos muito satisfeitos por ver o crescente interesse do setor hoteleiro português em soluções que combinam sustentabilidade, eficiência de custos e digitalização das operações. A redução do desperdício alimentar começa com dados fiáveis”, afirma Francisco Ribeiro Corrêa, responsável da KITRO para o mercado ibérico.

Com parcerias estabelecidas com grupos internacionais como Hyatt, Marriott International, Four Seasons, 25hours Hotels, TUI, Pestana e Vila Galé, a empresa pretende continuar a expandir a sua presença na Europa e na América do Norte, apostando na utilização de dados e inteligência artificial para transformar o desperdício alimentar num indicador de gestão e numa oportunidade de criação de valor.

Fonte: GreenSavers

Com o aumento dos casos de diarreia intensa em vários estados norte-americanos, alguns restaurantes começaram a alterar procedimentos.

O Street Beet, um restaurante vegan em Detroit, passou a retirar a primeira camada das alfaces e a lavá-las duas vezes. Cerca de um quarto dos clientes pede agora os pratos sem alface, enquanto outros solicitam que sejam retirados ingredientes como pico de gallo (molho mexicano de tomate, cebola e coentros), coentros e outros vegetais de folha verde. O wrap Caesar de "frango" - preparado com tofu e molho de miso - é um dos pratos mais populares da casa, mas as encomendas diminuíram.

No total, as vendas caíram 3.000 dólares (2.625 euros) na última semana, em comparação com o mesmo período de anos anteriores.

"Estamos a atribuir isso à preocupação da comunidade em relação a comer fora e aos produtos agrícolas vendidos no comércio", diz Danae Florias, diretora de operações do restaurante. "A quebra foi notória e esperamos que continue a ser assim até que o surto diminua, seja controlado e a origem seja identificada", acrescenta.

Será este o fim da salada tal como a conhecemos? Até ao momento, nenhum alimento, produtor ou fornecedor foi identificado como a origem do surto de Cyclospora deste verão. O parasita microscópico foi associado a casos de diarreia intensa em vários estados, sobretudo no Michigan e Ohio. Ainda assim, as folhas para salada e os frutos vermelhos frescos, já associados a surtos anteriores, podem provocar vários dias de problemas digestivos.

Hannah Hargrove, dietista pediátrica em Detroit, diz que a família alterou os hábitos alimentares, sobretudo depois de alguns amigos terem contraído o parasita (todos recuperaram ao fim de poucos dias). Em vez de produtos frescos, passaram a optar por frutos vermelhos e legumes congelados, fruta com casca espessa e conservas de fruta. Continua a lavar os produtos frescos que compra apenas com água, mas garante que agora presta "muito mais atenção" à forma como os lava, em vez de lhes dar apenas uma passagem rápida por água.

Hargrove receia também que a confusão em torno do surto leve as pessoas a fazer escolhas menos saudáveis, lembrando que a maioria já não consome fibra suficiente.

"Como dietista, a última coisa que quero ver é as pessoas deixarem de comer fruta e legumes por causa do surto", aponta.

"É frustrante, porque é verão e é nesta altura que apetece comer coisas frescas e refrescantes", diz Denise, arquivista em Nova Iorque, que reduziu significativamente o consumo de produtos frescos à medida que os casos de Cyclospora aumentaram.

Como as autoridades de saúde recomendaram cozinhar os alimentos até atingirem uma temperatura interna de 70 °C para eliminar o parasita, Denise pondera escaldar a fruta para a continuar a consumir. Entretanto, prefere fruta que possa descascar, como abacates, bananas e limões.

Os wraps Caesar - normalmente um dos seus pratos preferidos - desapareceram, por agora, do menu. O mesmo aconteceu com as cerejas, que estão no pico da época, e com os gyros recheados com alface fresca.

É um pesadelo para quem gosta de fruta e legumes em todo o país. E os restaurantes de alimentação vegetal, que dependem de produtos frescos para grande parte das ementas, já estão a sentir as consequências.

Parasita? Qual parasita?

Nem toda a gente parece preocupada. Em Nova Iorque - onde centenas de pessoas adoeceram devido à Cyclospora - os restaurantes especializados em refeições à base de vegetais continuavam movimentados.

Funcionários do restaurante Sweetgreen, no bairro de Williamsburg, em Brooklyn, disseram que alguns clientes perguntaram pelos protocolos de limpeza da cozinha antes de fazerem o pedido. Ainda assim, o restaurante não registou qualquer quebra nas vendas durante a última semana. O mesmo aconteceu com os estabelecimentos próximos da Cava - uma cadeia de inspiração mediterrânica conhecida pelas taças de salada recheadas de legumes frescos - e da Dig Inn, uma cadeia especializada em refeições rápidas.

O Portia's Cafe, um restaurante vegan em Columbus, Ohio - estado que registou mais de 360 casos confirmados desde 1 de junho - admite que o dia foi mais calmo do que o habitual, mas diz não ter notado diferenças significativas nas vendas. Além de cumprir os protocolos definidos pelas autoridades de saúde, parte dos legumes utilizados é cultivada no próprio restaurante e os restantes são comprados a produtores locais.

Pelo menos nas redes sociais, porém, é impossível escapar ao tema. Até o dicionário Merriam-Webster publicou uma mensagem: "Por favor, evitem todas as saladas, incluindo a palavra." Uma publicação da Sweetgreen na rede social X, que promovia uma taça inspirada nos vencedores do programa "Love Island", foi rapidamente inundada por respostas com piadas sobre o parasita. A cadeia não respondeu ao pedido de comentário da CNN.

Um representante da Taco Bell afirma que a empresa "retirou voluntária e temporariamente alguns ingredientes de um número limitado de restaurantes por precaução", embora as autoridades de saúde não tenham confirmado qualquer ligação entre o surto e a cadeia, nem com qualquer "ingrediente, fornecedor, restaurante ou retalhista específico".

Laurie Schalow, diretora de Assuntos Corporativos e Segurança Alimentar da Chipotle, afirma que a empresa "está a acompanhar a investigação sobre a Cyclospora e, neste momento, não acredita que os ingredientes que utiliza estejam associados ao surto".

"Surtos como este, e possivelmente piores, vão voltar a acontecer"

Não é de estranhar que muitas pessoas receiem a Cyclospora. Depois de infetar uma pessoa, o parasita pode transformar a ida à casa de banho num verdadeiro pesadelo. A diarreia aquosa, as cólicas e o inchaço abdominal podem durar semanas, e algumas pessoas relatam terem passado dias praticamente sem sair da sanita.

"Os dias 1 a 5 foram os piores", escreveu um utilizador do Reddit do sudeste do Michigan, que já levava mais de duas semanas com problemas digestivos. "Sinto-me muito fraco, exausto, stressado, desconfortável e, sinceramente, cheio de dores.

"Nunca na vida tive uma diarreia daquelas", escreveu outro.

Embora a causa exata e a origem do surto continuem sob investigação, o parasita propaga-se quando as pessoas consomem alimentos ou água contaminados com fezes, segundo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC). A contaminação pode chegar às grandes explorações agrícolas de várias formas, incluindo más condições de trabalho, utilização de fertilizantes, escorrências provenientes de explorações pecuárias ou cursos de água poluídos.

Alguns políticos enquadraram o surto no contexto do desmantelamento da infraestrutura de saúde pública levado a cabo pela administração Trump. Em 2025, os CDC passaram a tornar facultativa a vigilância da Cyclospora e de outras doenças transmitidas por alimentos, mantendo obrigatória apenas a monitorização da Salmonella e da E. coli.

"Surtos como este, e possivelmente piores, vão voltar a acontecer vezes sem conta até mudarmos de rumo", afirma Rosa DeLauro, congressista democrata pelo estado do Connecticut.

Nem todos os produtos frescos estarão em risco. A Gotham Greens, empresa de agricultura em estufa com operações em vários estados norte-americanos, afirma no Instagram que os seus produtos são seguros, independentemente do surto, porque as folhas para salada e as ervas aromáticas são "cultivadas em estufas com ambiente controlado, protegidas de muitas das condições exteriores que podem afetar os produtos cultivados ao ar livre".

Influenciadores ligados à alimentação e ao bem-estar têm incentivado os consumidores a deixarem de comprar produtos frescos nos supermercados e a privilegiarem mercados de produtores locais e pequenas explorações agrícolas.

Jeff Stainthorp, proprietário de uma pequena exploração agrícola no estado de Washington, diz que já ouviu preocupações de clientes receosos por causa do parasita, apesar de não existir qualquer surto significativo naquele estado.

No seu caso, o reduzido número de etapas entre a colheita e o consumidor final - ele está presente em todas as fases do processo - dá-lhe confiança na segurança dos produtos, sobretudo porque Washington não emitiu quaisquer alertas ou recolhas de alimentos. Embora as pequenas explorações não estejam imunes a surtos de doenças, por exemplo se a origem for uma fonte de água contaminada, a sua dimensão facilita a monitorização das práticas de segurança.

Nas grandes explorações agrícolas comerciais, as "práticas laborais exploratórias" podem favorecer a contaminação, afirma. Segundo Stainthorp, muitos trabalhadores são pagos em função da quantidade colhida, o que desencoraja pausas para ir à casa de banho ou faltas ao trabalho quando estão doentes.

O agricultor acredita que o receio em torno da Cyclospora poderá ter um efeito positivo: ajudar mais pessoas a compreender as fragilidades do sistema alimentar norte-americano.

"Só espero que isto leve algumas pessoas a refletir sobre a forma como o nosso sistema alimentar está organizado", aponta. "Não é necessariamente bom para o planeta, não é bom para a nossa saúde e também não é bom para as pessoas que trabalham nele."

Fonte: CNN Portugal

A notificação RASFF 2026.6632, emitida a 24 de julho de 2026, sinaliza a rejeição de polpas de frutas congeladas provenientes do Brasil devido à presença do aditivo não autorizado E211 — benzoato de sódio. O alerta foi comunicado por Portugal no âmbito dos controlos oficiais realizados na fronteira, classificando o caso como border rejection por risco potencial.

Enquadramento Regulamentar

A remessa foi rejeitada devido à presença do aditivo não autorizado E211 — benzoato de sódio, cuja utilização não é permitida em polpas de fruta congeladas segundo o Regulamento (CE) n.º 1333/2008, que estabelece regras sobre aditivos alimentares na União Europeia. O produto não cumpre os requisitos de segurança e composição definidos para esta categoria, constituindo não conformidade regulamentar.

Resultado Analítico

Os controlos oficiais realizados no ponto de entrada detetaram benzoato de sódio em concentração não divulgada, mas suficiente para caracterizar uso tecnológico deliberado. O aditivo é autorizado apenas em categorias específicas (ex.: bebidas aromatizadas, produtos à base de frutas processados), não abrangendo polpas de fruta congeladas.

Avaliação do Risco
  • Natureza do risco: presença de aditivo não autorizado;

  • Impacto potencial: risco tecnológico e regulamentar, não necessariamente toxicológico imediato, mas relevante para proteção do consumidor e integridade da cadeia alimentar;

  • Classificação: risco potencial, justificando rejeição preventiva.

Medidas Aplicadas

As autoridades portuguesas determinaram:

  • Rejeição da remessa no controlo fronteiriço;

  • Impedimento de entrada no mercado da UE;

  • Notificação ao RASFF para reforço da vigilância por outros Estados‑Membros;

  • Ação corretiva exigida ao operador exportador, incluindo revisão de formulação e conformidade documental.

Implicações para Operadores

Este alerta reforça a necessidade de:

  • Verificação rigorosa de aditivos permitidos por categoria de produto;

  • Conformidade documental (fichas técnicas, especificações, declarações de aditivos);

  • Controlo de fornecedores e auditorias internas para evitar uso indevido de conservantes.

Síntese Técnica

A notificação RASFF 2026.6632 evidencia uma não conformidade clara com a legislação europeia de aditivos alimentares, resultando na rejeição de polpas de frutas congeladas provenientes do Brasil devido à presença do E211 — benzoato de sódio, aditivo não autorizado para esta categoria. A ação preventiva das autoridades portuguesas evitou a entrada de um produto irregular no mercado europeu.

Fonte: Qualfood

A Comissão Europeia publicou o Regulamento de Execução (UE) 2026/1734, que introduz novas normas sobre os métodos autorizados de atordoamento e occisão. O diploma estabelece requisitos rigorosos de posicionamento para a utilização do dispositivo de êmbolo retrátil não perfurante em leitões e pequenos ruminantes. A legislação aprova ainda o uso de espuma de nitrogénio de alta expansão para despovoamento sanitário de suínos e aves, definindo parâmetros técnicos estritos que os operadores devem assegurar. 

Fonte: Agroportal

 

 

Os elementos potencialmente tóxicos (Potentially Toxic Elements – PTEs) são um dos grupos de contaminantes químicos mais relevantes no domínio da segurança alimentar, devido à sua persistência ambiental, capacidade de bioacumulação e potencial toxicidade crónica. Elementos como o chumbo (Pb), o cádmio (Cd), o mercúrio (Hg), o arsénio (As) e o níquel (Ni) podem entrar na cadeia alimentar através do solo, da água, da atmosfera, das práticas agrícolas, da alimentação animal ou do processamento industrial. Relativamente à exposição humana, esta ocorre predominantemente por via alimentar e encontra-se associada a efeitos neurológicos, renais, cardiovasculares, imunológicos, reprodutivos e carcinogénicos.

Nos últimos anos, a União Europeia reforçou significativamente o enquadramento regulamentar relativo a estes contaminantes, nomeadamente através do Regulamento (UE) 2023/915 e das atualizações recentes relativas ao arsénio inorgânico em produtos da pesca e ao níquel em géneros alimentícios. 

Vivemos numa época em que a segurança alimentar deixou de depender exclusivamente da ausência de microrganismos patogénicos ou da qualidade nutricional dos alimentos. A crescente pressão industrial, a intensificação agrícola, a degradação ambiental e a globalização das cadeias de abastecimento transformaram os contaminantes químicos num dos mais complexos desafios contemporâneos da alimentação humana. Entre esses contaminantes, os chamados “metais pesados” ocupam um lugar particularmente sensível. Invisíveis ao consumidor, silenciosos na sua ação e persistentes no ambiente, estes contaminantes podem acompanhar os alimentos desde o solo da produção agrícola até à mesa do consumidor, acumulando-se lentamente ao longo da cadeia alimentar e, em alguns casos, também no organismo humano.

Embora a expressão “metais pesados” continue amplamente difundida na comunicação científica e técnica, o termo “elementos potencialmente tóxicos” (do inglês Potentially Toxic Elements – PTEs) é atualmente considerado mais rigoroso do ponto de vista toxicológico e ambiental. Esta designação engloba metais e metaloides cuja toxicidade depende da respetiva forma química, biodisponibilidade e nível de exposição. Neste grupo incluem-se elementos como o chumbo (Pb), cádmio (Cd), mercúrio (Hg) e arsénio (As), atualmente entre os contaminantes químicos de maior relevância em segurança alimentar. 

Ao contrário de muitos contaminantes orgânicos, os PTEs não sofrem degradação química ou biológica significativa. Não desaparecem durante o processamento industrial, não são destruídos pelos tratamentos térmicos convencionais e podem persistir durante décadas nos ecossistemas. É precisamente essa permanência silenciosa que os torna particularmente preocupantes.

A presença de PTEs nos alimentos resulta de uma complexa interação entre processos naturais e atividades humanas. Alguns destes elementos existem naturalmente na crosta terrestre e podem atingir solos e águas através da meteorização de rochas, erosão do solo ou atividade vulcânica. Contudo, é inegável que a atividade humana alterou profundamente o equilíbrio natural destes contaminantes no ambiente. Em particular, a indústria mineira, a metalurgia, os processos de combustão de combustíveis fósseis, a utilização de fertilizantes fosfatados e até o tráfego rodoviário contribuíram, ao longo de décadas, para a dispersão de PTEs no ambiente. Uma vez libertados, estes elementos podem atingir os solos agrícolas, os recursos hídricos, os sedimentos e a atmosfera.

As plantas absorvem parte destes contaminantes através do seu sistema radicular; os animais acumulam-nos através da alimentação e da água; e os ecossistemas aquáticos transformam-se frequentemente em reservatórios particularmente sensíveis à acumulação destes compostos. Em muitos casos, a contaminação alimentar não resulta de episódios agudos ou facilmente identificáveis, mas sim de processos lentos e cumulativos. 

Fonte: TecnoAlimentar