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O setor nacional dos pequenos frutos gerou, em 2025, um impacto de 1037 milhões de euros no Valor Acrescentado Bruto (VAB), tendo a produção nacional mais do que triplicado em dez anos, de acordo com o estudo “Plano de Impactos da Produção e Comercialização de Pequenos Frutos”, desenvolvido pela EY-Parthenon.

Do impacto total estimado no VAB, 252 milhões de euros correspondem a efeitos diretos, 309 milhões a efeitos indiretos e 476 milhões a efeitos induzidos. Segundo o estudo, cerca de 76% do impacto resulta de efeitos indiretos e induzidos, evidenciando a forma como a atividade se propaga para além da produção agrícola, com efeitos em fornecedores, serviços, comércio, logística, atividades imobiliárias, restauração, energia, construção e outras áreas da economia nacional.

Promovido por 2 empresas do sector, o relatório analisa a evolução e o impacto económico da fileira em Portugal, medindo os efeitos diretos, indiretos e induzidos no VAB, emprego, remunerações e receita fiscal.

A produção nacional de pequenos frutos mais do que triplicou em dez anos, passando de 27,6 mil toneladas em 2015 para 91,4 mil toneladas em 2025. De acordo com o estudo, a produção atingiu 580 milhões de euros em 2025, o que representa um crescimento de 72,6% face a 2020. Para 2026, a projeção aponta para um valor recorde de 645 milhões de euros.

 O crescimento tem sido impulsionado sobretudo pela expansão da framboesa, da amora e do mirtilo, culturas que representam a maior parte do aumento do volume de negócios do setor desde 2020.

Joel Vasconcelos, CEO de uma das empresas do sector, afirma que “os pequenos frutos são hoje uma das fileiras mais dinâmicas da agricultura portuguesa, com escala e capacidade exportadora”. O responsável acrescenta que se trata de “um setor que é muito mais do que a produção agrícola: é uma fileira económica estruturante, com capacidade para gerar riqueza, emprego, rendimento e receita fiscal em Portugal”.

 “É um setor que nasce no território, mas cujo impacto se multiplica por toda a economia. O aprofundamento do conhecimento sobre o contributo económico, social e territorial da produção de pequenos frutos em Portugal permite apoiar a necessária reflexão sobre as condições necessárias ao crescimento sustentável da fileira”, refere ainda.

O estudo indica que, em 2025, o setor gerou 34.369 empregos equivalentes a tempo completo (ETC), dos quais 17.433 resultam diretamente da atividade dos pequenos frutos. Para 2026, a EY-Parthenon projeta um aumento para 36.702 empregos ETC.

 Segundo o estudo, embora Portugal não consiga competir diretamente, pela sua escala, com os maiores produtores mundiais, como o México e os Estados Unidos, o posicionamento da fileira passa por investir em culturas diferenciadas para mercados que privilegiam a qualidade face ao volume.

Em 2025, as exportações nacionais de pequenos frutos atingiram 398 milhões de euros, mais do que triplicando o valor registado há uma década.

Eduardo Bremm, diretor de Operações, refere que “o país reúne uma combinação muito particular de condições climáticas, diversidade geográfica, perícia técnica e experiência agrícola que permite produzir pequenos frutos com elevados padrões de qualidade, reconhecidos nos mercados internacionais”.

“É essa combinação – território, clima, inovação, saber e capital humano – que tem permitido afirmar o país como uma origem de referência para framboesas, mirtilos e amoras. Há 20 anos que estamos presentes em Portugal, acreditando a produção de pequenos frutos, e acreditando que o potencial deste setor deve continuar a ser desenvolvido lado a lado com os produtores, com foco na qualidade, na consistência e na sustentabilidade”, acrescenta.

Para as empresas em questão, os resultados demonstram que os pequenos frutos são uma fileira estratégica para Portugal, mas evidenciam também a necessidade de criar condições para que o crescimento seja sustentável, previsível e equilibrado.

Entre as prioridades identificadas estão a melhoria das infraestruturas públicas, a gestão eficiente da água, a simplificação administrativa, o apoio à inovação, a previsibilidade regulatória, a qualificação da mão de obra e respostas coordenadas em matéria de habitação, mobilidade e integração de trabalhadores nos territórios onde a atividade tem maior expressão.

Joel Vasconcelos defende que “o crescimento económico não dispensa responsabilidade territorial e social”. Segundo o responsável, “o caminho de crescimento dos pequenos frutos em Portugal tem sido feito, em grande medida, pela visão dos produtores, que investem, procuram soluções para atrair e integrar mão de obra e inovam em práticas agrícolas cada vez mais sustentáveis”.

“Mas é preciso que a esta visão se junte uma visão política que olhe de forma estratégica para a fileira. Para continuar a crescer, o setor precisa de políticas públicas estáveis, investimento em infraestruturas, simplificação administrativa e respostas equilibradas para os territórios onde a atividade está instalada”, conclui.

Fonte: Vida Rural

 

A bolota, produzida principalmente por sobreiros e azinheiras, é um recurso tradicional português com elevado potencial económico, ambiental e cultural. 

 

A bolota em números

Em Portugal, a produção de bolotas provém de várias espécies do género Quercus, incluindo o sobreiro, a azinheira e diferentes tipos de carvalhos, como o carvalho-alvarinho, o carvalho-negral e o carvalho-português. Actualmente, e de acordo com dados do ICNF (2019), a produção nacional anual de bolota ronda, em média, as 400 mil toneladas.

De acordo com a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), esta entidade é responsável por avaliar a segurança de alimentos e rações e já analisou diversos produtos derivados do género Quercus, incluindo bolotas de Q. rotundifolia (azinheira) e Q. suber (sobreiro), considerando-os seguros para consumo. Contudo, importa referir que, em termos de uso alimentar humano, é sobretudo a bolota de azinheira que é tradicionalmente utilizada e comercializada, sendo a de sobreiro menos comum neste contexto. Ambas as espécies estão entre as mais relevantes na Europa para fins alimentares. Embora o papel da EFSA seja avaliar a segurança e não autorizar especificamente produtos, os pareceres científicos emitidos por esta entidade sustentam a utilização alimentar das bolotas.

A presença de quercíneas em Portugal é significativa, assumindo um papel relevante na paisagem e no ecossistema florestal do país. No entanto, a caracterização da sua distribuição varia consoante a fonte de dados considerada. De acordo com os dados mais recentes do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP), a área total ocupada por estas espécies ronda os 370 000 hectares. Contudo, os dados divulgados pelo INE apontam para uma superfície muito mais alargada, próxima dos 1 150 000 hectares.

Esta discrepância resulta do facto de os dados do IFAP se basearem exclusivamente nas áreas declaradas no Sistema de Identificação Parcelar (iSIP), um registo obrigatório para os produtores que pretendem beneficiar dos apoios da Política Agrícola Comum (PAC). Assim, muitas áreas ocupadas por quercíneas que não estão integradas neste sistema ficam fora das estatísticas do IFAP.

Entre as diferentes espécies de quercíneas, o sobreiro (Q. suber) destaca-se como a mais representativa em território nacional. Segundo o IFAP, esta espécie ocupa cerca de 363 mil hectares, o que corresponde a 98,8 % da área total de quercíneas oficialmente registada.

A bolota enquanto produtora de “Serviços Ecossistémicos”

Os seres humanos têm um papel fundamental nos ecossistemas rurais, dos quais retiram múltiplos benefícios. Esses benefícios, sejam eles directos ou indirectos, são conhecidos como serviços ecossistémicos e incluem a produção de alimentos, a disponibilização de água, a obtenção de madeira e cortiça, a protecção do solo, a regulação da qualidade da água e do ciclo hidrológico, o sequestro de carbono, bem como valores estéticos e culturais associados à paisagem, ao lazer e ao turismo.

A base para a prestação de todos estes serviços está na biodiversidade. Em Portugal Continental, esta diversidade biológica inclui mais de 3000 espécies de plantas vasculares, cerca de 400 espécies de vertebrados e um número ainda indefinido de espécies de invertebrados. Nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, existem mais de 1700 espécies de organismos endémicos, ou seja, espécies únicas que não se encontram em mais nenhuma parte do mundo.

Em 2005, o relatório Millennium Ecosystem Assessment (MEA) trouxe estes serviços para o centro das atenções a nível global, classificando-os em quatro grandes categorias: serviços de aprovisionamento, de suporte, de regulação e culturais.

A bolota desempenha um papel essencial nos ecossistemas mediterrânicos, particularmente nos montados que são sistemas agro-silvo-pastoris reconhecidos pela sua multifuncionalidade e elevada produção de serviços dos ecossistemas.

Entre os valores directos associados à bolota destaca-se o seu uso como alimento para espécies pecuárias e fauna silvestre, integrando-se nos serviços de aprovisionamento identificados pelo MEA - Millennium Ecosystem Assessment (2005). Além disso, a sua presença contribui para a conservação da biodiversidade, proporcionando habitat e alimento a inúmeras espécies, muitas delas com estatuto de conservação.

Em termos culturais e históricos, a bolota tem sido valorizada desde tempos antigos como símbolo de fertilidade, resiliência e sustentabilidade. A paisagem do montado, onde estas espécies predominam, representa um património cultural que integra práticas agro-florestais seculares e modelos de gestão tradicional.

Do ponto de vista regulador, as árvores produtoras de bolota contribuem para a regulação do ciclo hidrológico e amenização edafo-climática, promovendo a infiltração de água no solo, a retenção de humidade e a estabilização térmica dos microclimas locais. Estes factores são essenciais na prevenção de incêndios florestais, dada a resiliência natural destas espécies e a sua baixa inflamabilidade relativa.

A bolota e os montados onde é produzida têm também um crescente potencial como espaços de educação ambiental e recreio, através de iniciativas de turismo sustentável, rotas interpretativas e acções de sensibilização, como as organizadas pela Pepe Aromas, no Alentejo. O turismo ecológico, baseado na observação da biodiversidade, gastronomia local e vivências rurais, é uma via emergente para a valorização integrada destes territórios.

Por fim, a presença destas formações arborizadas em zonas periurbanas ou rurais contribui para a manutenção da qualidade do ar e conservação do solo e da água, integrando-se nos serviços de suporte e regulação previstos no quadro do MEA - Millennium Ecosystem Assessment (2005). 

Fonte: TecnoAlimentar

A produtividade do trabalho agrícola em Portugal aumentou 277% nas últimas três décadas, num período em que os salários no setor cresceram mais de 50% na última década, acima da média da economia nacional.

Segundo a análise da CONSULAI, apesar da evolução em produtividade, investimento e competitividade, a renovação geracional mantém-se como um dos principais desafios para a agricultura portuguesa.

A idade média da mão de obra familiar agrícola passou de 46 para 59 anos em cerca de 30 anos, enquanto o número de trabalhadores familiares caiu mais de 50%. A tendência de envelhecimento é também visível ao nível europeu, onde apenas 12% dos gestores agrícolas têm menos de 40 anos.

“Durante décadas, a agricultura portuguesa resolveu o desafio da produtividade. Hoje, o desafio é outro: garantir quem vai liderar, investir e produzir no futuro. O maior risco para o setor deixou de ser tecnológico ou económico e passou a ser humano. A renovação geracional é uma condição essencial para a competitividade da agricultura portuguesa e para a capacidade de o país responder aos desafios alimentares, ambientais e territoriais das próximas décadas”, afirma Pedro Santos, diretor-geral da CONSULAI.

Entre 2007 e 2022, instalaram-se em Portugal 10.513 jovens agricultores, responsáveis por mais de 1,5 mil milhões de euros de investimento e pela gestão de mais de 252 mil hectares de superfície agrícola. Segundo a informação disponibilizada, trata-se de uma geração com idade média de 33 anos, maioritariamente com formação superior ou técnico-profissional especializada. Ainda assim, quase um terço iniciou atividade sem experiência prévia no setor.

Entre os principais obstáculos identificados estão o acesso à terra, o financiamento, a escala económica das explorações e a integração em mercados organizados. A sustentabilidade dos projetos agrícolas liderados por novos produtores surge, assim, associada não apenas à motivação dos jovens, mas também à existência de condições estruturais para que estes negócios possam ganhar escala e competitividade.

“Existe ainda um desfasamento significativo entre a perceção pública e a realidade do setor. A agricultura de hoje é uma atividade empresarial, tecnológica e altamente especializada. Atrair talento exige mostrar que estamos perante um setor com futuro, capacidade de inovação e oportunidades de carreira qualificadas”, acrescenta Pedro Santos.

A renovação geracional assume relevância económica num setor com peso nas exportações, no emprego e na criação de valor. Em 2023, o complexo agroflorestal gerou 9,4 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto, representando 5,1% do PIB nacional. O setor assegurou ainda 456 mil postos de trabalho e exportações de 15,2 mil milhões de euros, equivalentes a cerca de 12% das exportações nacionais.

Num contexto de pressão sobre a segurança alimentar, alterações climáticas e necessidade de gestão sustentável do território, a entrada de novos profissionais é apontada como um fator crítico para a competitividade futura do setor.

“Quando falamos de renovação geracional estamos a falar da capacidade de Portugal assegurar produção alimentar, criar emprego, valorizar os territórios rurais e manter uma economia mais resiliente. O desafio é nacional e exige uma visão de longo prazo”, defende Rui Almeida, diretor da CONSULAI.

Estes temas serão abordados no B-Rural Summit, iniciativa promovida pela CONSULAI, que terá lugar no dia 23 de junho, em Lisboa, reunindo especialistas, empresários, jovens empreendedores e decisores para discutir o futuro da agricultura e da floresta em Portugal.

Fonte: Vida Rural

A Comissão Europeia publicou a Comunicação 2026/3084, um documento de orientação essencial para a aplicação do Regulamento (UE) 2025/40 relativo a embalagens e resíduos de embalagens, que entra plenamente em vigor a 12 de agosto de 2026.

O objetivo é claro: garantir que Estados‑Membros, empresas e operadores económicos interpretam e aplicam as novas regras de forma uniforme, evitando dúvidas, atrasos e interpretações divergentes.

Um guia para uma transição sem ambiguidades

A Comissão recebeu “um número significativo de questões” de autoridades nacionais e operadores sobre como interpretar várias disposições do novo regulamento. Para responder rapidamente e assegurar clareza jurídica, o documento agora publicado explica pontos críticos, complementado por um conjunto de FAQs que continuará a ser atualizado.

O guia não altera a lei — interpreta-a, contextualiza-a e ajuda a aplicá-la de forma coerente em toda a União. A interpretação vinculativa continua a ser competência exclusiva do Tribunal de Justiça da União Europeia (EU).

O que está em jogo: embalagens mais sustentáveis, mercado mais harmonizado

O Regulamento (UE) 2025/40 estabelece requisitos rigorosos para todo o ciclo de vida das embalagens, desde o design até à gestão dos resíduos. Entre os pilares centrais estão:

  • Reciclabilidade obrigatória para todas as embalagens, com metas progressivas até 2035;
  • Classes de desempenho de reciclabilidade aplicáveis a partir de 2030;
  • Regras de sustentabilidade, incluindo limites para substâncias nocivas e requisitos de conteúdo reciclado em embalagens de plástico;
  • Proibição de embalagens que aumentem artificialmente o volume do produto, como fundos falsos ou paredes duplas não funcionais.

O regulamento pretende ainda evitar embalagens desnecessárias, promover reutilização e recarga, e reforçar a economia circular rumo à neutralidade climática em 2050.

Porque este documento importa para as empresas

A Comunicação 2026/3084 funciona como um mapa de navegação para todos os setores que utilizam embalagens — indústria, retalho, logística, alimentar, farmacêutico, e-commerce, entre outros.

Com a aproximação da data de aplicação, o guia torna-se decisivo para:

  • Ajustar processos de design e produção às novas exigências;
  • Evitar incumprimentos por interpretações erradas;
  • Preparar auditorias e verificações das autoridades nacionais;
  • Planear investimentos em materiais, rotulagem e sistemas de recolha.

A Comissão antecipa ainda a publicação de atos de execução, atos delegados e pedidos de normalização nos próximos 2–3 anos, reforçando o quadro técnico que suportará a implementação.

Uma peça central para a nova era das embalagens na UE

Com a publicação da Comunicação 2026/3084, a União Europeia dá um passo decisivo para garantir que a transição para embalagens mais sustentáveis é coerente, previsível e juridicamente segura.

Para empresas e autoridades, este documento não é apenas orientação — é a chave para implementar corretamente uma das reformas ambientais mais ambiciosas da década.

Fonte: Qualfood

Manter um jardim saudável requer, acima de tudo, observação e criatividade. Muitas vezes, a solução para alguns problemas comuns — como manter o solo húmido ou proteger um rebento — está nos objetos mais simples.

As garrafas de plástico e de vidro que acumulamos todos os dias podem contribuir muito para o nosso jardim. Algumas ajudam a conservar a humidade do solo, outras protegem as mudas jovens do frio e do vento, e todas permitem reutilizar materiais que, de outra forma, acabariam no lixo.

1. Um sistema de rega lenta para vasos e hortas

É uma das utilizações mais conhecidas e consiste em transformar a garrafa num reservatório de água de libertação gradual.

A técnica é simples: fazem-se pequenos orifícios na tampa ou perto da base, enche-se a garrafa com água e coloca-se invertida ou parcialmente enterrada junto à planta. A água irá filtrando-se de forma constante, regulada pela própria densidade e porosidade do solo em torno das raízes.

O sistema funciona especialmente bem em vasos grandes, hortas e culturas que necessitam de humidade relativamente constante, como tomates, pimentos, beringelas, abobrinhas ou plantas aromáticas.

A sua principal vantagem é que reduz a evaporação superficial e permite manter a humidade durante curtos períodos de ausência. No entanto, não substitui um sistema de gotejamento profissional nem garante um abastecimento uniforme durante muitos dias.

É importante ter em conta o tipo de solo. Em terrenos muito arenosos, a água dispersa-se rapidamente, enquanto que em solos mais argilosos permanece concentrada junto à garrafa durante mais tempo.

2. Garrafas de vidro para manter a humidade

As garrafas de vidro também podem ser utilizadas como reservatórios de água. Neste caso, são colocadas de boca para baixo no solo, utilizando acessórios de cerâmica ou dispositivos comerciais que regulam o fluxo.

A água desce lentamente à medida que o solo perde humidade. Esta técnica é útil em vasos ornamentais, varandas e plantas de interior de grandes dimensões, onde o aspeto visual também é importante.

Além disso, o vidro tem uma vantagem em relação ao plástico: resiste melhor ao passar do tempo, à radiação solar e às variações de temperatura.

3. Mini-estufas para superar os dias frios

Uma garrafa de plástico transparente pode transformar-se numa pequena câmara de proteção para mudas recém-transplantadas.

Basta retirar a base e colocar a parte superior sobre a planta, como se fosse uma campânula. O plástico retém parte do calor e da humidade, criando um microclima mais favorável durante os primeiros dias de crescimento.

Esta técnica é frequentemente utilizada em hortas no final do outono, inverno e início da primavera, quando as temperaturas ainda são baixas ou existe risco de geadas.

Beneficiam-se as mudas de tomate, alface, acelga, couve e outras espécies sensíveis ao frio ou em plena fase de enraizamento. Mas atenção: quando o sol se torna intenso, é preciso retirar a proteção ou abrir a tampa para ventilar. Caso contrário, a temperatura interior pode subir demasiado.

4. Barreira física contra algumas pragas

Nem todas as estratégias de controlo de pragas requerem produtos químicos. As garrafas de plástico cortadas podem ser transformadas em cilindros protetores que envolvem a base das mudas jovens.

Esta barreira dificulta o acesso de insetos rastejantes, caracóis ou lesmas, e ajuda a reduzir os danos durante as primeiras fases de crescimento. Também pode proteger os rebentos contra pequenos animais que costumam roer as folhas novas.

Tal como acontece com qualquer método de controlo, estes funcionam melhor quando fazem parte de uma estratégia mais ampla que inclua diversidade de plantas, monitorização frequente e boas práticas de cultivo.

5. Da reciclagem à decoração

As garrafas também têm uma segunda vida estética. As de vidro servem para delimitar caminhos, canteiros e áreas da horta. Enterradas parcialmente e colocadas uma ao lado da outra, criam bordaduras duradouras que resistem à chuva e ao passar do tempo.

As garrafas de vidro coloridas refletem a luz e dão um toque de cor mesmo durante o inverno, quando muitas plantas perdem o protagonismo. As de plástico podem ser transformadas em vasos suspensos, jardins verticais ou recipientes para estacas e sementes.

Para além do resultado visual, estas alternativas implicam a redução de resíduos e o prolongamento da vida útil de materiais que demoram décadas ou mesmo séculos a degradar-se.

Na jardinagem, muitas vezes as soluções mais úteis provêm de objetos simples que temos à mão. Uma garrafa vazia pode ajudar a conservar água, proteger uma muda, criar uma barreira contra pragas ou simplesmente dar personalidade a um recanto verde.

Não resolverá todos os problemas do jardim. Mas demonstra que, com um pouco de criatividade e alguns princípios básicos, o que parecia ser lixo ainda pode continuar a fazer parte da vida das plantas.

Fonte: tempo.pt

Há futuro sem bioeficiência?

  • Friday, 12 June 2026 13:25

A transição energética e as metas de descarbonização estão a obrigar o setor agrícola e agroindustrial a repensar a sua dependência dos combustíveis fósseis. Neste contexto, a bioeficiência surge como uma estratégia concreta e necessária ao permitir utilizar biosoluções e produzir bioenergia a partir de resíduos, transformando custos de eliminação em novas fontes de rendimento. Em Portugal, este caminho tem vindo a ser explorado pelo COLAB BIOREF — Laboratório Colaborativo para as Biorrefinarias — através do desenvolvimento e transferência de tecnologias orientadas para a valorização de biomassa residual.

Há futuro sem bioeficiência?

Não, não há um futuro viável de descarbonização e transição energética sem bioeficiência (ou bioeconomia circular eficiente). Embora não seja a única solução, o papel da bioeficiência é essencial e complementar em setores como a agricultura, agroindústria, florestas e resíduos, onde a eletrificação direta ou o hidrogénio verde têm limites técnicos ou económicos. 

Num contexto de crescente escassez e encarecimento dos recursos naturais, o modelo tradicional — linear e intensivo — revela-se cada vez mais insustentável, tanto do ponto de vista económico como ambiental. Sem uma mudança estrutural, setores como a agricultura continuarão dependentes de combustíveis e fertilizantes de origem fóssil, assim como de práticas que esgotam os solos, tornando mais difícil acompanhar as metas europeias de descarbonização e responder às exigências dos mercados internacionais.

A transição para modelos circulares, onde cada resíduo agrícola ou agroindustrial é visto como uma matéria-prima potencial, já está em curso em vários países líderes em bioeconomia. Portugal, com a sua abundância de biomassa residual nos setores agrícola e agroindustrial, tem todas as condições para acompanhar esta mudança, adotando a bioeficiência como princípio orientador das suas cadeias de valor.

Usar recursos de forma sustentável e eficiente

Alcançar uma gestão verdadeiramente sustentável dos recursos disponíveis passa por reforçar a adoção de modelos mais circulares e eficientes, que privilegiem a integração, a otimização e a valorização dos recursos ao longo de toda a cadeia de valor, complementando as abordagens produtivas convencionais. Na prática, isto significa olhar além do produto principal e valorizar também subprodutos e resíduos que, durante décadas, foram simplesmente descartados por não terem valor aparente.

Esta abordagem circular pode ser promovida através de tecnologias de conversão bioquímica e termoquímica. Processos como a fermentação, a digestão anaeróbia e a gaseificação permitem transformar estes fluxos de resíduos em produtos de valor acrescentado, reduzindo, ao mesmo tempo, emissões. Quando integrados em setores com elevada produção de resíduos, como o agrícola ou o agroindustrial, estes processos tornam possível o aproveitamento máximo de cada tonelada de biomassa do ponto de vista energético e material. Neste ponto, a implementação de práticas como a simulação de processos permite antecipar e otimizar estas soluções antes da sua implementação, reduzindo riscos e aumentando a eficiência na utilização dos recursos — uma abordagem já aplicada em vários projetos nacionais.

Valorização integrada em biorrefinaria

Uma biorrefinaria integrada é, na prática, a expressão mais clara do conceito de bioeficiência. Trata-se de um sistema onde diferentes tecnologias de conversão operam em conjunto para valorizar integralmente um recurso. Ao contrário das unidades industriais tradicionais, focadas num único produto, uma biorrefinaria permite gerar um conjunto diversificado de outputs a partir da mesma matéria-prima, sejam biocombustíveis, produtos químicos de base biológica ou energia térmica e/ou elétrica, assegurando a utilização em cascata da biomassa e a máxima valorização dos resíduos, minimizando desperdícios e potenciando a criação de valor ao longo de toda a cadeia produtiva.

Esta lógica de integração ganha forma na combinação de tecnologias convencionais e emergentes, como é o caso da digestão anaeróbia e gasificação, que permitem converter resíduos em produtos de maior valor. O Plano de Ação para o Biometano 2024–2040 (PAB) é um exemplo concreto desta abordagem a nível nacional, mostrando como é possível acelerar a produção de gases renováveis, como o biometano, a partir de resíduos e contribuir para as metas de descarbonização.

Produzido localmente e a partir de recursos locais, o biometano torna-se um exemplo claro de bioeficiência com impacto direto no setor agroindustrial português. Adotar esta lógica de biorrefinaria, capaz de produzir múltiplos produtos na mesma infraestrutura, é, por isso, uma alavanca crítica para a viabilidade técnico-económica dos sistemas agrícolas do futuro.

Produzir mais valor com menos inputs

No centro da bioeficiência está, pois, uma ideia simples: produzir mais valor com menos recursos. Na prática, isto traduz-se em gerar benefícios económicos, sociais e ambientais utilizando menos energia, menos água e menos inputs externos. Nas biorrefinarias integradas, este princípio concretiza-se através da maximização da eficiência de conversão, da substituição de recursos fósseis por alternativas renováveis locais e da criação de sinergias entre processos. Ao produzir vários produtos na mesma infraestrutura, é possível reduzir significativamente a intensidade de recursos por unidade de valor gerado.

Neste contexto, ferramentas como a modelação de processos e a análise de ciclo de vida assumem um papel central. A modelação permite explorar e comparar cenários onde “menos é mais”, por exemplo, identificar configurações que, através de uma melhor integração térmica, atingem o mesmo desempenho com 20–30% menos de energia consumida. Em paralelo, a análise de ciclo de vida torna possível quantificar estas escolhas ao longo de toda a cadeia de valor, revelando onde estão os pontos de maior pressão sobre os recursos e orientando assim decisões mais informadas.

Ao promover a bioeficiência, é possível reforçar não só a redução da dependência de combustíveis fósseis, mas também a sustentabilidade económica e ambiental do setor agrícola português. No fundo, trata-se de transformar desperdícios em recursos e criar valor de forma mais sustentável e inteligente.

O papel do CoLAB BIOREF na transição energética

Para que esta transição deixe de ser apenas uma visão e se traduza em soluções concretas no terreno, torna-se essencial aproximar conhecimento científico, inovação tecnológica e necessidades reais do setor agrícola e agroindustrial. É neste contexto que entidades como o CoLAB BIOREF assumem um papel relevante na aceleração da bioeconomia em Portugal.

O CoLAB BIOREF é uma associação privada sem fins lucrativos dedicada à transferência de conhecimento e inovação na área das biorrefinarias. Com foco na valorização de resíduos e de biomassa, o laboratório apoia empresas e organizações no desenvolvimento de soluções mais eficientes, circulares e sustentáveis para o setor agrícola e agroindustrial.

A sua atividade inclui o desenvolvimento e otimização de tecnologias para produção de biocombustíveis, gases renováveis e bioprodutos, bem como modelação, simulação e integração de processos de biorrefinaria. O CoLAB BIOREF disponibiliza ainda infraestruturas piloto e competências especializadas para estudos de viabilidade técnico-económica, análises ambientais e de ciclo de vida, avaliação regulamentar e desenvolvimento de projetos de biometano.

Mais do que uma tendência tecnológica, a bioeficiência afirma-se como uma condição essencial para garantir a competitividade e a sustentabilidade do setor agrícola e agroindustrial nas próximas décadas. A capacidade de transformar resíduos em recursos, integrar processos e produzir energia e bioprodutos de forma descentralizada será determinante para reduzir custos, diminuir dependências externas e responder às metas ambientais europeias. Neste contexto, a colaboração entre ciência, indústria e produtores será fundamental para acelerar a implementação de soluções capazes de criar valor económico e ambiental de forma duradoura.

Fonte: Vida Rural

Por baixo de cada planta existe uma rede viva que permanece invisível, mas que determina se as suas raízes estão bem nutridas, se resistem ao stress ou se começam a enfraquecer gradualmente.

Quando uma planta amarelece, cresce com dificuldade ou deixa de responder ao fertilizante, quase sempre culpamos as folhas, a rega ou os nutrientes. Mas, em muitos casos, o problema começa abaixo da superfície, na parte que raramente vemos: o solo. Grande parte da saúde de uma planta é determinada ali.

Na agricultura e na jardinagem, enfrentamos um grande problema: o uso generalizado de lavoura intensiva, monocultura e agroquímicos em excesso fez com que muitos solos perdessem a sua estrutura, matéria orgânica e vida microbiana.

O microbioma do solo é composto por bactérias, fungos, actinomicetos, protozoários, nemátodos benéficos e muitos outros organismos microscópicos. Para se ter uma ideia, um único grama de solo saudável pode conter quase um bilhão de bactérias e milhares de espécies bacterianas.

Esses microrganismos não são apenas habitantes passivos. Alguns decompõem resíduos orgânicos, outros libertam nutrientes retidos, alguns protegem as raízes e outros ajudam a formar agregados do solo, as estruturas semelhantes a migalhas que permitem que o ar e a água circulem pelo solo. É por isso que um solo saudável tem um cheiro agradável, desintegra-se facilmente e não se transforma numa massa dura após a rega.

A realidade é simples: o verdadeiro motor da fertilidade do solo não é o fertilizante químico, mas sim o microbioma do solo. Os fertilizantes podem dar um impulso, mas é esta comunidade invisível que recicla, transforma e fornece nutrientes disponíveis para as plantas às raízes. Se o cuidares, a planta colabora contigo; se o destruíres, cada época de cultivo exigirá mais intervenção.

Simbiose: a parceria subterrânea que alimenta as plantas

O exemplo mais famoso é a micorriza arbuscular, uma parceria entre as raízes das plantas e fungos benéficos. A planta fornece açúcares produzidos através da fotossíntese e, em troca, o fungo fornece água, fósforo, zinco e outros micronutrientes.

Isto ajuda a explicar por que razão uma planta micorrízica é frequentemente mais resistente à seca, à salinidade, ao choque de transplante e a solos pobres. Os fungos micorrízicos também melhoram a absorção de água e de minerais, reforçando o crescimento e aumentando a tolerância ao stress ambiental.

Existem também bactérias benéficas. O Rhizobium forma nódulos em leguminosas como o feijão, a soja e a alfafa, onde converte o azoto atmosférico numa forma que a planta pode utilizar.

Outras bactérias, incluindo algumas espécies de Pseudomonas, podem solubilizar o fósforo através de ácidos orgânicos, libertando nutrientes que já estavam presentes no solo, mas que não estavam disponíveis para as plantas.

Como a vida do solo é prejudicada — e como restaurá-la

O microbioma do solo enfraquece quando removemos as suas fontes de alimento e destruímos o seu habitat. O uso excessivo de fertilizantes altamente solúveis, fungicidas de amplo espectro, herbicidas mal geridos, solo descoberto e a falta de matéria orgânica reduzem a atividade biológica.

Como podemos reconhecer o problema? Muitas vezes manifesta-se através de plantas amareladas, raízes curtas ou escuras com odores desagradáveis, solos que se compactam rapidamente, doenças nas raízes e rendimentos em declínio ano após ano. O mesmo acontece em vasos: misturas de envasamento que se tornam biologicamente inativas e nunca são renovadas com composto acabam por depender quase inteiramente de fertilizantes líquidos.

Para regenerar o solo, comece pelo básico: adicione composto maduro, vermicomposto, resíduos de culturas triturados ou cobertura morta orgânica. Adote práticas como a rotação de culturas, o cultivo com lavoura reduzida e a manutenção de raízes vivas no solo.

Para avaliar a atividade biológica, experimente o teste da pá: desenterre um bloco de solo e examine o seu cheiro, a presença de minhocas, as raízes finas e a estrutura. Outro método simples consiste em enterrar uma tira de tecido 100% algodão durante um mês. Quanto mais se decompor, maior será a probabilidade de atividade biológica. Esta técnica é frequentemente utilizada como uma avaliação simples no terreno da decomposição microbiana.

O solo não é um meio de cultivo inerte; é um sistema vivo. Não é necessário transformar todo o seu jardim ou quinta da noite para o dia. Comece por adicionar mais matéria orgânica e reduzir o uso de produtos químicos num único canteiro, em alguns vasos ou numa secção do terreno. Se o solo recuperar, as suas plantas irão rapidamente demonstrar o seu agradecimento.

Fonte: tempo.pt

Comer saudável: é mesmo mais caro?

  • Friday, 12 June 2026 12:47

O cabaz alimentar subiu 38% em quatro anos. Um em cada três portugueses não tem ferramentas para lidar com isso à mesa. As respostas existem e são mais simples do que parecem.

Em janeiro de 2022, o cabaz de 63 bens alimentares essenciais monitorizado pela DECO PROteste custava cerca de 188 euros. Em abril de 2026 chegou aos 259,52 euros, o valor mais elevado desde que o acompanhamento semanal começou. Para muitas famílias portuguesas, a pergunta deixou de ser se devem comer melhor. Passou a ser como.

O Estudo Nacional de Avaliação da Literacia Alimentar em Adultos, realizado pela Pitagórica com o apoio do Continente e da Associação Portuguesa de Nutrição (APN), traçou no início de 2026 o retrato mais completo das competências alimentares dos portugueses. O score global de literacia alimentar fixou-se nos 57,5%, numa escala de zero a cem. Um em cada três adultos fica abaixo dos 50%. O pior resultado regista-se na dimensão do consumo, a que implica transformar o conhecimento em escolhas reais, dia a dia, compra a compra.

“Embora o acesso à informação sobre nutrição seja hoje generalizado, persistem desafios significativos na capacidade de transformar esse conhecimento em práticas alimentares equilibradas”, sublinha Helena Real, secretária-geral da APN. O problema agrava-se entre as famílias com rendimentos mais baixos, as mais expostas à inflação e com menos ferramentas para a contornar.

Inflação à mesa

A inflação alimentar não abrandou. Em 2025, a média europeia fixou-se nos 2,8%, segundo o Eurostat. Mas os números agregados escondem variações brutais em produtos concretos: o chocolate subiu 17,8% na Europa; a carne de vaca e de vitela, 10%; os ovos ultrapassaram os 20% em vários países, incluindo Portugal.

“O maior risco é a transferência de consumo de alimentos mais interessantes do ponto de vista nutricional para opções mais desequilibradas, quando estas são mais económicas”, alerta Helena Real.

A ideia de que comer saudável é inevitavelmente mais caro é, para a secretária-geral da APN, um mito com nuances. “Comer saudável não tem que ser mais caro, sobretudo quando se faz uma seleção criteriosa dos alimentos, escolhendo produtos sazonais, comprados a granel ou menos processados.” O que encarece, esclarece, é a conveniência: os alimentos pré-preparados, descascados, já lavados. O produto em si, na sua forma mais básica, raramente é o mais caro.

Mayumi Delgado, nutricionista e responsável por Desenvolvimento de Produto do Continente, confirma o padrão. “Quando o orçamento aperta, o consumidor torna-se muito mais racional. Procura preço, mas sobretudo segurança: produtos que rendem, que permitem várias refeições e que são aceites por toda a família.” O problema é que essa racionalidade nem sempre conduz às melhores escolhas nutricionais.

O estudo de literacia alimentar identifica quatro áreas onde os portugueses mais falham: compreender o impacto das suas escolhas, interpretar rótulos e selos de classificação, usar informação nutricional para decidir o que comprar e identificar métodos de confeção que preservam os nutrientes. São estas competências que fazem a diferença entre uma ida ao supermercado eficiente e uma que custa mais sem nutrir melhor.

Fonte: sabado.pt

A disseminação de doenças transfronteiriças de animais está a aumentar a pressão sobre os sistemas nacionais de prevenção, preparação e resposta, num contexto em que pragas e agentes patogénicos atravessam fronteiras com maior rapidez.

O alerta é da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) que sublinha os riscos associados a ameaças como a peste suína africana, a gripe aviária e a febre aftosa, bem como as ameaças zoonóticas emergentes, incluindo o hantavírus, o ebola e o vírus Nipah.

 Segundo a organização, a proteção da saúde animal é relevante não apenas para agricultores e produtores pecuários, mas também para a segurança alimentar, o comércio, a estabilidade económica e a prosperidade rural. Segundo a FAO, o sector pecuário sustenta mais de mil milhões de meios de subsistência e representa biliões de dólares em valor económico anual.

A FAO identifica vários fatores que estão a tornar a propagação destas doenças mais complexa, incluindo o aumento da circulação de animais, pessoas e produtos, alterações nos sistemas de produção, pressões ambientais e diferenças na capacidade veterinária e de vigilância entre países. A resposta a estas ameaças exige, de acordo com a organização, maior vigilância, deteção precoce, partilha de informação e cooperação internacional.

“Os impactos destes surtos vão muito além da saúde animal. Interrompem a produção agrícola, o comércio e o turismo, ameaçam os meios de subsistência, aumentam os riscos para a segurança alimentar e, em alguns casos, representam riscos diretos para a saúde humana”, afirmou Tiensin Thanawat, director-geral adjunto da FAO, director da Divisão de Produção e Saúde Animal e veterinário-chefe.

A organização aponta impactos económicos relevantes associados a algumas destas doenças. A gripe aviária resultou na perda de mais de 633 milhões de aves e ameaça um mercado de 48 mil milhões de dólares. A febre aftosa causa perdas anuais de 11,3 mil milhões de dólares, enquanto a peste suína africana reduziu os efetivos suínos em mais de 40% em algumas zonas da Ásia.

 Para a FAO, os últimos acontecimentos demonstram a rapidez com que as ameaças à saúde animal podem atravessar fronteiras e criar riscos para a produção alimentar, o comércio e os meios de subsistência. A organização considera que a prevenção e a preparação robustas continuam a ser as ferramentas mais eficazes e menos dispendiosas para reduzir o impacto dos surtos.

“A experiência demonstra consistentemente que a prevenção e a preparação são mais eficazes — e menos dispendiosas — do que a resposta depois de um surto já estar instalado”, afirmou Beth Bechdol, directora-geral adjunta da FAO. “Investir em sistemas de saúde animal é uma das formas mais eficazes de proteger os meios de subsistência, apoiar o comércio, reforçar a segurança alimentar e melhorar a resiliência em todos os sistemas agroalimentares”, sublinhou.

Fonte: Vida Rural

Muitos alimentos ultraprocessados ​​— produtos industrializados repletos de aditivos e aromatizantes, com pouca semelhança com qualquer coisa que um dia tenha crescido no campo — representam uma séria ameaça à nossa saúde. Sem dúvida: os alimentos ultraprocessados ​​— como os refrigerantes açucarados e adoçados artificialmente — precisam ser regulamentados com mais rigor.

No entanto, enquanto esse debate se intensifica, uma das indústrias mais poderosas da Europa permanece discreta: a indústria da carne. Um estudo recente revelou que as salsichas com proteção ultrafina (UPF) são a segunda maior categoria de produtos UPF consumida por adultos europeus — e a maior em alguns países.

Apesar disso, a indústria da carne passou anos cultivando uma imagem de si mesma como a antítese de tudo o que as pessoas temem na alimentação moderna: natural, tradicional, enraizada na terra. É uma imagem que, em grande parte, é uma ficção.

O mito pastoral na prateleira do seu supermercado 

Uma das organizações de lobby agrícola mais poderosas de Bruxelas, realizou campanhas descrevendo os produtos cárneos tradicionais como "profundamente enraizados em nossa herança cultural", enquanto retratava as alternativas à base de plantas como artificiais e corporativas.

A mesma estratégia dominou os debates sobre o conceito "Do Campo ao Prato", onde os alertas sobre as ameaças aos "alimentos tradicionais" se mostraram notavelmente eficazes: seis anos após o lançamento da estratégia "Do Campo ao Prato", seus compromissos de reduzir o consumo de carne não foram cumpridos  na totalidade.

Mas como é, na prática, essa produção "tradicional"? Entre 2005 e 2020, o número de quintas na Europa diminuiu 37% — ou seja, 5,3 milhões de fazendas foram perdidas, na sua grande maioria pequenas propriedades familiares.

Noventa por cento dos frangos de corte são criados em sistemas intensivos de confinamento; 99% dos porcos criados para produção de alimentos nunca vêem o exterior. Mais de 80% do leite europeu provém de quintas leiteiras intensivas. Estas não são as quintas que a indústria publicitária anuncia.

Ração transgênica, aditivos ocultos e a falta de transparência

O europeu médio consome indiretamente cerca de 60 quilos de soja por ano através de produtos de origem animal. A UE produz apenas 5% da soja que necessita – o restante é importado, principalmente do Brasil, da Argentina e dos EUA, onde o cultivo é quase inteiramente de soja geneticamente modificada.

Os consumidores da UE querem, com razão, evitar produtos com o rótulo "OGM" e os produtores de alimentos cumprem essa exigência. No entanto, o mesmo consumidor pode desconhecer completamente que a carne que consome foi produzida com ração geneticamente modificada, uma vez que essa rotulagem não é obrigatória.

Existem mais de 1.400 aditivos para ração animal autorizados na UE — em comparação com pouco mais de 300 aprovados para consumo humano. Vitaminas, emulsificantes, conservantes, aromatizantes e melhoradores de digestibilidade são componentes comuns da dieta moderna do gado, nenhum dos quais consta nos rótulos dos alimentos.

Até mesmo carcaças bovinas podem ser tratadas com lavagens de ácido lático — uma medida introduzida a pedido do Departamento de Agricultura dos EUA — sem a obrigação de informar o consumidor.

O produto ultraprocessado escondido à vista de todos

A principal ironia do debate atual é que a indústria que ataca com mais veemência os alimentos à base de plantas, rotulando-os como "ultraprocessados", é ela própria uma grande produtora desses alimentos. Linguiças, bacon e presuntos curados são rotineiramente comercializados como tradicionais, mas muitos contêm justamente os aditivos que definem os alimentos ultraprocessados.

Nitratos e nitritos, usados ​​para conservar e colorir carnes processadas, estão associados ao risco de cancro; a carne processada é classificada como carcinógeno do Grupo 1 pela IARC há mais de uma década.

Os termos que sugerem o contrário — "tradicional", "artesanal", "natural" — não têm definição legal na UE. Os produtores exibem-nos com destaque na frente da embalagem, enquanto escondem os aditivos em letras minúsculas no verso. Trata-se de uma prática de desinformação legalmente permitida.

Chegou a hora de o debate alimentar na Europa se alinhar aos factos

O consumo de carne na UE é atualmente entre duas e quatro vezes superior aos níveis recomendados. As evidências científicas sobre os custos ambientais e para a saúde da produção atual são inequívocas. No entanto, a mudança de políticas continua a ser extremamente difícil — não porque o público não se importe, mas porque a narrativa da indústria é muito poderosa, tem muitos recursos e está profundamente enraizada na cultura política da UE.

Oitenta por cento dos subsídios da Política Agrícola Comum são destinados a apenas 20% das explorações agrícolas — as maiores e mais intensivas —, situação que tem sido defendida consistentemente, mesmo sendo defensora das explorações agrícolas familiares.

O debate sobre a UPF (Unidade de Preferência Alimentar) é importante. Não podemos permitir que a indústria da carne o manipule, apresentando-se como a alternativa saudável e natural, enquanto as realidades da sua produção industrial e os impactos do consumo excessivo de carne na saúde permanecem ocultos.

Precisamos de uma reforma significativa na saúde pública, no bem-estar animal e no meio ambiente. Isso exige que os formuladores de políticas estejam dispostos a distinguir entre a imagem romântica da agricultura europeia e a realidade industrial.

Se a Comissão Europeia quiser reduzir os danos causados ​​pelos alimentos ultraprocessados ​​— e certamente deveria querer —, precisa começar por impor restrições reais à comercialização de alimentos não saudáveis ​​para crianças, bem como uma rotulagem nutricional frontal obrigatória e harmonizada.

Leia o relatório aqui.

Fonte: Food Watch